Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§801 – §850
§801
O pároco ensinará também que a loquacidade deve ser evitada. Evitando-se a loquacidade, os demais males da língua serão prevenidos, e se opõe um remédio preventivo à mentira, da qual as pessoas loquazes dificilmente conseguem abster-se.
§802
Por fim, há os que procuram justificar a sua duplicidade e defender as suas violações da verdade com um princípio de prudência, alegando que mentem na ocasião oportuna. A este pretexto errôneo, o pastor aplicará a verdade divina: "A sabedoria da carne é morte"; exortará o seu povo a que, em todas as suas dificuldades e perigos, confie em Deus, e não no artifício da mentira; e lhes dirá que, nos perigos e dificuldades, recorrer a subterfúgios é declarar que confiam mais na própria prudência do que na providência de Deus. Os que acusam a outros de serem causa de proferir falsidade, por os terem primeiramente enganado, devem ser instruídos sobre a ilicitude de vingar as próprias ofensas; que não se deve retribuir o mal com o mal, mas antes vencer o mal com o bem. Ainda que fosse lícito, não nos seria vantajoso agir de tal modo: o homem que busca vingança proferindo falsidade causa a si mesmo gravíssimo dano. Os que alegam a fraqueza humana devem ser instruídos de que é dever de religião implorar o auxílio divino, e não ceder à enfermidade humana.
§803
Os que, para escusar a própria culpa, alegam o hábito, devem ser admoestados a procurar adquirir o hábito contrário de dizer a verdade; tanto mais que o mau hábito, longe de atenuar, agrava a culpa. Há quem aduz em sua própria justificação o exemplo de outros que, afirmam, se entregam constantemente à mentira e ao perjúrio: a esses se deve lembrar que os maus não são para ser imitados, mas repreendidos e corrigidos, e que, quando nós mesmos somos dados ao mesmo vício, as nossas admoestações têm menor força para reprová-lo e corrigi-lo nos outros. Quanto aos que defendem sua conduta dizendo que falar a verdade acarreta muitas vezes inconvenientes, o pastor responderá que tal desculpa é uma acusação, não uma defesa; pois é dever do cristão suportar qualquer inconveniente a preferir proferir uma mentira.
§804
Há ainda outras duas classes de pessoas que procuram justificar o afastamento da verdade: as que dizem mentir por brincadeira, e as que alegam motivos de interesse, porquanto, sem recorrer à mentira, não conseguem comprar nem vender com vantagem. A ambas procurará o pastor corrigir: às primeiras, advertindo-as sobre o enraizamento do vício que o hábito de mentir engendra, e imprimindo-lhes vivamente uma verdade revelada por Jesus Cristo, a saber, que "de toda palavra ociosa que os homens proferirem, hão de dar conta no dia do juízo"; às segundas, cuja desculpa encerra a própria acusação, repreenderá com maior severidade, pois elas professam não dar crédito nem autoridade a estas palavras do Senhor: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo."
O NONO E O DÉCIMO MANDAMENTOS.
§806
"NÃO COBIÇARÁS A CASA DO TEU PRÓXIMO; NEM DESEJARÁ A SUA ESPOSA, NEM O SEU SERVO, NEM A SUA SERVA, NEM O SEU BOI, NEM O SEU JUMENTO, NEM COISA ALGUMA QUE LHE PERTENÇA."
§807
Cumpre observar, em primeiro lugar, que estes dois preceitos, os últimos na ordem em que foram transmitidos, fornecem um princípio geral para a observância de todos os demais. O que é ordenado nestes dois se resume em que, para observar os preceitos precedentes da lei, devemos ter particular cuidado em não cobiçar; porque aquele que não cobiça, contente com o que possui, não desejará o que pertence a outrem, mas se alegrará com a prosperidade alheia; dará glória ao Deus imortal; lhe renderá graças sem medida; observará o sábado, isto é, gozará de repouso perpétuo; respeitará seus superiores; e, enfim, a ninguém prejudicará em palavras, em obras ou de qualquer outra maneira; pois a raiz de todos os males é a concupiscência, que arrasta suas devotas vítimas a toda espécie de torpezas. Estas considerações, se bem ponderadas, hão de induzir o pároco a explicar o que se segue com redobrado zelo, e o povo a ouvir sua exposição com redobrada atenção.
§808
Todavia, embora tenhamos unido estes dois mandamentos por terem o mesmo objeto e, por isso, deverem ser tratados do mesmo modo, o pastor, ao exortar e admoestar os fiéis, tratá-los-á conjuntamente ou em separado, conforme julgar mais conveniente. Se, porém, houver empreendido a exposição do Decálogo, indicará em que diferem estes dois mandamentos; como uma concupiscência se distingue da outra — distinção assinalada por Santo Agostinho no seu livro de questões sobre o Êxodo. Uma olha somente para a utilidade e o interesse; a outra, para o desejo ilícito e o prazer criminoso: aquele, por exemplo, que cobiça um campo ou uma casa, busca o proveito mais do que o prazer, ao passo que aquele que cobiça a mulher de outro cede a um desejo de prazer, não de proveito.
§809
Desses dois mandamentos, a promulgação foi necessária por duas razões. A primeira é explicar o sexto e o sétimo mandamentos; pois, embora a razão por si só seja capaz de nos indicar que proibir o adultério é também proibir o desejo da mulher alheia — já que, sendo lícito o desejo, haveria de sê-lo também a sua satisfação —, muitos dos judeus, cegados pelo pecado, não podiam ser levados a crer que tais desejos fossem proibidos por Deus. Mais ainda: mesmo após a promulgação, e com o conhecimento desta lei, muitos que se declaravam seus intérpretes persistiram no mesmo erro, como se depreende das palavras de Nosso Senhor registradas em São Mateus: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: não cometerás adultério; eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher com desejo já cometeu adultério com ela em seu coração." A segunda razão para a promulgação desses dois mandamentos é que eles proíbem de modo distinto e expresso algumas coisas que o sexto e o sétimo mandamentos apenas implicitamente vetavam. O sétimo mandamento, por exemplo, proíbe o desejo injusto ou o empenho em tomar o que pertence ao próximo; mas este proíbe até mesmo cobiçá-lo, a qualquer título, ainda que possamos, sem violação da lei ou da justiça, obter a posse daquilo de que sabemos resultará prejuízo para o nosso próximo.
§810
Mas, antes de passarmos à exposição do mandamento, cumpre instruir os fiéis de que, por esta lei, somos ensinados não somente a refrear os nossos desejos desordenados, mas também a conhecer o amor sem limites de Deus para conosco. Pelos mandamentos precedentes, Deus havia, por assim dizer, cercado-nos de salvaguardas, protegendo-nos a nós e ao que é nosso contra toda sorte de injúria; mas, ao acrescentar estes mandamentos, teve por fim principalmente prover contra os males que poderíamos causar a nós mesmos pela indulgência dos desejos desordenados, males esses que adviriam como consequência natural, se nos fosse lícito cobiçar todas as coisas indistintamente. Por esta lei, portanto, que proíbe a cobiça, Deus opôs resistência à acuidade do desejo, que incita a todo mal; desejo esse que, de algum modo embotado pela virtude desta lei, se faz sentir com menor intensidade; a fim de que, assim libertos da importuna perturbação das paixões, possamos consagrar mais tempo ao cumprimento dos numerosos e importantes deveres de piedade e religião que devemos a Deus.
§811
Nem é esta a única lição que nos ministra este mandamento: ensina-nos também que esta lei divina há de ser observada não somente pelo cumprimento exterior dos deveres que ela impõe, mas também pelo assentimento interior da alma; de sorte que entre as leis divinas e as leis humanas existe esta diferença: as leis humanas são satisfeitas pelo só cumprimento externo, ao passo que as leis de Deus — pois Deus vê o coração — exigem a pureza do coração e a sincera e imaculada integridade da alma. A lei de Deus é, portanto, como que um espelho em que contemplamos a corrupção de nossa própria natureza; e daí estas palavras do Apóstolo: "Eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: não cobiçarás." A concupiscência, que é o fermento do pecado e que do pecado se originou, é sempre inerente à nossa natureza decaída: por ela sabemos que nascemos no pecado; e, por isso, humildemente recorremos em busca de auxílio àquele que sozinho pode apagar as manchas do pecado.
§812
Em comum com os demais mandamentos, estes também são em parte preceptivos e em parte proibitivos. Quanto à parte proibitiva, o pastor fará conhecer aos fiéis que espécie de concupiscência é proibida por esta lei, para que alguns não considerem pecaminoso o que não o é, como a concupiscência de que fala o Apóstolo quando diz: "A carne tem desejos contrários ao espírito"; e aquela que foi objeto dos mais ardentes anseios de Davi: "Minha alma se consumiu no desejo das vossas justificações em todo o tempo." A concupiscência, portanto, é uma certa agitação e impulso da alma, que a impele a desejar os prazeres de que não goza efetivamente; e assim como as demais propensões da alma nem sempre são pecaminosas, tampouco o é o impulso da concupiscência. Não é pecado, por exemplo, desejar comer e beber, nem, sentindo frio, querer aquecer-se, nem, sentindo calor, querer refrescar-se. Esta espécie de concupiscência foi originalmente impressa no coração humano pelo Autor da Natureza; mas, em consequência da prevaricação original, ultrapassou os limites prescritos pela Natureza e tornou-se tão depravada que frequentemente incita ao desejo daquelas coisas que conflitam com o espírito e repugnam à razão. Todavia, se bem regulada e mantida dentro dos devidos limites, é ainda a fonte de muitos bens para o mundo.
§813
Em primeiro lugar, ela nos incita a suplicar a Deus por meio de fervorosa oração, e a Lhe pedir humildemente as coisas que são objeto dos nossos mais ardentes desejos. A oração é a intérprete dos nossos anseios; e se essa concupiscência bem ordenada não existisse em nós, os cristãos não se dirigiriam tão frequentemente em oração ao Doador de todos os bons dons. Ela confere também, a nosso ver, um valor mais elevado aos dons de Deus: o prazer que deriva da realização dos nossos desejos, e o apreço que nutrimos pelos objetos que perseguimos, são proporcionais à intensidade desses mesmos desejos; e a satisfação que assim recebemos do objeto desejado serve igualmente para aumentar nossa devoção e gratidão para com Deus. Se, portanto, é alguma vez lícito cobiçar, facilmente se admitirá que nem toda espécie de concupiscência é proibida. É verdade que São Paulo diz que "a concupiscência é pecado"; mas suas palavras devem ser entendidas no mesmo sentido daquelas de Moisés, que ele cita; sentido que o próprio Apóstolo exprime quando, na Epístola aos Gálatas, a denomina "concupiscência da carne": "Andai segundo o espírito, e não satisfareis os desejos da carne." Aquela concupiscência natural e bem ordenada, portanto, que não ultrapassa os seus devidos limites, não é proibida; muito menos o é aquele desejo espiritual da alma virtuosa, que a impele para as coisas que combatem a carne, e ao qual as Sagradas Escrituras nos exortam: "Desejais as minhas palavras"; "Vinde a mim, todos vós que me desejais." Não é, pois, o simples movimento da concupiscência — que pode dirigir-se igualmente a um objeto bom ou mau — o que estes mandamentos proíbem: é a complacência no desejo criminoso; o qual se denomina "concupiscência da carne" e "fomes do pecado" e que, quando arrasta o consentimento da vontade, é sempre pecaminoso. Unicamente o que o Apóstolo chama "concupiscência da carne" é proibido; isto é, aqueles movimentos do desejo corrompido que são contrários aos ditames da razão e ultrapassam os limites prescritos por Deus.
§814
Esta concupiscência é condenada, seja porque deseja o que é mau, como o adultério, a embriaguez, o homicídio e crimes tão hediondos, dos quais o Apóstolo diz: "Não cobicemos as coisas más, como eles as cobicaram;" seja porque, embora os objetos não sejam maus em si mesmos, as circunstâncias concorrem para tornar criminoso o desejo deles, quando, por exemplo, são proibidos por Deus ou por sua Igreja. Não nos é lícito desejar o que é ilícito possuir; e daí, na Lei Antiga, era criminoso desejar o ouro e a prata com que se fabricavam os ídolos, e que o Senhor proibira "alguém de cobiçar". Outra razão pela qual este tipo de concupiscência é condenado é que tem por objeto aquilo que pertence a outrem, como uma casa, um servo, um campo, a esposa, o boi, o jumento e muitas outras coisas; tudo isso, por pertencer a outro, a lei de Deus nos proíbe de cobiçar. O simples desejo de tais coisas, quando a ele se consente, é criminoso e está arrolado entre os pecados mais graves. Quando a mente, cedendo ao impulso dos maus desejos, se compraz com o mal ou não lhe resiste, o pecado é necessariamente cometido, como ensina São Tiago, ao apontar o início e o progresso do pecado, quando diz: "Cada um é tentado pela própria concupiscência, sendo atraído e seduzido; depois, quando a concupiscência concebeu, gera o pecado; mas o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Quando, portanto, a lei diz: "Não cobiçarás," quer dizer que devemos refrear os nossos desejos das coisas alheias: a sede do que pertence a outrem é intensa e insaciável; está escrito: "O avarento não se fartará de dinheiro;" e Isaías diz dele: "Ai de vós, que ajuntais casa a casa e campo a campo."
§815
Mas uma explicação distinta de cada uma das palavras em que este mandamento se expressa porá em luz mais clara a deformidade e a gravidade deste pecado. O pároco ensinará, portanto, que pela palavra "casa" se há de entender não apenas a habitação em que moramos, mas, como sabemos pelo uso dos escritores sagrados, todos os bens do seu proprietário. Assim, para significar que Deus havia aumentado os meios e melhorado a condição das parteiras, diz-se no Êxodo que ele lhes edificou casas. Desta interpretação percebemos, pois, que nos é vedado nutrir um ávido desejo de riquezas, ou invejar a outrem sua fortuna, seu poder ou sua posição, devendo cada um contentar-se com sua própria condição, seja ela humilde ou elevada. Também é proibido cobiçar a glória conquistada por outros, e isso está compreendido na palavra "casa."
§816
Seguem-se as palavras «nem o seu boi nem o seu jumento», pelas quais aprendemos que é ilícito desejar não somente as coisas de maior valor, como uma casa, uma posição ou a glória, pelo fato de pertencerem a outrem, mas também as de pouco valor, quaisquer que sejam, animadas ou inanimadas. Vêm em seguida as palavras «nem o seu servo», que abrangem tanto os escravos quanto os demais servos, sendo igualmente ilícito cobiçá-los como os demais bens do próximo. Quanto aos homens livres que, movidos pelo salário, pela afeição ou pelo respeito, servem voluntariamente, é ilícito, por palavras, esperanças, promessas ou recompensas, suborná-los ou induzi-los, sob qualquer pretexto, a abandonar aqueles a cujo serviço livremente se vincularam; e se, antes de findo o prazo do seu ajuste, deixarem seus amos ou empregadores, deverão ser admoestados, pela autoridade deste mandamento, a regressar de qualquer modo, até que tenham cumprido integralmente o tempo do seu serviço. A palavra «próximo» é mencionada neste mandamento para assinalar a maldade daqueles que cobiçam propriedades, terras, casas e coisas semelhantes situadas nas suas imediações; pois a vizinhança, que consiste na amizade, é transformada pela cobiça de amor em ódio. Não transgridem, porém, de modo algum este mandamento aqueles que desejam comprar ou que efetivamente compraram, por preço justo, de um vizinho, a mercadoria que ele tem à venda: em vez de lhe causar prejuízo, prestam-lhe, pelo contrário, um assinalado serviço, pois o dinheiro lhe é muito mais conveniente e útil do que a mercadoria de que se desfaz.
§817
O mandamento que nos proíbe de cobiçar os bens do próximo vem acompanhado de outro, que proíbe cobiçar a mulher do próximo; e este veda não somente aquela concupiscência criminosa que leva o adúltero a desejar a esposa alheia, mas também o anseio de se unir a ela em matrimônio. Outrora, quando era permitido o libelo de repúdio, facilmente podia ocorrer que a mulher repudiada por um marido se casasse com outro; mas isso Nosso Senhor proibiu, a fim de que os maridos não fossem levados a abandonar suas esposas, nem as esposas a comportar-se com tal aspereza e mau humor para com os maridos que lhes impusessem uma espécie de necessidade de repudiá-las. Na dispensação evangélica, porém, esse pecado reveste-se de culpa ainda mais grave, porque a esposa, ainda que separada do marido, não pode casar-se com outro enquanto ele viver. Para aquele, portanto, que deseja unir-se em matrimônio à mulher de outrem, a passagem de um desejo criminoso a outro é fácil: ele desejará ou a morte do marido ou a consumação do adultério.
§818
O mesmo princípio se aplica às mulheres prometidas em esponsais a outrem: cobiçá-las em matrimônio é igualmente ilícito; e quem quer que procure dissolver o contrato pelo qual elas estão comprometidas viola os vínculos mais sagrados da palavra empenhada. E se cobiçar a esposa legítima de outro é gravemente criminoso, não o é menos desejar em matrimônio a virgem consagrada à religião e ao serviço de Deus. Se, porém, alguém deseja em matrimônio uma mulher já casada, supondo-a solteira, e não estaria disposto, se soubesse que ela era casada, a nutrir tal desejo, não viola este mandamento. Faraó e Abimeleque, como nos informa a Sagrada Escritura, foram levados a este erro: quiseram tomar Sara por esposa, supondo-a solteira e irmã, não esposa de Abraão.
§819
A fim de tornar conhecidos os remédios capazes de neutralizar as funestas consequências do vício da avareza, o pároco explicará a parte positiva do mandamento. Deus ordena, pois, que "se as riquezas abundarem, não lhes apliquemos o coração"; que estejamos dispostos a sacrificá-las pelo amor da piedade e da religião; que contribuamos com alegria para o alívio dos pobres; e que, se nós mesmos formos entregues à pobreza, a suportemos com paciência e com santa alegria. Com efeito, a liberalidade para com os pobres é um meio eficacíssimo de extinguir em nossos próprios corações o desejo do que pertence a outrem. Quanto, porém, ao louvor da pobreza e ao desprezo das riquezas, o pároco não encontrará dificuldade em colher abundante matéria, para a instrução dos fiéis, nas Sagradas Escrituras e nas obras dos Santos Padres.
§820
Desejar, com todo o ardor e todo o fervor de nossa alma, não a consumação de nossos próprios anseios, mas da santa vontade de Deus, tal como se exprime na Oração do Senhor, é um dever ulterior inculcado por esta lei. É vontade sua que nos tornemos eminentes em santidade; que conservemos nossas almas puras e imaculadas; que pratiquemos aquelas obras espirituais que se opõem à sensualidade; e que, havendo submetido nossos apetites desordenados e refreado a intemperança dos sentidos que fornecem matéria às paixões, entremos, sob a guia da razão e do espírito, numa vida virtuosa.
§821
Mas, para extinguir o fogo da paixão, o meio mais eficaz será o de pôr diante de nossos olhos os males que são inseparáveis da sua culpável complacência. Entre esses males, o primeiro é a nossa sujeição à tirania do pecado: naquele que obedece ao impulso da paixão, o pecado reina sem freio; daí a admoestação do Apóstolo: "Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, de modo que obedeceis às suas concupiscências." Resistindo ao predomínio das paixões, enfraquecemos o poder e derrubamos a tirania do pecado; mas cedendo a elas, expulsamos Deus do seu trono e introduzimos o pecado em Seu lugar. Além disso, a concupiscência, como ensina São Tiago, é a fonte impura de que brotam todos os demais pecados: "Tudo o que há no mundo", diz São João, "é a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida." Um terceiro mal da sensualidade é que ela obscurece o entendimento: cegado pela paixão, o pecador reputa lícitos e até louváveis os objetos do desejo criminoso, quaisquer que sejam. Ademais, a concupiscência sufoca a semente da palavra divina, semeada em nossas almas por Deus, o supremo lavrador: "Alguns", diz São Marcos, "são os que recebem a semente entre os espinhos; são aqueles que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e a cobiça de outras coisas, intrometendo-se, sufocam a palavra e ela se torna estéril."
§822
Mas aqueles que, mais do que outros, são escravos da concupiscência, e a quem, por isso, o pastor exortará com maior veemência e assiduidade, são os que se entregam a diversões impróprias, ou que abusam immoderadamente daquelas que são em si mesmas lícitas; e também os mercadores que desejam a escassez e, por não poderem vender a preço demasiado alto nem comprar a preço demasiado baixo, não suportam que outros, exercendo o comércio, contrariem o seu opressivo monopólio. Pecam igualmente neste particular os que, visando lucrar na compra ou na venda, desejam ver o próximo reduzido à necessidade. Os soldados que anseiam pela guerra para enriquecer-se com o saque; os médicos que desejam a propagação das doenças; os advogados que aspiram a grande número de causas e litígios; e os artesãos que, ávidos de ganho e com o intuito de aumentar seus próprios lucros, desejam a escassez dos artigos necessários à alimentação e ao vestuário — todos estes transgridem este mandamento. Pecam também contra este mandamento os que, invejosos do louvor e da glória conquistados pelas realizações alheias, se esforçam por macular, de algum modo, a sua fama — sobretudo se eles próprios são pessoas de nenhum valor e de nenhuma consideração na sociedade: a fama e a glória são o galardão da virtude e do trabalho, não da ociosidade e da inação.
A
CATECISMO
DE
O CONCÍLIO DE TRENTO.
PARTE IV.
DA ORAÇÃO.
§829
Entre os deveres do ministério pastoral, um dos de maior importância para os interesses espirituais dos fiéis é instruí-los na oração cristã, cuja natureza e eficácia permaneceriam ignoradas por muitos, se não fossem inculcadas pelas piedosas e fiéis exortações do pastor. Para isso, portanto, deve o pastor dirigir de modo especial o seu cuidado, a fim de que os fiéis compreendam como e pelo que devem orar.
§830
Tudo o que é necessário ao cumprimento do dever da oração está compreendido naquela forma divina que Cristo Nosso Senhor se dignou revelar aos seus Apóstolos e, por eles e pelos seus sucessores, a todos os cristãos. Os sentimentos que ela exprime e as palavras em que estão concebidos devem, portanto, ser tão profundamente gravados na mente e na memória que nos habilitem a dirigi-la a Deus prontamente e em todo tempo. Para auxiliar o pastor, porém, no ensinamento aos fiéis sobre a oração, selecionamos e consignamos, daqueles escritores cuja reputação de talento e saber nesta matéria merece o mais elevado respeito, o que nos pareceu mais instrutivo sobre o assunto, deixando ao pastor a liberdade de recorrer à mesma fonte para informações ulteriores, se assim o julgar necessário.
§831
Em primeiro lugar, o pároco há de ensinar a necessidade da oração; dever que não apenas é recomendado a título de conselho, mas também imposto por preceito positivo. O próprio Senhor disse: "Devemos orar sempre"; e esta necessidade da oração a Igreja a declara no prelúdio — se assim podemos chamá-lo — que antecede o Pai-Nosso em sua liturgia: "Advertidos por salutares preceitos e instruídos pelo ensinamento divino, ousamos dizer: Pai nosso, etc." Vendo, pois, a necessidade da oração para o cristão, e atendendo ao pedido de seus discípulos — "Senhor, ensina-nos a orar" —, o Filho de Deus lhes deu uma fórmula estabelecida de oração e os animou a esperar que os objetos de suas súplicas lhes seriam concedidos. Ele mesmo lhes foi modelo de oração: não só orava assiduamente, como também velava noites inteiras em oração. Os Apóstolos, igualmente, não deixaram de transmitir preceitos a esse respeito: neste dever, São Pedro e São João são incessantes em suas admoestações aos fiéis; e São Paulo, não alheio à sua importância, frequentemente nos adverte da salutar necessidade da oração. Além disso, tão variadas são as nossas necessidades temporais e espirituais, tão numerosas as bênçãos que esperamos receber, que devemos recorrer à oração como o melhor meio de comunicar as nossas carências e o canal mais seguro pelo qual receber todo o socorro de que necessitamos. A Deus nada nos é devido: cabe-nos, portanto, suplicar a sua bondade. Ele constituiu a oração como meio necessário para a realização dos nossos desejos; e a sua necessidade torna-se ainda mais evidente quando consideramos que há bênçãos que não podemos esperar obter de outro modo senão pela oração. A santa oração — tal é a sua eficácia — é um meio poderosíssimo de expulsar os demônios: esta espécie de demônio não é expulsa senão pela oração e pelo jejum.
§832
Aqueles, portanto, que não praticam a oração assídua privam-se dos meios de obter de Deus dons de singular valor. Para alcançar o que desejais, não basta pedir aquilo que é bom; é preciso também que as súplicas sejam assíduas: «Todo aquele que pede», diz São Jerônimo, «recebe: se, portanto, não vos é concedido, é porque não pedis: pedi, pois, e recebereis.»
§833
A oração, porém, não é somente um exercício de devoção necessário, mas também sumamente agradável e salutar, do qual colhemos abundante fruto espiritual. Sobre esses frutos da oração, o pároco consultará os escritores espirituais e, quando necessário para a instrução dos fiéis, haurirei largamente dos seus trabalhos. Fizemos, contudo, uma seleção dos tesouros por eles acumulados, que nos pareceu convir ao presente propósito.
§834
O primeiro fruto que recebemos da oração é que, por meio dela, honramos a Deus; a oração é, em certo sentido, uma prova de religião, e é comparada, na Sagrada Escritura, ao incenso: "Suba a minha oração", diz Davi, "como incenso diante de vós." Pela oração, confessamos a nossa sujeição a Deus, a quem reconhecemos e proclamamos como autor de todo bem; em quem somente depositamos todas as nossas esperanças; que é o único refúgio em todos os perigos; e cuja providência protetora é o baluarte da nossa salvação. Deste fruto da oração somos admoestados nestas palavras do Salmista: "Invocai-me no dia da tribulação; eu vos livrarei, e vós me glorificareis."
§835
Outro fruto preciosíssimo e inestimável da oração, quando atendida por Deus, é que ela nos abre o céu. "A oração é a chave do céu", diz Santo Agostinho; "a oração sobe, e a misericórdia desce; por mais altos que sejam os céus e por mais baixa que seja a terra, Deus ouve a voz do homem." Tal é a utilidade, tal a eficácia da oração, que por meio dela obtemos a plenitude dos dons celestiais, a orientação e o auxílio do Espírito Santo, a segurança e a conservação da fé, o livramento do castigo, a proteção nas tentações, a vitória sobre o Demônio; numa palavra, na oração se acumula toda alegria espiritual: "Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja plena."
§836
Nem podemos por um momento duvidar de que Deus está sempre pronto a ouvir nossas súplicas; verdade à qual as Sagradas Escrituras prestam amplo testemunho. Como, porém, os textos que a fundamentam são de fácil acesso, contentar-nos-emos com citar alguns do Profeta Isaías. "Então", diz ele, "clamarás, e o Senhor ouvirá; gritarás, e ele dirá: Aqui estou"; e ainda: "Acontecerá que, antes que clamem, eu responderei; ainda estão falando, e eu já ouço." Quanto aos exemplos de pessoas que obtiveram de Deus o objeto de suas preces, são quase inumeráveis e demasiado ao alcance de todos para que necessitem de menção especial.
§837
Mas às vezes as nossas orações ficam sem resposta? É verdade; e Deus então provê de modo especial aos nossos interesses, concedendo-nos outros dons de valor mais elevado e em maior abundância; ou retendo o que pedimos, porque, longe de ser necessário ou útil, a sua concessão resultaria não apenas supérflua, mas até prejudicial. "Deus", diz Santo Agostinho, "nega algumas coisas por misericórdia, que concede em sua ira." Às vezes, também, tal é a tibieza e a negligência com que oramos, que nós mesmos não prestamos atenção ao que dizemos. Se a oração é uma elevação da alma a Deus, e se, enquanto oramos, a mente, em vez de estar fixa em Deus, se perde em distrações errantes, e a língua desliza pelas palavras ao acaso, sem atenção, sem devoção, com que propriedade podemos dar o nome de oração a tais sons vazios? Não devemos, portanto, admirar-nos de que Deus não atenda aos nossos pedidos; nós que, pela nossa negligência e pela nossa ignorância do próprio objeto das nossas petições, damos prova prática de que não nos importa ser ouvidos por Ele; ou que, se oramos com atenção, solicitamos coisas que, se nos fossem concedidas, seriam prejudiciais aos nossos interesses eternos. Àqueles que oram com devota atenção, Deus concede mais do que pedem. Isso o Apóstolo declara na sua Epístola aos Efésios; e a mesma verdade se desvela na parábola do filho pródigo, que teria tido por favor ser admitido no número dos servos de seu pai; mas que foi recebido por um pai misericordioso com mais do que ternura paterna. Mais ainda: quando estamos devidamente dispostos, Deus acumula sobre nós os seus favores mesmo quando não os pedimos; e isso não apenas com abundância, mas também com uma prontidão que se adianta aos nossos desejos. Sem esperar que sejam expressos, Deus previne os anseios íntimos e silenciosos dos pobres, conforme estas palavras da Escritura: "O Senhor ouviu o desejo dos pobres."
§838
Outro fruto da oração é exercitar e aumentar as virtudes cristãs, particularmente a virtude da fé. Assim como os que não têm fé em Deus não podem orar como devem — "Como invocarão aquele em quem não creram?" —, assim também os fiéis, na proporção do fervor das suas orações, possuem uma fé mais firme e mais segura na providência protetora de Deus, a qual exige, principalmente, que em tudo quanto tenhamos de suplicar à sua bondade nos submetamos à sua soberana vontade. Deus, é verdade, poderia conceder-nos todas as coisas em abundância, ainda que não as pedíssemos nem sequer pensássemos nelas, assim como concede às criaturas irracionais tudo o que é necessário para a sustentação da vida; mas nosso Pai onibondoso quer ser invocado por seus filhos; quer que, orando como devemos cada dia de nossas vidas, oremos com crescente confiança; ao atender às nossas petições, quer dar, a cada dia, novas provas e manifestações de sua bondade paternal para conosco.
§839
A nossa caridade também é aumentada pela oração. Reconhecendo a Deus como autor de todo bem e fonte de todo benefício, a ele nos apegamos com o amor mais devotado. Assim como aqueles que cultivam uma afeição sincera e recíproca se tornam mais ardentemente unidos pelos encontros frequentes e pelo intercâmbio de sentimentos, do mesmo modo, quanto mais frequentes as aspirações que a alma piedosa dirige a Deus, e quanto mais íntima a convivência que com ele desfruta ao implorar a sua misericórdia generosa, tanto mais requintado é o sentido de delícia que ela experimenta, e tanto mais ardentemente se inflama a amá-lo e adorá-lo. Ele há de querer, portanto, que nos sirvamos do exercício da oração, para que, ardendo no desejo de pedir o que ansiamos obter, façamos assim tais progressos na vida espiritual que sejamos dignos de alcançar aquelas bênçãos que a alma, antes árida e contraída, era incapaz de receber.
§840
Ademais, Deus quer que conheçamos e tenhamos sempre presente esta verdade revelada: que, sem o auxílio da sua graça celestial, nada podemos por nós mesmos, e que devemos, portanto, dedicar-nos à oração com todas as forças da alma. As armas que a oração fornece são poderosíssimas contra os nossos inimigos mais implacáveis: «Com os clamores das nossas orações», diz São Hilário, «devemos combater contra o diabo e os seus exércitos armados.»
§841
Da oração extraímos também esta importante vantagem: que, inclinando-nos nós ao mal, pela corrupção inata de nossos próprios corações, e à indulgência do apetite sensual, Deus nos permite trazê-lo de modo especial à nossa mente; a fim de que, enquanto nos dirigimos a Ele na oração e nos esforçamos por merecer Seus dons e graças, sejamos inspirados com o amor à inocência e, pela expiação de nossos pecados, sejamos purificados de toda mácula de culpa.
§842
Por fim, como observa São Jerônimo, a oração desarma a ira de Deus. Daí aquelas palavras dirigidas a Moisés: "Deixa-me", quando Moisés procurava interpor a sua oração em favor da proteção de um povo culpado. Nada é tão eficaz para aplacar a Deus quando a sua ira se acende; nada afasta tão poderosamente o seu furor quando provocado; nada detém com tanta força o seu braço já levantado para ferir os ímpios, quanto as orações dos piedosos.
§843
A necessidade e as vantagens da oração cristã assim explicadas, devem os fiéis também saber quantas e quais são as partes de que ela se compõe. Que este conhecimento pertence ao cumprimento perfeito do dever da oração, aprendemo-lo do Apóstolo, quando, em sua Epístola a Timóteo, exortando à oração piedosa e santa, enumera cuidadosamente as partes de que ela consiste: "Peço, pois, primeiramente," diz ele, "que se façam obsecracões, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens." Embora as distinções entre estas diferentes partes da oração sejam sutis e delicadas, o pároco, se julgar a explicação útil ao seu povo, poderá consultar, a esse respeito, os escritos de Santo Hilário e de Santo Agostinho. Mas como há duas partes principais da oração — a petição e a ação de graças, fontes, por assim dizer, de que todas as outras derivam —, pareceu-nos que eram de demasiada importância para serem omitidas. Quando oferecemos a Deus o tributo do nosso culto, fazemo-lo ou para obter alguma graça, ou para lhe render graças por aquelas com que a sua bondade cada dia nos enriquece e adorna; e cada uma destas coisas o próprio Deus declara ser parte necessária da oração: "Invoca-me," diz ele, "no dia da tribulação: eu te livrarei, e tu me glorificarás."
§844
Quem não reconhece o quanto necessitamos da bondade e benevolência de Deus, se considerar a extrema miséria e penúria do homem? Quem tem olhos para ver e entendimento para julgar, e não sabe o quanto a vontade de Deus se inclina para nós e quão liberal é a sua generosidade? Para onde quer que voltemos os olhos, para onde quer que dirijamos os pensamentos, a admirável luz da bondade e benevolência divinas nos ilumina. Que temos nós que não seja dom de sua generosidade? Se, pois, todas as coisas são dons e graças que sua bondade nos outorga, por que não haveriam de celebrar os louvores de Deus, quanto possível, todas as línguas, e por que não havia de palpitar todo coração com o pulsar da gratidão pela sua bondade sem limites?
§845
De vós esses deveres de petição e de ação de graças, cada um contém muitos graus subordinados. A fim, portanto, de que os fiéis não apenas orem, mas também orem da melhor maneira possível, o pastor lhes proporá o modo mais perfeito de orar e os exortará a isso com o maior empenho. Qual é, pois, a melhor maneira e o grau mais elevado de oração? O que é praticado pelos piedosos e pelos justos que, assentados no fundamento sólido da verdadeira fé, sobem sucessivamente de um grau de pureza e de fervor na oração a outro, até que, por fim, alcançam aquela altura de perfeição de onde podem contemplar o poder infinito, a benevolência e a sabedoria de Deus; onde também se alegram com uma perspectiva luminosa e são animados pela esperança segura de obter não apenas os bens que ocupam seus desejos nesta vida, mas também as recompensas inefáveis que se estendem além dos confins deste mundo e que Deus se comprometeu a conceder àquele que piedosa e religiosamente implora o seu socorro. Elevando-se como que ao céu sobre estas duas asas, a alma aproxima-se, em ardente desejo, do trono da Divindade; adora com louvor extático e ação de graças aquele Ser Supremo de quem recebeu bens tão inestimáveis; e, como filho único animado de singular piedade e profunda veneração, descobre a seu Pai amadíssimo todas as suas necessidades. Este modo de oração, as Sagradas Escrituras o exprimem pela palavra "derramar": "Diante dele", diz o profeta, "derramo a minha oração e lhe manifesto a minha tribulação"; como se dissesse: "Dele nada suprimo, dele nada oculto, mas derramo toda a minha alma na oração, refugiando-me com confiança no seio de Deus, meu Pai amorosíssimo." A este santo exercício as Sagradas Escrituras nos exortam nestas palavras: "Derramai diante dele o vosso coração" e "lançai sobre o Senhor o vosso cuidado." É este o grau de oração a que alude Santo Agostinho quando diz: "O que a fé crê, isso a esperança e a caridade imploram."
§846
Outro grau de oração é o daqueles que, oprimidos pelo peso da culpa mortal, esforçam-se todavia com o que se chama fé morta para se levantarem de sua condição prostrada e ascenderem a Deus; mas, em razão de seu estado de languor e da extrema fraqueza de sua fé, não conseguem elevar-se da terra. Impressos com o justo sentimento da enormidade de seus crimes e feridos pelo remorso da consciência, inclinam-se com humildade e, por mais afastados que se encontrem d'Ele, imploram de Deus uma dor penitencial, o perdão de seus pecados e a paz da reconciliação. As orações de tais pessoas não são rejeitadas por Deus: Ele as ouve com benevolência; antes, em sua misericórdia, convida generosamente tais pecadores a recorrer a Ele: "Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Desta classe de pecadores era o publicano que, não ousando levantar os olhos para o céu, saiu do templo, como declara Nosso Senhor, mais justificado do que o fariseu.
§847
Um terceiro grau de oração é aquele que é oferecido por aqueles que ainda não foram iluminados com a luz da fé; mas que, enquanto a bondade divina acende em suas almas os fracos vislumbres da lei da natureza, são fortemente excitados ao desejo e à busca da verdade, chegar ao conhecimento da qual é o objeto de suas mais sinceras orações. Se perseverarem em tais disposições, Deus, em sua misericórdia, não negligenciará seus sinceros esforços, como vemos verificado pelo exemplo de Cornélio, o centurião; contra nenhum que sinceramente o deseja, as portas da misericórdia divina estão fechadas.
§848
O último grau é o daqueles que, não somente impenitentes, mas obstinados, acrescentando crime a crime e enormidade a enormidade, ousam não obstante pedir com frequência a Deus perdão pelos pecados em que estão resolvidos a perseverar. Com tais disposições e em tais circunstâncias, quem se atreveria a pedir perdão sequer a um semelhante? À oração de tais pecadores Deus fecha os ouvidos, como está escrito nas Escrituras a respeito de Antíoco: "Então este homem ímpio orou ao Senhor, de quem não havia de obter misericórdia." Quem quer que viva nesta lamentável condição deve ser exortado a arrancar de si todo afeto ao pecado e a converter-se a Deus com sinceridade e de todo o coração.
§849
Como, ao tratar de cada petição, indicaremos em seu devido lugar o que é e o que não é objeto próprio de oração, bastará aqui advertir os fiéis, em termos gerais, a pedir a Deus as coisas que são justas e boas; para que, suplicando o que não está conforme com Sua vontade conhecida, não lhes seja respondido com estas palavras: «Não sabeis o que pedis.» O que é lícito desejar, é lícito pedir: a promessa de nosso Senhor é irrestrita: «Pedireis tudo o que quiserdes, e vos será concedido» — palavras que asseguram todas as coisas à oração piedosa.
§850
Em primeiro lugar, pois, referir tudo a Deus, o Sumo Bem, o grande objeto do nosso amor, o centro de todos os nossos desejos, é o princípio que deve regular todos os nossos anseios. Em seguida, aquelas coisas que nos unem mais intimamente a Deus devem ser objeto dos nossos mais ardentes desejos; ao passo que aquelas que nos separariam d'Ele, ou ocasionariam essa separação, não devem ter lugar algum neles. Deste princípio podemos aprender como, depois do bem supremo e perfeito, devemos desejar e pedir a Deus nosso Pai aquelas outras coisas que se chamam bens. Quanto às que se denominam bens exteriores e, como se diz, pertencem ao corpo — tais como saúde, força, beleza, riquezas, honras, glória, que muitas vezes fornecem matéria e dão ocasião ao pecado, e que, portanto, nem sempre é piedoso nem salutar pedir —, não devem ser objeto das nossas orações sem esta restrição: que as peçamos por necessidade, referindo ao mesmo tempo a Deus o motivo da nossa oração. Não se pode considerar ilícito pedir aquelas coisas pelas quais Jacó e Salomão oraram. "Se", diz Jacó, "ele me der pão para comer e vestes para me cobrir, o Senhor será o meu Deus"; "Dá-me", diz Salomão, "somente o necessário para a vida." Todavia, enquanto somos providos pela bondade de Deus de alimento e vestido, não devemos esquecer a admoestação do Apóstolo: "Os que compram, sejam como se nada possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem; pois a figura deste mundo passa"; e ainda: "Se as riquezas abundarem, não ponhais nelas o coração." A nós pertence, portanto, apenas o uso e o proveito delas, com a obrigação, contudo, como aprendemos do próprio Deus, de partilhá-las com os indigentes. Se somos agraciados com saúde e força, se abundamos em outros bens externos e corporais, devemos lembrar que nos são concedidos a fim de nos habilitar a servir a Deus com maior fidelidade, e como meio de prestarmos auxílio às necessidades e carências dos outros.