Doutrina da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V

§851 – §900

§851

Mas o talento e os dotes que o adornam, tais como a erudição e as artes, também é lícito pedi-los em oração, contanto que as nossas preces sejam acompanhadas desta condição: que as vantagens que proporcionam sirvam para promover a glória de Deus e a nossa própria salvação. Aquilo, porém, que deve ser absoluta e incondicionalmente o objeto dos nossos desejos, das nossas aspirações e das nossas orações é, como já observamos, a glória de Deus e, a seguir, tudo quanto possa servir para nos unir a esse sumo bem, como a fé, o temor e o amor de Deus; mas destes trataremos amplamente quando passarmos a explicar as petições da Oração do Senhor.

§852

Conhecidos os objetos da oração, cumpre instruir os fiéis sobre por quem devem orar. A oração compreende a petição e a ação de graças; trataremos, portanto, primeiro da petição. Devemos orar por todos os homens, sem exceção de inimigos, nações ou religiões: todo homem, seja ele inimigo, estranho ou infiel, é nosso próximo, a quem Deus nos manda amar e por quem devemos, portanto, cumprir o dever da caridade, que é a oração. O Apóstolo a esse dever nos exorta quando diz: "Peço que se façam súplicas por todos os homens." Em tais orações, os interesses espirituais do próximo devem ocupar o primeiro lugar, e os temporais, o segundo. Esse dever devemos cumprir antes de tudo para com nossos pastores, como aprendemos do exemplo do Apóstolo em sua Epístola aos Colossenses, na qual lhes pede que orem por ele, "para que Deus lhe abra uma porta para a palavra"; súplica que também repete em sua Epístola aos Tessalonicenses. Nos Atos dos Apóstolos, lemos igualmente que "a Igreja fazia oração incessante por Pedro". São Basílio, em seus "Moralia", insiste no fiel cumprimento dessa salutar obrigação: "Devemos", diz ele, "orar por aqueles que presidem à palavra da verdade." Que nos incumbe oferecer nossas orações pelos príncipes, resulta claramente do pensamento consignado pelo mesmo Apóstolo. Quem não sabe quão singular benefício representa para o Estado um príncipe religioso e justo? Devemos, portanto, suplicar a Deus que os faça tais quais devem ser, pessoas aptas para governar os que estão sujeitos à sua autoridade.

§853

Oferecer as nossas orações também pelos bons e pelos piedosos é uma prática sancionada e apoiada pela autoridade dos santos. Até os bons e os piedosos têm necessidade das orações dos outros; e esta é uma sábia disposição da Providência, para que, conscientes da necessidade que têm de ser auxiliados pelas orações dos que lhes são inferiores em santidade, não se inflem de orgulho. O Senhor também nos ordenou "orarmos por aqueles que nos perseguem e caluninam"; e a prática de orar por aqueles que não estão dentro do seio da Igreja é, como sabemos pela autoridade de Santo Agostinho, de origem apostólica. Oramos para que a fé seja anunciada aos infiéis; para que os idólatras sejam arrancados do erro de sua impiedade; para que os judeus, saindo das trevas em que estão envolvidos, cheguem à luz da verdade; para que os hereges, recobrando a sanidade de espírito, sejam instruídos na verdadeira fé; e para que os cismáticos, unidos pelo vínculo da verdadeira caridade, se unam à comunhão da Igreja Católica, da qual se separaram. A grande eficácia de tais orações, quando brotam do coração, é comprovada por variados exemplos. Numerosos casos ocorrem a cada dia em que Deus arranca indivíduos de cada uma das classes que enumeramos do poder das trevas e os transfere para o reino de seu Filho amado, fazendo deles, de vasos de ira, vasos de misericórdia; e que, na realização de tão feliz desfecho, as orações dos piedosos exercem considerável influência, ninguém pode razoavelmente duvidar.

§854

As orações pelos mortos, para que sejam libertados do fogo do purgatório, são de origem apostólica; mas este assunto já foi por nós amplamente tratado ao expor o Santo Sacrifício da Missa. Os que morrem em pecado pouco aproveitam das orações e súplicas; todavia, é próprio da caridade cristã oferecer por eles nossas orações e lágrimas, a fim de, se possível, obter sua reconciliação com Deus. Quanto às execrações proferidas pelos homens santos contra os ímpios, é certo, segundo a exposição concorde dos Padres, que são ou profecias dos males que hão de recair sobre eles, ou denúncias contra os crimes de que são culpados, para que o pecador seja salvo, mas o pecado destruído.

§855

Na segunda parte da oração, que é a "ação de graças", tributamos a Deus as mais reconhecidas ações de graças pelos dons divinos e imortais que sempre concedeu e continua a conceder ao gênero humano. Cumprimos este dever principalmente quando louvamos a Deus de modo singular pela vitória e triunfo que os santos, auxiliados pela sua bondade, alcançaram sobre os inimigos domésticos e externos. A este gênero de oração pertence a primeira parte da Saudação Angélica. Quando dizemos em forma de oração: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres", tributamos a Deus os mais altos louvores e lhe rendemos as mais reconhecidas ações de graças, porque acumulou todos os seus dons celestiais na Santíssima Virgem; e à própria Virgem, por esta sua singular felicidade, apresentamos nossas respeitosas e fervorosas congratulações. A esta forma de ação de graças a Igreja de Deus acrescentou sabiamente preces e invocação à Santíssima Mãe de Deus, mediante as quais nos refugiamos piedosa e humildemente sob o seu patrocínio, a fim de que, interpondo a sua intercessão, ela nos concilie a amizade de Deus, miseráveis pecadores que somos, e obtenha para nós os bens de que necessitamos nesta vida e na vida futura. Filhos exilados de Eva, que habitamos neste vale de lágrimas, não deveríamos suplicar com ardor à Mãe da misericórdia, advogada dos fiéis, que reze por nós? Não deveríamos implorar com fervor o seu auxílio e assistência? Seria ímpio e perverso duvidar de que ela possui elevadíssimos méritos junto a Deus e que deseja ardentemente socorrer-nos com as suas orações.

§856

Que a Deus se deve orar e invocar o seu nome é o que dita a lei natural, inscrita na tábua do coração humano; é também a doutrina da Revelação, na qual ouvimos Deus ordenar: "Invoca-me no dia da tribulação;" e, sob o nome de "Deus", devem entender-se as três Pessoas da adorável Trindade. Devemos igualmente recorrer à intercessão dos santos que se encontram na glória. Que os santos devem ser invocados é uma verdade tão solidamente estabelecida na Igreja de Deus que a mente piedosa não pode experimentar nem sombra de dúvida a esse respeito; e, como este ponto da fé católica foi explicado em seu lugar próprio, sob título separado, a essa explicação remetemos o pároco e os demais. Todavia, a fim de afastar qualquer possibilidade de erro da parte dos menos instruídos, será útil explicar aos fiéis a diferença entre a invocação dos santos e as orações que se dirigem a Deus.

§857

Não nos dirigimos a Deus e aos santos da mesma maneira: a Deus suplicamos que nos conceda os bens de que necessitamos e que nos livre dos perigos a que estamos expostos; aos santos, porém, por serem amigos de Deus, rogamos que tomem a defesa de nossa causa perante Ele, e que nos obtenham d'Ele tudo o que é necessário para a alma e para o corpo. Por isso, servimo-nos de duas formas distintas de oração: a Deus dizemos propriamente «Tende misericórdia de nós», «Ouvi-nos»; aos santos, porém, «Rogai por nós». As palavras «Tende misericórdia de nós» podemos também dirigi-las aos santos, pois são dotados de grande misericórdia; mas fazemo-lo por razão diversa: suplicamos-lhes que se comovam com a miséria de nossa condição e que interponham em nosso favor sua influência e intercessão ante o trono de Deus. No cumprimento deste dever, é estritamente obrigatório para todos não transferir às criaturas o direito que pertence exclusivamente a Deus; e quando, de joelhos diante da imagem de um santo, recitamos a Oração do Senhor, devemos também recordar que pedimos ao santo que ore conosco e que nos alcance os favores que pedimos a Deus nas petições do Pai-Nosso; em suma, que ele se torne nosso intérprete e intercessor junto a Deus. Que este é um ministério que os santos exercem, lemo-lo no Apocalipse do Apóstolo João.

§858

"Antes da oração, prepara a tua alma, e não sejas como aquele que tenta a Deus", é uma admoestação que tem todo o peso e autoridade da revelação. Quem age em direta oposição às suas orações, quem, enquanto mantém familiar convívio com Deus, deixa a mente vagar, tenta a Deus. Sendo, portanto, as disposições com que oramos de tão vital importância, o pároco ensinará aos seus fiéis piedosos como se deve orar. A primeira disposição, pois, que deve acompanhar as nossas orações é uma humildade sincera de alma, o reconhecimento da nossa indignidade e a convicção de que, quando nos aproximamos de Deus na oração, os nossos pecados nos tornam indignos não só de recebermos d'Ele uma escuta propícia, mas até de nos apresentarmos diante da sua presença. Esta preparação é frequentemente mencionada nas Sagradas Escrituras: "Ele atendeu à oração do humilde", diz Davi, "e não desprezou a sua súplica"; "A oração daquele que se humilha", diz o Eclesiástico, "penetrará as nuvens." Mas sobre uma condição de tão evidente importância, abstemo-nos de citar muitos textos da Escritura. Dois exemplos, contudo, aos quais já aludimos e que são pertinentes ao nosso propósito, não passaremos em silêncio. O publicano, "que, ficando de longe, não ousava nem levantar os olhos para o céu", e a mulher pecadora que, movida de dor, lavou com as suas lágrimas os pés de Cristo nosso Senhor, ilustram a grande eficácia que a humildade cristã confere à oração.

§859

A disposição seguinte é um sentimento de viva dor, nascido da lembrança dos nossos pecados passados, ou, ao menos, algum pesar por não experimentarmos essa intensidade de dor. Se o pecador não trouxer consigo à oração ambas estas disposições, ou ao menos uma delas, não pode esperar obter o perdão dos seus pecados.

§860

Há certos crimes, como a violência e o homicídio, que opõem os maiores obstáculos à eficácia das nossas orações, e devemos, portanto, manter as mãos isentas de ultraje e crueldade: "Quando estenderdes as mãos", diz o Senhor, "desviarei delas os meus olhos; e quando multiplicardes as preces, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue." A ira e a discórdia devemos também evitar cuidadosamente: têm grande influência em impedir que nossas orações sejam ouvidas: "Quero que os homens orem em todo lugar", diz São Paulo, "levantando mãos puras, sem ira nem contenda." O ódio implacável pelas ofensas recebidas é outro obstáculo à eficácia da oração, do qual não podemos ser cautelosos demais: sob o influxo de tais sentimentos, é impossível que obtenhamos de Deus o perdão de nossos pecados. "Quando estiverdes para orar", diz o Senhor, "perdoai, se tendes algo contra alguém"; "mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as ofensas."

§861

A insensibilidade e a desumanidade para com os pobres devemos também evitar escrupulosamente, se esperamos que as nossas orações sejam aceitas por Deus: "Aquele que fecha os ouvidos", diz o livro dos Provérbios, "ao clamor do pobre, também clamará e não será ouvido." Que diremos do orgulho? O quanto é odioso aos olhos de Deus, aprendemo-lo destas palavras de São Tiago: "Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes." E o desprezo dos oráculos divinos? "Aquele que desvia os ouvidos", diz Salomão, "para não ouvir a lei, a sua oração será uma abominação." Aqui, porém, não se deve entender que a humilde confissão das injúrias feitas ao próximo, do homicídio, da ira, da insensibilidade às necessidades dos pobres, do orgulho, do desprezo dos oráculos divinos e, enfim, de qualquer outro pecado, seja excluída dos objetos da oração, contanto que imploremos de Deus o perdão desses crimes.

§862

Outra qualidade essencial desta preparação da alma é a fé. Sem fé, não podemos ter conhecimento algum da onipotência ou da misericórdia de Deus, que são as fontes de nossa confiança na oração: "Tudo o que pedirdes na oração com fé", diz o Redentor, "recebereis." Sobre estas palavras do Senhor, Santo Agostinho, falando da fé, afirma: "sem fé, é vão orar." A oração, portanto, como já dissemos, para ser eficaz, deve ser sustentada por uma fé firme e inabalável, como o Apóstolo demonstra por esta vigorosa antítese: "Como hão de invocar aquele em quem não creram?" É preciso, pois, que creiamos para orar, e que não nos falte aquela fé que torna a oração frutífera. É a fé que ora, e a oração inabalável dá força à fé. A este propósito é a exortação do mártir Inácio àqueles que se aproximam do trono de Deus na oração: "Não sejais de mente duvidosa na oração; bem-aventurado aquele que não duvidou." Para obter de Deus os objetos de nossas orações, a fé e uma confiança segura são, portanto, da primeira importância, segundo a advertência de São Tiago: "Peça com fé, sem hesitar."

§863

Muito há que nos inspire confiança na oração. Entre os motivos de confiança devem ser enumerados: a beneficência e a bondade de Deus manifestadas para conosco, quando nos manda chamá-lo "Pai", dando-nos assim a entender que somos seus filhos; os inúmeros exemplos registrados de orações ouvidas; e a mediação de nosso supremo advogado, Cristo Senhor, sempre pronto a assistir-nos: "Temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados"; "Cristo Jesus, que morreu, e mais ainda ressuscitou, que está à direita de Deus, que também intercede por nós"; "porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus." "Por isso convinha que em tudo se assemelhasse aos irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel diante de Deus." Ainda que indignos de obter o que pedimos, considerando e apoiando as nossas súplicas na dignidade de nosso grande Mediador e Intercessor, Jesus Cristo, devemos esperar e confiar com plena confiança que, por seus méritos, Deus nos concederá tudo o que pedirmos com o espírito devido à oração. Por fim, o Espírito Santo é o autor das nossas orações; e sob a sua orientação não podemos deixar de ser ouvidos. "Recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abbá, Pai." Este Espírito socorre a nossa fraqueza e ilumina a nossa ignorância no cumprimento do dever da oração; "e", prossegue o Apóstolo, "intercede por nós com gemidos inefáveis." Se por acaso vacilamos, não sendo suficientemente fortes na fé, digamos com o Apóstolo: "Senhor, aumentai a nossa fé"; e com o pai do cego mencionado no Evangelho: "Ajudai a minha incredulidade." Mas o que mais assegura o cumprimento dos nossos desejos é a união da fé e da esperança com aquela correspondência da nossa parte à vontade de Deus, que nos faz regular todos os nossos pensamentos, ações e orações segundo a norma da sua lei divina e os ditames de sua soberana vontade: "Se", diz ele, "permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será concedido." Para que todas as nossas orações sejam assim graciosamente ouvidas, devemos, conforme foi observado anteriormente, antes de tudo sepultar no olvido as ofensas recebidas e nutrir sentimentos de benevolência e caridade para com todos os homens.

§864

O modo de orar é igualmente de suma importância. Em si mesma, a oração é certamente boa e salutar; contudo, se não for feita de maneira adequada, será ineficaz: "Pedis," diz São Tiago, "e não recebeis, porque pedis mal." O pároco, portanto, instruirá os fiéis no melhor modo de orar, tanto em privado como em público, e nas normas que a esse respeito foram transmitidas, segundo a disciplina de Cristo Nosso Senhor. Devemos, pois, orar "em espírito e em verdade;" e assim o fazemos quando as nossas orações são as aspirações de um ardor interior e intenso da alma. Este modo espiritual de orar não exclui o uso da oração vocal; mas a oração mental, que é o derramamento de uma alma inflamada pela veemência dos desejos celestiais, ocupa com razão o primeiro lugar; e, embora não seja proferida com os lábios, é ouvida por Aquele a quem os segredos dos corações estão nus e patentes. Ele ouviu a oração de Ana, mãe de Samuel, da qual lemos que orava derramando muitas lágrimas e apenas movendo os lábios. Tal foi também a oração de Davi, pois ele diz: "Meu coração te disse, meu rosto te buscou;" e na leitura do sagrado texto similares exemplos se encontrarão frequentemente.

§865

Mas a oração vocal tem também as suas vantagens e é por vezes necessária: aviva a atenção da mente e acende a fervorosa devoção do coração. «Por vezes», diz Santo Agostinho, «animamo-nos a sentimentos mais vivos de devoção, recorrendo a palavras e a outros sinais aptos a inflamar o fervor de nossos desejos; tomados de pia comoção, é-nos impossível refrear o ímpeto de nossos afetos, e assim os derramamos nos acentos fervorosos da oração; enquanto a alma exulta de alegria, também a língua deve dar expressão a essa exultação.» A oração vocal, como sabemos por numerosas passagens dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo, foi usada pelos Apóstolos; e, seguindo o exemplo deles, convém que também nós ofereçamos a Deus o sacrifício completo da alma e do corpo. Há, porém, dois tipos de oração vocal — a privada e a pública —, e cumpre observar que a oração privada se emprega para favorecer a atenção e a devoção, ao passo que na oração pública, instituída para excitar a piedade dos fiéis, a pronúncia das palavras é, em determinados momentos fixos, indispensavelmente requerida.

§866

Esta prática de orar em espírito, prática também peculiar aos cristãos, é desconhecida entre os infiéis, a respeito dos quais Cristo nosso Senhor disse: "Quando orardes, não faleis muito, como os gentios; pois pensam que por muito falar serão ouvidos. Não sejais, portanto, como eles, pois o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes que lho peçais." Ele proíbe, portanto, o "muito falar"; mas as orações longas, que procedem do fervor da devoção e de um ardor de alma que arde com duradoura intensidade, não só não rejeita, mas, ao contrário, as recomenda com o seu próprio exemplo. Não apenas passava noites inteiras em oração, mas também "orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras"; e a conclusão a tirar da proibição é, portanto, que não se devem dirigir a Deus orações compostas de meros sons vazios.

§867

Tampouco as orações do hipócrita procedem do coração; e do imitar o seu exemplo nos afasta Cristo Nosso Senhor com estas palavras: "Quando orardes, não sereis como os hipócritas, que amam orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens: em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará." Aqui a palavra "quarto" pode entender-se como o coração humano, no qual não basta entrar; deve também ser fechado a toda a distração; e então o nosso Pai Celestial, que vê intuitivamente os nossos pensamentos mais secretos, ouvirá as nossas orações e atenderá as nossas petições.

§868

Outra condição necessária da oração é a importunidade. A grande eficácia da súplica incessante, o Redentor a ilustra com o comportamento do juiz que, embora "não temesse a Deus nem respeitasse os homens", vencido pela importunidade da viúva, cedeu às suas súplicas. Em nossas orações a Deus devemos, portanto, ser importunos; nem nos cabe imitar o exemplo daquelas almas preguiçosas que se cansam de orar, quando, após terem rezado uma ou duas vezes, não obtêm o objeto de suas petições. Jamais nos devemos fatigar de um dever ensinado pela autoridade de Cristo nosso Senhor e de seus Apóstolos; e se em algum momento o espírito vier a afrouxar, devemos pedir a Deus pela oração a virtude da perseverança.

§869

O Filho de Deus quer também que apresentemos as nossas orações ao Pai em seu nome; pois, pelos seus méritos e pela graça da sua mediação, as nossas orações adquirem tal peso que são ouvidas pelo nosso Pai celestial: "Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la concederá. Até agora não pedistes nada em meu nome: pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja plena." "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei."

§870

Seja, pois, nosso empenho emular o fervor dos homens santos na oração; e à oração unamos a ação de graças, imitando o exemplo dos Apóstolos, que, como se pode ver nas Epístolas de São Paulo, observaram sempre esta prática salutar. À oração unamos o jejum e as esmolas. O jejum está intimamente ligado à oração: quando saciada de comida e bebida, a alma se encontra tão oprimida que não consegue elevar-se à contemplação de Deus nem compreender a utilidade da oração. As esmolas também têm íntima conexão com a oração. Que pretensão tem à caridade aquele que, possuindo os meios de socorrer os que dependem da generosidade alheia para subsistir, recusa estender a mão da misericórdia ao próximo e ao irmão? Com que semblante pode aquele cujo coração está desprovido de caridade reclamar auxílio do Deus da caridade, a não ser que ao mesmo tempo implore o perdão de seus pecados e humildemente peça a Deus que infunda em sua alma a virtude divina da caridade? Este tríplice remédio foi, portanto, ordenado por Deus para auxiliar o homem na consecução da salvação. Quando ofendemos a Deus pelo pecado, prejudicamos o próximo ou nos fazemos mal a nós mesmos, aplacamos a ira de Deus pela oração; pelas esmolas remimos nossas ofensas contra o próximo; e pelo jejum aplacamos a Deus e apagamos de nossa própria alma as manchas do pecado. Cada um destes remédios, é verdade, é aplicável a toda sorte de pecado; são, contudo, particularmente adaptados àqueles que especialmente mencionamos.

A ORAÇÃO DO SENHOR.

"PAI NOSSO QUE ESTAIS NOS CÉUS."

§873

Que esta forma de oração cristã, transmitida por Jesus Cristo, seja de tal importância a ponto de ter exigido as palavras prefatórias precedentes, que inspiram aqueles que se aproximam de Deus com piedade a aproximar-se dele também com maior confiança, impõe ao pastor o dever de apresentar uma exposição clara e perspícua das mesmas. O cristão piedoso recorrerá assim à oração com maior fervor, sabendo que nela comunga com Deus como com um pai. Considerando apenas as palavras que compõem este prefácio, são em número muito reduzido; mas, quanto à matéria, são da mais alta importância e estão repletas de mistérios.

§874

"PAI"] A primeira palavra que, por mandato e instituição de Nosso Senhor, proferimos nesta oração é "Pai". O Redentor poderia, é verdade, ter iniciado esta oração com uma palavra mais expressiva de majestade, como "Criador" ou "Senhor"; porém as omitiu, por poderem associar-se a ideias de terror, preferindo uma expressão que inspira amor e confiança. Que nome há mais terno do que o de Pai? Um nome ao mesmo tempo expressivo de indulgência e de amor.

§875

A conveniência do termo "Pai" aplicado a Deus pode ser ensinada aos fiéis a partir das obras da Criação, do Governo e da Redenção. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, imagem e semelhança que não imprimiu nas demais criaturas; e, em razão desse privilégio singular com que adornου o homem, é chamado na Sagrada Escritura, com toda propriedade, Pai de todos os homens — Pai não somente dos fiéis, mas de toda a humanidade.

§876

O governo que exerce sobre os homens fornece ainda outro argumento em favor da propriedade desta denominação. Pelo exercício de uma providencial solicitude especial sobre nós e sobre os nossos interesses, manifesta para conosco o amor de um Pai. Mas para compreender mais claramente a força deste argumento, que se funda no seu cuidado paternal para conosco, será necessário dizer algumas palavras acerca da guarda daqueles espíritos celestiais que Ele designou para nos vigiar e proteger.

§877

Os anjos são encarregados pela Divina Providência de guardar o gênero humano e de estar presentes junto a cada homem para o proteger de todo mal. Assim como os pais, quando seus filhos precisam percorrer um caminho perigoso, infestado de salteadores, designam pessoas para os guardar e socorrer em caso de ataque; assim também nosso Pai celestial colocou sobre cada um de nós, em nossa jornada rumo à pátria celeste, anjos, sob cuja vigilante guarda e assistência podemos escapar das ciladas de nossos inimigos, repelir os seus furiosos ataques e prosseguir diretamente em nosso caminho, seguros pela proteção orientadora deles contra os desvios a que nosso pérfido inimigo procuraria nos induzir, caminhando com firmeza pela senda que conduz ao céu.

§878

As inúmeras vantagens que fluem para o gênero humano desta especial Providência superintendente, cujas funções e administração estão confiadas aos anjos, que ocupam um lugar intermediário entre o homem e a Divindade, aparecem em numerosos exemplos registrados nas Escrituras; os quais provam que os anjos, como ministros da bondade divina, realizaram frequentemente obras admiráveis diante dos homens; e dos quais devemos concluir que inúmeros outros serviços de grande importância nos são prestados pelo ministério invisível dos anjos, guardiões de nossa segurança e salvação. O anjo Rafael, destinado por Deus como companheiro e guia de Tobias, "o conduziu e o trouxe de volta são e salvo". Auxiliou a salvá-lo de ser devorado por um grande peixe, e lhe indicou a singular virtude da sua bile e do seu coração; expulsou o demônio maligno e, acorrentando e tolhendo o seu poder, protegeu Tobias de qualquer dano; ensinou ao jovem os direitos verdadeiros e legítimos do matrimônio, e restituiu ao ancião Tobias o uso da vista.

§879

O anjo que libertou o príncipe dos Apóstolos oferece também abundante matéria de instrução acerca das admiráveis vantagens que fluem do cuidado e da custódia dos anjos. A este acontecimento, pois, o pastor chamará igualmente a atenção dos fiéis: mostrará o anjo iluminando as trevas do cárcere; despertando Pedro com um toque no seu lado; soltando-lhe as correntes; quebrando seus grilhões; admoestando-o a levantar-se e, tomando as suas sandálias e demais vestimentas, a segui-lo. Dirigirá também os seus olhares para o mesmo anjo que restituiu Pedro à liberdade; que o conduziu para fora da prisão através do meio dos guardas; que abriu a porta do cárcere; e que, afinal, o colocou em segurança fora dos seus muros. As Sagradas Escrituras, como já observamos, abundam em exemplos que nos dão uma ideia da grandeza dos benefícios que nos são conferidos pelo ministério dos anjos, cuja proteção tutelar não se limita a ocasiões ou pessoas particulares, mas se estende a cada indivíduo da raça humana, desde a hora do seu nascimento.

§880

Na exposição deste ponto de doutrina, o zelo do Pastor será recompensado com uma importante vantagem: os ânimos dos fiéis se sentirão atraídos e movidos a reconhecer e venerar o cuidado paternal e a providência de Deus. Em primeiro lugar, o pastor exaltará e proclamará aqui as riquezas da bondade de Deus para com o homem — daquele Deus que, não obstante o fato de que, desde a transgressão de nossos primeiros pais, os quais nos transmitiram as funestas consequências do pecado, nunca cessamos de ofendê-lo com inumeráveis crimes e iniquidades até o momento presente, conserva, todavia, o seu amor por nós e continua a exercer sobre nós a sua particular providência. Imaginar que Ele se esquece de suas criaturas seria insanidade, e nada menos do que lançar contra a Divindade o mais blasfemo ultraje. Deus se ira com o povo de Israel porque este se julga abandonado pela sua providência: tentando ao Senhor, disseram: "Está o Senhor no meio de nós, ou não?" E ainda: "O Senhor não nos vê; o Senhor abandonou a terra." Devem, portanto, os fiéis ser afastados, por estas autoridades, da impiedade de imaginar que Deus possa em algum momento esquecer-se do homem. Os israelitas, como lemos em Isaías, queixam-se contra Deus, e a Ele mesmo expõe a irrazoabilidade de tal queixa por meio de uma comparação que não respira senão bondade: "Sião disse: O Senhor me abandonou, o Senhor se esqueceu de mim;" ao que Deus responde: "Pode uma mulher esquecer-se do seu filho de leite, a ponto de não ter compaixão do filho do seu ventre? E ainda que ela se esquecesse, eu jamais me esquecerei de ti. Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos."

§881

Por mais que estas passagens estabeleçam tal verdade de maneira indubitável, para imprimir na mente dos fiéis uma convicção absoluta de que Deus jamais se esquece do homem, nem lhe retira os ofícios do amor paternal, o pastor acrescentará a esta verdade o exemplo de nossos primeiros pais, pelo qual ela é tão vividamente ilustrada. Quando ouvis que foram duramente repreendidos por haverem transgredido o mandamento de Deus; quando ouvis sua condenação pronunciada nesta tremenda sentença: "Maldita é a terra por tua causa: com trabalho e fadiga comerás dela todos os dias de tua vida; espinhos e abrolhos ela te produzirá, e comerás as ervas da terra"; quando os vedes expulsos do Paraíso; quando, para extinguir toda esperança de regresso, ledes que um querubim flamejante foi postado à entrada, brandindo "uma espada de fogo que se movia em todas as direções"; quando sabeis que, para vingar a ofensa que lhe foi feita, Deus os entregou a toda sorte de aflições de alma e de corpo; quando vedes e sabeis tudo isso, não seríeis levados a afirmar que o homem estava perdido irremediavelmente? Que não só fora privado de todo auxílio de Deus, mas também abandonado a toda espécie de miséria? Porém, ainda que a tempestade da ira divina tenha desabado sobre a culpada cabeça do homem, o amor de Deus fez brilhar um raio de consolação através das trevas que o envolviam. As Sagradas Escrituras nos informam que "o Senhor Deus fez para Adão e sua mulher túnicas de peles e os vestiu", prova convincente de que Deus jamais abandona o homem, sua criatura.

§882

Que nenhuma ofensa feita a Deus pelo homem pode esgotar o amor divino é uma verdade contida nestas palavras de Davi: "Acaso Deus, em sua ira, fechará as suas misericórdias?" E Habacuc, dirigindo-se a Deus, diz expressamente: "Quando estiveres irado, te lembrarás da misericórdia." "Quem é um Deus como tu", diz Miquéias, "que apaga a iniquidade e perdoa o pecado do resto de tua herança? Não persistirá na sua ira, porque se compraz na misericórdia." Quando, portanto, imaginamos que Deus nos abandonou, que estamos privados de sua proteção, é precisamente então que Ele, por sua bondade infinita, nos busca e nos protege; pois em sua ira retém o gládio de sua justiça e não cessa de derramar os inexauríveis tesouros de sua misericórdia.

§883

A criação e o governo do mundo manifestam, de maneira admirável, o singular amor e o cuidado protetor de Deus; mas entre essas obras, a grande obra da redenção nos faz servos e cooperadores do Espírito Santo. Pela inspiração do Espírito Santo somos movidos à virtude e às ações meritórias; sustentados pela sua graça, somos inflamados para combater com fortaleza pela salvação, cujo término feliz, bem como o de nossa carreira terrena, será recompensado pelo nosso Pai celestial com aquela coroa imperecível de justiça reservada a todos os que houverem percorrido o mesmo caminho; "pois Deus", diz o Apóstolo, "não é injusto para se esquecer de vossas obras e do vosso amor".

§884

Com que sentimentos de íntima piedade devemos pronunciar a palavra "nosso", declaram-nos estas palavras de São João Crisóstomo: "Deus", diz ele, "ouve de bom grado a oração de um cristão, não somente quando oferecida por si mesmo, mas também por outrem. A necessidade nos obriga a orar por nós mesmos; a caridade nos exorta a orar pelos outros. A oração da caridade fraterna", acrescenta, "é mais agradável a Deus do que a da necessidade."

§885

Sobre o tema da oração — tema de tão grande importância e tão salutar —, cabe ao pastor o dever de admoestar e exortar todos os seus fiéis, de toda idade, sexo e condição, a terem presente esta fraternidade comum e, em vez de arrogarem para si uma soberba superioridade sobre os outros, a manifestarem em sua conduta a atitude e o tom da caridade fraterna. É verdade que existem muitas gradações de ofício na Igreja de Deus; contudo, essa diversidade de graus está longe de romper o vínculo desta relação fraterna, do mesmo modo que a variedade de funções e a diversidade de ofícios não fazem com que este ou aquele membro do mesmo corpo perca o nome ou as funções de membro. O monarca, sentado em seu trono e empunhando o cetro da autoridade real, como membro do povo fiel, é irmão de todos quantos estão na comunhão da fé cristã. Não há um Deus Criador dos ricos e outro dos pobres; um dos reis e outro dos súditos; mas há um só Deus, que é Senhor e Pai comum de todos. Considerando a origem espiritual de todos, a nobreza de todos é, portanto, a mesma, pois todos nascemos do mesmo Espírito, pelo mesmo sacramento da fé, filhos de Deus e co-herdeiros da mesma herança imortal. Os ricos e os poderosos não têm um Cristo por Deus, e os pobres e humildes outro; não são iniciados por sacramentos diferentes; não esperam uma herança diferente. Não, somos todos irmãos; nas palavras do Apóstolo: "Somos membros do corpo de Cristo, da sua carne e dos seus ossos." "Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus."

§886

Este é um assunto que o pastor deve tratar com todo o cuidado possível: em sua consideração, nunca se empregará conhecimento e capacidade em demasia; porque não é menos apto a fortalecer e sustentar os indigentes e os humildes do que a refrear e reprimir a arrogância dos ricos e o orgulho dos poderosos. Foi para remediar este mal que o Apóstolo inculcou tão energicamente na atenção dos fiéis este princípio da caridade fraterna.

§887

Quando, portanto, ó cristão, estais para dirigir esta oração a Deus, lembrai-vos de que vós, como filho, vos aproximais de Deus, vosso Pai; e quando começardes a oração e pronunciardes as palavras "Pai nosso", considerai por um momento quão exaltada é a dignidade a que o amor infinito de Deus vos elevou. Ele vos ordena que vos aproximeis d'Ele, não com a relutância e a timidez de um servo que se acerca de seu senhor, mas com o ardor e a segurança de um filho que se lança ao seio de seu pai. Considerai também com que recolhimento e atenção, com que cuidado e devoção, deveis aproximar-vos d'Ele na oração. Deveis aproximar-vos d'Ele como convém a um filho de Deus: vossas orações e ações devem ser tais que não sejam indignas daquela origem divina com que vos agradou a vosso bondosíssimo Deus enobrecer-vos; obrigação à qual o Apóstolo exorta quando diz: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos;" para que de nós se possa verdadeiramente dizer o que o Apóstolo escreveu aos Tessalonicenses: "Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia."

§888

"QUE ESTAIS NOS CÉUS"] Todos quantos têm uma ideia correta da Divindade concordam em que Deus está presente em toda parte. Isso, porém, não deve entender-se como se Ele fosse composto de partes, preenchendo e governando um lugar com uma parte e outro lugar com outra; pois Deus é espírito e, por conseguinte, indivisível. Quem ousaria circunscrever nos limites de algum lugar, ou confinar a algum ponto determinado, Aquele que diz de Si mesmo: "Não encho eu o céu e a terra?" Sim, pelo seu poder e virtude, enche o céu e a terra e todas as coisas neles contidas. Está presente a todas as coisas, criando-as ou conservando-as depois de criadas; enquanto Ele mesmo não está confinado a nenhum lugar, não é circunscrito por nenhum limite, nada O define de modo a impedir que esteja presente em toda parte pela sua imensidade e onipotência. "Se", diz o Salmista, "subir ao céu, Tu aí estás."

§889

Deus, embora presente em todos os lugares e em todas as coisas e, como já observamos, não circunscrito por limite algum, é, no entanto, frequentemente designado na Escritura como tendo sua morada nos céus, porque os céus que vemos são a parte mais nobre do mundo visível, imutáveis em seu esplendor, superiores a todos os demais seres em poder, grandeza e beleza, e que se movem com revolução uniforme e harmoniosa. Para elevar a alma do homem à contemplação de seu poder e majestade infinitos, que resplandecem com tão grande esplendor na extensão do céu, Deus declara, portanto, que sua morada é nos céus. Ele também declara frequentemente que não há parte alguma da criação que não seja servos e cooperadores do Espírito Santo. Pela inspiração do Espírito Santo somos animados à virtude e às obras meritórias; sustentados pela sua graça, somos inflamados para combater com fortaleza o combate da salvação, cujo feliz término, assim como o de nossa carreira terrena, será recompensado pelo nosso Pai celeste com aquela coroa imperecível de justiça reservada a todos os que houverem percorrido o mesmo caminho; "pois Deus", diz o Apóstolo, "não é injusto para esquecer as vossas obras e o amor que lhe mostrastes."

§890

Mas com que sentimentos de íntima piedade devemos pronunciar a palavra "nosso" — eis o que declaram estas palavras de São João Crisóstomo: "Deus", diz ele, "ouve de bom grado a oração de um cristão, não somente quando oferecida por si mesmo, mas também por outrem. A necessidade nos obriga a orar por nós; a caridade nos exorta a orar pelos outros. A oração da caridade fraterna", acrescenta, "é mais agradável a Deus do que a da necessidade."

§891

Sobre o tema da oração — tema tão importante e tão salutar —, cumpre ao pastor advertir e exortar todos os seus ouvintes, de toda idade, sexo e condição, a terem presentes esta fraternidade comum e, em vez de arrogarem para si uma superioridade insolente sobre os outros, a manifestarem em sua conduta o espírito e o tom da caridade fraterna. É verdade que há muitos graus de ministério na Igreja de Deus; contudo, essa diversidade de hierarquia está longe de romper o vínculo dessa relação fraterna, do mesmo modo que a variedade de funções e a diversidade de ofícios não fazem com que este ou aquele membro do mesmo corpo perca o nome ou as funções de membro. O monarca entronizado, empunhando o cetro da autoridade real, é, enquanto fiel, irmão de todos quantos estão na comunhão da fé cristã. Não há um Deus Criador dos ricos e outro dos pobres; um dos reis e outro dos súditos; há um único Deus, Senhor e Pai comum de todos. Considerada a sua origem espiritual, a nobreza de todos é, portanto, a mesma, pois todos nascemos do mesmo Espírito, pelo mesmo sacramento da fé, filhos de Deus e co-herdeiros da mesma herança imortal. Os ricos e os poderosos não têm um Cristo por Deus diverso do dos pobres e humildes; não são iniciados por sacramentos diferentes; não esperam uma herança diferente. Não, somos todos irmãos; nas palavras do Apóstolo: "Somos membros do corpo de Cristo, da sua carne e dos seus ossos." "Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; pois todos os que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher: todos vós sois um em Cristo Jesus."

§892

Este é um assunto que o pastor deve tratar com todo o cuidado possível: sobre a sua consideração nunca poderá despender demasiado saber e capacidade, pois não é menos apto a fortalecer e sustentar os indigentes e os humildes do que a refrear e reprimir a arrogância dos ricos e o orgulho dos poderosos. Para remediar este mal, o Apóstolo tão energicamente imprimiu na atenção dos fiéis este princípio da caridade fraterna.

§893

Quando, portanto, ó cristão, estais prestes a dirigir esta oração a Deus, lembrai-vos de que vós, como filhos, vos aproximais de Deus, vosso Pai; e quando começardes a oração e proferirdes as palavras "Pai nosso", considerai por um momento quão elevada é a dignidade a que o amor infinito de Deus vos elevou. Ele vos manda aproximar-vos dele, não com a relutância e a timidez de um servo que se acerca de seu senhor, mas com o ardor e a confiança de um filho que se lança ao seio de seu pai. Considerai também com que recolhimento e atenção, com que cuidado e devoção deveis aproximar-vos dele em oração. Deveis aproximar-vos dele como convém a um filho de Deus: vossas orações e ações devem ser tais que não se mostrem indignas daquela origem divina com a qual vos agradou a vosso Deus clementíssimo enobrecer-vos; dever ao qual o Apóstolo exorta quando diz: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos caríssimos;" para que de nós se possa verdadeiramente dizer o que o Apóstolo escreveu aos Tessalonicenses: "Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia."

§894

«QUE ESTAIS NO CÉU»] Todos os que têm uma ideia correta da Divindade concordam em que Deus está presente em toda parte. Isto, porém, não deve entender-se como se Ele fosse composto de partes, preenchendo e governando um lugar com uma parte e outro lugar com outra; pois Deus é espírito e, portanto, indivisível. Quem ousaria circunscrever nos limites de algum lugar, ou confinar a algum ponto determinado, Aquele que diz de Si mesmo: «Não encho Eu os céus e a terra?» Sim, pelo seu poder e virtude Ele enche os céus e a terra, e todas as coisas neles contidas. Está presente em todas as coisas, criando-as ou conservando-as depois de criadas; ao mesmo tempo que Ele próprio não está confinado a lugar algum, não é circunscrito por limite algum, nada O define de modo a impedir que esteja presente em toda parte por sua imensidade e onipotência. «Se», diz o Salmista, «subir ao céu, lá estais Vós.»

§895

Deus, embora presente em todos os lugares e em todas as coisas, e, como já observamos, não circunscrito por nenhum limite, é, contudo, frequentemente dito na Escritura ter a sua morada nos céus, porque os céus que vemos são a parte mais nobre do mundo visível, imutáveis em esplendor, superiores a todos os demais objetos em poder, grandeza e beleza, e movendo-se com revolução uniforme e harmoniosa. Para elevar a alma do homem à contemplação do seu poder e da sua majestade infinitos, que resplandecem com tal glória na extensão do céu, Deus declara, pois, que a sua morada está nos céus. Declara também frequentemente que não há parte alguma da criação que não esteja repleta de sua divindade e de seu poder, os quais estão em toda parte presentes. Na consideração deste assunto, os fiéis proporão a si mesmos, todavia, não somente a imagem do Pai universal da humanidade, mas também a de Deus reinando no céu, a fim de que, ao se aproximarem d'Ele na oração, se lembrem de que o coração e a alma devem ser elevados ao céu. A natureza transcendente e a divina majestade de nosso Pai que está nos céus devem inspirar-nos tanta humildade e piedade cristãs, quanto o nome de pai deve encher-nos de amor e de confiança.

§896

Estas palavras nos ensinam também quais devem ser os objetos das nossas orações. Todas as súplicas que oferecemos pelas coisas úteis e necessárias desta vida, se não estiverem unidas à bem-aventurança do céu e a ela ordenadas, são inúteis e indignas de um cristão. Desta forma de orar, o pastor, portanto, advertirá os seus piedosos ouvintes, e reforçará a advertência com a autoridade do Apóstolo: "Se", diz ele, "ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Tende o pensamento nas coisas do alto, não nas da terra."

"SANTIFICADO SEJA O TEU NOME."

§898

O que devem ser os objetos e a ordem de nossas orações, aprendemo-lo do Senhor e Mestre de todos; pois, sendo a oração a enviada e intérprete de nossos anseios e desejos, oramos como convém quando a ordem de nossas preces corresponde à de seus objetos. A verdadeira caridade nos admoesta a consagrar — constituindo em si mesmo o único bem supremo — o nosso amor particular e especial, que justamente nos ordena; e este amor não podemos nutrir para com Ele, a não ser que antepenhamos a sua honra e glória a todas as criaturas. Todo bem que nós ou outros possuímos, tudo enfim que o homem pode nomear, deve ceder-lhe o lugar, porque dele emana, que é o bem supremo. Para que, portanto, nossas orações procedam em devida ordem, o nosso divino Redentor colocou esta petição, que respeita ao nosso sumo bem, à frente das demais; ensinando-nos assim que, antes de orarmos por coisa alguma para o próximo ou para nós mesmos, devemos orar pelas coisas que pertencem à glória de Deus, e manifestar-lhe nossos anseios e desejos para o seu cumprimento. Assim permaneceremos na caridade, que nos ensina a amar a Deus mais do que a nós mesmos, e a fazer daquilo que desejamos por amor de Deus o primeiro, e daquilo que desejamos para nós o segundo objeto de nossas orações.

§899

Ora, como os desejos e as petições dizem respeito àquilo de que carecemos, e como Deus — isto é, a sua natureza divina — não pode receber acréscimo algum, nem a Divindade, adornada de modo inefável com todas as perfeições, admite aumento, devem os fiéis compreender que o que pedimos a Deus a seu respeito não pertence às suas perfeições intrínsecas, mas à sua glória externa. Desejamos e pedimos que o seu nome seja mais conhecido entre as nações; que o seu reino se estenda; e que o número dos seus fiéis servidores aumente a cada dia — três coisas, o seu nome, o seu reino e o número dos seus fiéis servidores, que dizem respeito não à sua essência, mas à sua glória extrínseca.

§900

Quando oramos para que o nome de Deus seja santificado, queremos dizer que a santidade e a glória do seu nome sejam acrescidas; e aqui o pastor informará os seus piedosos ouvintes de que Nosso Senhor não nos ensina a pedir que seja santificado na terra como o é no céu, isto é, do mesmo modo e com a mesma perfeição, pois isso é impossível; mas que seja santificado pelo amor e pela mais íntima afeição da alma. É certo que, em si mesmo, o seu nome não precisa ser santificado; "é santo e tremendo", assim como Ele próprio é santo; nada se pode acrescentar à santidade que lhe é própria desde a eternidade; todavia, como na terra é muito menos honrado do que deveria ser, e por vezes é mesmo desonrado por juramentos ímpios e execrações blasfemas, desejamos e pedimos que o seu nome seja celebrado com louvor, honra e glória, como é louvado, honrado e glorificado no céu. Oramos para que a sua honra e glória estejam tão constantemente em nossos corações, em nossas almas e em nossos lábios, que O glorifiquemos com toda a veneração, tanto interior como exterior, e que, à semelhança dos cidadãos do céu, celebremos com todas as energias do nosso ser os louvores do Deus santo e glorioso. Oramos para que, assim como os espíritos bem-aventurados no céu louvam e glorificam a Deus com uma só mente e um só acordo, também os homens façam o mesmo; que todos os homens abracem a religião de Cristo e, consagrando-se a Deus sem reservas, creiam que Ele é a fonte de toda a santidade, e que nada há de puro ou santo que não emane da santidade do seu divino nome. Segundo o Apóstolo, a Igreja é purificada "pelo banho da água com a palavra da vida"; entendendo por "palavra da vida" o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em quem somos batizados e santificados. Assim, pois, para aqueles sobre quem o seu nome não é invocado, não pode haver expiação, nem pureza, nem integridade; desejamos e pedimos que os homens, saindo das trevas da incredulidade e iluminados pelos raios da luz divina, confessem o poder do seu nome; que, buscando nEle a verdadeira santidade e recebendo pela sua graça o sacramento do batismo em nome da santíssima e indivisa Trindade, cheguem à santidade perfeita. As nossas orações e súplicas dizem respeito também àqueles que perderam a pureza do batismo e mancharam a veste da inocência, introduzindo assim de novo em suas desventuradas almas o espírito imundo que antes as possuía. Desejamos e suplicamos a Deus que também neles seja santificado o seu nome; que, entrando em si mesmos e retornando ao caminho da verdadeira sabedoria, recuperem, pelo sacramento da penitência, a santidade perdida, e se tornem templos puros e santos, nos quais Deus possa habitar.

Referência atual: §851