Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§203 – §250
ARTIGO X.
«A REMISSÃO DOS PECADOS.»
§203
A simples enumeração deste entre os demais Artigos do Credo é por si só suficiente para nos persuadir de que encerra uma verdade que não é apenas, em si mesma, um mistério divino, mas também um mistério mui necessário à salvação. Já dissemos que, sem uma firme crença em todos os Artigos do Credo, a piedade cristã é inteiramente inatingível. Todavia, se uma verdade que deveria trazer evidência intrínseca a todo espírito parecer requerer alguma outra autoridade em seu apoio, basta que o próprio Redentor, pouco antes de sua ascensão ao céu, "abrindo o entendimento dos seus discípulos para que compreendessem as Escrituras", prestou testemunho a este Artigo do Credo nestas palavras: "Convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia, e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém." Basta que o pároco pese bem estas palavras, e facilmente perceberá que o Senhor lhe impôs uma obrigação sacratíssima, não só de dar a conhecer aos fiéis tudo o que concerne à religião em geral, mas também de explicar com particular esmero este Artigo do Credo. Sobre este ponto da doutrina, portanto, cabe ao pároco ensinar que não somente se encontra na Igreja Católica o "perdão dos pecados", como Isaías havia predito nestas palavras: "O povo que nela habita terá suas iniquidades removidas"; mas também que nela reside o poder de perdoar os pecados; poder esse que, se exercido devidamente e segundo as leis prescritas por Nosso Senhor, devemos crer ser tal que verdadeiramente perdoa e remite os pecados.
§204
Mas, quando pela primeira vez fazemos profissão de fé na pia batismal e somos purificados em suas águas lustradoras, recebemos esse perdão de modo pleno e absoluto; de sorte que nenhum pecado — original ou atual, de comissão ou de omissão — permanece a ser expiado, nem pena alguma a ser sofrida. A graça do batismo, contudo, não nos isenta de todas as enfermidades da natureza: pelo contrário, devendo cada um de nós combater os movimentos da concupiscência, que a todo momento nos tenta ao pecado, dificilmente se encontra entre nós quem lhe oponha resistência tão vigorosa, ou guarde com tanta vigilância a própria salvação, que escape a todos os laços de Satanás.
§205
Sendo, portanto, necessário que existisse na Igreja um poder de perdoar os pecados distinto do do Batismo, foram-lhe confiadas as chaves do reino dos céus, pelas quais cada um, se penitente, pode obter a remissão de seus pecados, ainda que tivesse sido pecador até o último dia de sua vida. Esta verdade é atestada pela mais incontestável autoridade das Sagradas Escrituras: em São Mateus, o Senhor diz a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus"; e ainda: "Tudo o que ligardes na terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligardes na terra será desligado também nos céus." Por sua vez, o testemunho de São João nos assegura que o Senhor, soprando sobre os Apóstolos, disse: "Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Nem o exercício deste poder se acha restrito a pecados determinados, pois nenhum crime, por mais hediondo que seja, pode ser cometido que a Igreja não tenha poder de perdoar; assim também não há pecador, por mais abandonado que esteja, nem por mais depravado que seja, que não deva esperar com confiança o perdão, desde que se arrependa sinceramente de suas transgressões passadas. Nem tampouco o exercício deste poder se acha restrito a tempos determinados; pois sempre que o pecador se afasta de seus maus caminhos, não deve ser rejeitado, como aprendemos da resposta de Nosso Senhor ao príncipe dos Apóstolos, que perguntava quantas vezes devemos perdoar a um irmão que nos ofende, se sete vezes: "Não somente sete vezes", diz o Redentor, "mas até setenta vezes sete."
§206
Mas se considerarmos os ministros, ou o modo pelo qual esse poder há de ser exercido, sua extensão não parecerá tão grande; pois é um poder não conferido a todos, mas somente aos bispos e sacerdotes; e os pecados só podem ser perdoados por meio dos Sacramentos, quando devidamente administrados. A Igreja não recebeu nenhum outro poder para remitir o pecado.
§207
Para elevar a admiração dos fiéis por este dom celestial, concedido à Igreja pela singular misericórdia de Deus para conosco, e para fazê-los aproximar-se do seu uso com sentimentos mais vivos de devoção, o pastor se esforçará por assinalar a dignidade e o alcance da graça que ele confere. Se há algum meio mais apto do que outro para atingir este fim, é mostrar cuidadosamente quão grande deve ser a eficácia daquilo que absolve do pecado e restaura o iníquo ao estado de justificação. Este é, manifestamente, um efeito do poder infinito de Deus, daquele mesmo poder que cremos ter sido necessário para ressuscitar os mortos e chamar a criação à existência. Mas se é verdade, como nos assegura a autoridade de Santo Agostinho, que reconduzir um pecador do estado de pecado ao da justiça é obra ainda maior do que criar o céu e a terra do nada — conquanto esta criação não possa ser senão efeito do poder infinito —, segue-se que temos razão ainda mais forte para considerar a remissão dos pecados como efeito procedente do exercício deste mesmo poder infinito. Com plena razão, portanto, declaram os antigos Padres que só Deus pode perdoar os pecados, e que a Sua infinita bondade e poder é que devem ser atribuídas obra tão admirável: "Eu sou aquele", diz o próprio Senhor pela boca do seu profeta, "eu sou aquele que apago as vossas iniquidades." A remissão dos pecados parece guardar exata analogia com o cancelamento de uma dívida pecuniária: assim como, portanto, ninguém senão o credor pode perdoar uma dívida pecuniária, assim a dívida do pecado, que devemos unicamente a Deus — e nossa oração diária é: "perdoai-nos as nossas dívidas" —, só por Ele pode ser perdoada, e por mais ninguém.
§208
Este admirável dom, esta emanação da bondade divina, jamais foi comunicado às criaturas antes que Deus se fizesse homem. Cristo, Nosso Senhor, embora verdadeiro Deus, foi o primeiro que, enquanto homem, recebeu esta sublime prerrogativa de seu Pai celestial: "Para que saibais", disse Ele ao paralítico, "que o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar pecados, levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa." Assim como, portanto, se fez homem para conceder ao homem este perdão dos pecados, comunicou este poder aos bispos e sacerdotes na Igreja, antes de subir aos céus, para assentar-se para sempre à direita de Deus. Cristo, porém, como já dissemos, remite o pecado em virtude de sua própria autoridade; todos os demais, em virtude de sua autoridade a eles delegada como seus ministros.
§209
Se, portanto, tudo quanto é efeito do poder infinito reclama a nossa mais elevada admiração e exige a nossa mais profunda reverência, devemos prontamente perceber que este dom, conferido à Igreja pela mão generosa de Cristo Nosso Senhor, é de um valor inestimável. O modo, também, pelo qual Deus, na plenitude de sua clemência paternal, resolveu cancelar os pecados do mundo deve mover poderosamente os fiéis à contemplação desta grande bênção: foi sua vontade que nossas ofensas fossem expiadas no sangue de seu Filho Unigênito, que Ele voluntariamente assumisse a imputabilidade de nossos pecados e sofresse uma morte crudelíssima; o justo pelos injustos, o inocente pelos culpados. Quando, portanto, consideramos que "não fostes remidos com coisas corruptíveis, como ouro ou prata, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem mancha", somos naturalmente levados a concluir que nenhum dom mais salutar poderíamos ter recebido do que este poder de perdoar os pecados, que proclama a inefável providência de Deus e o excesso de seu amor para conosco.
§210
Esta reflexão deve produzir em todos o mais abundante fruto espiritual; pois quem ofende a Deus, ainda que por um único pecado mortal, perde imediatamente todos os méritos que antes havia adquirido pelos sofrimentos e pela morte de Cristo, e fica inteiramente excluído da porta do céu, que, já fechada, foi aberta a todos pela paixão do Redentor. E, com efeito, quando este pensamento penetra no espírito, é impossível não se sentir tomado da mais profunda inquietação, contemplando o quadro da miséria humana que ele nos apresenta. Mas se voltarmos a atenção para este admirável poder com que Deus investiu a sua Igreja, e, na firme crença deste Artigo, nos convencermos de que a todo pecador são oferecidos os meios de recuperar, com o auxílio da graça divina, a sua antiga dignidade, já não podemos resistir a sentimentos de imensa alegria, de júbilo e de exultação, e devemos render graças imortais a Deus. Se, quando acometidos de grave enfermidade, os remédios preparados pela arte e diligência do médico nos costumam ser gratos e agradáveis, quanto mais gratos e agradáveis nos devem ser os remédios que a sabedoria de Deus estabeleceu para sarar as nossas enfermidades espirituais e restituir-nos à vida da graça; remédios que, ao contrário dos medicamentos usados para recuperar a saúde do corpo, não trazem consigo uma esperança incerta de cura, mas a saúde certa para quantos desejam ser curados.
§211
Os fiéis, pois, tendo formado um justo conceito da dignidade de tão excelente e elevada bênção, devem ser exortados a procurar dela fazer bom uso com espírito religioso; porquanto quem não se serve do que é verdadeiramente útil e necessário dá forte motivo para presumir que o despreza; tanto mais que, ao comunicar à Igreja o poder de perdoar os pecados, o Senhor o fez com o intento de que todos recorressem a este remédio salutar; pois assim como, sem o Batismo, ninguém pode ser purificado do pecado original, assim também, sem o sacramento da Penitência — outro meio instituído por Deus para purificar do pecado —, quem deseja recuperar a graça do Batismo, perdida pela culpa mortal atual, não pode recuperar a inocência perdida.
§212
Cumpre, porém, advertir os fiéis para que se acautelem contra o perigo de se tornarem mais propensos ao pecado ou lentos para a penitência, pela presunção de poderem sempre recorrer a este poder plenário de remitir os pecados, que — como já dissemos — não está limitado por tempo algum; pois tal propensão ao pecado os convicta manifestamente de proceder com injúria e contumácia para com esse poder divino, tornando-os, portanto, indignos da misericórdia de Deus; e essa lentidão no arrepender-se oferece grave motivo para recear que, surpreendidos pela morte, confessem em vão sua crença na remissão dos pecados, a qual sua tardança e procrastinação terão, por merecida razão, feito perder.
ARTIGO XI.
"A RESSURREIÇÃO DO CORPO."
§215
Que este Artigo fornece uma prova convincente da verdade de nossa fé é demonstrado pelo fato de não apenas ser proposto, nas Sagradas Escrituras, à crença dos fiéis, mas também estar corroborado por numerosos argumentos. Isso dificilmente se verifica com relação aos demais Artigos: circunstância que justifica a conclusão de que sobre ele, como sobre seu fundamento mais sólido, repousa nossa esperança de salvação; pois, segundo o raciocínio do Apóstolo: "Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou; e se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã é também a vossa fé." O zelo e a diligência do pastor em sua exposição não devem, portanto, ser inferiores ao esforço que a impiedade dispendeu em vãos empenhos para derrubar a sua verdade. Que vantagens eminentemente importantes decorrem para os fiéis do conhecimento deste Artigo ficará evidente pelo que se segue.
§216
E, em primeiro lugar, merece atenção o fato de que, neste Artigo, a ressurreição da humanidade seja denominada "ressurreição do corpo". Os Apóstolos tinham em vista — pois não é sem propósito — transmitir uma verdade importante: a imortalidade da alma. Para que, portanto, contrariamente às Sagradas Escrituras, que em muitos lugares ensinam ser a alma imortal, ninguém imaginasse que ela morre juntamente com o corpo e que ambos hão de ser ressuscitados, o Credo fala apenas da "ressurreição do corpo". A palavra "caro", empregada no símbolo, significa literalmente "carne": vocábulo que, embora de uso frequente na Escritura para significar o homem todo, alma e corpo, como em Isaías: "Toda a carne é erva", e em São João: "O Verbo se fez carne", é usada aqui, contudo, para exprimir somente o corpo; fazendo-nos assim compreender que, das duas partes constitutivas do homem, apenas uma, isto é, o corpo, se corrompe e retorna ao pó original, enquanto a alma permanece incorrupta e imortal. Assim como, sem morrer, não se pode dizer que um homem retorna à vida, do mesmo modo a alma, que nunca morre, não poderia, com propriedade, dizer-se que ressuscita. A palavra "corpo" é mencionada também para refutar a heresia de Himeneu e Fileto, que, em vida do Apóstolo, afirmavam que, sempre que as Escrituras falam da ressurreição, deve-se entendê-la não como ressurreição do corpo, mas como a da alma, pela qual esta se eleva da morte do pecado à vida da graça. As palavras deste Artigo refutam, portanto, claramente esse erro e estabelecem uma real ressurreição do corpo.
§217
Caberá, porém, ao pastor ilustrar esta verdade com exemplos tirados do Antigo e do Novo Testamento, bem como de toda a história eclesiástica. No Antigo Testamento, alguns foram restituídos à vida por Elias e Eliseu; e no Novo, além daqueles que foram ressuscitados por Nosso Senhor, muitos foram ressuscitados pelos Apóstolos e por outros. Sua ressurreição confirma a doutrina contida neste Artigo, pois, crendo que muitos foram chamados da morte à vida, somos também naturalmente levados a crer na ressurreição geral de todos; e o fruto principal que devemos extrair destes milagres é render a este Artigo a nossa crença mais inabalável. Aos pastores, ordinariamente versados nos Sagrados Volumes, muitas provas das Escrituras se apresentarão de imediato; mas, no Antigo Testamento, as mais conspícuas são as oferecidas por Jó, quando diz "que em sua carne verá a Deus"; e por Daniel quando, falando dos que "dormem no pó da terra", diz que "alguns despertarão para a vida eterna, outros para o eterno opróbrio". No Novo Testamento, as passagens principais são as de São Mateus, que registram a disputa que Nosso Senhor travou com os Saduceus, e as dos Evangelistas que se referem ao juízo final. A estas podemos ainda acrescentar o raciocínio preciso do Apóstolo sobre o assunto em suas epístolas aos Coríntios e aos Tessalonicenses.
§218
Mas, por mais incontestável que seja esta verdade estabelecida pela fé, será todavia de grande proveito mostrar, pela analogia e pela razão, que o que a fé propõe à nossa crença, a natureza reconhece estar de acordo com as suas leis, e a razão com os seus ditames. A quem perguntava como ressuscitariam os mortos, o Apóstolo responde: «Insensato! o que tu semeias não revive, se primeiro não morrer; e o que semeias não é o corpo que há de ser, mas um simples grão, de trigo, por exemplo, ou de alguma outra semente; Deus, porém, dá-lhe o corpo como quer.» E um pouco adiante: «Semeia-se na corrupção, ressuscitará na incorrupção.» São Gregório chama-nos a atenção para muitos outros argumentos de analogia que tendem ao mesmo fim: «O sol», diz ele, «é cada dia retirado dos nossos olhos, como se morresse, e é de novo trazido de volta, como se ressuscitasse; as árvores perdem o seu verdor e, como por uma ressurreição, o recuperam; as sementes morrem pela putrefação e ressuscitam pela germinação.»
§219
As razões aduzidas pelos escritores eclesiásticos são igualmente bem demonstradas e aptas a firmar esta verdade. Em primeiro lugar, sendo a alma imortal e tendo, enquanto parte do homem, uma propensão natural a unir-se ao corpo, a sua separação perpétua deste deve ser considerada contrária à natureza. Ora, como o que é contrário à natureza e faz violência às suas leis não pode ser permanente, parece congruente que a alma venha a reunir-se ao corpo; e, por conseguinte, que o corpo ressuscite. Este argumento o próprio Salvador empregou quando, na sua disputa com os saduceus, deduziu a ressurreição do corpo da imortalidade da alma.
§220
Ademais, como Deus, sumamente justo, reserva castigos para os maus e prêmios para os bons, e como muitíssimos dos primeiros partem desta vida sem serem punidos por seus crimes, e dos segundos sem serem recompensados por suas virtudes, a alma deverá reunir-se ao corpo, para que, como partícipe de seus crimes ou companheira de suas virtudes, se torne também partícipe de seus castigos ou de suas recompensas. Este aspecto da questão foi admiravelmente tratado por São João Crisóstomo em sua homilia ao povo de Antioquia. A este propósito, diz o Apóstolo, falando da ressurreição: "Se é somente nesta vida que temos esperança em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens." Estas palavras de São Paulo não podem ser entendidas como referentes à miséria da alma que, por ser imortal, é capaz de gozar a felicidade na vida futura ainda que o corpo não ressuscite; mas referem-se ao homem inteiro; pois, a menos que o corpo receba os prêmios devidos aos seus trabalhos, os que, como os Apóstolos, suportaram tantas aflições e calamidades nesta vida, seriam necessariamente "os mais miseráveis dos homens." Sobre este ponto o Apóstolo é muito mais explícito em sua carta aos Tessalonicenses: "Gloriamo-nos de vós", diz ele, "nas Igrejas de Deus, para que sejais julgados dignos do Reino de Deus, pelo qual também padeceis: pois é justo diante de Deus retribuir com tribulação os que vos atribulam; e a vós, que sois atribulados, descanso conosco, quando o Senhor Jesus se manifestar do céu com os anjos do seu poder, em chama de fogo, para dar o castigo aos que não conhecem a Deus e não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo."
§221
Ademais, enquanto a alma se acha separada do corpo, o homem não pode gozar da consumação da felicidade, repleta de todo bem; pois, assim como uma parte separada do todo é imperfeita, a alma separada do corpo há de ser imperfeita; e, portanto, para que nada falte ao pleno cumprimento de sua felicidade, é necessária a ressurreição do corpo. Com estes e semelhantes argumentos, o pastor poderá instruir os fiéis neste Artigo.
§222
Deve também explicar com diligência, baseando-se no Apóstolo, quem há de ressuscitar para a vida. Escrevendo aos Coríntios, São Paulo diz: "Assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados." Bons e maus, portanto, sem distinção, ressuscitarão todos dos mortos, ainda que a condição de todos não seja a mesma: os que houverem praticado o bem ressuscitarão para a ressurreição da vida; e os que houverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.
§223
Quando dizemos "todos", entendemos tanto os que hão de ter morrido antes do dia do juízo quanto os que então morrerão. Que a Igreja aquiesce na opinião que afirma morrerem todos sem distinção, e que esta opinião é mais conforme à verdade, é consignado pela pena de São Jerônimo, cuja autoridade é reforçada pela de Santo Agostinho. Tampouco o Apóstolo, em sua epístola aos Tessalonicenses, diverge desta doutrina, quando diz: "Os mortos que estão em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que restarmos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens ao encontro de Cristo, no ar." Santo Ambrósio, explicando estas palavras, diz: "Nesse próprio arrebatamento, a morte se antecipará como por um sono profundo, e a alma, tendo saído do corpo, nele instantaneamente retornará; pois os que estiverem vivos, ao serem arrebatados, morrerão, para que, chegando ao Senhor, recebam suas almas da Sua presença; porque na Sua presença não podem estar mortos." Esta opinião é reforçada pela autoridade de Santo Agostinho em seu livro sobre a Cidade de Deus.
§224
Mas, sendo de vital importância estar plenamente convicto de que o mesmo corpo que pertence a cada um de nós durante a vida, embora corrompido e dissolvido no pó original, há de ser novamente ressuscitado, este é também um assunto que exige explicação cuidadosa da parte do pastor. É uma verdade transmitida pelo Apóstolo nestas palavras: "É necessário que este ser corruptível se revista de incorruptibilidade"; designando enfaticamente, pela palavra "este", a identidade de nossos corpos. É também evidente pela profecia de Jó, da qual nada pode ser mais explícito: "Eu verei o meu Deus", diz ele, "e eu mesmo O verei, e meus próprios olhos O contemplarão, e não outro." Por fim, se considerarmos a própria definição de ressurreição, não poderemos, razoavelmente, conservar a menor sombra de dúvida sobre o assunto; pois a ressurreição, conforme a define Damasceno, é "um retorno ao estado do qual se caiu." Finalmente, se considerarmos os argumentos pelos quais já estabelecemos uma ressurreição futura, toda dúvida sobre o assunto há de dissipar-se imediatamente. Dissemos que o corpo há de ressuscitar, para que "cada um receba as coisas próprias do corpo, segundo o que fez, seja bem, seja mal." O homem, portanto, há de ressuscitar no mesmo corpo com o qual serviu a Deus ou foi escravo do demônio, para que no mesmo corpo experimente recompensas e a coroa da vitória, ou suporte os mais severos castigos e tormentos sem fim.
§225
Não somente o corpo ressurgirá, mas ressurgirá dotado de tudo quanto constitui a realidade de sua natureza e adorna e ornamenta o homem: conforme estas admiráveis palavras de Santo Agostinho: "Não haverá, então, deformidade alguma no corpo; se alguns foram sobrecarregados de carne, não retornarão com todo o seu peso; tudo quanto exceder a justa medida será considerado supérfluo. Por outro lado, se o corpo foi consumido pela malignidade da doença, pela debilidade da velhice ou enfraquecido por qualquer outra causa, será restaurado pelo poder divino de Jesus Cristo, que não só restituirá o corpo, mas reparará tudo quanto tiver perdido pela miséria desta vida." Em outro lugar ele diz: "O homem não retomará os cabelos que antes tinha, mas será adornado com os que lhe forem convenientes, segundo estas palavras do Redentor: Os cabelos de vossa cabeça estão todos contados: Deus os restituirá segundo a sua sabedoria."
§226
Os membros, por serem essenciais à integridade da natureza humana, serão todos restaurados: os cegos de nascença ou por doença, os coxos, os mutilados e os paralíticos ressuscitarão com corpos perfeitos; do contrário, os desejos da alma, que tão fortemente a inclinam para a união com o corpo, estariam longe de ser satisfeitos; e, no entanto, temos a convicção de que, na ressurreição, esses desejos serão plenamente realizados. Além disso, a ressurreição, à semelhança da criação, deve claramente ser contada entre as principais obras de Deus. Assim como, portanto, na criação, todas as coisas saíram perfeitas das mãos de Deus, assim também, na ressurreição, todas as coisas serão perfeitamente restauradas pela mesma mão onipotente.
§227
Estas observações não devem restringir-se aos corpos dos mártires, a respeito dos quais Santo Agostinho afirma: "Como as mutilações que sofreram seriam uma deformidade, ressuscitarão com todos os seus membros; do contrário, os que foram decapitados ressuscitariam sem cabeça. As cicatrizes, porém, que receberam, permanecerão, brilhando como as chagas de Cristo, com um esplendor muito mais refulgente do que o do ouro e das pedras preciosas." Os ímpios também ressuscitarão com todos os seus membros, ainda que os tenham perdido por culpa própria; pois quanto maior for o número de membros que possuírem, maiores serão os seus tormentos; e, portanto, esta restituição dos membros servirá para aumentar não a sua felicidade, mas a sua miséria. O mérito ou o demérito é atribuído não aos membros, mas à pessoa ao corpo da qual estão unidos: àqueles, pois, que tiverem feito penitência, ser-lhes-ão restituídos como fontes de recompensa; e àqueles que a tiverem desprezado, como instrumentos de castigo. Se o pároco der a estas coisas uma consideração madura, nunca lhe faltarão palavras nem pensamentos para mover os corações dos fiéis e acender neles a chama da piedade; a fim de que, considerando as tribulações desta vida, anseiem com ardente esperança pela bendita glória da ressurreição que aguarda os justos.
§228
Resta agora explicar aos fiéis, de modo inteligível, como o corpo, ao ressuscitar dos mortos, sendo substancialmente o mesmo, será diferente em muitos aspectos. Sem mencionar outros pontos, a grande diferença entre o estado de todos os corpos quando ressuscitarem e o que foram anteriormente consiste em que, antes da ressurreição, estavam sujeitos à corrupção; mas, uma vez reanimados, todos eles, sem distinção entre bons e maus, serão revestidos de imortalidade. Esta admirável restauração da natureza é fruto da gloriosa vitória de Cristo sobre a morte; como está escrito: "Lançará a morte de cabeça para baixo, para sempre"; e: "Ó Morte, serei a tua morte"; palavras que o Apóstolo assim explica: "e o último inimigo a ser destruído será a morte"; e São João também afirma: "Já não haverá morte." Há uma congruência especial entre a superioridade dos méritos de Cristo, pelos quais o poder da morte é destruído, e os funestos efeitos do pecado de Adão; e é conforme à justiça divina que os bons gozem de felicidade sem fim, enquanto os maus, condenados a tormentos eternos, "buscarão a morte e não a encontrarão; desejarão morrer e a morte fugirá deles." A imortalidade, portanto, será comum aos bons e aos maus.
§229
Além disso, os corpos dos santos, ao ressuscitarem, serão dotados de certas prerrogativas eminentes, que os elevarão muito acima de sua condição anterior. Entre essas prerrogativas, quatro são especialmente mencionadas pelos Padres, as quais eles deduzem da doutrina de São Paulo, e que recebem o nome de "dotes".
§230
A primeira é a "impassibilidade", que os colocará além do alcance de qualquer dor ou incômodo. Nem o rigor cortante do frio, nem a ardente intensidade do calor poderão afetá-los, nem a impetuosidade das águas lhes causará dano. "Semeia-se", diz o Apóstolo, "na corrupção; ressuscitará na incorrupção." Esta qualidade, os escolásticos denominam impassibilidade, e não incorruptibilidade, a fim de distingui-la como propriedade peculiar ao corpo glorificado. Os corpos dos condenados, embora incorruptíveis, não serão impassíveis: serão capazes de sentir o calor e o frio, e de experimentar a dor.
§231
A qualidade seguinte é o "resplendor", pelo qual os corpos dos santos hão de brilhar como o sol, conforme as palavras do nosso Senhor registradas no Evangelho de São Mateus: "Os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai." Para afastar qualquer possibilidade de dúvida a esse respeito, Ele nos deixou uma ilustração esplêndida desta gloriosa qualidade em Sua transfiguração. Esta qualidade o Apóstolo ora chama de glória, ora de resplendor: "Ele transformará o corpo da nossa humilhação, configurando-o ao corpo da sua glória"; e ainda: "É semeado na ignomínia, ressurgirá na glória." Desta glória os israelitas contemplaram alguma imagem no deserto, quando o rosto de Moisés, depois de ter estado na presença de Deus e de ter conversado com Ele, brilhava com tão fulgurante claridade que não podiam olhá-lo. Este resplendor é como que uma refulgência refletida pela suprema felicidade da alma — uma emanação da bem-aventurança de que ela goza e que irradia através do corpo. A sua comunicação é análoga ao modo pelo qual a própria alma se torna feliz pela participação na felicidade de Deus. Ao contrário da qualidade anterior, esta não é comum a todos no mesmo grau. É verdade que todos os corpos dos santos serão igualmente impasíveis; mas o resplendor de todos não será o mesmo; pois, segundo o Apóstolo: "Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; pois estrela de estrela difere em glória: assim também é a ressurreição dos mortos."
§232
A esta qualidade une-se aquela que se denomina "agilidade", pela qual o corpo será libertado do peso que agora o oprime e adquirirá a capacidade de mover-se com a máxima facilidade e celeridade, para onde quer que a alma o queira, como ensina Santo Agostinho em seu livro sobre a Cidade de Deus e São Jerônimo no comentário a Isaías. Daí estas palavras do Apóstolo: "É semeado na fraqueza, ressuscitará no poder."
§233
Outra qualidade é a da "sutileza"; qualidade que sujeita o corpo ao domínio absoluto da alma e à obediência completa de seu controle: conforme inferimos destas palavras do Apóstolo: "Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual." Estes são os principais pontos nos quais o pastor porá ênfase na exposição deste Artigo.
§234
Para que os fiéis saibam qual fruto hão de colher do conhecimento de tantos e tão sublimes mistérios, o pastor proclamará, em primeiro lugar, que a Deus, que ocultou essas coisas aos sábios e as revelou aos pequeninos, devemos uma dívida de gratidão sem limites! Quantos homens, eminentes pelo saber e pela erudição, jamais chegaram ao conhecimento desta verdade? Conscientes, pois, da especial predileção que Ele nos dispensou, ao nos revelar esta verdade sublime — nós, que jamais poderíamos aspirar a tal conhecimento —, cumpre-nos efundir a nossa gratidão em incessantes louvores à sua bondade e clemência.
§235
Uma outra vantagem importante a ser colhida da profunda reflexão sobre este Artigo é que nele encontraremos um bálsamo para curar o espírito ferido, quando lamentamos a perda daqueles que nos eram caros pela amizade ou nos eram unidos pelo sangue; bálsamo que o próprio Apóstolo ministrou aos tessalonicenses ao escrever-lhes "a respeito dos que dormiam".
§236
Mas em todas as nossas aflições e calamidades, o pensamento da ressurreição futura deve trazer alívio ao coração atribulado; como aprendemos pelo exemplo de Jó, que se sustentou sob um acúmulo de aflições e de dores, unicamente pela esperança de, um dia, ressurgir do sepulcro e contemplar o Senhor seu Deus.
§237
Deve também constituir um poderoso incentivo para que os fiéis se esforcem por levar uma vida de retidão e integridade, imaculada pela mácula do pecado; pois, se refletirem que aquelas riquezas de valor inefável, que Deus há de conceder a seus fiéis servos após a ressurreição, lhes são agora propostas como recompensa, encontrarão nessa reflexão o mais forte estímulo para viver com virtude e santidade. Por outro lado, nada terá maior eficácia para refrear as paixões e afastar as almas do pecado do que lembrar frequentemente ao pecador as misérias e tormentos com que a justiça de Deus há de castigar os réprobos, que, no último dia, ressuscitarão para a ressurreição do juízo.
ARTIGO XII.
"VIDA ETERNA."
§240
A sabedoria dos Apóstolos, nossos guias na religião, lhes sugeriu a conveniência de colocar este Artigo em último lugar no Símbolo da Fé, que é o resumo de nossa fé; primeiramente, porque, após a ressurreição do corpo, o único objeto da esperança do cristão é o galardão da vida eterna; e em segundo lugar, para que a felicidade perfeita, que abraça em si a plenitude de todos os bens, esteja sempre presente em nossas mentes e absorva todos os nossos pensamentos e afetos. Em suas instruções aos fiéis, o pastor se esforçará, portanto, incessantemente, por acender em suas almas um ardente desejo dos prêmios prometidos da vida eterna; para que assim considerem leves, e até agradáveis, quaisquer dificuldades que experimentem na prática da religião, e prestem a Deus uma obediência mais pronta e integral.
§241
Mas, como muitos mistérios se ocultam sob as palavras aqui empregadas para declarar a felicidade que nos está reservada, cumpre explicá-las de modo que se tornem inteligíveis a todos, na medida em que a capacidade de cada um o permitir. Deve-se, pois, instruir os fiéis de que as palavras "vida eterna" não significam apenas aquela continuidade de existência à qual os demônios e os ímpios estão condenados, mas também aquela perpetuidade de felicidade destinada a saciar os desejos dos bem-aventurados. Neste sentido as entendeu o "doutor" mencionado no Evangelho, quando perguntou ao Redentor: "Senhor, que farei para possuir a vida eterna?" Como se dissesse: que farei para chegar ao gozo da felicidade eterna? Neste sentido são entendidas nas Sagradas Escrituras, como resulta claro da referência a muitas passagens da Escritura. A suprema felicidade dos bem-aventurados é assim designada principalmente para excluir a ideia de que ela consiste em coisas corporais e transitórias, as quais não podem ser eternas.
§242
A palavra "bem-aventurança" é insuficiente para exprimir a ideia, tanto mais que não faltaram homens que, inflados pelas vãs opiniões de uma falsa filosofia, situavam o bem supremo nas coisas sensíveis; estas, porém, envelhecem e perecem, ao passo que a felicidade suprema não é limitada por nenhum termo de tempo. Mais ainda: tão longe está o gozo dos bens desta vida de conferir a verdadeira felicidade, que, pelo contrário, aquele que é cativado pelo amor do mundo está o mais afastado possível da felicidade verdadeira; pois está escrito: "Não ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo; se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele"; e, um pouco adiante: "O mundo passa, e a sua concupiscência também." O pastor, portanto, terá o cuidado de gravar estas verdades no espírito dos fiéis, para que aprendam a desprezar as coisas terrenas e a compreender que, neste mundo, no qual não somos cidadãos, mas peregrinos, a felicidade não pode ser encontrada. Todavia, mesmo aqui na terra, podemos dizer com verdade que somos felizes na esperança; "se, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivemos neste mundo com sobriedade, justiça e piedade, aguardando a bem-aventurada esperança e o advento do grande Deus e Salvador nosso Jesus Cristo." Muitos "que a si mesmos pareciam sábios", não compreendendo estas coisas e imaginando que a felicidade devia ser buscada nesta vida, tornaram-se insensatos e vítimas das mais lamentáveis desgraças.
§243
Estas palavras, "Vida eterna", ensinam-nos também que, ao contrário das falsas noções de alguns, a felicidade uma vez alcançada jamais pode ser perdida. A felicidade é uma acumulação de bens sem mistura de mal, a qual, por encher a medida dos desejos do homem, há de ser eterna. Aquele que é abençoado com o seu gozo desejará ardentemente a sua continuidade, e, se ela fosse transitória e incerta, experimentaria necessariamente o tormento de uma apreensão contínua.
§244
A intensidade da felicidade que os justos desfrutam em sua pátria celestial, e sua absoluta incompreensibilidade para todos, exceto para eles mesmos, são suficientemente transmitidas pelas próprias palavras aqui empregadas para exprimir essa felicidade. Quando, para expressar uma ideia, nos servimos de um termo comum a muitos outros, fazemo-lo porque não dispomos de vocábulo próprio com que a exprimir clara e plenamente. Quando, portanto, para expressar a felicidade, adotamos palavras igualmente aplicáveis a todos os que hão de viver eternamente, assim como aos bem-aventurados, somos levados a concluir que a ideia apresenta ao espírito algo por demais grandioso, por demais sublime, para ser plenamente expresso por um termo próprio. É verdade que a felicidade do céu é expressa na Sagrada Escritura por uma variedade de outras palavras, tais como "Reino de Deus", "de Cristo", "dos céus", "Paraíso", "a Cidade Santa", "a Nova Jerusalém", "a casa de meu Pai"; contudo, é evidente que nenhuma dessas denominações é suficiente para transmitir uma ideia adequada de sua grandeza.
§245
O pastor, portanto, não deixará de aproveitar a oportunidade que este Artigo oferece para convidar os fiéis à prática da piedade, da justiça e de todas as demais virtudes, apresentando-lhes as tão amplas recompensas anunciadas nas palavras "vida eterna". Entre os bens que por instinto desejamos, a vida é, reconhecidamente, considerada um dos maiores: é principalmente por ela que, ao dizermos "vida eterna", expressamos a felicidade dos justos. Se, pois, durante este breve e agitado período da nossa existência, sujeito a tantas e tão variadas vicissitudes que mais pode chamar-se morte do que vida, não há nada a que nos apeguemos com tanto afeto, nada que amemos tão ternamente quanto a vida; com que ardor de alma, com que seriedade de propósito não deveríamos buscar aquela felicidade eterna que, sem qualquer mescla de mal, nos oferece o gozo puro e pleno de todo bem? A felicidade da vida eterna é, conforme a definem os Santos Padres, "a isenção de todo mal e o gozo de todo bem". Que ela é uma isenção de todo mal, as Escrituras o declaram nos termos mais explícitos: "Já não terão fome nem sede", diz São João, "nem o sol cairá sobre eles, nem calor algum"; e ainda: "Deus enxugará toda lágrima de seus olhos; a morte não existirá mais, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as coisas antigas passaram". Mas a glória dos bem-aventurados será sem medida, e suas alegrias e prazeres sólidos, sem número. A mente é incapaz de compreender ou conceber a grandeza desta glória: ela só pode ser conhecida por sua fruição, isto é, entrando no gozo do Senhor e saciando assim plenamente os desejos do coração humano. Embora, como observa Santo Agostinho, pareça mais fácil enumerar os males dos quais seremos isentos do que os bens e prazeres que havemos de gozar, devemos todavia procurar explicar, de modo breve e claro, aquelas coisas que são capazes de inflamar os fiéis com o desejo de alcançar o gozo desta felicidade suprema.
§246
Antes de procedermos a esta explicação, faremos uso de uma distinção consagrada pelos mais eminentes escritores em matéria de religião: a de que existem dois tipos de bens, um constitutivo e outro acompanhante da felicidade. Ao primeiro, por maior clareza, chamaram essencial; ao segundo, acessório. A felicidade sólida, que podemos designar pelo nome comum de "essencial", consiste na visão de Deus e no gozo de sua beleza eterna, que é fonte e princípio de toda bondade e perfeição: "Esta", diz o Senhor, "é a vida eterna: que vos conheçam a vós, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviastes." São João parece interpretar este pensamento quando diz: "Caríssimos! Somos agora filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é." Estas palavras nos ensinam que a felicidade do céu consiste em duas coisas: ver a Deus tal como ele é em sua própria natureza e substância, e ser feito semelhante a ele.
§247
Aqueles que gozam da visão beatífica, conservando embora a própria natureza, revestir-se-ão de uma forma admirável e quase divina, de tal modo que parecerão antes deuses que homens. Por que assumem essa forma, torna-se imediatamente compreensível, se considerarmos apenas que toda coisa se conhece pela sua essência ou pela sua semelhança e aparência exterior. Mas como nada se assemelha a Deus de modo a proporcionar, por essa semelhança, um conhecimento perfeito d'Ele, nenhuma criatura pode contemplar a sua natureza e essência divinas, a menos que seja admitida pela Divindade a uma espécie de união consigo mesma; segundo estas palavras de São Paulo: "Vemos agora por um espelho, em enigma, mas então veremos face a face." As palavras "em enigma", Santo Agostinho as entende no sentido de que O vemos numa semelhança ordenada a nos dar alguma noção, ainda que tênue, da Divindade. Isso o mostra claramente São Dionísio, quando diz: "As coisas superiores não podem ser conhecidas por comparação com as inferiores; pois a essência e a substância de qualquer coisa incorpórea deve ser conhecida por meio do que é corpóreo: sobretudo porque uma semelhança há de ser menos grosseira e mais espiritual do que aquilo que representa, como sabemos pela experiência universal. Uma vez que, portanto, não podemos encontrar nenhuma coisa criada igualmente pura e espiritual como Deus, nenhuma semelhança nos poderá habilitar a compreender perfeitamente a essência divina." Ademais, todas as criaturas estão circunscritas dentro de certos limites de perfeição; Deus, porém, não é circunscrito por limite algum, e portanto nenhuma criatura pode refletir a sua imensidade. O único meio, pois, de chegar ao conhecimento da essência divina é que Deus se una de algum modo a nós e, de maneira incompreensível, eleve nossas mentes a um grau superior de perfeição, tornando-nos assim capazes de contemplar a beleza de sua natureza. Isso realizará a luz da glória: iluminados pelo seu esplendor, veremos a Deus, luz verdadeira, na sua própria luz. Os bem-aventurados veem Deus sempre presente, e por esse dom, o maior e o mais sublime de todos — "tornados participantes da natureza divina" —, gozam de felicidade verdadeira e sólida. Nossa crença nesta verdade deve, portanto, ser animada por uma esperança firme de que um dia alcançaremos, pela bondade divina, o mesmo feliz destino; segundo estas palavras do Credo Niceno: "Espero a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro." São verdades divinas que desafiam os poderes da linguagem humana e ultrapassam os limites da compreensão humana. Podemos, contudo, entrever alguma semelhança desta feliz transformação nas coisas sensíveis: assim como o ferro, quando submetido ao fogo, torna-se incandescente e, permanecendo substancialmente o mesmo, parece converter-se em fogo, que é substância diferente; assim também os bem-aventurados, admitidos à glória do céu e abrasados no amor de Deus, embora não deixem de ser os mesmos, são contudo afetados de tal maneira que se pode dizer com verdade que diferem mais dos habitantes desta terra do que o ferro incandescente difere de si mesmo quando frio.
§248
Para dizê-lo em poucas palavras: a felicidade suprema e absoluta, que chamamos de essencial, consiste na posse de Deus; pois que pode faltar para consumar sua felicidade àquele que possui a Deus, fonte de todo bem e plenitude de toda perfeição?
§249
Mas como muitos mistérios se ocultam sob as palavras aqui empregadas para declarar a felicidade que nos está reservada, devem elas ser explicadas de modo a torná-las inteligíveis a todos, na medida em que suas respectivas capacidades o permitam. Cumpre, portanto, informar os fiéis de que as palavras "vida eterna" não significam apenas aquela continuidade de existência à qual os demônios e os ímpios são destinados, mas também aquela perpetuidade de felicidade que há de satisfazer os desejos dos bem-aventurados. Neste sentido as entendeu o "doutor da Lei" mencionado no Evangelho, quando perguntou ao Redentor: "Senhor, que farei para possuir a vida eterna?" Como se dissesse: que farei para chegar ao gozo da felicidade eterna? Neste sentido são compreendidas nos Livros Sagrados, como se depreende de numerosas passagens da Escritura. A suprema felicidade dos bem-aventurados é assim designada principalmente para excluir a ideia de que ela consiste em bens corporais e transitórios, os quais não podem ser eternos.
§250
Mas quão insigne não há de ser a honra conferida pelo próprio Deus, que já não os chama servos, mas amigos, irmãos e filhos de Deus! Por isso, o Redentor dirigirá aos seus eleitos estas palavras, que ao mesmo tempo respiram amor infinito e exprimem a mais alta honra: "Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado." Com razão, pois, podemos exclamar com o Salmista: "Os teus amigos, ó Deus, são sobremaneira honrados." Receberão também os mais elevados louvores de Cristo Senhor, na presença do seu Pai celestial e diante dos exércitos reunidos do céu. E, se a natureza entreteceu no coração humano o desejo da honra, sobretudo quando conferida por homens eminentes pelo saber — que são, por isso mesmo, as mais autorizadas testemunhas do mérito —, que acréscimo de glória não será para os bem-aventurados o manifestarem mutuamente a mais alta veneração?