Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§351 – §400
§351
Sétimo efeito do batismo. Entre as muitas outras vantagens que nos advêm do batismo, podemos considerar como a última, à qual todas as demais parecem se ordenar, a de que ele nos abre as portas do Céu, que o pecado havia fechado contra a nossa entrada. Todos esses efeitos, que são operados em nós em virtude deste Sacramento, estão claramente assinalados pelas circunstâncias que, conforme narra o Evangelho, acompanharam o batismo de nosso Salvador. Os céus se abriram e o Espírito Santo apareceu descendo sobre Cristo Nosso Senhor em forma de pomba; pelo que nos é dado compreender que aos batizados são comunicados os dons do Espírito Santo, que a eles se desdobram as portas do Céu, abrindo-lhes a entrada para a glória; não imediatamente após o batismo, é verdade, mas a seu tempo, quando, libertos das misérias desta vida, incompatíveis com o estado de bem-aventurança, trocarem a vida mortal pela imortal.
§352
A eficácia do Sacramento é comum a todos, não assim os seus dons e graças. Estes são os frutos do batismo que, no que diz respeito à eficácia do Sacramento, são sem dúvida comuns a todos; mas no que diz respeito às disposições com que é recebido, é igualmente certo que nem todos participam em igual medida desses dons e graças celestiais.
§353
As orações, ritos e cerimônias do Batismo, a serem explicados. Resta agora explicar, de modo claro e conciso, o que diz respeito às orações, ritos e cerimônias deste Sacramento. Aos ritos e cerimônias pode aplicar-se, em certa medida, o que diz o Apóstolo a respeito do dom de línguas: que não aproveita falar, se aquele que ouve não compreende. Eles apresentam uma imagem e transmitem o significado das realidades que se operam no Sacramento; mas se o povo não compreender a sua força e significado, pouco proveito poderão trazer. Fazê-los compreender, portanto, e gravar nas mentes dos fiéis a convicção de que, embora não sejam de necessidade absoluta, são de grande importância e merecem grande veneração, são matérias que solicitam o zelo e a diligência do pastor. Isso o demonstram suficientemente tanto a autoridade daqueles que os instituíram — que foram, sem dúvida, os Apóstolos — quanto o próprio fim da sua instituição. Que as cerimônias contribuem para uma administração mais religiosa e santa dos sacramentos, que servem para apresentar aos olhos dos assistentes uma viva imagem dos elevados e inestimáveis dons que eles encerram, e que imprimem nas mentes dos fiéis um sentido mais profundo da ilimitada bondade de Deus, são verdades tão evidentes quanto indubitáveis.
§354
Reduzido a três pontos. Para que o pároco possa seguir em suas exposições uma certa ordem e para que o povo encontre maior facilidade em recordar suas instruções, todas as cerimônias e orações que a Igreja emprega na administração do batismo devem ser reduzidas a três pontos. O primeiro compreende aquelas que se observam antes de chegar à pia batismal; o segundo, as que se usam junto à pia; o terceiro, as que se seguem imediatamente à administração do Sacramento.
§355
I. A água, sua consagração. Em primeiro lugar, a água a ser usada no batismo deve ser previamente preparada: a água batismal é consagrada com o óleo da unção mística; e isso não pode ser feito em qualquer tempo, mas, segundo o uso antigo, nas vigílias de certas festas, que são justamente consideradas as solenidades mais importantes e mais sagradas do ano, e nas quais unicamente, salvo em casos de necessidade, era prática da Igreja antiga administrar o batismo. Porém, embora a Igreja, em razão dos perigos a que a vida está continuamente exposta, haja julgado conveniente modificar sua disciplina a esse respeito, ela ainda observa com a maior solenidade as festas da Páscoa e de Pentecostes, nas quais a água batismal deve ser consagrada.
§356
O candidato ao Batismo permanece à porta da igreja. Após a consagração da água, cumpre explicar as demais cerimônias que precedem o Batismo. O candidato ao Batismo é trazido ou conduzido à porta da igreja e impedido de entrar, por ser indigno de ser admitido na casa de Deus, enquanto não houver sacudido o jugo da mais aviltante servidão de Satanás, se entregado sem reservas a Cristo e prometido fidelidade ao justo senhorio do Senhor Jesus.
§357
Instrução catequética. O sacerdote pergunta então o que ele pede à Igreja de Deus; e, recebida a resposta, instrói-o primeiro catequeticamente nas doutrinas da fé cristã, cuja profissão há de ser feita no Batismo. Esta prática de transmitir assim a instrução teve origem, sem dúvida, no preceito do Senhor dirigido aos seus Apóstolos: "Ide por todo o mundo e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos tenho mandado;" palavras das quais podemos aprender que o Batismo não deve ser administrado antes que sejam explicadas, ao menos, as verdades principais da religião. Ora, como a forma catequética consiste em perguntas e respostas, se a pessoa a ser instruída for adulta, ela própria responde aos interrogatórios; se for uma criança, o padrinho responde de acordo com a fórmula prescrita e assume um compromisso solene em nome da criança.
§358
O exorcismo. Vem em seguida, por ordem, o exorcismo: consiste em palavras de sagrado e religioso teor, bem como em orações, e é usado para expulsar o demônio, para enfraquecer e destruir o seu poder. Ao exorcismo se acrescentam outras cerimônias, cada uma das quais, sendo mística, possui seu significado claro e próprio. O sal. Quando, por exemplo, coloca-se sal na boca da pessoa a ser batizada, isso significa evidentemente que, pela doutrina da fé e pelo dom da graça, ela será libertada da corrupção do pecado, experimentará o gosto pelas boas obras e será nutrida com o alimento da sabedoria divina. O sinal da cruz. Além disso, a sua fronte, os olhos, o peito, os ombros e os ouvidos são signados com o sinal da cruz, para declarar que, pelo mistério do Batismo, os sentidos do batizando se abrem e se fortalecem, de modo a capacitá-lo a acolher a Deus e a compreender e observar os seus mandamentos. A saliva. Em seguida, tocam-se com saliva as suas narinas e ouvidos, sendo ele então imediatamente conduzido à pia batismal: por esta cerimônia entendemos que, assim como foi dada a vista ao cego de que fala o Evangelho, ao qual o Senhor, tendo untado os olhos com lama, mandou lavá-los nas águas de Siloé, assim também, pela eficácia do santo Batismo, penetra na mente uma luz que a habilita a discernir a verdade celestial.
§359
II. A renúncia. Após a realização dessas cerimônias, a pessoa a ser batizada se aproxima da pia batismal, junto à qual se realizam outros ritos e cerimônias que apresentam um resumo das obrigações impostas pela religião cristã. Em três interrogatórios distintos, o ministro da religião lhe pergunta formalmente: "Renuncias a Satanás?" "E a todas as suas obras?" "E a todas as suas pompas?" — às quais ela, ou o padrinho em seu nome, responde afirmativamente. Quem, portanto, propõe alistar-se sob o estandarte de Cristo deve, antes de tudo, comprometer-se de maneira sagrada e solene a renunciar ao diabo e ao mundo e, como a seus piores inimigos, tê-los em absoluta detestação.
§360
O óleo dos catecúmenos. Em seguida, é ungido com o óleo dos catecúmenos no peito e entre os ombros — no peito, para que, pelo dom do Espírito Santo, possa abandonar o erro e a ignorância e receber a verdadeira fé, pois "o justo vive pela fé" — nos ombros, para que, pela graça do Espírito Santo, possa sacudir a negligência e a torpeza, e dedicar-se ativamente à prática das boas obras, pois "a fé sem as obras é morta."
§361
A profissão de fé. Em seguida, estando junto à pia batismal, o candidato é interrogado pelo ministro da religião nestas palavras: "Credes em Deus, Pai Todo-Poderoso?" ao que se responde: "Creio;" semelhante interrogação é proposta acerca dos demais artigos do símbolo, sucessivamente; e assim se faz uma solene profissão de fé. Estes dois compromissos — a renúncia a Satanás, com todas as suas obras e pompas, e a crença em todos os artigos do símbolo —, por abrangerem tanto a fé quanto a prática, constituem, evidentemente, toda a força e disciplina da lei de Cristo.
§362
A vontade da pessoa a ser batizada é inquirida e, uma vez obtida, administra-se o Batismo. Quando o Batismo está prestes a ser conferido, o sacerdote pergunta ao candidato se quer ser batizado; dada uma resposta afirmativa por ele, ou, no caso de uma criança, pelo padrinho, o sacerdote realiza a ablução "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." Assim como o homem, cedendo ao assentimento de sua vontade às perversas sugestões de Satanás, caiu sob uma justa sentença de condenação, assim também Deus não quer alistar no número de seus soldados senão aqueles cujo serviço seja voluntário, para que, por uma obediência livre a seus mandamentos, possam alcançar a salvação eterna.
§363
III. O óleo do crisma. Após a pessoa ser batizada, o sacerdote unge com crisma o alto de sua cabeça, fazendo-a assim compreender que, a partir do momento do seu batismo, ela está unida como membro a Cristo, seu cabeça, e enxertada em seu corpo; e que, portanto, se chama cristã, derivando seu nome de Cristo, assim como Cristo assim se chama do crisma. O que o crisma significa, as orações proferidas pelo sacerdote, como observa Santo Ambrósio, o explicam suficientemente.
§364
A veste branca. Em seguida, o sacerdote impõe à pessoa batizada uma veste branca, dizendo: "Recebe esta veste branca, e leva-a imaculada ante o tribunal de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que tenhas a vida eterna. Amém." Em vez de veste branca, as crianças, por não serem formalmente vestidas, recebem um véu branco, acompanhado das mesmas palavras. Segundo a doutrina dos Santos Padres, este símbolo significa a glória da ressurreição para a qual nascemos pelo batismo, o esplendor e a beleza de que a alma se reveste quando purificada das manchas do pecado, e a inocência e integridade que a pessoa que recebeu o batismo deve preservar por toda a vida.
§365
A luz acesa Para significar que a fé recebida no Batismo, inflamada pela caridade, deve ser alimentada e acrescida pelo exercício das boas obras, coloca-se em seguida nas mãos do batizado uma luz acesa.
§366
O nome, sua utilidade e sua escolha. Por fim, é dado um nome, que deve ser tirado de alguma pessoa cuja eminente santidade lhe granjeou lugar no catálogo dos Santos: essa semelhança de nome estimulará à imitação de suas virtudes e à consecução de sua santidade; e devemos esperar e rogar que aquele que é o modelo de nossa imitação se torne também, por sua intercessão, o guardião de nossa segurança e salvação. Por isso não podemos reprovar com palavras suficientemente severas a conduta daqueles que, com perverso empenho, buscam e se comprazem em distinguir seus filhos pelos nomes de pagãos; e o que é ainda pior, de monstros de iniquidade que, por sua vida dissoluta, granjearam uma notoriedade infame. Com tal procedimento, eles provam na prática quão pouco lhes importa o zelo pela piedade cristã, visto que nutrem com tanta afeição a memória de homens ímpios, a ponto de desejar que seus nomes profanos ressoem continuamente nos ouvidos dos fiéis.
§367
Recapitulação. Esta exposição do Batismo, se feita pelo pároco, abrangerá quase tudo o que é de importância relativamente a este Sacramento. Explicamos o significado da palavra "batismo", sua natureza e substância, bem como as partes de que se compõe; dissemos por quem foi instituído; quem são os ministros necessários para sua administração; quem deve ser, por assim dizer, os tutores, cujas instruções devem sustentar a fraqueza do batizado; a quem o Batismo deve ser administrado e de que disposições devem estar revestidos; quais são a virtude e a eficácia do Sacramento. Por fim, desenvolvemos, com extensão suficiente para nosso propósito, os ritos e cerimônias que devem acompanhar sua administração. O pároco recordará que todas estas instruções têm por objetivo principal induzir os fiéis a dirigir sua constante atenção e solicitude ao cumprimento dos sagrados e invioláveis compromissos que assumiram na pia batismal, e a levar uma vida digna da santidade do nome e da profissão de cristão.
DO SACRAMENTO DA CONFIRMAÇÃO.
§369
Necessidade urgente de explicar o Sacramento da Confirmação nos dias de hoje. Se houve alguma vez um tempo que exigisse do pastor diligência em explicar o Sacramento da Confirmação, é sem dúvida o presente, quando se encontram na Igreja de Deus muitos que o omitem de todo; ao passo que pouquíssimos se empenham em colher dele o fruto da graça divina que sua digna recepção confere. Para que, portanto, esta bênção divina não pareça, por culpa deles e com grave dano de suas almas imortais, ter sido conferida em vão nos dias atuais, os fiéis devem ser instruídos, no domingo de Pentecostes e nos demais dias que o pastor julgar convenientes, sobre a natureza, a eficácia e a dignidade deste Sacramento; de modo a fazê-los compreender que não só não deve ser negligenciado, mas que a ele se deve aproximar com a maior reverência e devoção.
§370
Por que se chama Confirmação. Para começar pelo nome, o pastor instruirá os fiéis de que este Sacramento se chama Confirmação porque, não havendo obstáculo à sua eficácia, aquele que o recebe, ao ser ungido com o sagrado crisma pela mão do bispo, o qual acompanha a unção com estas palavras: "Eu te signo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo", é confirmado em fortaleza ao receber nova virtude e torna-se um perfeito soldado de Cristo.
§371
A Confirmação como Sacramento. Que a Confirmação possui todas as condições de um verdadeiro Sacramento tem sido, em todos os tempos, a doutrina da Igreja Católica, como o declaram expressamente o Papa Melquíades e muitos outros pontífices santíssimos e antiquíssimos. A verdade desta doutrina não poderia ter sido confirmada por São Clemente em termos mais enérgicos do que quando diz: "Todos devem apressar-se, sem demora, a nascer de novo para Deus, e a seguir ser selados pelo bispo, isto é, a receber o dom sétuplo do Espírito Santo; pois, como aprendemos de São Pedro, e como os demais Apóstolos ensinaram em obediência ao mandato de Nosso Senhor, quem por contumácia e não por necessidade, mas voluntariamente, se descuida de receber este Sacramento, de modo algum pode tornar-se um cristão perfeito." Esta mesma doutrina foi confirmada, como se pode ver em seus decretos, pelos Urbanos, pelos Fabianos, pelos Eusébios, pontífices que, animados pelo mesmo espírito, derramaram o próprio sangue pelo nome de Cristo. É também corroborada pelo testemunho unânime dos Padres, entre os quais Dionísio Areopagita, bispo de Atenas, ao ensinar como consagrar e fazer uso do santo unguento, diz: "O sacerdote reveste o batizado com uma veste emblema de sua pureza, a fim de conduzi-lo ao bispo; e o bispo, signando-o com o santo e divino unguento, o torna participante da santíssima comunhão." De tão grande importância julga Eusébio de Cesareia este Sacramento, que não hesita em afirmar que o herege Novaciano não pôde receber o Espírito Santo porque, tendo recebido o batismo, não foi, quando acometido de grave enfermidade, selado com o sinal do crisma. Sobre este assunto poderíamos aduzir os testemunhos mais concludentes de Santo Ambrósio no seu livro sobre os Iniciados, e de Santo Agostinho nas suas obras contra as epístolas do donatista Petiliano: tão convictos estavam de que nenhuma dúvida podia existir quanto à realidade deste Sacramento, que não somente ensinaram a doutrina, mas confirmaram a sua verdade com muitas passagens das Escrituras, aplicando-lhe um estas palavras do Apóstolo: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus, pelo qual fostes selados para o dia da redenção", e o outro, estas palavras do Salmista: "como o precioso unguento sobre a cabeça, que descia pela barba de Aarão", e também estas palavras do mesmo Apóstolo: "A caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado."
§372
A Confirmação, embora Melquíades afirme ter ela uma conexão muito íntima com o batismo, é contudo um Sacramento inteiramente distinto: a diversidade da graça que cada Sacramento confere e a diversidade do sinal externo empregado para significar essa graça constituem-nos evidentemente Sacramentos diferentes. Assim como pela graça do batismo somos gerados para uma vida nova, e pela da Confirmação crescemos até a plena maturidade, "deixando as coisas de criança", podemos daí compreender suficientemente que a mesma diferença existente na ordem natural entre o nascimento e o crescimento existe também na ordem sobrenatural, entre o batismo, que regenera, e a Confirmação, que confere o pleno crescimento e a perfeita força espiritual.
§373
Ademais, se as novas dificuldades que a alma tem de enfrentar exigem o auxílio de um Sacramento novo e distinto, é evidente que, assim como temos necessidade da graça do Batismo para imprimir na alma o selo da verdadeira fé, da mesma sorte é de suma vantagem que uma nova graça nos fortaleça com tal intrepidez de ânimo, que nenhum perigo, nenhum temor de sofrimentos, de tormentos ou de morte, tenha poder de nos afastar da profissão da verdadeira fé. Por isso, o Papa Melquíades assinala com exatidão singular a diferença entre ambos nestes termos: "No Batismo", diz ele, "o cristão é alistado ao serviço; na Confirmação, é equipado para a batalha; na pia batismal, o Espírito Santo confere a plenitude da inocência; na Confirmação, a perfeição da graça; no Batismo somos regenerados para a vida; após o Batismo somos fortalecidos para o combate; no Batismo somos purificados, na Confirmação somos robustecidos; a regeneração salva, por sua própria eficácia, os que recebem o Batismo em paz; a Confirmação arma e prepara para o conflito." São verdades não só consignadas em outros Concílios, mas especialmente definidas pelo Concílio de Trento, razão pela qual não nos é mais lícito não apenas discordá-las, mas sequer nutrir a menor dúvida a seu respeito.
§374
Mas, para imprimir nos fiéis um sentido mais profundo da santidade deste Sacramento, o pároco lhes dará a conhecer por quem foi instituído; conhecimento cuja importância, no que respeita a todos os Sacramentos, já apontamos. Informá-los-á, portanto, que não somente foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que, como testemunha São Fabiano, Bispo de Roma, o crisma e as palavras usadas em sua administração foram também por Ele estabelecidos: fato de fácil comprovação para aqueles que creem ser a confirmação um Sacramento, pois todos os sagrados mistérios estão além do poder humano e só por Deus poderiam ter sido instituídos.
§375
Das partes componentes do Sacramento, e, em primeiro lugar, de sua matéria, passamos agora a tratar. A matéria da Confirmação é o crisma, palavra tomada da língua grega, a qual, embora empregada por escritores profanos para designar qualquer espécie de unguento, é reservada, pelo uso eclesiástico, para significar o unguento composto de óleo e bálsamo, solenemente consagrado pela bênção episcopal. Uma mistura de óleo e bálsamo constitui, portanto, a matéria da Confirmação; e esta mistura de diferentes elementos exprime ao mesmo tempo as múltiplas graças do Espírito Santo e a excelência deste Sacramento. Tal é a sua matéria, conforme ensinaram unanimemente a Igreja e seus concílios; e a mesma doutrina nos foi transmitida por São Dionísio e por muitos outros Padres de autoridade indiscutível, em particular pelo Papa Fabiano, o qual atesta que os Apóstolos receberam do Senhor a composição do crisma e no-la transmitiram. Para manifestar os efeitos da Confirmação, nenhuma matéria sacramental poderia ter sido mais apropriada do que o crisma: o óleo, por sua natureza untuosa e fluida, exprime a plenitude da graça divina que flui de Cristo, a Cabeça, pelo Espírito Santo, e se derrama "como o precioso unguento sobre a cabeça, que desce pela barba de Aarão até a orla de sua veste"; pois "Deus o ungiu com o óleo da alegria acima de seus companheiros", e "de sua plenitude todos nós recebemos". O bálsamo, também, cuja fragrância é de todo agradável, significa que os fiéis, aperfeiçoados pela graça da Confirmação, difundem ao seu redor, em virtude de suas muitas virtudes, tão suave fragância, que podem verdadeiramente dizer com o Apóstolo: "Somos o bom odor de Cristo para com Deus." O bálsamo possui ainda a propriedade de preservar da corrupção tudo o que embalsama; propriedade bem adequada para exprimir a virtude deste Sacramento: preparadas pela graça celestial infundida na Confirmação, as almas dos fiéis podem facilmente ser preservadas da corrupção do pecado.
§376
O crisma é consagrado com solenidade pelo bispo. Que esta consagração solene está em conformidade com as instruções de Nosso Senhor, quando na última ceia ensinou aos seus Apóstolos o modo de preparar o crisma, aprendemo-lo do Papa Fabiano, homem eminentemente ilustre pela sua santidade e pela glória do martírio. Com efeito, a própria razão demonstra a conveniência desta consagração; pois na maior parte dos outros sacramentos, Cristo instituiu a matéria de tal modo que lhe conferiu santidade; não foi somente sua vontade que a água constituísse a matéria do Sacramento do Batismo, ao dizer: "Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus"; mas também, no seu próprio batismo, lhe comunicou o poder de santificar. "A água do batismo", diz São Crisóstomo, "se não tivesse sido santificada pelo contato com o corpo de Nosso Senhor, não poderia purificar os pecados dos fiéis." Assim, pois, como Nosso Senhor não consagrou a matéria da confirmação pelo seu uso, torna-se necessário consagrá-la por meio de oração santa e devota, o que é prerrogativa exclusiva dos bispos, constituídos ministros ordinários deste Sacramento.
§377
A outra parte constitutiva deste Sacramento, isto é, a sua forma, é o que cumpre explicar a seguir. Os fiéis devem ser admoestados a que, ao receberem a Confirmação, ao ouvirem as palavras proferidas pelo bispo, excitem fervorosamente em si mesmos sentimentos de piedade, fé e devoção, para que da sua parte nenhum obstáculo se oponha à graça celeste do Sacramento. A forma da Confirmação consiste nestas palavras: "EU TE SIGNO COM O SINAL DA CRUZ, E TE CONFIRMO COM O CRISMA DA SALVAÇÃO, EM NOME DO PAI, E DO FILHO, E DO ESPÍRITO SANTO." Ainda que admitíssemos ser a razão incompetente para estabelecer a verdade e a estrita propriedade desta forma, a autoridade da Igreja Católica, pela qual ela foi em todos os tempos ensinada e reconhecida, seria por si só suficiente para dissipar qualquer dúvida a esse respeito; examinando-a, porém, à luz da razão, chegamos à mesma conclusão. A forma do Sacramento deve abranger tudo o que é necessário para explicar a sua natureza e substância; quanto à natureza e substância da Confirmação, há três coisas que merecem particular atenção: o poder divino que, como causa primária, opera no Sacramento; a força espiritual que ele confere aos fiéis para a salvação; e, por último, o sinal impresso naquele que há de combater na milícia de Cristo. As palavras "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo", com que a forma se encerra, declaram suficientemente a primeira; a segunda está contida nas palavras "te confirmo com o crisma da salvação"; e as palavras "eu te signo com o sinal da cruz", com que a forma se abre, expressam a terceira.
§378
Àquele a quem está confiada principalmente a administração deste Sacramento é matéria à qual o pastor também chamará a atenção dos fiéis. São muitos, segundo o profeta, os que correm sem terem sido enviados; e daí a necessidade de instruir os fiéis sobre quais são os seus verdadeiros e legítimos ministros, a fim de que possam realmente receber o Sacramento e a graça da Confirmação. Que somente os bispos são os ministros ordinários deste Sacramento é doutrina da Sagrada Escritura; lemos nos Atos dos Apóstolos que, tendo a Samaria recebido o Evangelho, Pedro e João foram enviados a ela e oraram por seus habitantes para que recebessem o Espírito Santo; "pois ele ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus." Vemos aqui que aquele que administrara o Batismo, por haver alcançado somente o grau de diácono, não tinha poder para administrar a Confirmação; sua administração estava reservada a uma ordem mais elevada do ministério, isto é, aos Apóstolos exclusivamente. Sempre que as Sagradas Escrituras tratam deste Sacramento, transmitem-nos a mesma verdade. Temos também o testemunho claríssimo dos Padres e, como se pode ver nos decretos de seus Papas, de Urbano, de Eusébio, de Dâmaso, de Inocêncio e de Leão. Em confirmação da mesma doutrina, podemos acrescentar ainda que Santo Agostinho se queixa veementemente da prática corrompida que prevalecia nas Igrejas do Egito e de Alexandria em seu tempo, prática segundo a qual os sacerdotes se arrogavam o direito de administrar o Sacramento da Confirmação.
§379
Para ilustrar a conveniência de se reservar o exercício desta função ao ministério episcopal, a comparação a seguir poderá ser considerada não inapropriada. Assim como na construção de um edifício os artífices, que são agentes inferiores, preparam e dispõem a argamassa, a cal, a madeira e os demais materiais, pertencendo, porém, a conclusão da obra ao arquiteto; da mesma forma a Confirmação, que é como que a conclusão do edifício espiritual, não deve ser administrada senão pelas mãos episcopais.
§380
Na Confirmação, como no Batismo, exige-se um padrinho. Se o gladiador que se apresenta como combatente tem necessidade da habilidade e da destreza de um mestre, para ser dirigido sobre os golpes e as fintas com que pode, sem pôr em risco a própria segurança, vencer o adversário, quanto mais necessário é ao fiel um guia e um instrutor, quando, como que revestido da panóplia deste sacramento, empenha-se no combate espiritual, em que a salvação eterna há de recompensar o êxito do vencedor. Com grande propriedade, portanto, exigem-se padrinhos também na administração deste Sacramento; e o mesmo parentesco espiritual que, como já mostramos, se contrai no Batismo, impedindo o legítimo matrimônio entre as partes, contrai-se igualmente na Confirmação.
§381
Para não falar daqueles que chegaram a tal grau de impiedade que ousam desprezar e menosprezar este Sacramento; como acontece frequentemente que, ao receber a Confirmação, os fiéis revelem precipitação irrefletida ou negligência imperdoável, cabe ao pastor dar a conhecer a idade e as disposições que a santidade deste Sacramento exige.
§382
Devem ser informados, em primeiro lugar, que este Sacramento não é essencial à salvação; mas que, embora não essencial, não deve por isso ser omitido: pelo contrário, em matéria tão santa, pela qual os dons de Deus são tão largamente concedidos, todo o cuidado deve ser tomado para evitar qualquer negligência; e o que Deus propôs para a santificação comum de todos, todos devem desejar com ardente empenho. Descrevendo essa admirável efusão do Espírito Santo, São Lucas diz: "E veio de repente do céu um som, como de um vento impetuoso que soprava, e encheu toda a casa onde estavam sentados"; e um pouco adiante: "e todos ficaram cheios do Espírito Santo." Destas palavras podemos inferir que, assim como a casa em que se achavam reunidos era tipo e figura da Igreja, o Sacramento da Confirmação, que teve sua existência pela primeira vez naquele dia, é destinado ao uso de todos os fiéis. Isso também se infere facilmente da natureza do Sacramento: a Confirmação é necessária para aqueles que têm necessidade de crescimento espiritual e esperam chegar à perfeição religiosa; mas a isso todos devem aspirar, pois assim como a Natureza quer que todos os seus filhos cresçam e alcancem a plena maturidade, embora seus desígnios nem sempre se realizem, assim também é o ardente desejo da Igreja Católica, mãe comum de todos, que aqueles a quem ela regenerou pelo Batismo sejam conduzidos à perfeita maturidade em Cristo. Essa feliz consumação só pode ser alcançada pela mística unção da Confirmação; e daí resulta claramente que este Sacramento é igualmente destinado a todos os fiéis.
§383
Deve-se observar que o Sacramento da Confirmação pode ser administrado a todos logo que hajam sido batizados; contudo, enquanto as crianças não tiverem alcançado o uso da razão, sua administração é inoportuna. Se não puder ser adiada até os doze anos, deverá ao menos ser diferida até os sete. A Confirmação não foi instituída como necessária para a salvação, mas para que possamos estar armados e preparados, sempre que formos chamados a combater pela fé de Cristo; e para este combate ninguém considerará aptas as crianças que ainda não chegaram ao uso da razão.
§384
Do que foi dito, conclui-se que as pessoas de idade madura que hão de ser confirmadas devem, se esperam receber a graça deste Sacramento, não só trazer consigo fé e devoção, mas também estar compungidas de íntima contrição pelos pecados graves em que porventura tiveram a infelicidade de cair. O pároco, portanto, se esforçará por induzi-las a recorrer previamente ao tribunal da penitência, procurará movê-las ao jejum e a outros exercícios de devoção, e as exortará a reviver aquela louvável prática da Igreja antiga de receber o Sacramento da Confirmação em jejum. Induzir os fiéis a entrar nessas disposições não parecerá tarefa difícil, se aprenderem a estimar as bênçãos e os efeitos extraordinários que emanam deste Sacramento.
§385
O pastor ensinará, portanto, que a Confirmação, à semelhança dos demais sacramentos, confere nova graça, a não ser que algum obstáculo seja oposto por quem a recebe. Já demonstramos que é próprio desses sagrados e místicos sinais indicar e produzir ao mesmo tempo a graça; e, como não podemos imaginar que a graça e o pecado coexistam na alma, segue-se, como consequência necessária, que ela também remite o pecado.
§386
Além dessas propriedades, comuns a este e aos demais Sacramentos, é característica peculiar da Confirmação aperfeiçoar a graça do Batismo: os que são iniciados na religião cristã participam, por assim dizer, da ternura e da fragilidade dos recém-nascidos; mas depois disso se fortalecem pelo Sacramento do crisma para combater os assaltos do mundo, da carne e do demônio, e são confirmados na fé para confessar e glorificar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desta última circunstância originou-se, sem dúvida, que o Sacramento fosse distinguido pelo nome de Confirmação. Este nome não deriva, como alguns imaginaram com igual ignorância e impiedade, da suposta circunstância de pessoas batizadas, ao atingirem a maturidade, apresentarem-se antigamente perante o bispo para confirmar sua adesão à fé de Cristo que haviam abraçado no Batismo; opinião segundo a qual a Confirmação não pareceria diferir do ensinamento catequético. Dessa prática não se pode aduzir prova alguma, nem rastrear qualquer vestígio; e este Sacramento chama-se Confirmação porque, em virtude dele, Deus confirma em nós o que foi iniciado no Batismo e conduz à perfeição da sólida virtude cristã.
§387
Este Sacramento não somente confirma; aumenta também a graça divina na alma: "O Espírito Santo", diz Melquíades, "que desce com influência salutar sobre as águas do batismo, confere a plenitude da graça à inocência; na Confirmação, o mesmo Espírito Santo concede um acréscimo de graça divina, e não somente um acréscimo, mas um acréscimo de modo admirável." Esta eficácia extraordinária da Confirmação é expressa belissimamente pelas Escrituras por meio de uma metáfora: "Permanecei na cidade", diz Nosso Senhor falando deste Sacramento, "até que sejais revestidos do poder do alto."
§388
Para demonstrar a eficácia divina deste Sacramento — e isso, sem dúvida, exercerá grande influência no ânimo dos fiéis —, basta ao pastor explicar os efeitos que ele produziu nos próprios Apóstolos. Antes e mesmo no momento da Paixão, tão fracos e pusilânimes eram eles, que, mal foi preso Nosso Senhor, todos fugiram; e Pedro, destinado a ser a rocha e o fundamento da Igreja, e que havia demonstrado uma constância inabalável e um espírito intrépido diante de qualquer perigo, ficou tão aterrorizado com a voz de uma simples mulher, que negou por uma, por duas e por três vezes ser discípulo de Jesus Cristo. Mesmo após a ressurreição, permaneceram encerrados em uma casa, com as portas fechadas, por temor dos judeus. Mas quão extraordinária foi a mudança! No dia de Pentecostes, repletos da graça do Espírito Santo, proclamam corajosamente e a despeito de todo o perigo o Evangelho, não só pela Judeia, mas por todo o mundo; reputam a maior felicidade serem julgados dignos de sofrer ultrajes, cadeias, torturas e até a própria crucificação pelo nome de Cristo.
§389
A Confirmação produz também o efeito de imprimir um caráter; e por isso, como dissemos anteriormente a respeito do Batismo, e como será explicado com maior amplitude em seu lugar próprio a respeito das Ordens, não deve em caso algum ser administrada segunda vez. Se estas coisas forem explicadas com frequência e exatidão, é quase impossível que os fiéis, conhecendo a utilidade e a dignidade deste Sacramento, não empreguem todo o esforço para recebê-lo com piedade e devoção.
§390
Resta agora tratar brevemente dos ritos e cerimônias usados na administração deste Sacramento: as vantagens dessa explicação o pároco as perceberá imediatamente, remetendo ao que já dissemos sobre este assunto no lugar que lhe é próprio. A fronte da pessoa a ser confirmada é ungida com o sagrado crisma; pois neste Sacramento o Espírito Santo se infunde nas almas dos fiéis e lhes comunica forças e ânimo acrescidos, a fim de que, no combate espiritual, possam lutar varonilmente e resistir com êxito aos seus inimigos mais implacáveis. Diz-se-lhes, portanto, que de ora em diante não devem ser dissuadidos pelo temor ou pela vergonha — sentimentos de que o rosto é o principal indício — da confissão aberta do nome de Cristo. Ademais, a marca pela qual o cristão se distingue de todos os demais, assim como o soldado se distingue por suas insígnias militares peculiares, deve ser impressa na fronte, a parte mais digna e conspícua da forma humana.
§391
A festa de Pentecostes foi também escolhida para sua administração solene, porque os Apóstolos foram então fortalecidos e confirmados pelo poder do Espírito Santo; e também para recordar aos fiéis, pela memória daquele evento sobrenatural, o número e a grandeza dos mistérios encerrados nessa sagrada unção.
§392
A pessoa confirmada recebe uma leve pancada na face da mão do bispo, para ser lembrada de que, como valoroso combatente, deve estar preparada para enfrentar com resolução invicta todas as adversidades pelo nome de Cristo.
§393
Finalmente, recebe o ósculo da paz, para que entenda que foi agraciado com a plenitude da graça divina e com aquela «paz que excede todo o entendimento». Tudo isto constitui um sumário da exposição que o pastor deve fazer sobre o Sacramento da Confirmação; mas que seja transmitido não tanto na linguagem fria de uma instrução formal, quanto nos acentos ardentes de uma piedade fervorosa, de modo a penetrar nos espíritos e inflamar os corações dos fiéis.
§394
Do Sacramento da Eucaristia.
§395
De todos os sagrados mistérios que Nosso Senhor nos legou como fontes inesgotáveis de graça, nenhum pode comparar-se ao santíssimo Sacramento da Eucaristia; por isso, nenhum crime há para o qual Deus reserve vingança mais terrível do que o abuso sacrílego deste adorável Sacramento, que é repleto da própria santidade. O Apóstolo, iluminado pela sabedoria do alto, viu claramente e anunciou com veemência essas consequências tremendas, quando, após declarar a enormidade da culpa daqueles "que não discernem o Corpo do Senhor", acrescentou imediatamente: "por isso há entre vós muitos enfermos e fracos, e muitos dormem". A fim, pois, de que os fiéis, profundamente imbuídos da honra divina devida a este celestial Sacramento, possam haurir da sua participação abundante fruto de graça e escapar à justa ira de Deus, o pároco explicará com infatigável diligência tudo aquilo que pareça mais apto a manifestar a sua majestade.
§396
Seguindo o exemplo de São Paulo, que declara aos Coríntios o que havia recebido do Senhor, o pároco começará por explicar aos fiéis as circunstâncias de sua instituição: estas ele encontrará assim claramente registradas pelo Evangelista — Nosso Senhor, que "tendo amado os seus, amou-os até o fim", para lhes dar um admirável e divino penhor desse amor, ciente de que chegara a hora de passar deste mundo para o Pai, por um efeito de sabedoria que transcende a ordem natural, encontrou um meio de permanecer sempre presente com os seus. Tendo celebrado a festa do cordeiro pascal com seus discípulos, para que a figura cedesse lugar à realidade e a sombra à substância, "Jesus tomou o pão e, dando graças a Deus, abençoou-o, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: tomai e comei: Isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim; e, tomando também o cálice depois de haver ceado, disse: este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim."
§397
Os escritores sagrados, não encontrando na língua um único vocábulo suficientemente amplo para exprimir com plenitude a dignidade e a excelência deste Sacramento, procuraram expressá-la por meio de variadas denominações. Chama-se por vezes "Eucaristia", palavra que pode ser traduzida por "boa graça" ou "ação de graças". A propriedade da primeira acepção ressalta de duas considerações: a Eucaristia dá um antegozo da vida eterna, da qual está escrito: "A graça de Deus é a vida eterna"; contém também a Cristo Nosso Senhor, a graça verdadeira e a fonte de todos os dons celestiais. A segunda tradução não é menos adequada, pois ao oferecermos esta vítima imaculadíssima, tributamos a Deus uma homenagem de valor infinito em retribuição de todos os benefícios que recebemos da sua bondade, e sobretudo do inestimável tesouro de graça que nos foi concedido neste Sacramento. O vocábulo "ação de graças" convém igualmente ao gesto do Senhor ao instituir este mistério: "Tomando o pão, partiu-o e deu graças." Também Davi, contemplando a grandeza deste mistério, diz: "Ele fez uma memória das suas obras maravilhosas, sendo um Senhor misericordioso e benigno; deu alimento aos que o temem"; palavras que havia precedido com esta ação de graças: "A sua obra é louvor e magnificência."
§398
É também frequentemente chamado "O Sacrifício", do qual trataremos mais amplamente na parte subsequente desta exposição. É também chamado "Comunhão", palavra tomada do Apóstolo, quando diz: "O cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a participação do corpo do Senhor?" "Este Sacramento", para usar as palavras de Damasceno, "une-nos a Cristo e nos faz partícipes de sua carne e de sua divindade, reconcilia-nos uns com os outros no mesmo Cristo e consolida-nos como que num único corpo." Por isso, é também chamado o Sacramento da paz e da caridade, dando-nos a entender quão indignos do nome de cristãos são aqueles que se entregam à inimizade, e que o ódio, a discórdia e a contenda devem ser banidos da sociedade dos fiéis como seus piores inimigos; obrigação que se torna ainda mais imperiosa quando refletimos que, na oblação diária dos sagrados mistérios, professamos empenhar-nos com solícita vigilância em preservar invioladas a paz e a caridade. Os escritores sagrados também o chamam frequentemente "O Viático", tanto por ser o alimento espiritual com que somos sustentados durante a nossa peregrinação mortal, como também por nos preparar a passagem para a felicidade eterna e a glória sem fim. Por isso, segundo a prática antiga da Igreja, não é permitido a nenhum dos fiéis partir desta vida sem antes ser fortalecido com este pão vivo do céu. O nome de "A Ceia" foi também dado a este Sacramento pelos Padres mais antigos, à imitação do Apóstolo, por ter sido instituído por Nosso Senhor no mistério salutar da Santa Ceia. Esta circunstância, que diz respeito ao tempo de sua instituição, não autoriza, contudo, a conclusão de que a Eucaristia deva ser consagrada ou recebida por pessoas não jejuando: a prática salutar de consagrá-la e recebê-la em jejum, introduzida, como attestam os escritores antigos, pelos Apóstolos, foi sempre observada na Igreja.
§399
Tendo assim exposto previamente a explicação dos nomes pelos quais este Sacramento se distingue, o pároco ensinará que ele possui todas as qualidades de um verdadeiro Sacramento e é um dos sete que foram em todos os tempos reconhecidos e venerados pela Igreja Católica. Logo após a consagração do cálice, é chamado "mistério da fé"; e para não mencionar uma multidão quase inumerável de sagrados escritores que atestam a mesma doutrina, que a santa Eucaristia é um Sacramento fica demonstrado pela própria natureza do Sacramento. Possui sinais sensíveis e exteriores; significa e produz a graça na alma; e toda dúvida quanto à sua instituição por Cristo é dissipada pelo Apóstolo e pelos Evangelistas. Essas circunstâncias, combinando-se como o fazem para estabelecer a verdade do Sacramento, dispensam a necessidade de insistir no assunto com argumentos adicionais.
§400
O pároco observará particularmente que, na Eucaristia, há muitas coisas às quais os escritores sagrados ocasionalmente deram o nome de Sacramento: às vezes a sua consagração, às vezes a sua recepção, frequentemente o corpo e o sangue de Nosso Senhor nele contidos recebem o nome de Sacramento; porque, como observa Santo Agostinho, este Sacramento consiste de duas coisas: a espécie visível dos elementos e a carne e o sangue invisíveis de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dizemos também que este Sacramento deve ser adorado, referindo-nos, evidentemente, ao corpo e ao sangue de Nosso Senhor. Mas é evidente que todas essas realidades recebem o nome de Sacramento em sentido menos estrito: as espécies do pão e do vinho constituem, em sentido próprio, o Sacramento.