Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§1001 – §1033
§1001
As Sagradas Escrituras abundam em exemplos de homens santos que, embora firmes e resolutos, foram vítimas da violência manifesta ou da astúcia encoberta do demônio. Adão, Davi, Salomão e muitos outros, que seria tedioso enumerar, experimentaram os furiosos assaltos e a ardilosa astúcia dos espíritos das trevas, que a sabedoria e as forças humanas são incapazes de iludir ou combater. Quem, pois, poderá julgar-se suficientemente seguro, abandonado à própria fraqueza? Daí a necessidade de oferecer a Deus uma oração pura e piedosa, implorando-lhe que "não permita que sejamos tentados além de nossas forças, mas que dê à tentação o seu termo, para que possamos suportá-la".
§1002
Se, porém, algum dos fiéis, por fraqueza ou ignorância, temer o poder do demônio, deve ser exortado a refugiar-se no porto da oração sempre que for surpreendido pela tempestade da tentação. O poder e a pertinácia de Satanás, por maiores que sejam, não são tais — em seu ódio insaciável à humanidade — que lhe permitam tentar e atormentar tanto quanto e pelo tempo que quiser; todo o seu poder está sujeito ao controle e à permissão de Deus. Disso temos um exemplo conspícuo em Jó: o demônio não poderia ter tocado em coisa alguma que lhe pertencesse, se Deus não dissera: "Eis que tudo o que ele possui está em tua mão"; ao passo que, por outro lado, ele, seus filhos e tudo o que possuía teriam sido inteiramente destruídos de uma só vez pelo demônio, se Deus não dissera: "Apenas não estendas a mão sobre a sua pessoa." Mais ainda: tão restrito é o poder do demônio, que ele não podia sequer entrar nos porcos mencionados no Evangelho sem a permissão de Deus.
§1003
Compreender o alcance desta petição requer que se explique o sentido da palavra "tentação", tal como aqui empregada, e também o que seja ser conduzido à tentação. Tentar é sondar, examinar aquele que é tentado, a fim de, extraindo dele o que desejamos, descobrir a verdade. Nesta acepção, Deus não tenta; pois que coisa lhe seria desconhecida? "Todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos." Existe outra espécie de tentação que consiste em levar o exame mais longe, tendo em vista um fim ulterior, seja para bem, seja para mal: para bem, quando se experimenta o mérito, a fim de que seja recompensado e honrado, propondo-se o seu exemplo como modelo de imitação e como motivo para glorificar a Deus. Esta é a única espécie de tentação que se coaduna com os atributos divinos, e dela temos ilustração nestas palavras do Deuteronômio: "O Senhor vosso Deus vos experimenta, para que se manifeste se o amais ou não." Neste sentido, diz-se também que Deus tenta os seus, quando os visita com a pobreza, a enfermidade e outras calamidades, com o intuito de provar a sua paciência e de apresentar neles, a outros, um exemplo de virtude cristã. Assim foi tentado Abraão para oferecer seu filho em sacrifício, e tornou-se exemplo singular de obediência e paciência, digno de ser conservado nos registros de todas as gerações futuras; assim também Tobias, a respeito do qual está escrito: "Porque eras agradável a Deus, foi necessário que a tentação te provasse."
§1004
Os homens são tentados para um fim mau quando impelidos ao pecado ou à ruína. Este é o domínio peculiar do diabo; ele tenta os homens para os enganar e precipitá-los na perdição; e por isso é chamado, nas Sagradas Escrituras, "o tentador." Nessas tentações, ora nos estimulando por dentro, serve-se das paixões como instrumento; ora nos assaltando por fora, serve-se de homens depravados como seus emissários; e emprega, com fatal eficácia, os serviços especialmente dos hereges que, "assentados na cátedra da pestilência" — a qual, em vez de ser cátedra da verdade, se converte em cátedra do erro —, disseminam a mãos largas as sementes mortíferas da falsa doutrina, abalando e precipitando no abismo da perdição seus seguidores iludidos, que não traçam nenhuma linha de distinção entre o vício e a virtude, e que por si mesmos já se inclinam demasiado para o mal.
§1005
Diz-se que somos induzidos à tentação quando cedemos às suas sugestões perversas. Isso se dá de dois modos: primeiro, quando, abandonando nossa posição, nos precipitamos no mal para o qual somos atraídos pela ação de outrem. Deus não tenta o homem dessa maneira: não é para ninguém ocasião de pecado; "ele odeia todos os que praticam a iniquidade"; e, por isso, lemos em São Tiago: "Quando alguém for tentado, não diga que é tentado por Deus; pois Deus não é tentador do mal." Também se diz que induz à tentação aquele que, embora não nos tente nem coopere em nos tentar, tem o poder de nos impedir de ser tentados ou de ceder à tentação, e não o faz. Deus permite que os bons e os piedosos sejam assim tentados; mas não os deixa sem o apoio de sua graça. Por vezes, porém, caímos, abandonados a nós mesmos pelos juízos justos e rigorosos de Deus, em punição de nossos crimes.
§1006
Diz-se também que Deus nos induz à tentação quando abusamos, para nossa própria ruína, das bênçãos que ele nos concede como meios de promover nossa salvação eterna e, à semelhança do filho pródigo, dissipamos em voluptuosidade os bens de nosso Pai, obedecendo ao impulso de nossas más paixões. Em tais circunstâncias, podemos dizer com verdade o que o Apóstolo diz da Lei: "O mandamento que foi ordenado para a vida, esse mesmo se tornou para mim causa de morte." Disto nos oferece Jerusalém, como Ezequiel o atesta, um exemplo bem apropriado. Enriquecida e adornada pelo Todo-Poderoso com bênçãos de toda espécie, a ponto de Deus dizer pela boca de seu Profeta: "Eras perfeita pela minha beleza, que eu havia posto sobre ti;" coberta com uma acumulação de dons divinos, Jerusalém, longe de testemunhar gratidão a Deus, de quem recebera e ainda recebia tantos favores; longe de fazer uso daqueles dons celestiais para o fim a que eram destinados — o alcance de sua própria felicidade — e abandonando toda esperança e todo pensamento de deles colher fruto celeste, a ingrata Jerusalém, afundada no luxo e no abandono, não visava senão ao gozo de sua superabundância presente. Este é um assunto sobre o qual Ezequiel se estende com considerável extensão no capítulo a que já nos referimos e ao qual o pastor poderá recorrer. A conclusão, porém, é evidente: aqueles a quem Deus permite converter os abundantes meios com que a sua Providência os abençoou em instrumentos do vício são igualmente culpados de ingratidão que a infeliz Jerusalém.
§1007
As Sagradas Escrituras exprimem às vezes a permissão de Deus em linguagem que, entendida ao pé da letra, implicaria um ato positivo da parte de Deus; e este uso escriturístico também exige atenção. No Êxodo se diz: "Endurecerei o coração do Faraó"; em Isaías: "Endurece o coração deste povo"; e o Apóstolo, escrevendo aos Romanos, diz: "Deus os entregou a paixões infames e a um sentido réprobo." Estas e semelhantes passagens não devem ser entendidas como implicando qualquer ato positivo da parte de Deus; exprimem somente a sua permissão.
§1008
Feitas essas observações, não será difícil compreender o objeto pelo qual oramos nesta petição. Não pedimos ser totalmente isentos da tentação: a vida humana é uma tentação contínua, e esse estado de provação é útil e vantajoso ao homem. A tentação nos ensina a conhecermo-nos a nós mesmos, isto é, a nossa própria fraqueza, e a nos humilharmos sob a poderosa mão de Deus; e, combatendo valorosamente, esperamos receber uma coroa de glória que jamais se desvanece; "pois aquele que luta para vencer não é coroado, senão quando luta conforme as regras." "Bem-aventurado o homem," diz São Tiago, "que suporta a tentação; porque, depois de provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam." Se às vezes somos duramente pressionados pela tentação do inimigo, também nos alentará refletir "que temos um Sumo Sacerdote para nos assistir, que pode compadecer-se das nossas fraquezas, ele próprio tentado em tudo."
§1009
O que pedimos, então, nesta petição? Pedimos que o auxílio divino não nos abandone; que não cedamos à tentação, enganados pela astúcia do maligno; que não entreguemos a vitória, vencidos no combate; e que a graça de Deus esteja presente para nos socorrer quando nossas forças faltam, para nos refrigerar e fortalecer no dia do mal. Devemos, portanto, implorar o auxílio divino, em geral, diante de todas as tentações, e, em particular, quando somos assaltados por alguma tentação específica. É isso o que encontramos na conduta de Davi, em quase toda espécie de tentação: contra a mentira, ora com estas palavras: "Não retires de minha boca a palavra da verdade"; contra a avareza: "Inclina meu coração para os teus testemunhos, e não para a avareza"; e contra as vaidades desta vida e os atrativos da concupiscência, ora assim: "Desvia meus olhos, para que não vejam a vaidade." Pedimos, portanto, que não cedamos aos maus desejos e não nos cansemos de suportar a tentação; que não nos desviemos do caminho do Senhor; que na adversidade, como na prosperidade, conservemos a equanimidade e a fortaleza; e que Deus jamais nos prive de sua proteção. Finalmente, pedimos que Deus esmague sob os nossos pés a cabeça da serpente.
§1010
O pastor exortará em seguida os fiéis às disposições que, ao oferecer esta petição, devem constituir o objeto principal de seus pensamentos e reflexões. Será, pois, de máxima eficácia, ao fazer esta oração, desconfiar das próprias forças, conscientes de nossa extrema fragilidade; e, depositando toda a esperança de salvação na bondade divina e amparando-se na proteção de Deus, enfrentar os maiores perigos com grandeza de alma. Convém recordar, em particular, os numerosos exemplos que a história registra de pessoas animadas por esta esperança, que assim se armaram de resolução e foram libertadas pelo Deus Todo-Poderoso das garras de Satanás. Quando José foi assaltado pelas criminosas solicitações de uma mulher insensata, acaso Deus não o livrou do perigo iminente e o elevou ao mais alto grau de glória? Não preservou Susana, cercada pelos ministros de Satanás e prestes a ser vítima de uma sentença iníqua? Nem deve causar admiração a intervenção divina em seu favor: "o seu coração", diz o Profeta, "confiava em Deus." Quão elevado o louvor, quão grande a glória de Jó, que triunfou sobre o mundo, a carne e o demônio! A história registra muitos exemplos semelhantes, aos quais o pastor deve recorrer a fim de exortar com ardor seus piedosos ouvintes a esta esperança e confiança.
§1011
Os fiéis devem também refletir sob qual estandarte combatem as tentações do inimigo: devem considerar que seu chefe não é senão Cristo Senhor, que colheu os louros da vitória no mesmo combate. Ele venceu o diabo; é esse "homem mais forte" de que fala o Evangelho, que, "vindo sobre o homem forte e armado", o venceu, despojou-o de suas armas e arrebatou-lhe os despojos. De sua vitória sobre o mundo, lemos em São João: "Tende confiança: eu venci o mundo;" no Apocalipse, é chamado "o leão vencedor"; e diz-se que, "vencendo, saiu a vencer": e com a sua vitória deu a outros o poder de vencer. A Epístola de São Paulo aos Hebreus está repleta das vitórias dos homens santos, "que pela fé conquistaram reinos, fecharam a boca dos leões." Enquanto lemos tais proezas, devemos igualmente considerar as vitórias que cada dia alcançam os homens eminentes na fé, na esperança e na caridade, nos seus conflitos domésticos e exteriores com o diabo; vitórias tão numerosas e tão insignes, que, se delas fôssemos testemunhas, julgaríamos não haver acontecimento mais frequente nem de desfecho mais glorioso. Da derrota do maligno diz São João: "Escrevo-vos, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e vencestes o maligno." Cumpre, porém, recordar que Satanás não é vencido pela indolência, pelo sono, pelo vinho, pelos banquetes ou pela luxúria; mas pela oração, pelo trabalho, pela vigilância, pelo jejum, pela continência e pela castidade: "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação", é, como já dissemos, a admoestação de Nosso Senhor. Os que empregam estas armas no combate estão certos de pôr o inimigo em fuga: "Daqueles que resistem ao diabo", diz São Tiago, "ele fugirá."
§1012
Nestas vitórias, porém, alcançadas pelos homens santos, ninguém se entregue a sentimentos de auto-complacência, nem se lisonjeie de que, por seus próprios esforços isolados e sem auxílio algum, seja capaz de resistir aos ataques hostis do diabo. Isso não está ao alcance da natureza humana, nem é compatível com a fragilidade humana. A fim de que atribuamos a Deus somente a vitória, e somente a ele rendamos graças por havê-la conquistado — pois somente com a sua orientação e o seu auxílio podemos sair vitoriosos —, a força com que abatemos os satélites de Satanás vem de Deus, "que faz dos nossos braços um arco de bronze; com cujo auxílio o arco dos poderosos é vencido e os fracos são cingidos de força; que nos dá a proteção da salvação; cuja destra nos sustém"; "que ensina as nossas mãos a combater e os nossos dedos à batalha." A isso nos exorta o exemplo do Apóstolo: "Graças a Deus", diz ele, "que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo." A voz do céu mencionada no Apocalipse proclama igualmente a Deus como autor de nossas vitórias: "Agora veio a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque o acusador de nossos irmãos foi lançado fora; e eles o venceram pelo sangue do Cordeiro." Que a vitória obtida sobre o mundo e a carne pertence ao nosso Senhor Jesus Cristo, aprendemo-lo pela mesma autoridade: "Eles lutarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá." Sobre a causa e o modo de vencer a tentação, o que foi dito será suficiente.
§1013
Explicadas estas coisas, o pastor proporá aos fiéis as coroas preparadas por Deus e os galardões eternos e superabundantes reservados aos que vencem. Para esse efeito, citará as autoridades divinas da mesma Epístola inspirada: "Quem vencer não será ferido pela segunda morte"; e em outro lugar: "Quem vencer será assim vestido de vestes brancas, e não apagerei o seu nome do livro da vida, e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante de seus anjos." Pouco depois, o próprio Senhor divino assim se dirige a João: "Ao que vencer, far-me-ei dele uma coluna no templo de meu Deus, e não sairá mais dele"; e ainda: "Ao que vencer, dar-lhe-ei sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e me assentei com meu Pai em seu trono." Por fim, tendo revelado a glória dos santos e a bem-aventurança sem fim de que gozarão no céu, acrescenta: "Quem vencer possuirá estas coisas."
"MAS LIVRAI-NOS DO MAL."
§1015
Esta petição, com a qual o Filho de Deus conclui esta oração, encerra em si a substância de todas as demais. Para assinalar a sua força e o seu peso, orando na véspera da sua Paixão pela salvação do gênero humano, assim concluiu: "Peço que os guardes do mal." A força e a eficácia das outras petições ele as recapitulou, por assim dizer, nesta fórmula de oração, que entregou à guisa de preceito e confirmou pelo exemplo. Se obtemos o que esta oração compreende — a proteção de Deus contra o mal, proteção que nos habilita a desfazer, com segurança e salvaguarda, as maquinações do mundo e do demônio —, somos fortalecidos pela autoridade de São Cipriano para afirmar que nada mais resta a pedir.
§1016
Sendo tal, portanto, a natureza desta petição, o zelo do pastor em sua exposição deve ser proporcional à sua importância. A diferença entre ela e a petição precedente consiste no seguinte: naquela pedimos evitar o pecado; nesta, escapar ao castigo. Não será necessário, por isso, lembrar aos fiéis a multidão de males e calamidades a que estamos expostos, e quão grande é a nossa necessidade da divina assistência. O quadro da nossa miséria foi pintado com vivas cores por escritores sagrados e profanos; mas os perigos que cercam a cada um e aos outros deram a todos uma experiência melancólica do número e da grandeza das misérias próprias da vida humana. Todos estamos convencidos da verdade destas palavras do santo Jó, que se verificaram nos seus próprios sofrimentos: "O homem, nascido da mulher e vivendo por breve tempo, está repleto de muitas misérias. Sai como flor e é destruído, foge como sombra e nunca permanece no mesmo estado." Que nenhum dia passa sem o seu próprio trabalho ou inconveniente é evidenciado por estas palavras do Senhor: "A cada dia basta o seu mal;" e, de fato, a condição da vida humana é apontada pelo próprio Senhor, quando nos admoesta a tomarmos cada dia a nossa cruz e a o seguirmos.
§1017
Sentindo, pois, como todo homem deve sentir, os trabalhos e os perigos inseparáveis da vida humana, não será difícil persuadi-los de que implorar a Deus a libertação do mal é um dever imperioso: dever ao cumprimento do qual se deixarão induzir com maior facilidade, pois nenhum motivo exerce influência mais poderosa sobre as ações humanas do que o desejo e a esperança de ser libertado dos males que os oprimem ou os ameaçam. Recorrer a Deus em busca de auxílio na tribulação é um princípio implantado no espírito humano pela própria natureza; como está escrito: "Enche seus rostos de vergonha, e eles buscarão o teu nome, ó Senhor."
§1018
Se, pois, nas calamidades e nos perigos o impulso espontâneo da natureza leva os homens a invocar a Deus, certamente compete àqueles a cuja fidelidade e prudência está confiada a salvação das almas instruí-las de modo especial no cumprimento correto deste dever. Há quem, contrariamente ao mandamento de Jesus Cristo, inverta a ordem da oração: aquele que nos ordena recorrer a ele no dia da tribulação prescreveu também a ordem em que devemos solicitar as graças divinas. É sua vontade que, antes de pedirmos ser livrados do mal, roguemos que o nome de Deus seja santificado, que o seu reino venha, e assim por diante nas demais petições da Oração do Senhor, que são outros tantos degraus pelos quais ascendemos ao seu cume. Há, no entanto, quem, se lhe dói a cabeça, o flanco ou o pé; se sofre perda de bens; se o alarmam ameaças ou perigos de um inimigo; se o afligem a fome, a guerra ou a pestilência, omita todas as demais petições da Oração do Senhor e peça apenas ser livrado desses males. Tal prática desarrazoada contraria o mandamento expresso de Cristo: "Buscai primeiro o reino de Deus." Para orar, portanto, como convém, quando imploramos ser livrados de calamidades e males, devemos ter em vista a maior glória de Deus. Assim, quando Davi ofereceu esta oração: "Senhor, não me repreendas na tua ira", acrescentou a razão: "Porque não há ninguém na morte que se lembre de ti, e quem te louvará no inferno?"; e, tendo implorado a misericórdia de Deus, ajuntou: "Ensinarei aos injustos os teus caminhos, e os ímpios se converterão a ti."
§1019
Deve-se incitar os fiéis a adotar esta maneira salutar de orar e a imitar o exemplo do profeta; ao mesmo tempo, deve-se também chamar-lhes a atenção para a marcada diferença que existe entre as orações do infiel e as do cristão. Também o infiel pede a Deus que cure as suas doenças e sane as suas feridas, que o liberte dos males que se aproximam ou o ameaçam; mas deposita a sua principal esperança de cura ou de libertação nos remédios que a natureza oferece ou que a arte prepara. Não faz escrúpulo de usar medicamentos, não importa por quem preparados, não importa se acompanhados de encantos, feitiços ou outras artes diabólicas, desde que possa alimentar alguma esperança de recuperação. Não assim o cristão: quando acometido pela enfermidade ou outra adversidade, recorre a Deus como ao seu refúgio soberano; nele concentra toda a sua esperança de recuperar a saúde; só a ele reconhece como autor de todo bem, adorando-o como seu libertador e atribuindo-lhe toda a virtude curativa que residir nos medicamentos, convencido de que apenas então são eficazes, quando assim o quer a vontade divina. São dados por Deus ao homem para sanar as suas enfermidades corporais; e daí estas palavras do Eclesiástico: "O Altíssimo criou os medicamentos da terra, e o homem sábio não os desprezará." Aquele, portanto, que empenhou a sua fidelidade a Jesus Cristo não deposita a sua principal esperança de cura em tais remédios: deposita-a em Deus, autor desses medicamentos; e as Sagradas Escrituras condenam a conduta dos que, confiando no poder da medicina, não buscam nenhum auxílio de Deus. Mais ainda: os que regulam suas vidas pelas leis de Deus abstêm-se do uso de todos os medicamentos que não sejam manifestamente destinados por Deus Onipotente a fins medicinais; e, ainda que houvesse certeza de recuperação por meio de outros, deles se abstêm como de tantos encantos e artifícios diabólicos.
§1020
Os fiéis, portanto, devem ser exortados a depositar sua confiança em Deus: nosso Pai benigníssimo nos ordenou que lhe pedíssemos a nossa libertação do mal; e, ordenados por ele a implorar a sua bondade, devemos nutrir a esperança de alcançar o objeto de nossas orações. Desta verdade as Sagradas Escrituras oferecem numerosas ilustrações, para que aqueles a quem o raciocínio não inspire confiança sejam compelidos a render-se ante uma sólida série de exemplos. Abraão, Jacó, Ló, José e Davi são testemunhos irrefutáveis da bondade divina; e os numerosos casos registrados no Novo Testamento de pessoas libertadas dos maiores perigos pela eficácia da oração devota são tão conhecidos que tornam desnecessário sobrecarregar a página com citações. Sobre este assunto, pois, nos contentaremos com uma sentença do profeta, suficiente para confirmar até o ânimo mais fraco: "Os justos clamaram, e o Senhor os ouviu; e os livrou de todas as suas tribulações."
§1021
Passamos agora a explicar a força e a natureza desta petição, a fim de que os fiéis compreendam que nela de modo algum pedimos ser livrados de toda espécie de mal. Há certas coisas comumente consideradas males que, não obstante, trazem proveito aos que as suportam: tal foi o espinho da carne experimentado pelo Apóstolo, para que, com o auxílio da graça divina, o poder se aperfeiçoasse na fraqueza. Quando o cristão piedoso aprende a influência salutar de tais coisas, longe de pedir que sejam removidas, nelas se alegra sobremaneira. É, portanto, somente contra aqueles males que não contribuem para nossos interesses espirituais que oramos; não contra os que são auxiliares de nossa salvação. O pleno sentido da petição é, pois, que, livres do pecado, sejamos também livres do perigo da tentação e dos males interiores e exteriores; que sejamos protegidos da água, do fogo e do raio; que os frutos da terra sejam preservados; que não sejamos visitados pela escassez, pela sedição ou pelos horrores da guerra; que Deus afaste de nós a doença, a pestilência e a desolação; que nos guarde da escravidão, do encarceramento, do exílio, da traição, da perfídia e de todos aqueles males que enchem a humanidade de terror e miséria. Por fim, oramos para que Deus remova todas as ocasiões de pecado e de iniquidade.
§1022
Não pedimos, porém, que sejamos livrados unicamente daquilo que todos consideram males; pedimos também que sejamos preservados daquilo que quase todos reputam bens, tais como riquezas, honras, saúde, forças e até a própria vida, antes que venham a ser nocivos ou prejudiciais às nossas almas imortais. Pedimos também a Deus que não sejamos arrebatados por uma morte repentina; que não provoquemos a sua ira contra nós; que não sejamos condenados a sofrer as penas reservadas aos ímpios; que não sejamos sentenciados a suportar o fogo do purgatório, de cuja libertação piedosa e devotamente imploramos por outrem. Esta é a explicação desta petição dada pela Igreja na Missa e nas Ladainhas: nela suplicamos a Deus que afaste de nós todo mal passado, presente e futuro. A bondade de Deus nos livra do mal de muitas maneiras. Ele previne os males iminentes, como lemos a respeito do Patriarca Jacó: a matança dos siquemitas havia exasperado a fúria de seus inimigos; mas Deus o livrou de suas mãos: "O terror de Deus caiu sobre todas as cidades ao redor, e não ousaram persegui-los quando partiram." Os bem-aventurados que reinam com Cristo Senhor no céu foram libertados, pelo auxílio divino, de todo mal; mas, embora o Todo-Poderoso nos livre de alguns males, não é sua vontade que, enquanto peregrinamos neste nosso mortal exílio, estejamos inteiramente isentos de todos eles. As consolações com que Deus às vezes refrigera aqueles que sofrem na adversidade equivalem, todavia, a uma isenção de todo mal; e com elas o profeta se consolava quando dizia: "Conforme a multidão das minhas angústias no meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma." Além disso, Deus livra os homens do mal quando os preserva ilesos no meio de perigos extremos: assim o seu braço protetor salvou os três jovens lançados na fornalha ardente, e Daniel, que foi atirado na cova dos leões e também saiu ileso.
§1023
Segundo a interpretação de São Basílio, São João Crisóstomo e Santo Agostinho, o demônio é chamado de modo especial "o maligno", porque foi o autor da transgressão do homem, isto é, do seu pecado e da sua iniquidade, e porque Deus se serve dele como instrumento para castigar a impiedade dos pecadores. Os males que o gênero humano suporta em punição do pecado são ordenados por Deus; e este é o sentido destas palavras do profeta Amós: "Haverá algum mal na cidade que o Senhor não tenha feito?" e também de Isaías: "Eu sou o Senhor e não há outro: formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal." O demônio é também chamado maligno porque, ainda que jamais lhe tenhamos dado motivo de hostilidade, nos move perpétua guerra e nos persegue com ódio mortal; mas, se nos revestirmos da armadura da fé e do escudo da inocência, não terá poder para nos prejudicar. Não obstante, ele nos tenta incessantemente por meio de males exteriores e de todos os outros modos de perturbação ao seu alcance; e por isso suplicamos a Deus que nos livre do mal.
§1024
Dizemos "do mal" e não "dos males", porque os males que experimentamos da parte dos outros os atribuímos ao arquiinimigo como seu autor e instigador. Esta é também uma razão pela qual devemos ser menos propensos a nutrir sentimentos de ressentimento para com o próximo, voltando o nosso ódio e a nossa indignação contra o próprio Satanás, por quem os homens são impelidos a causar danos. Se, portanto, o vosso próximo vos ofendeu em alguma coisa, quando vos prostrardes em oração a Deus vosso Pai, pedi-lhe não somente que vos livre do mal, isto é, das ofensas que o vosso próximo vos inflige, mas também que liberte o vosso próximo do poder do demônio, cujas perversas sugestões impelem os homens a atos de injustiça.
§1025
Por fim, devemos saber que, se pelas orações e votos não formos libertados do mal, devemos suportar as nossas aflições com paciência, convictos de que é vontade de Deus que assim as suportemos. Se, portanto, Deus não atender às nossas orações, não nos deixemos dominar por sentimentos de impaciência ou descontentamento: cumpre-nos submeter-nos em tudo à vontade e ao beneplácito divinos, convictos de que o que acontece em conformidade com a vontade de Deus — e não o que, ao contrário, é agradável aos nossos próprios desejos — é verdadeiramente útil e salutar para nós. Em suma, que durante o curso desta vida mortal devemos estar preparados para enfrentar toda espécie de aflição e calamidade, não só com paciência, mas até com alegria: eis uma verdade que o zeloso Pastor deve inculcar na atenção dos seus piedosos ouvintes. "Todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus", diz São Paulo, "sofrerão perseguição"; "por muitas tribulações nos convém entrar no reino dos céus"; e ainda o próprio Senhor diz: "Não convinha que Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na sua glória?" O servo, pois, não deve ser maior do que seu senhor; e como diz São Bernardo: "Membros delicados não convêm a uma cabeça coroada de espinhos." O exemplo de Urias merece nossa admiração e imitação: instado por Davi a permanecer em casa, respondeu: "A arca de Deus, e Israel, e Judá habitam em tendas; e eu irei para minha casa?"
§1026
Se levarmos à oração estas reflexões e estas disposições, embora cercados de males por todos os lados, como os três jovens que passaram ilesos em meio às chamas, seremos preservados através da provação perigosa; ou, ao menos, como os Macabeus, suportaremos a adversidade com firmeza e fortaleza. Em meio a contumélias e torturas, imitaremos os benditos exemplos dos Apóstolos, que, depois de terem sido açoitados, "alegraram-se sobremaneira por terem sido julgados dignos de sofrer ultrajes pelo nome de Jesus." Como eles, também nós cantaremos em transportes de alegria: "Os príncipes me perseguiram sem motivo, e o meu coração reverenciou as tuas palavras; regozijar-me-ei nas tuas palavras, como aquele que encontrou grande despojo."
AMÉM.
§1028
Esta palavra "Amém", São Jerônimo, em seu comentário a São Mateus, chama pelo que ela verdadeiramente é: "o selo da oração do Senhor." Assim como já admoestamos os fiéis a respeito da preparação a fazer antes da santa oração, julgamos igualmente necessário que saibam por que encerramos nossas orações com esta palavra, e também o que ela significa: a devoção com que se conclui não é menos importante do que a atenção com que se inicia as nossas orações a Deus. Devem, pois, os fiéis saber que os frutos que colhemos da conclusão da oração do Senhor são numerosos e abundantes; e destes, o mais rico é a obtenção dos objetos de nossa oração, matéria sobre a qual já nos estendemos suficientemente. Por esta palavra final, não somente obtemos de Deus um ouvi do propício, mas também recebemos outras bênçãos de ordem ainda mais elevada, cuja excelência supera todo poder de descrição. Pela oração, como observa São Cipriano, comunicamo-nos com Deus; e assim a divina Majestade se aproxima, de maneira inexplicável, mais daqueles que estão em oração do que dos demais, e os enriquece com dons especiais. Aqueles, portanto, que oram devotamente podem, não sem razão, ser comparados a pessoas que se aproximam de um fogo ardente: se estão com frio, nele encontram calor; se já estão aquecidas, nele encontram calor mais intenso. Assim também aqueles que se aproximam de Deus na oração partem com um ardor e fervor proporcionados à sua fé e ao seu fervor: o coração se inflama de zelo pela glória de Deus; a mente se ilumina de modo admirável; e a alma se enriquece sobremaneira com uma abundante efusão da graça divina, como está escrito: "Tu o preveniste com bênçãos de suavidade." Destes efeitos admiráveis da oração, Moisés oferece um exemplo ilustre: pelo convívio e pelo diálogo com Deus, Moisés resplandeceu com os reflexos da glória da Divindade, de tal sorte que os israelitas não podiam fitar os seus olhos nem o seu rosto.
§1029
Os que oram com tal fervor gozam, de modo admirável, da benignidade e da majestade de Deus: "De manhã", diz o profeta, "hei de apresentar-me diante de ti e contemplar-te; porque tu não és um Deus que queiras a iniquidade." Quanto mais familiares são estas verdades à mente, tanto mais piamente veneramos e tanto mais fervorosamente adoramos a Deus, e tanto mais deleitosamente experimentamos "quão suave é o Senhor e quão bem-aventurado é o homem que nele espera." Cercados pela luz do alto, descobrimos também então a nossa própria baixeza e quão exaltada é a majestade de Deus: "Dai-me conhecer-te", diz Santo Agostinho, "dai-me conhecer-me a mim mesmo." Desconfiando de nossas próprias forças, lançamo-nos assim sem reservas na bondade de Deus, sem duvidar de que ele, que nos acolhe no seio de seu amor paternal, nos concederá em abundância tudo o que é necessário para o sustento da vida e a consecução da salvação. Assim palpitam nossos corações com a mais calorosa gratidão a Deus, e nossos lábios, em acentos de arrebatada devoção, proclamam o seu louvor; seguindo o exemplo de Davi, que começou orando: "Salva-me de todos os que me perseguem"; e concluiu com estas palavras: "Darei glória ao Senhor segundo a sua justiça, e cantarei ao nome do Senhor Altíssimo."
§1030
Existem inúmeras orações dos santos que respiram o mesmo espírito, começando com sentimentos de reverencial temor e terminando com esperança consoladora e jubilosa. Este espírito, porém, é eminentemente visível nos Salmos de Davi. Agitado pelo temor, ele diz: "São muitos os que se levantam contra mim; muitos dizem à minha alma: não há salvação para ele em seu Deus;" mas afinal, armado de fortaleza e cheio de santa alegria, acrescenta: "Não temerei os milhares do povo que me cercam." Noutro Salmo, após ter lamentado a sua miséria, depositando confiança em Deus e regozijando-se sobremaneira na esperança da salvação, diz: "Em paz me deitarei e dormirei." Ademais, com que terror não teria sido agitado quando exclamou: "Senhor, não me repreendas na tua indignação, nem me castigues na tua ira;" e, por outro lado, que confiança e alegria não lhe terão iluminado o rosto quando acrescentou: "Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto." Cheio de pavor da ira divina, com que humildade e abatimento implora ele o auxílio divino: "Salvai-me, ó Senhor, pelo vosso nome, e julgai-me na vossa força;" e contudo, no mesmo salmo, acrescenta estas palavras de alegria e confiança: "Eis que Deus é o meu auxílio, e o Senhor é o sustentador da minha alma." Portanto, quem recorre à santa oração, aproxime-se de Deus seu Pai, fortalecido pela fé e animado pela esperança, sem desesperar de obter, pela misericórdia divina, os bens de que necessita.
§1031
A palavra "amém", com que se conclui a Oração do Senhor, contém, por assim dizer, os germes de muitas daquelas razões e reflexões que já desenvolvemos. Com efeito, tão frequente era este vocábulo hebraico na boca do Salvador, que ao Espírito Santo aprouve que fosse ainda conservado na Igreja de Deus. O seu significado pode ser expresso assim: "sabe que as tuas orações são ouvidas"; é, em substância, como se Deus se dignasse dar uma resposta ao suplicante e o despedisse com benevolência, depois de ter ouvido as suas orações com ouvido propício. Esta interpretação foi aprovada pelo uso constante da Igreja de Deus: no sacrifício da Missa, quando se reza a Oração do Senhor, ela não atribui a palavra "amém" ao assistente, que responde "mas livrai-nos do mal"; reserva-a como própria do Sacerdote mesmo, que, na qualidade de intérprete entre Deus e o homem, responde "amém", indicando assim que Deus ouviu as orações do seu povo. Este uso, porém, não é comum a todas as orações, mas é peculiar à Oração do Senhor. Em todo outro caso, o assistente responde "amém", porque, em todo outro caso, exprime apenas a aquiescência do povo e a comunhão dos seus desejos e orações; nesta, é uma resposta que indica que Deus ouviu a petição do seu suplicante.
§1032
A palavra "amém" é por muitos interpretada de diversas maneiras. A palavra "amém" é diferentemente interpretada por muitos: os Setenta a interpretam como "assim seja"; outros a traduzem por "com efeito" ou "verdadeiramente"; Áquila a verte por "fielmente". Qual dessas versões adotemos é questão de pouca importância, contanto que entendamos que ela possui a força já mencionada, a saber, a do Pastor que confirma a concessão do que foi pedido em oração; interpretação à qual o Apóstolo empresta o peso de sua autoridade na Epístola aos Coríntios, onde diz: "Todas as promessas de Deus têm nele o seu sim; e por isso é também por ele que dizemos amém a Deus, para glória nossa."
§1033
Ela fixa a atenção e aviva a esperança. Também para nós esta palavra é muito apropriada, pois contém, de certo modo, uma confirmação das petições que já apresentamos ante o trono de Deus, e fixa nossa atenção quando nos ocupamos da santa oração; porque não raramente sucede que, na oração, uma variedade de pensamentos dispersivos desvia a mente para outros objetos. Mais ainda: por meio desta palavra suplicamos a Deus com todo o fervor que todas as nossas petições precedentes sejam atendidas; ou antes, compreendendo que todas elas foram atendidas, e sentindo poderosamente presente o auxílio divino, exclamamos com as palavras inspiradas do profeta: "Eis que Deus é o meu auxílio; e o Senhor é a proteção da minha alma;" nem podemos por um momento duvidar de que Deus Se deixa mover pelo nome de seu Filho e por uma palavra tão amiúde proferida pelos divinos lábios daquele que, como diz o Apóstolo, "foi sempre ouvido por sua reverência."
FIM.