Doutrina da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V

§101 – §150

§101

Ademais, para maior grandeza deste mistério, Cristo não somente padeceu pelos pecadores, mas os próprios autores e ministros de todos os tormentos que sofreu eram pecadores. Disso nos adverte o Apóstolo nestas palavras dirigidas aos Hebreus: "Considerai atentamente aquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos canseis, desfalecendo em vossos ânimos." Nesta culpa estão envolvidos todos os que caem frequentemente no pecado; pois, assim como nossos pecados condenaram Cristo Nosso Senhor à morte de cruz, certamente aqueles que se revolvem no pecado e na iniquidade, quanto depende deles, "crucificam de novo em si mesmos o Filho de Deus e o expõem ao escárnio". Esta nossa culpa torna-se ainda mais grave quando comparada à dos judeus: segundo o testemunho do Apóstolo, "se eles o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da Glória"; nós, ao contrário, professando conhecê-lo e todavia renegando-o por nossas obras, parecemos, de algum modo, lançar-lhe as mãos com violência.

§102

Que Cristo Senhor foi também entregue à morte pelo Pai e por si mesmo, aprendemo-lo destas palavras de Isaías: "Por causa da iniquidade do meu povo o feri"; e um pouco antes, quando, cheio do Espírito de Deus, contempla o Senhor coberto de chagas e feridas, o mesmo profeta diz: "Todos nós, como ovelhas, nos desviamos, cada um se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez recair sobre ele as iniquidades de todos nós." Mas do Salvador está escrito: "Se ele der a sua vida pelo pecado, verá uma descendência longeva." Isto o Apóstolo exprime em linguagem ainda mais forte, quando, por outro lado, deseja mostrar-nos com que confiança devemos confiar na bondade e misericórdia sem limites de Deus: "Aquele que não poupou nem o seu próprio Filho", diz o Apóstolo, "mas o entregou por todos nós, como não nos dará também, com ele, todas as coisas?"

§103

O tema seguinte da instrução pastoral é a amargura da Paixão do Redentor. Se, porém, tivermos presente que "o seu suor se tornou como gotas de sangue, escorrendo até o chão", e isso à simples antecipação dos tormentos e da agonia que em breve haveria de suportar, devemos imediatamente perceber que as suas dores não admitiam acréscimo algum; pois se, e esse suor de sangue o proclama, a simples ideia dos males iminentes era tão avassaladora, o que nos é dado supor que terá sido o seu efetivo padecimento?

§104

Que Nosso Senhor suportou os mais atrozes tormentos de alma e de corpo é coisa por demais manifesta. Em primeiro lugar, não houve parte alguma do Seu corpo que não experimentasse o mais lancinante suplício: as mãos e os pés foram pregados com cravos na cruz; a cabeça foi trespassada por espinhos e golpeada com uma cana; o rosto foi coberto de saliva e ferido com bofetadas; todo o corpo foi retalhado por açoites. Também homens de todas as condições e categorias se reuniram "contra o Senhor e contra o Seu Cristo". Judeus e gentios foram os conselheiros, os autores, os executores da Sua Paixão; Judas O traiu; Pedro O renegou; todos os demais O abandonaram; e, enquanto Ele está suspenso no instrumento do Seu suplício, hesitamos em deplorar mais a Sua agonia ou a Sua ignomínia, ou ambas a um tempo. Certamente, nenhuma morte mais infamante, nenhuma mais cruel poderia ter sido concebida do que aquela que era o castigo ordinário dos mais culpados e atrozes malfeitores — uma morte cuja longa duração agravava a prolongação de sua dor requintada e de seu tormento dilacerante! A Sua agonia foi ainda aumentada pela própria constituição e compleição do Seu corpo. Formado pelo poder do Espírito Santo, era mais perfeito e mais organizado do que o podem ser os corpos dos outros homens, e estava, por isso, dotado de uma sensibilidade superior à dor e de uma percepção mais viva dos tormentos que suportava. E quanto à Sua angústia interior de alma, também ela foi, sem dúvida, extrema; pois aqueles dentre os santos que tiveram de suportar tormentos e torturas não careceram de consolações vindas do alto, as quais os habilitaram não só a suportar pacientemente a violência dos sofrimentos, mas, em muitos casos, a sentir, no próprio meio deles, uma alegria interior. "Alegro-me", diz o Apóstolo, "nos meus sofrimentos por vós, e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do Seu corpo, que é a Igreja"; e em outro lugar: "Estou repleto de consolação; transborda a minha alegria em toda a nossa tribulação." Cristo Nosso Senhor não temperou com nenhum acréscimo de doçura o amargo cálice da Sua Paixão; mas permitiu que a Sua natureza humana sentisse com toda a acuidade cada espécie de tormento, como se fosse apenas homem, e não também Deus.

§105

As bênçãos e vantagens que fluem para o gênero humano da paixão de Cristo restam ainda por ser explicadas. Em primeiro lugar, a paixão de Nosso Senhor foi a nossa libertação do pecado; pois, como diz São João: "Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu próprio sangue"; "Ele vos vivificou juntamente com ele", diz o Apóstolo, "perdoando-vos todas as ofensas, apagando o escrito do decreto que havia contra nós, o qual nos era contrário, e o suprimiu, pregando-o à cruz." Ele nos resgatou da tirania do demônio, pois o próprio Nosso Senhor diz: "Agora é o juízo do mundo; agora o príncipe deste mundo será lançado fora; e eu, quando for levantado da terra, atrairei tudo a mim." Ele satisfez a pena devida aos nossos pecados e, como nenhum sacrifício mais grato e aceitável poderia ter sido oferecido a Deus, reconciliou-nos com o Pai, aplacou a sua ira e propiciou a sua justiça. Por fim, expiando os nossos pecados, abriu-nos o céu, que havia sido fechado pelo pecado comum do gênero humano, segundo estas palavras do Apóstolo: "Temos, portanto, irmãos, confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Cristo."

§106

Pois tampouco nos falta, na antiga lei, um tipo e figura deste mistério; aqueles a quem era proibido regressar à sua pátria antes da morte do sumo sacerdote prefiguravam que, enquanto o sumo e eterno Sumo Sacerdote, Cristo Jesus, não houvesse morrido, e por sua morte não houvesse aberto o céu àqueles que, purificados pelos sacramentos e dotados de fé, esperança e caridade, se tornam participantes de sua paixão, ninguém, por mais justa que tivesse sido a sua vida, poderia obter entrada em sua pátria celestial.

§107

O pastor ensinará que todos esses inestimáveis e divinos benefícios nos provêm da paixão de Cristo; primeiramente, porque a satisfação que Jesus Cristo ofereceu, de modo admirável, ao seu Eterno Pai pelos nossos pecados é plena e completa; e o preço que ele pagou pelo nosso resgate não apenas iguala, mas excede em muito as dívidas por nós contraídas. Ademais, o sacrifício foi assaz agradável a Deus, pois, ao ser oferecido por seu Filho no altar da cruz, aplacou inteiramente a sua ira e indignação. É o que o Apóstolo ensina quando diz: "Cristo nos amou e se entregou por nós, como oblação e sacrifício a Deus em odor de suavidade." Acerca da redenção que ele adquiriu, o príncipe dos Apóstolos diz: "Não fostes remidos com coisas corruptíveis, como ouro e prata, da vossa vã conversação segundo a tradição de vossos pais; mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem mancha." Além desses inestimáveis benefícios, recebemos ainda outro de suma importância. Na paixão somente, temos o mais ilustre exemplo do exercício de todas as virtudes. A paciência, a humildade, a sublime caridade, a mansidão, a obediência e a inabalável firmeza de alma — não apenas no sofrimento pela justiça, mas também no encontro com a morte — resplandeceram de tal modo no Salvador padecente, que bem podemos dizer que, naquele único dia da sua paixão, ele ofereceu, em sua própria pessoa, uma exemplificação viva de todos os preceitos morais que inculcara durante o tempo inteiro do seu ministério público. Esta exposição da paixão salvífica de Cristo Nosso Senhor apresentamos brevemente. Oxalá que esses mistérios estivessem sempre presentes em nossas mentes, e que aprendêssemos a sofrer, a morrer e a ser sepultados com Cristo; a fim de que, purificados das manchas do pecado e ressuscitando com ele para a novidade de vida, possamos enfim, por sua graça e misericórdia, ser encontrados dignos de participar da glória do seu reino celestial.

ARTIGO V

§109

"ELE DESCEU AOS INFERNOS; E AO TERCEIRO DIA RESSUSCITOU DOS MORTOS."

§110

"DESCEU AOS INFERNOS"] Conhecer a glória da sepultura de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual acabamos de tratar, é de suma importância; mas de ainda maior importância é, para os fiéis, conhecer os esplêndidos triunfos que Ele obteve, havendo subjugado o demônio e despojado os poderes do inferno. Desses triunfos, e também da Sua ressurreição, passamos agora a tratar; e, embora esta última nos apresente um assunto que poderia, com propriedade, ser tratado sob um título separado e distinto, julgamos prudente, seguindo o exemplo dos santos Padres, incorporá-la ao tratado da Sua descida aos infernos.

§111

Na primeira parte deste Artigo professamos, portanto, que, imediatamente após a morte de Cristo, sua alma desceu ao inferno e ali permaneceu, enquanto seu corpo repousava no sepulcro; e também que a mesma Pessoa de Cristo estava, ao mesmo tempo, no inferno e no sepulcro. Nem deve isso causar-nos admiração, pois já dissemos repetidas vezes que, embora sua alma se houvesse separado de seu corpo, a divindade jamais se separou nem da alma nem do corpo.

§112

Mas, como o pároco, ao explicar o significado da palavra inferno neste lugar, pode lançar considerável luz sobre a exposição deste Artigo, cumpre observar que pela palavra inferno não se entende aqui o sepulcro, como alguns imaginaram, não menos impiedosa do que ignorantemente; pois, no Artigo precedente, aprendemos que Cristo foi sepultado, e não havia razão alguma para que os Apóstolos, ao enunciar um artigo de fé, repetissem a mesma coisa em termos diferentes e mais obscuros. Inferno, portanto, significa aqui aquelas moradas ocultas em que se detêm as almas que não foram admitidas às regiões da bem-aventurança; sentido em que a palavra é frequentemente empregada na Sagrada Escritura. Assim, diz o Apóstolo que "ao nome de Jesus todo joelho se dobre, dos que estão no céu, na terra e no inferno"; e nos Atos dos Apóstolos, Pedro afirma que Cristo Senhor ressuscitou, "tendo desatado as dores do inferno".

§113

Essas moradas não são todas da mesma natureza, pois entre elas se encontra aquela prisão sombria e abominável em que as almas dos condenados jazem com os espíritos imundos, em fogo eterno e inextinguível. Essa terrível morada chama-se Geena, o poço sem fundo e, em sentido estrito, é o que propriamente se designa por inferno. Entre elas encontra-se também o fogo do purgatório, no qual as almas dos justos são purificadas por uma pena temporal, a fim de serem admitidas em sua pátria eterna, "na qual nada de manchado pode entrar." A verdade desta doutrina, fundada, como declaram os santos concílios, na Sagrada Escritura e confirmada pela tradição apostólica, exige uma exposição diligente e frequente, proporcional às circunstâncias dos tempos em que vivemos, quando os homens não suportam a sã doutrina. Por último, o terceiro gênero de morada é aquele em que foram recebidas as almas dos justos que morreram antes de Cristo, e onde, sem experimentar qualquer espécie de pena e sustentadas pela bendita esperança da redenção, gozavam de sossegado repouso. Para libertar essas almas que, no seio de Abraão, aguardavam o Salvador, Cristo Senhor desceu ao inferno.

§114

Mas não devemos imaginar que somente o seu poder e a sua virtude desceram; antes, devemos crer firmemente que também a sua alma desceu real e substancialmente ao inferno, conforme este concludente testemunho de Davi: "Não deixarás a minha alma no inferno." Contudo, embora Cristo tenha descido ao inferno, o seu poder soberano permaneceu o mesmo, nem o esplendor de sua santidade foi em grau algum obscurecido. A sua descida serviu antes para confirmar a verdade de tudo quanto já foi dito acerca de sua santidade, e para demonstrar que, assim como ele havia provado antes por tantos milagres, era verdadeiramente o Filho de Deus.

§115

Compreenderemos isso facilmente comparando a descida de Cristo, em suas causas e circunstâncias, com a dos justos. Estes desceram como cativos: Ele desceu como livre e vitorioso entre os mortos, para subjugar aqueles demônios pelos quais, em consequência da culpa original, eram mantidos em cativeiro. Aqueles desceram, uns para suportar os mais agudos tormentos, outros, embora isentos de dor efetiva, privados porém da visão de Deus e da glória pela qual suspiravam, e entregues ao tormento da expectativa; Cristo Senhor desceu, não para sofrer, mas para libertar do sofrimento os santos e os justos que se achavam retidos em penoso cativeiro, e para lhes comunicar o fruto da sua paixão. A sua soberana dignidade e poder, portanto, não sofreram diminuição alguma pela sua descida ao inferno.

§116

Explicadas essas coisas, o pároco passará em seguida a ensinar que o Filho de Deus desceu ao inferno a fim de que, revestido dos despojos do arqui-inimigo, conduzisse ao céu aqueles santos padres e as demais almas justas, cuja libertação da prisão ele já havia resgatado. Isso o realizou de maneira admirável e gloriosa, pois sua augusta presença derramou de uma vez um esplendor celestial sobre os cativos, encheu-os de alegria inefável e lhes conferiu aquela suma felicidade que consiste na visão de Deus; cumprindo assim a promessa feita ao ladrão na cruz: "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso." Esta libertação dos justos fora predita muito antes por Oseias nestas palavras: "Ó Morte! serei a tua morte; ó Inferno! serei a tua ruína"; e também pelo profeta Zacarias: "Tu também, pelo sangue do teu testamento, tiraste os teus prisioneiros do lago onde não há água"; e, por fim, o mesmo exprime o Apóstolo com estas palavras: "Despojando os principados e potestades, expô-los publicamente, triunfando deles em si mesmo."

§117

Todavia, para compreendermos com ainda maior clareza a eficácia deste mistério, devemos recordar com frequência que não somente aqueles que nasceram depois da vinda do Salvador, mas também aqueles que a precederam desde os dias de Adão, ou que a sucederão até a consumação dos séculos, estão incluídos na redenção obtida pela morte de Cristo. Antes de sua morte e ressurreição, o céu estava fechado para todo filho de Adão; as almas dos justos, ao partirem desta vida, eram levadas ao seio de Abraão; ou, como ainda ocorre com aqueles que necessitam ser purificados das manchas do pecado, ou que morrem devedores à justiça divina, eram purificadas no fogo do purgatório.

§118

Há ainda outra razão pela qual Cristo desceu aos infernos: para que ali, assim como no céu e na terra, proclamasse o Seu poder e autoridade; e para que "todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra se dobrasse ao Seu nome." E aqui, quem não se enche de admiração e assombro ao contemplar o infinito amor de Deus para com o homem! Não satisfeito com haver suportado, por nossa causa, uma morte crudelíssima, penetra nas mais íntimas entranhas da terra para conduzir à bem-aventurança as almas que tão ternamente amou e cuja libertação da prisão alcançara ao preço do Seu sangue!

§119

Passamos agora à segunda parte do Artigo, e quão infatigáveis devem ser os esforços do pastor em sua exposição, aprendemo-lo destas palavras do Apóstolo a Timóteo: "Lembra-te de que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou dos mortos" — palavras dirigidas, sem dúvida, não somente a Timóteo, mas a todos os que têm cura de almas. O sentido do Artigo é o seguinte: depois que Cristo Senhor expirou na cruz no sexto dia, à hora nona, e foi sepultado na tarde do mesmo dia por seus discípulos, que, com licença do governador Pilatos, depositaram o corpo do Senhor, tirado da cruz, num sepulcro novo num jardim próximo, sua alma se reuniu ao seu corpo na manhã do terceiro dia após a sua morte, isto é, no dia do Senhor; e assim aquele que estivera morto durante aqueles três dias voltou à vida e saiu dos braços do sepulcro. Pela palavra ressurreição, porém, não devemos entender apenas que Cristo foi ressuscitado dos mortos — prerrogativa que teve em comum com muitos outros —, mas que ressuscitou por seu próprio poder e virtude, singular prerrogativa que lhe é exclusiva; pois é incompatível com a nossa natureza, e jamais foi dado ao homem ressuscitar-se, por seu próprio poder, da morte para a vida. Este era um exercício de poder reservado à mão onipotente de Deus, como declaram estas palavras do Apóstolo: "pois, ainda que foi crucificado por fraqueza, vive pelo poder de Deus." Este poder divino, não tendo jamais se separado nem de seu corpo enquanto no sepulcro, nem de sua alma enquanto desunida do corpo, existia em ambos e conferiu a ambos a capacidade de se reunirem; e assim o Filho de Deus, por seu próprio poder, voltou à vida e ressuscitou dos mortos. Isso Davi predissera quando, cheio do Espírito de Deus, profetizou nestas palavras: "A sua destra operou a salvação, e o seu braço é santo." Temo-lo também dos lábios divinos do próprio Redentor: "Dou a minha vida", diz ele, "para a retomar; e tenho poder de a dar, e poder de a retomar." Aos judeus também disse, em confirmação de sua doutrina: "Destruí este templo, e em três dias o reedificarei." Embora os judeus o houvessem entendido como referência ao magnífico templo de Jerusalém, construído de pedra, contudo, como testemunha a Escritura no mesmo lugar, "ele falava do templo do seu corpo." Lê-se às vezes, é verdade, na Escritura, que foi ressuscitado pelo Pai; mas isso se refere a ele enquanto homem; ao passo que as passagens que, por outro lado, dizem que ressuscitou por seu próprio poder, referem-se a ele enquanto Deus.

§120

É também privilégio peculiar de Cristo ter sido o primeiro a gozar dessa prerrogativa divina de ressuscitar dos mortos, pois na Escritura é chamado "o primogênito dos mortos" e também "o primogênito dentre os mortos"; diz ainda o Apóstolo: "Cristo ressuscitou dos mortos, sendo as primícias dos que dormem; pois por um homem veio a morte, e por um homem a ressurreição dos mortos; e assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados; mas cada um em sua ordem: as primícias, Cristo; depois os que são de Cristo, os que creram em sua vinda." Estas palavras do Apóstolo devem ser entendidas de uma ressurreição perfeita, pela qual somos ressuscitados para a vida eterna, não estando mais sujeitos à morte. Nesta ressurreição Cristo Senhor ocupa o primeiro lugar; pois, se falamos de ressurreição, isto é, de um retorno à vida sujeito à necessidade de morrer novamente, muitos foram assim ressuscitados dos mortos antes de Cristo; todos eles, porém, foram restituídos à vida para tornar a morrer; mas Cristo Senhor, tendo vencido a morte, ressuscitou para não morrer mais, segundo este claro testemunho do Apóstolo: "Cristo, ressuscitando dos mortos, já não morre mais; a morte não terá mais domínio sobre ele."

§121

"O TERCEIRO DIA"] Ao explicar estas palavras adicionais do Artigo, o pároco informará o povo que Cristo não permaneceu no sepulcro durante os três dias inteiros; porém, como jazeu no sepulcro durante um dia natural completo, durante parte do dia anterior e parte do dia seguinte, diz-se, com plena verdade, que esteve sepultado por três dias e que, no terceiro dia, ressuscitou dos mortos. Para manifestar a sua divindade, não diferiu a sua ressurreição até ao fim do mundo; ao mesmo tempo, para provar a sua humanidade e a realidade da sua morte, não ressuscitou imediatamente, mas no terceiro dia após a sua morte, período de tempo suficiente para demonstrar que havia verdadeiramente morrido.

§122

Aqui os Padres do primeiro Concílio de Constantinopla acrescentaram as palavras "segundo as Escrituras", que receberam da tradição apostólica e incorporaram ao Símbolo, pois o mesmo Apóstolo ensina a absoluta necessidade do mistério da ressurreição quando diz: "Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação e vã também é a vossa fé, pois ainda estais nos vossos pecados." Por isso, admirando a nossa crença neste Artigo, diz Santo Agostinho: "Pouco importa crer que Cristo morreu; isso creem os pagãos, os judeus e todos os ímpios; em suma, todos creem que Cristo morreu; mas que ele ressuscitou dos mortos, isso é crença dos cristãos; crer que ressuscitou, isso julgamos de grande importância." Daí ser que Nosso Senhor falou mui frequentemente a seus discípulos de sua ressurreição, e raramente ou nunca de sua paixão sem fazer menção da sua ressurreição. Assim, quando disse: "O Filho do Homem será entregue aos gentios, e será escarnecido, flagelado e cuspido; e depois de o haverem flagelado, o matarão", acrescentou: "e ao terceiro dia ressuscitará." Do mesmo modo, quando os judeus lhe pediam que confirmasse a verdade de sua doutrina por algum sinal miraculoso, disse ele: "Não lhes será dado sinal senão o sinal de Jonas profeta; pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no seio da terra."

§123

Para compreender ainda melhor a força e o sentido deste Artigo, há três coisas que requerem atenta consideração: primeiro, a necessidade da ressurreição; segundo, o seu fim e objeto; terceiro, os benefícios e vantagens de que ela é para nós a fonte. Quanto ao primeiro ponto, era necessário que ele ressuscitasse, a fim de manifestar a justiça de Deus; pois era sumamente congruente que aquele que, por obediência a Deus, fora humilhado e coberto de ignomínia, por ele fosse exaltado. Esta é a razão indicada pelo Apóstolo em sua Epístola aos Filipenses: "Humilhou-se a si mesmo," diz ele, "fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz; pelo que também Deus o exaltou." Ressuscitou também para confirmar a nossa fé, que é necessária para a justificação: a ressurreição de Cristo dentre os mortos pelo próprio poder constitui uma prova irrefutável da sua divindade. Ela nutre e sustenta igualmente a nossa esperança, pois, assim como Cristo ressuscitou, apoiamo-nos na firme esperança de que também nós ressuscitaremos; os membros devem necessariamente chegar à condição do seu cabeça. É a conclusão que São Paulo extrai do raciocínio que desenvolve nas suas Epístolas aos Coríntios e aos Tessalonicenses; e Pedro, o príncipe dos Apóstolos, diz: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que segundo a sua grande misericórdia nos regenerou para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível." Por fim, a ressurreição do Senhor, como o pastor inculcará, foi necessária para completar o mistério da nossa salvação e redenção: pela sua morte, Cristo nos libertou do cativeiro do pecado, e pela sua ressurreição nos restituiu os mais importantes daqueles privilégios que havíamos perdido pelo pecado. Daí estas palavras do Apóstolo: "Foi entregue por causa dos nossos pecados e ressuscitou por causa da nossa justificação." Para que, portanto, nada faltasse à obra perfeita da nossa salvação, era necessário que, assim como morreu, também ressuscitasse dentre os mortos.

§124

Do que foi dito podemos perceber as importantes vantagens que a ressurreição de Nosso Senhor conferiu aos fiéis; em sua ressurreição, o reconhecemos como Deus imortal, cheio de glória, vencedor da morte e do inferno; e isso devemos crer firmemente e professar abertamente de Cristo Jesus.

§125

Ademais, a ressurreição de Cristo opera a nossa ressurreição não somente como causa eficiente, mas também como modelo. Assim, no que diz respeito à ressurreição do corpo, temos este testemunho do Apóstolo: "por um homem veio a morte, e por um homem a ressurreição dos mortos." Para realizar em todas as suas partes o mistério da nossa redenção, Deus serviu-se da humanidade de Cristo como instrumento eficiente; e por isso a ressurreição dele é a causa eficiente da nossa. É também o seu modelo: a ressurreição de Cristo foi a mais perfeita de todas; e assim como o seu corpo, ressurgindo para a glória imortal, foi transformado, assim também os nossos corpos, antes frágeis e mortais, serão restaurados e revestidos de glória e imortalidade: nas palavras do Apóstolo, "esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo humilde, configurando-o ao seu corpo glorioso."

§126

O mesmo se pode dizer de uma alma morta no pecado: como a ressurreição de Cristo lhe é proposta como modelo de sua própria ressurreição, aprendemo-lo do mesmo Apóstolo, quando diz: "Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida; porque se fomos unidos a Ele numa morte semelhante à Sua, também o seremos numa ressurreição semelhante"; e um pouco adiante: "sabendo que Cristo, ressuscitando dos mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre Ele; porque, quanto ao morrer, morreu ao pecado uma vez; mas quanto ao viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus Nosso Senhor."

§127

Da ressurreição de Cristo devemos, portanto, extrair duas importantes lições: a primeira, que, depois de lavarmos as manchas do pecado, devemos começar a viver uma vida nova, distinta pela integridade, pela inocência, pela santidade, pela modéstia, pela justiça, pela beneficência e pela humildade; a segunda, que devemos perseverar de tal modo nessa novidade de vida que, com o auxílio divino, jamais nos desviemos dos caminhos da virtude em que uma vez ingressamos.

§128

Nem as palavras do Apóstolo provam apenas que a ressurreição de Cristo nos é proposta como modelo de nossa ressurreição; elas declaram também que ela nos confere o poder de ressuscitar, e nos comunica força e ânimo para perseverar na santidade e na justiça e na observância dos mandamentos de Deus. Assim como a sua morte não somente nos oferece um exemplo, mas também nos supre de forças para morrermos ao pecado, assim também a sua ressurreição nos fortalece para alcançarmos a justiça; a fim de que, adorando a Deus com piedade e santidade, caminhemos na novidade de vida à qual ressuscitamos; pois o Redentor alcançou, principalmente por sua ressurreição, que nós, que antes com ele morremos ao pecado e ao mundo, ressuscitemos também com ele a uma nova disciplina e modo de vida.

§129

As principais provas desta ressurreição do pecado que merecem atenção estão contidas nestas palavras do Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus." Aqui ele nos declara claramente que aqueles cujo desejo de vida, de honras, de riquezas e de repouso se dirige principalmente ao lugar onde Cristo habita, verdadeiramente ressuscitaram com ele. Mas quando acrescenta: "Pensai nas coisas do alto, não nas da terra", propõe isso como que um outro critério pelo qual podemos verificar se verdadeiramente ressuscitamos com Cristo; pois, assim como o apetite pelos alimentos indica um estado saudável do corpo, também no que respeita à alma, se apreciamos "tudo o que é verdadeiro, tudo o que é digno, tudo o que é justo, tudo o que é santo", e experimentamos em nós o sabor da doçura das coisas celestiais, podemos considerar isso uma prova muito sólida de que ressuscitamos com Cristo para uma vida nova e espiritual.

ARTIGO VI.

§131

"SUBIU AOS CÉUS, ONDE ESTÁ SENTADO À DIREITA DE DEUS PAI TODO-PODEROSO."

§132

"SUBIU AOS CÉUS"] Cheio do Espírito de Deus e contemplando a bem-aventurada e gloriosa ascensão de Nosso Senhor ao céu, o profeta Davi exorta a todos a celebrar esse esplêndido triunfo com a maior alegria e júbilo: "Batei palmas," disse ele, "todas as nações, aclamai a Deus com voz de júbilo. Deus subiu entre aclamações, e o Senhor ao som de trombeta." O pároco aprenderá daí a obrigação que lhe é imposta de explicar este mistério com assídua e incessante diligência, e de ter especial cuidado para que os fiéis não apenas o contemplem com a luz da fé e do entendimento, mas ainda mais, que — tanto quanto esteja em seu poder — se empenhem, com o auxílio divino, em refletir a sua imagem em sua vida e em suas obras.

§133

No que se refere, pois, à exposição deste sexto Artigo, que diz respeito principalmente ao divino mistério da Ascensão, começaremos pela sua primeira parte, indicando a sua força e o seu significado. Os fiéis devem crer sem hesitação que Jesus Cristo, tendo plenamente cumprido a obra da redenção, subiu ao céu, enquanto homem, em corpo e alma; pois, enquanto Deus, jamais deixou o céu, visto que com a sua divindade a todos os lugares enche.

§134

O pastor deve também ensinar que Ele subiu por poder próprio, e não pelo poder de outrem, como fez Elias, arrebatado ao céu num carro de fogo; ou como o profeta Habacuc; ou Filipe, o diácono, que foram transportados pelo ar pelo poder divino e percorreram regiões distantes da terra. Nem ascendeu ao céu unicamente pelo exercício do Seu poder supremo enquanto Deus, mas também em virtude do poder que possuía enquanto homem; pois, embora o poder humano por si só fosse insuficiente para ressuscitá-Lo dos mortos, a virtude de que estava dotada a santíssima alma de Cristo era capaz de mover o corpo como lhe aprouvesse, e o Seu corpo, já glorificado, obedecia prontamente ao impulso do seu domínio. Por isso cremos que Cristo ascendeu ao céu, como Deus e como homem, por poder próprio. Passamos agora à segunda parte do Artigo.

§135

"ESTÁ SENTADO À DIREITA DE DEUS PAI TODO-PODEROSO"] Nestas palavras observamos um tropo, isto é, a mudança de uma palavra do seu sentido literal para um sentido figurado, coisa não rara na Escritura, quando, acomodando a sua linguagem às ideias humanas, atribui a Deus afetos e membros humanos, sendo ele espírito e não admitindo nada de corpóreo. Mas, assim como entre os homens aquele que se senta à direita é considerado o que ocupa o lugar mais honroso, assim, transportando a ideia para as coisas celestes, a fim de exprimir a glória que Cristo, enquanto homem, desfruta acima de todos os demais, professamos que ele está sentado à direita de seu Pai Eterno. Isso, porém, não implica posição nem figura de corpo, mas declara a posse firme e permanente do poder e da glória régia e suprema que recebeu do Pai; como diz o Apóstolo: "ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, poder, virtude e dominação, e de todo nome que se nomeia, não somente neste século, mas também no futuro; e tudo sujeitou debaixo dos seus pés." Estas palavras manifestamente implicam que esta glória pertence ao nosso Senhor de maneira tão singular que não pode coexistir com a natureza de qualquer outro ser criado; e por isso, em outro lugar, o Apóstolo pergunta: "A qual dos anjos disse ele alguma vez: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés?"

§136

O pároco explicará o sentido do Artigo de modo mais amplo, detalhando a história da Ascensão, da qual o evangelista São Lucas nos deixou uma admirável descrição nos Atos dos Apóstolos. Em sua exposição, observará, em primeiro lugar, que todos os demais mistérios se referem à Ascensão como ao seu fim e consumação; assim como todos os mistérios da religião têm início com a Encarnação de Nosso Senhor, assim também a sua permanência na terra se conclui com a sua Ascensão ao céu. Ademais, os outros Artigos do Credo, que dizem respeito a Cristo Senhor, manifestam a sua profunda humildade e abatimento: nada se pode conceber mais humilde, nada mais abatido, do que o fato de o Filho de Deus ter assumido a fragilidade de nossa carne, ter sofrido e morrido por nós; mas nada proclama de modo mais magnífico, nada mais admiravelmente, a sua soberana glória e divina majestade, do que o que se contém no presente e nos precedentes artigos, nos quais declaramos que ele ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e agora está sentado à direita de seu Eterno Pai.

§137

Quando o pastor tiver explicado com precisão essas verdades, informará em seguida os fiéis sobre o motivo pelo qual Nosso Senhor subiu aos céus. Ele subiu porque o glorioso reino dos céus altíssimos, e não o obscuro habitáculo desta terra, apresentava morada conveniente àquele cujo corpo glorificado, ressurgindo do túmulo, se havia revestido de imortalidade. Subiu, não somente para ocupar o trono de glória e o reino que adquiriu ao preço de seu sangue, mas também para prover a tudo quanto diz respeito à salvação do seu povo. Subiu, para demonstrar com isso que "o seu reino não é deste mundo", pois os reinos deste mundo são terrenos e transitórios, fundados sobre a riqueza e o poder da carne; mas o reino de Cristo não é, como esperavam os judeus, um reino terreno, e sim espiritual e eterno. As suas riquezas também são espirituais, como ele mostra colocando o seu trono nos céus, onde os que buscam com maior ardor as coisas de Deus abundam mais em riquezas e em plenitude de todos os bens, conforme estas palavras de São Tiago: "Porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?"

§138

Subiu também aos céus, a fim de nos ensinar a segui-lo até lá com o espírito e o coração; pois assim como, pela sua morte e ressurreição, nos deixou o exemplo de morrermos e ressuscitarmos em espírito, assim também, pela sua ascensão, nos ensina, ainda que habitando na terra, a elevarmo-nos em pensamento e desejo ao céu, "confessando que somos peregrinos e forasteiros na terra, em busca de uma pátria"; "concidadãos dos santos e familiares de Deus"; "pois", diz o mesmo Apóstolo, "a nossa pátria está nos céus."

§139

A extensão e a grandeza inefável das bênçãos que a bondade de Deus nos prodigalizou com mão generosa foram, muito antes, como o Apóstolo as interpreta, cantadas por Davi nestas palavras: "Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens." No décimo dia após a sua Ascensão, enviou o Espírito Santo, com cuja força e plenitude encheu a multidão dos fiéis então presentes, cumprindo a sua esplêndida promessa: "É conveniente para vós que eu vá; porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se eu for, eu vo-lo enviarei." Subiu também ao céu, segundo o Apóstolo, "para interceder por nós diante de Deus" e exercer em nosso favor o ofício de advogado junto ao Pai: "Filhinhos meus," diz São João, "escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados." Nada há de que os fiéis devam extrair maior alegria do que da consideração de que Jesus Cristo está constituído como nosso advogado e intercessor junto ao Pai, junto ao qual a sua influência e autoridade são supremas.

§140

Finalmente, por sua ascensão, preparou para nós um lugar, como havia prometido, e entrou, como nossa cabeça, em nome de todos nós, na posse da glória do céu. Subindo aos céus, abriu suas portas, que haviam sido fechadas pelo pecado de Adão; e, conforme predisse a seus discípulos na última Ceia, assegurou-nos o caminho pelo qual podemos chegar à felicidade eterna. Para demonstrar isso pelo próprio fato, introduziu consigo, nas moradas da bem-aventurança eterna, as almas dos justos que havia libertado do cárcere.

§141

Uma série de importantes vantagens se seguiu a essa admirável profusão de dons celestiais: em primeiro lugar, o mérito de nossa fé foi consideravelmente acrescido; porque a fé tem por objeto aquelas coisas que não caem sob os sentidos e estão muito acima do alcance da razão e da inteligência humanas. Se, portanto, o Senhor não tivesse partido de nós, o mérito de nossa fé não seria o mesmo, pois Jesus Cristo disse: "Bem-aventurados os que não viram e creram." Em segundo lugar, isso contribui muito para confirmar nossa esperança: crendo que Cristo, enquanto homem, subiu ao céu e colocou nossa natureza à direita de Deus Pai, somos animados por uma firme esperança de que nós, como membros, também ascenderemos até lá, para sermos unidos ao nosso cabeça, conforme estas palavras do próprio Nosso Senhor: "Pai, quero que onde eu estiver, estejam também comigo os que me deste."

§142

Outra vantagem de suma importância, que decorre da Ascensão, é elevar nossos afetos ao céu e inflamá-los com o Espírito de Deus; pois foi dito com toda a verdade: "onde está o nosso tesouro, aí também está o nosso coração." Com efeito, se Cristo Senhor habitasse na terra, a contemplação de sua pessoa e o gozo de sua presença absorveriam todos os nossos pensamentos, e veríamos o autor de tais bênçãos apenas como homem, nutrindo por Ele uma espécie de afeição terrena. Mas, ao subir ao céu, Ele espiritualizou o nosso amor por sua pessoa, fazendo-nos venerar e amar como Deus Aquele que, ausente aos sentidos, é objeto dos nossos pensamentos. Aprendemos isso, em parte, pelo exemplo dos Apóstolos, os quais, enquanto o Senhor estava pessoalmente presente entre eles, pareciam julgá-Lo de algum modo segundo a carne; e, em parte, pelas próprias palavras do Senhor: "É conveniente para vós que Eu vá." A afeição com que O amavam quando presente devia ser aperfeiçoada pelo amor divino, e isso pela vinda do Espírito Santo; por isso, Ele acrescenta imediatamente: "Se Eu não for, o Paráclito não virá a vós."

§143

Ademais, assim ampliou a sua morada na terra, isto é, a sua Igreja, que havia de ser governada pelo poder e pela direção do Espírito Santo; e deixou Pedro, príncipe dos Apóstolos, como pastor principal e suprema cabeça, na terra, da Igreja universal. "A uns, deu para serem Apóstolos; a outros, Profetas; a outros, Evangelistas; e a outros, Pastores e Doutores"; e, assim, assentado à direita do Pai, distribui continuamente diferentes dons a diferentes homens, segundo as palavras de São Paulo: "A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo." Por fim, o que já foi dito da sua morte e ressurreição, os fiéis o considerarão não menos verdadeiro acerca da sua ascensão; pois, ainda que devamos a nossa redenção e salvação à paixão de Cristo, cujos méritos abriram o céu aos justos, a sua ascensão não nos é proposta somente como modelo que nos ensina a elevar os olhos ao alto e a subir em espírito ao céu, mas também nos confere uma virtude divina que nos capacita a realizar o que ensina.

ARTIGO VII.

§145

"DE LÁ HÁ DE VIR PARA JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS."

§146

JESUS CRISTO está revestido de três eminentes ofícios e funções: os de Redentor, Advogado e Juiz. Mas, como nos artigos precedentes mostramos que o gênero humano foi remido pela sua paixão e morte, e como, pela sua ascensão ao céu, é manifesto que ele assumiu a perpétua advocacia e proteção da nossa causa, segue-se que neste artigo devemos expor o seu caráter de juiz. O alcance e o propósito do artigo é declarar que, no último dia, ele julgará o gênero humano. As Sagradas Escrituras nos informam de que há duas vindas de Cristo: uma, quando assumiu a carne humana, para a nossa salvação, no seio de uma virgem; outra, quando virá, no fim do mundo, para julgar a humanidade. Esta vinda é chamada nas Escrituras "o dia do Senhor": "O dia do Senhor", diz o Apóstolo, "virá como ladrão na noite"; e o próprio Senhor diz: "Daquele dia e hora ninguém sabe." Para prova do juízo final, basta aduzir a autoridade do Apóstolo: "Todos nós", diz ele, "havemos de comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que merece, segundo o que fez durante a vida no corpo, quer bem quer mal." As Sagradas Escrituras abundam em testemunhos no mesmo sentido, que o pároco encontrará por toda parte ao longo do sagrado volume, e que não somente estabelecem a verdade do dogma, mas também o colocam em vivas cores diante dos olhos dos fiéis: para que, assim como desde o princípio o dia do Senhor, em que ele se revestiu da nossa carne, foi suspirado por todos como o fundamento de sua esperança de libertação, assim também, após a morte e ascensão do Filho de Deus, o segundo dia do Senhor possa ser objeto dos nossos mais ardentes desejos; "aguardando a bem-aventurada esperança e a manifestação da glória do grande Deus."

§147

Mas, para melhor explicação deste assunto, cumpre ao pároco distinguir dois momentos distintos em que cada um deve comparecer diante de Deus para dar conta de todos os seus pensamentos, palavras e ações, e receber da boca do seu juiz a sentença correspondente. O primeiro é quando cada um parte desta vida; pois é imediatamente conduzido ao tribunal de Deus, onde tudo o que tiver feito, dito ou pensado ao longo da vida será submetido ao mais rigoroso exame; e este é chamado juízo particular. O segundo é quando, no mesmo dia e no mesmo lugar, todos os homens se apresentarão juntos diante do tribunal do seu juiz, para que, na presença e ao ouvido do mundo congregado, cada um conheça a sua sentença definitiva — anúncio que constituirá não pequena parte da dor e do castigo dos ímpios e da remuneração e das recompensas dos justos, quando o teor da vida de cada homem aparecer em sua verdadeira luz. Este é chamado juízo geral; e é dever indispensável do pároco mostrar por que, além do juízo particular de cada indivíduo, deve também ser proferido um juízo geral sobre o mundo reunido. A primeira razão funda-se em circunstâncias que devem aumentar as recompensas ou agravar os castigos dos mortos. Os que partem desta vida deixam por vezes após si filhos que imitam a conduta de seus pais, dependentes, seguidores e outros que admiram e defendem o exemplo, a linguagem e a conduta daqueles de quem dependem e cujo exemplo seguem; e como a influência boa ou má do exemplo, afetando a conduta de muitos, somente há de cessar com este mundo, a justiça exige que, para se formar um reto juízo das ações boas ou más de todos, seja realizado um juízo geral.

§148

Ademais, como o caráter dos virtuosos frequentemente padece de deturpação, enquanto o dos ímpios obtém o louvor da virtude, a justiça de Deus exige que os primeiros recuperem, na presença e com o sufrágio de um mundo congregado, a boa fama de que haviam sido injustamente privados diante dos homens.

§149

Além disso, como os bons e os maus praticam suas ações boas e más não sem a cooperação do corpo, essas ações são comuns ao corpo como seu instrumento; e o corpo, portanto, deve participar com a alma nos prêmios eternos da virtude, ou nos castigos perpétuos do vício; e isso somente pode ser realizado por meio de uma ressurreição geral e de um julgamento universal.

§150

Por fim, era necessário demonstrar que, na prosperidade e na adversidade — que constituem às vezes a sorte comum dos bons e dos maus —, tudo é ordenado por uma Providência sumamente sábia, justa e soberana. Fazia-se necessário, portanto, não somente que prêmios e castigos nos aguardassem na vida futura, mas que fossem distribuídos por um julgamento público e universal, a fim de que sejam mais conhecidos e evidentes a todos; e que, em reparação das queixas murmurantes às quais, vendo os ímpios abundarem em riquezas e florescerem nas honras, até os próprios Santos, como homens, por vezes deram expressão, um tributo de louvor seja oferecido por todos à justiça e à providência de Deus. "Meus pés", diz o Profeta, "quase vacilaram, meus passos quase escorregaram; porque me indignei por causa dos ímpios, vendo a prosperidade dos pecadores." E pouco adiante: "Eis que estes são pecadores, e, no entanto, abundando no mundo, alcançaram riquezas; e eu disse: em vão, pois, justifiquei o meu coração e lavei as minhas mãos entre os inocentes; e tenho sido flagelado todo o dia, e o meu castigo vem pela manhã." Esta tem sido a queixa frequente de muitos, e um juízo universal é, portanto, necessário, a fim de que os homens não sejam tentados a dizer que Deus, "passeando pelos polos do céu", não olha para a terra. Com sabedoria, pois, essa verdade foi incluída entre os doze artigos do credo cristão, para que, se alguém for tentado a duvidar por um momento, sua fé seja confirmada pelas razões satisfatórias que esta doutrina oferece à mente. Além disso, os justos devem ser animados pela esperança, e os ímpios aterrados pelo temor de um juízo futuro; para que, conhecendo a justiça de Deus, os primeiros não se desalentem, e, temendo os seus juízos eternos, os últimos sejam afastados dos caminhos do vício. Por isso, falando do último dia, Nosso Senhor e Salvador declara que um juízo universal haverá de ter lugar, e descreve os sinais de sua aproximação, a fim de que, ao vê-los, saibamos que o fim do mundo está próximo. Também na sua Ascensão, para consolar os Apóstolos, oprimidos de tristeza com a sua partida, Ele enviou Anjos, que lhes disseram: "Este Jesus, que foi tomado de vós para o céu, assim virá como O vistes subir ao céu."

Referência atual: §101