Doutrina da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V

§401 – §450

§401

As grandes diferenças entre este e os demais Sacramentos são facilmente compreendidas. Os outros Sacramentos se aperfeiçoam pelo uso da matéria, isto é, pela sua administração: o Batismo, por exemplo, torna-se Sacramento quando a ablução é realizada; a Eucaristia se constitui Sacramento pela só consagração dos elementos e, quando conservada numa píxide ou depositada num sacrário, sob qualquer das duas espécies, não deixa de ser Sacramento. Nos elementos materiais de que se compõem os outros Sacramentos não ocorre nenhuma mudança: no Batismo, por exemplo, a água; na Confirmação, o crisma — não perdem, na sua administração, a natureza de água e de óleo; ao passo que na Eucaristia, o que antes da consagração era pão e vinho se torna, após a consagração, verdadeira e substancialmente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor.

§402

Embora na Eucaristia a matéria sacramental seja composta de dois elementos, a saber, o pão e o vinho, no entanto, guiados pela autoridade da Igreja, professamos que esses elementos constituem não dois, mas um só Sacramento. Isto se comprova pelo próprio número dos Sacramentos que, segundo a doutrina da tradição apostólica e as definições dos Concílios de Latrão, Florença e Trento, está restrito a sete. Segue-se também da natureza da Santíssima Eucaristia: a graça que ela confere nos torna um só corpo místico; e para corresponder ao que opera, a Eucaristia deve constituir um só Sacramento — uno não por consistir de um único elemento, mas por significar uma única coisa. Disto nos oferece ilustração a analogia existente entre este nosso alimento espiritual e o alimento do corpo. A comida e a bebida, embora duas coisas distintas, servem a um único fim: a sustentação do corpo; assim também as duas espécies distintas do Sacramento, para significar o alimento da alma, devem ser significativas de uma única coisa e constituir, portanto, um só Sacramento. A justeza desta analogia é confirmada por estas palavras de Nosso Senhor: "A minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida."

§403

O que o Sacramento da Eucaristia significa, o pároco também o explicará com cuidado, a fim de que os fiéis, contemplando os sagrados mistérios, possam ao mesmo tempo apascentar as suas almas na contemplação das coisas celestiais. Este Sacramento é, pois, significativo de três coisas: da Paixão de Cristo, coisa passada; da graça divina, coisa presente; e da glória eterna, coisa futura. É significativo da Paixão de Cristo: "Fazei isto", diz Nosso Senhor, "em memória de mim." "Todas as vezes", diz o Apóstolo, "que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha." É significativo da graça divina, que é infundida ao receber-se este Sacramento, para nutrir e sustentar a alma. Assim como pelo Batismo somos gerados para uma vida nova, e pela Confirmação somos fortalecidos para resistir a Satanás e professar abertamente o nome de Cristo, assim pelo Sacramento da Eucaristia somos espiritualmente nutridos e sustentados. É também significativo da glória eterna, que, segundo as promessas divinas, nos está reservada na pátria celestial. Estas três coisas, distintas como são por tempos diferentes — passado, presente e futuro —, a Sagrada Eucaristia, embora consistindo de espécies diversas, as assinala com tanta expressividade como se fossem uma só.

§404

Para consagrar validamente o Sacramento, instruir os fiéis naquilo de que ele é símbolo e acender em suas almas um ardente desejo de possuir o inestimável tesouro que ele significa, é de suma importância que o pároco se familiarize com a sua matéria. A matéria deste Sacramento é dupla, constando de pão de trigo e de vinho extraído da uva, misturado com um pouco de água. O primeiro elemento, pois — do segundo trataremos adiante —, é o pão: como o atestam os Evangelistas Mateus, Marcos e Lucas: "Nosso Senhor Jesus Cristo", dizem eles, "tomou o pão em suas mãos, abençoou-o e partiu-o, dizendo: ISTO É O MEU CORPO"; e segundo São João, Ele se denominou a si mesmo pão nestas palavras: "Eu sou o pão vivo descido do céu."

§405

Como, porém, existem diferentes espécies de pão, compostas de materiais diversos — como trigo, cevada ou ervilhas — ou preparadas de modos distintos, como o pão fermentado e o ázimo, importa observar o seguinte quanto ao primeiro aspecto: a matéria sacramental, segundo as palavras do Senhor, deve ser pão de trigo, pois quando simplesmente dizemos "pão", entendemos, segundo o uso comum, "pão de trigo". Isso é também claramente declarado por uma figura da Santíssima Eucaristia no Antigo Testamento: o Senhor ordenou que os pães de proposição, que prefiguravam este Sacramento, fossem feitos de "flor de farinha".

§406

Assim como o pão de trigo é a única matéria própria deste Sacramento — doutrina transmitida pela tradição apostólica e confirmada pela autoridade da Igreja Católica —, pode-se também inferir das circunstâncias em que a Eucaristia foi instituída que esse pão de trigo deve ser ázimo. Foi consagrado e instituído por Nosso Senhor no primeiro dia dos ázimos, época em que a lei proibia os judeus de ter pão fermentado em suas casas. Se se objetar com as palavras do Evangelista São João, que diz ter tudo isso ocorrido antes da Páscoa, a objeção é de fácil solução: por "véspera da Páscoa", São João entende o mesmo dia que os demais Evangelistas designam "o primeiro dia dos ázimos". Seu intento era principalmente marcar o dia natural, que não começa senão ao nascer do sol; e sendo o primeiro dia natural da Páscoa a sexta-feira, "a véspera da Páscoa" significa a quinta-feira, em cuja tarde teve início a festa dos ázimos e na qual Nosso Senhor celebrou a Páscoa e instituiu a Santíssima Eucaristia. São Crisóstomo, por sua vez, entende por primeiro dia dos ázimos aquele em cuja tarde os ázimos deviam ser comidos. A conveniência particular da consagração com pão ázimo, para exprimir a integridade e a pureza de coração com que os fiéis devem aproximar-se deste Sacramento, aprendemo-la nestas palavras do Apóstolo: "Purificai o velho fermento, para serdes uma massa nova, como sois ázimos; porque Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da malícia e da perversidade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade."

§407

Esta propriedade do pão, porém, não deve ser considerada tão essencial que sua ausência torne o Sacramento nulo: ambas as espécies, com fermento e sem fermento, são designadas pelo nome comum e possuem cada qual a natureza e as propriedades do pão. Ninguém, contudo, deveria por autoridade própria ter a temeridade de se afastar do louvávelrito observado na Igreja à qual pertence; e tal afastamento é ainda menos justificável nos sacerdotes da Igreja Latina, que estão obrigados, por autoridade do Sumo Pontífice, a celebrar os sagrados mistérios com pão ázimo somente. No que diz respeito ao primeiro elemento deste Sacramento, esta exposição se revelará suficientemente abrangente. Podemos, contudo, acrescentar que a quantidade de pão a ser utilizada não está determinada, dependendo como depende do número de comunicantes, matéria que não pode ser definida.

§408

Passamos agora a tratar do segundo elemento deste Sacramento, que faz parte de sua matéria e consiste em vinho extraído da uva, misturado com um pouco de água. Que Nosso Senhor fez uso do vinho na instituição deste Sacramento tem sido, em todos os tempos, doutrina da Igreja Católica. Ele próprio disse: "Não beberei mais deste fruto da videira até aquele dia." Sobre estas palavras de Nosso Senhor, São João Crisóstomo observa: "Do fruto da videira, que certamente produz vinho e não água; como se Ele tivesse em vista, já naquele momento, esmagar pela evidência dessas palavras a heresia que afirmava dever-se usar apenas água nestes mistérios." Com o vinho usado nos sagrados mistérios, a Igreja de Deus sempre misturou água, porque, como sabemos pela autoridade dos concílios e pelo testemunho de São Cipriano, o próprio Nosso Senhor assim o fez; e também porque tal mistura renova a lembrança do sangue e da água que brotaram do seu sagrado lado. A palavra água encontramos ainda usada no Apocalipse para significar o povo, e, portanto, a água misturada ao vinho significa a união dos fiéis com Cristo, seu cabeça. Este rito, derivado da tradição apostólica, a Igreja Católica o observou em todos os tempos. A conveniência de misturar água ao vinho repousa, na verdade, sobre autoridade tão grave, que omitir tal prática seria incorrer em pecado mortal; contudo, a sua simples omissão seria insuficiente para tornar nulo o Sacramento. Deve-se ter o cuidado, porém, não só de misturar água ao vinho, mas também de misturá-la em pequena quantidade; pois, na opinião dos escritores eclesiásticos, a água se converte em vinho. Daí estas palavras do Papa Honório: "Um abuso pernicioso tem prevalecido há muito tempo entre vós, o de usar no santo sacrifício maior quantidade de água do que de vinho; ao passo que, conforme a prática racional da Igreja Universal, o vinho deve ser usado em quantidade bem maior do que a água." Tratamos agora dos únicos dois elementos deste Sacramento; e, embora alguns tenham ousado agir de outro modo, muitos decretos da Igreja determinam justamente que nenhum celebrante ofereça coisa alguma além de pão e vinho.

§409

Passamos agora a considerar a aptidão desses dois elementos para significar as realidades de que são sinais sensíveis. Em primeiro lugar, significam Cristo, a verdadeira vida do mundo, pois o próprio Senhor disse: «A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida.» Assim, pois, como o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo nutre para a vida eterna aqueles que o recebem com pureza e santidade, é com grande propriedade que este Sacramento se compõe principalmente daqueles elementos que sustentam a vida, dando assim aos fiéis a entender que a alma se alimenta da graça pela participação no precioso Corpo e Sangue de Cristo. Esses elementos servem também para comprovar o dogma da presença real. Vendo, como vemos, que o pão e o vinho se convertem diariamente, pelo poder da natureza, em carne e sangue humanos, somos, pela analogia evidente do fato, mais facilmente levados a crer que a substância do pão e do vinho é transformada, pela bênção celestial, no verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Essa admirável mudança contribui também para ilustrar o que se opera na alma. Assim como o pão e o vinho, embora de modo invisível, são real e substancialmente transformados no Corpo e no Sangue de Cristo, assim também nós, embora de modo interior e invisível, somos verdadeiramente renovados para a vida ao recebermos no Sacramento da Eucaristia a vida verdadeira. Além disso, o corpo da Igreja, embora uno e indiviso, resulta da união de muitos membros, e dessa união misteriosa nenhuma coisa é ilustração mais expressiva do que o pão e o vinho. O pão é feito de muitos grãos, o vinho é extraído de muitas uvas; e assim também nós, embora muitos, nos achamos estreitamente unidos por este misterioso vínculo de união e feitos, por assim dizer, um só corpo.

§410

Passamos agora a explicar a forma a ser empregada na consagração do pão; não, porém, com o intuito de instruir os fiéis nesses mistérios, a não ser que a necessidade o exija — pois o conhecimento deles é obrigatório somente para os eclesiásticos —, mas para evitar a possibilidade de erros da parte do celebrante por ignorância da forma; erros que, se ocorressem, seriam tão desonrosos para o ministro quanto ofensivos à dignidade dos divinos mistérios. Pelos evangelistas Mateus e Lucas, e também pelo Apóstolo, sabemos que a forma do Sacramento consiste nestas palavras: "ESTE É O MEU CORPO." Lemos que, após a ceia, "Jesus tomou o pão, e abençoou-o, e partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: tomai e comei, ESTE É O MEU CORPO"; e esta forma de consagração, utilizada por Jesus Cristo, foi observada de modo uniforme e inviolável na Igreja Católica. Os testemunhos dos Padres em comprovação de sua legitimidade podem aqui ser omitidos; enumerá-los seria tarefa interminável. O decreto do Concílio de Florença no mesmo sentido, por ser de fácil acesso a todos, também é desnecessário citar. A necessidade de qualquer outra prova é superada por estas palavras do Salvador: "Fazei isto em memória de mim." Este mandato de Nosso Senhor abrange não apenas o que Ele fez, mas também o que Ele disse, e se refere mais diretamente às suas próprias palavras, proferidas tanto para realizar quanto para significar o que realizavam. Que essas palavras constituam a forma é facilmente demonstrado pela razão. A forma de um Sacramento é aquilo que significa o que se opera no Sacramento: o que se opera na Eucaristia, isto é, a conversão do pão no verdadeiro corpo de Nosso Senhor, as palavras "este é o meu corpo" o significam e o declaram; portanto, elas constituem a forma. As palavras do evangelista, "ele abençoou", corroboram este raciocínio: equivalem a dizer "tomando o pão, ele o abençoou, dizendo: este é o meu corpo." As palavras "tomai e comei" precedem, é verdade, as palavras "este é o meu corpo", mas exprimem evidentemente o uso, e não a consagração da matéria, não podendo portanto constituir a forma. Contudo, embora não sejam necessárias para a consagração do Sacramento, não devem por nenhuma razão ser omitidas. A conjunção "pois" também tem lugar entre as palavras da consagração; do contrário, se seguiria que, se o Sacramento não fosse ser administrado a ninguém, não deveria ou mesmo não poderia ser consagrado; ao passo que o fato de o sacerdote, ao pronunciar as palavras de Nosso Senhor segundo a instituição e a prática da Igreja, verdadeiramente consagrar a matéria própria do Sacramento, ainda que posteriormente nunca venha a ser administrado, não admite a menor sombra de dúvida.

§411

A fórmula da consagração do vinho, o outro elemento deste Sacramento, é, pelas razões expostas a respeito do pão, necessariamente digna de ser conhecida com exatidão e claramente compreendida pelo sacerdote. Deve crer-se com firmeza que a fórmula de consagrar o cálice está contida nestas palavras: "ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, DO NOVO E ETERNO TESTAMENTO: MISTÉRIO DA FÉ: QUE SERÁ DERRAMADO POR VÓS E POR MUITOS PARA A REMISSÃO DOS PECADOS." Estas palavras são em sua maior parte tiradas da Sagrada Escritura. Algumas delas, porém, foram conservadas na Igreja pela tradição apostólica. As palavras "este é o cálice" são tomadas de São Lucas e igualmente mencionadas pelo Apóstolo. As palavras que se seguem imediatamente, "do meu sangue, ou o meu sangue do novo testamento, que será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados", são tiradas em parte de São Lucas e em parte de São Mateus. As palavras "e eterno" e também as palavras "mistério da fé" nos foram transmitidas pela santa tradição, intérprete e guardiã da unidade católica. Da legitimidade desta fórmula não podemos ter a mínima dúvida, se atentarmos ao que já foi dito sobre a fórmula empregada na consagração do pão. A fórmula a usar na consagração deste elemento deve, reconhecidamente, consistir de palavras que signifiquem que a substância do vinho é mudada no Sangue de Nosso Senhor: isso as palavras já citadas declaram claramente; e, portanto, são elas, e somente elas, que constituem a fórmula.

§412

Exprimem também certos admiráveis frutos produzidos pelo sangue de Cristo, derramado no Calvário, frutos que pertencem de modo especial a este Sacramento. Um deles é a admissão à herança eterna, à qual adquirimos direito pelo "testamento novo e eterno"; outro é a admissão à justiça pelo "mistério da fé", pois "Deus propôs" a Jesus "como propiciação pelo seu sangue, mediante a fé, para manifestação da sua justiça, a fim de que ele seja justo e justificador daquele que tem a fé em Jesus Cristo"; o terceiro é a remissão dos pecados.

§413

As palavras da consagração, porém, sendo repletas de mistérios e adequadíssimas ao assunto que ora tratamos, exigem uma consideração mais detida. Quando se diz, portanto: "Este é o cálice do meu sangue", estas palavras devem ser entendidas no sentido de: "Este é o meu sangue, contido neste cálice." A menção do "cálice" no momento de sua consagração, como bebida dos fiéis, é singularmente apropriada: sem se mencionar o vaso em que está contido, as palavras "Este é o meu sangue" não pareceriam designar suficientemente esta espécie sobrenatural de bebida. Seguem-se depois as palavras "do Novo Testamento", acrescentadas para nos fazer compreender que o sangue do Salvador não é agora dado figurativamente, como na Lei Antiga — da qual lemos no Apóstolo que sem sangue um Testamento não é ratificado —, mas dado real e verdadeiramente, prerrogativa própria do Novo Testamento. Por isso diz o Apóstolo: "Cristo é, portanto, o mediador do Novo Testamento, a fim de que, por meio da sua morte, os chamados recebam a promessa da herança eterna." A palavra "eterna" refere-se à herança eterna, ao direito à qual Cristo Senhor, o eterno Testador, nos adquiriu. As palavras "mistério da fé", que se acrescentam, não excluem a realidade, mas significam que o que se acha oculto sob o véu do mistério, e está muito além do alcance do olho mortal, deve ser crido com a certeza da fé. Aqui, porém, essas palavras têm um significado inteiramente diverso daquele que possuem quando aplicadas ao Batismo. Aqui, o mistério da fé consiste em que vemos pela fé o sangue de Cristo velado sob as espécies do vinho; mas o Batismo é chamado por nós propriamente "Sacramento", e pelos gregos "mistério da fé", porque compreende toda a profissão da fé em Cristo. Há ainda outra razão pela qual o sangue do Senhor é chamado "mistério da fé": na sua crença, a razão humana encontra as maiores dificuldades, porque a fé nos propõe crer que o Filho de Deus, Deus e homem, sofreu a morte pela nossa redenção, morte significada pelo Sacramento do seu sangue. Por isso a sua paixão é mais propriamente recordada aqui, nas palavras "que será derramado para a remissão dos pecados", do que na consagração do seu corpo. A consagração separada do sangue coloca diante de nossos olhos, com cores mais vivas, a sua paixão, crucificação e morte. As palavras que se acrescentam, "por vós e por muitos", são tomadas em parte de São Mateus, em parte de São Lucas, e reunidas pela Igreja Católica sob a direção do Espírito de Deus. Servem para designar de modo enfático o fruto e os benefícios da sua paixão. Considerando a eficácia da paixão, cremos que o Redentor derramou o seu sangue pela salvação de todos os homens; mas considerando as vantagens que os homens derivam dessa eficácia, verificamos imediatamente que elas não se estendem à totalidade, mas a uma grande parte do gênero humano. Quando, portanto, o Senhor disse "por vós", quis significar ou os que estavam presentes, ou aqueles que havia escolhido dentre os judeus, entre os quais se encontravam, à exceção de Judas, todos os seus discípulos com quem então conversava; mas ao acrescentar "por muitos", quis incluir os demais eleitos de entre os judeus e os gentios. Com toda a propriedade, portanto, foram omitidas as palavras "por todos", porque aqui se trata unicamente do fruto da paixão, e só aos eleitos a sua paixão trouxe o fruto da salvação. Isso declaram as palavras do Apóstolo, quando diz que Cristo foi oferecido uma vez para tirar os pecados de muitos; e a mesma verdade está contida nestas palavras do Senhor registradas por São João: "Oro por eles; não oro pelo mundo, mas por aqueles que me destes, porque são vossos." As palavras da consagração encerram ainda muitas outras verdades; verdades, porém, que o pároco, pela meditação e pelo estudo quotidianos das coisas divinas e com o auxílio da graça do alto, não achará difícil descobrir.

§414

Para retornar àquelas coisas acerca das quais de modo algum se deve permitir que os fiéis permaneçam ignorantes, o pároco, ciente da terrível advertência do Apóstolo contra aqueles que não discernem o corpo do Senhor, inculcará antes de tudo nas mentes dos fiéis a necessidade de desligar, tanto quanto possível, a mente e o entendimento do domínio dos sentidos; pois se, no tocante a este sublime mistério, eles constituíssem os sentidos como único tribunal ao qual apelar, a terrível consequência seria a sua precipitação no extremo da impiedade. Consultando a vista, o tato, o olfato, o paladar, e não encontrando senão as aparências de pão e vinho, os sentidos naturalmente os levariam a pensar que este Sacramento não contém nada além de pão e vinho. É preciso, pois, que as suas mentes sejam, tanto quanto possível, subtraídas à sujeição dos sentidos e elevadas à contemplação do poder estupendo de Deus.

§415

A Igreja Católica, pois, crê firmemente e professa abertamente que neste Sacramento as palavras da consagração realizam três coisas: primeiro, que o verdadeiro e real corpo de Cristo, o mesmo que nasceu da Virgem e está agora assentado à direita do Pai nos céus, se torna presente na santíssima Eucaristia; segundo, que por mais repugnante que possa parecer ao ditame dos sentidos, nenhuma substância dos elementos permanece no Sacramento; e terceiro, consequência natural das duas anteriores e expressa também pelas palavras da consagração, que os acidentes que se apresentam aos olhos ou a outros sentidos existem de modo admirável e inefável sem um sujeito. Os acidentes do pão e do vinho percebemos; mas não ineram em nenhuma substância e existem independentemente de qualquer uma. A substância do pão e do vinho é tão transformada no corpo e no sangue de Nosso Senhor, que deixam inteiramente de ser a substância do pão e do vinho.

§416

Para proceder com ordem, o pároco começará pelo primeiro argumento e empenhará todo o seu cuidado em mostrar quão claras e explícitas são as palavras de nosso Salvador, que estabelecem a presença real do seu corpo no Sacramento da Eucaristia. Quando Nosso Senhor diz: "Este é o meu corpo, este é o meu sangue", nenhum homem, por mais ignorante que seja, a não ser que padeça de alguma obliquidade de entendimento, pode equivocar-se quanto ao seu sentido; particularmente se se recordar de que as palavras "corpo" e "sangue" se referem à sua natureza humana, cuja real assunção pelo Filho de Deus nenhum católico pode pôr em dúvida. Para usar as admiráveis palavras de São Hilário, homem não menos insigne pela piedade do que pela doutrina: "Quando o próprio Senhor declara, como nos ensina a fé, que a sua carne é verdadeiramente comida, que lugar pode restar para a dúvida?" O pároco aduzirá também outra passagem da Sagrada Escritura em prova desta sublime verdade: tendo narrado a consagração do pão e do vinho por Nosso Senhor, e também a distribuição dos sagrados mistérios aos Apóstolos pelas mãos do Salvador, o Apóstolo acrescenta: "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma desse pão e beba do cálice; porque quem come e bebe indignamente, come e bebe para a sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor." Se, como afirma a heresia, o Sacramento não apresenta à nossa veneração senão um memorial e um sinal da paixão de Cristo, por que exortar os fiéis com linguagem tão enérgica a que se examinem? A resposta é evidente: pela grave denúncia contida na palavra "condenação", o Apóstolo assinala a enormidade da culpa de quem recebe indignamente e não distingue do alimento comum o corpo do Senhor, velado sob o véu eucarístico. As palavras precedentes do Apóstolo desenvolvem mais plenamente o seu pensamento: "O cálice da bênção que abençoamos, não é porventura a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é porventura a participação do corpo do Senhor?" — palavras que provam de modo concludente a presença real de Jesus Cristo no santo Sacramento da Eucaristia.

§417

Estas passagens da Sagrada Escritura devem, portanto, ser explicadas pelo pastor, o qual insistirá com ênfase perante os fiéis em que o seu sentido, em si mesmo evidente, é posto fora de toda a dúvida pela interpretação uniforme e pela autoridade da Santa Igreja Católica. Que tal foi em todos os tempos a doutrina da Igreja pode ser verificado de dois modos: consultando os Padres que floresceram nos primeiros séculos da Igreja e em cada século subsequente — testemunhas insuspeitas da sua doutrina —, todos os quais ensinam nos termos mais claros e com a mais plena unanimidade o dogma da presença real; e também apelando para os Concílios da Igreja, convocados sobre este importante assunto. Aduzir o testemunho individual de cada Padre seria tarefa interminável; basta que citemos, ou antes indiquemos, alguns poucos, cujo testemunho oferecerá critério suficiente para julgar os demais. Seja o primeiro a declarar a sua fé Santo Ambrósio: no livro «Sobre os Iniciados», afirma que o mesmo verdadeiro Corpo do Senhor, que foi assumido da Virgem, é recebido neste Sacramento — verdade que declara dever ser crida com a certeza da fé —; e em outro lugar afirma expressamente que antes da consagração é pão, mas depois da consagração é a carne de Cristo. São João Crisóstomo, testemunha de igual fidelidade e peso, professa e proclama esta verdade misteriosa, particularmente na sua sexagésima homilia sobre os que recebem os sagrados mistérios indignamente, bem como nas suas quadragésima quarta e quadragésima quinta homilias sobre São João: «Obedecemos», diz ele, «não contradigamos a Deus, ainda que o que ele diz pareça contrário à nossa razão e aos nossos sentidos: as suas palavras não podem enganar; os nossos sentidos enganam-se facilmente.» Com a doutrina assim ensinada por São João Crisóstomo se harmoniza plenamente a que Santo Agostinho ensinava de forma constante, particularmente quando, na sua explanação do Salmo trinta e três, diz: «Carregar-se a si mesmo nas próprias mãos é impossível ao homem e próprio somente de Cristo; ele foi carregado nas suas próprias mãos quando, dando o seu Corpo a ser comido, disse: Este é o meu Corpo.» Para não mencionar Justino e Ireneu, São Cirilo, no quarto livro sobre São João, declara em termos tão explícitos que o Corpo do Senhor está contido neste Sacramento, que nenhuma sofística pode distorcer nem interpretações capciosas obscurecer o seu pensamento. Se o pastor desejar testemunhos adicionais dos Padres, facilmente poderá acrescentar os Hilárioss, os Jerônimos, os Dionísios, os Damascenos e toda uma série de outros nomes ilustres, cujas opiniões sobre este assuntíssimo importante se encontrarão reunidas pelo trabalho e diligência de homens eminentes pela piedade e pelo saber.

§418

Outro meio de verificar a crença da Igreja em matérias de fé é a condenação da doutrina contrária. Que a crença na presença real era a da Igreja universal de Deus, unanimemente professada por todos os seus filhos, é demonstrada por um fato bem autenticado. Quando, no século XI, Berengário ousou negar este dogma, afirmando que a Eucaristia era apenas um sinal, a inovação foi imediatamente condenada pela voz unânime do mundo cristão. O Concílio de Vercelli, convocado pela autoridade de Leão IX, denunciou a heresia, e o próprio Berengário retratou-se e anatemizou o seu erro. Recaindo, porém, na mesma insensatez e impiedade, foi condenado por três diferentes concílios, convocados: um em Tours, e os outros dois em Roma — destes dois últimos, um foi convocado por Nicolau II e o outro por Gregório VII. O Concílio geral de Latrão, realizado sob Inocêncio III, ratificou ainda a sentença; e a fé da Igreja Católica neste ponto doutrinário foi mais plenamente declarada e mais solidamente estabelecida nos Concílios de Florença e Trento.

§419

Se, pois, o pároco explicar cuidadosamente estes pontos, o seu trabalho será coroado pelo efeito de fortalecer os fracos e de ministrar alegria e consolação aos piedosos — daqueles que, cegados pelo erro, nada odeiam mais do que a luz da verdade, abstemo-nos de fazer qualquer menção —; e este duplo efeito será alcançado com maior segurança, porquanto os fiéis não podem duvidar de que este dogma se encontra entre os artigos da fé. Crendo e confessando, como creem, que o poder de Deus é soberano, devem igualmente crer que a sua onipotência pode realizar a grande obra que admiramos e adoramos no Sacramento da Eucaristia; e, ainda, crendo, como creem, na Santa Igreja Católica, devem necessariamente crer que a doutrina por nós exposta é aquela que foi revelada pelo Filho de Deus.

§420

Nada, porém, contribui mais para acender na alma piedosa aquela alegria espiritual de que falamos; nada é mais fecundo em frutos espirituais do que a contemplação da excelsa dignidade deste augustíssimo Sacramento. Por ela compreendemos quão grande deve ser a perfeição da dispensação evangélica, sob a qual desfrutamos da realidade daquilo que, sob a Lei Mosaica, era apenas prefigurado por tipos e figuras. Por isso São Dionísio, com sabedoria mais que humana, diz que a nossa Igreja é um meio-termo entre a sinagoga e a Jerusalém celeste, e participa da natureza de ambas. Os fiéis não podem admirar suficientemente a perfeição da Santa Igreja Católica e a sua excelsa glória, separada do céu por apenas um grau. Em comum com os habitantes do céu, nós também possuímos Cristo, Deus e homem, presente conosco; mas eles — e nisso nos são superiores por um grau — são admitidos ao gozo efetivo da visão beatífica; ao passo que nós, com fé firme e inabalável, tributamos nossa homenagem à Divina Majestade presente entre nós, não, é verdade, de modo visível aos olhos mortais, mas oculta por um prodígio de poder sob o véu dos sagrados mistérios. Quão admiravelmente nos manifesta também este Sacramento o infinito amor de Jesus Cristo para com o homem! À bondade do Salvador convinha não nos retirar a natureza que assumiu por nossa causa, mas desejar, tanto quanto possível, habitar permanentemente entre nós, verificando em todo tempo as palavras: "As minhas delícias são estar com os filhos dos homens."

§421

Aqui o pároco explicará também aos fiéis que neste Sacramento estão contidos não somente o verdadeiro corpo de Cristo e todos os elementos de um corpo verdadeiro, mas também Cristo inteiro — sendo que o nome Cristo designa o Homem-Deus, isto é, uma só Pessoa em quem se unem as naturezas divina e humana —, e que a Santíssima Eucaristia contém, portanto, ambas e tudo quanto está incluído no conceito de ambas: a divindade e a humanidade inteiras, a alma, o corpo e o sangue de Cristo com todas as suas partes integrantes, as quais a fé nos ensina estarem contidas no Sacramento. No céu, a humanidade inteira está unida à divindade em uma única hipóstase, ou pessoa, e seria ímpio, portanto, supor que o corpo de Cristo contido no Sacramento esteja separado da sua divindade.

§422

O pároco, porém, não deixará de observar que no Sacramento nem todas as coisas estão contidas do mesmo modo nem pela mesma eficácia: algumas coisas, dizemos, a eficácia da consagração as realiza; pois, como as palavras da consagração efetuam o que significam, os escritores sagrados costumam dizer que tudo quanto a forma exprime está contido no Sacramento em virtude do Sacramento; e daí que, se pudéssemos supor que uma coisa estivesse inteiramente separada das demais, o Sacramento, em sua opinião, conteria unicamente o que a forma exprime. Outras coisas, porém, estão contidas no Sacramento por estarem unidas àquelas que a forma exprime; por exemplo, as palavras "Este é o meu corpo", que constituem a forma usada para consagrar o pão, significam o corpo do Senhor, e por isso o corpo do Senhor está contido na Eucaristia em virtude do Sacramento. Mas, como ao corpo estão unidos o seu sangue, a sua alma e a sua divindade, também estes devem coexistir no Sacramento; não, porém, em virtude da consagração, mas em virtude da união que subsiste entre eles e o seu corpo; e isso os teólogos exprimem pela palavra "concomitância". Daí resulta claramente que Cristo, inteiro e todo, está contido no Sacramento; pois, quando duas coisas estão realmente unidas, onde está uma, também a outra deve estar. Daí se segue igualmente que Cristo, inteiro e todo, está contido sob qualquer das espécies, de modo que, assim como sob a espécie do pão estão contidos não somente o corpo, mas também o sangue e Cristo inteiro, assim também, sob a espécie do vinho, estão contidos não somente o sangue, mas também o corpo e Cristo inteiro. São estas matérias acerca das quais os fiéis não podem albergar dúvida alguma. Foi, contudo, sabiamente ordenado que se realizassem duas consagrações distintas: elas representam de modo mais vivo a paixão de Nosso Senhor, na qual o seu sangue foi separado do seu corpo; e por isso, na forma da consagração, comemoramos a efusão do seu sangue. O Sacramento deve ser por nós usado como alimento e sustento de nossas almas; e era perfeitamente conforme a este seu uso que fosse instituído como comida e bebida, que constituem manifestamente o alimento próprio do homem.

§423

O pároco informará também aos fiéis que Cristo, inteiro e total, está contido não só sob uma ou outra espécie, mas também em cada partícula de uma ou outra espécie: "Cada um", diz Santo Agostinho, "recebe inteiro o Senhor Cristo em cada partícula: ele não se diminui ao ser dado a muitos, mas dá-se inteiro e total a cada um." Esta é também uma inferência evidente da narrativa dos Evangelistas: não se deve supor que o pão utilizado na Última Ceia tenha sido consagrado por Nosso Senhor em partes separadas, aplicando a fórmula particularmente a cada uma, mas que todo o pão sacramental então utilizado foi consagrado em quantidade suficiente para ser distribuído entre os Apóstolos, ao mesmo tempo e com a mesma fórmula. Que a consagração do cálice também se realizou da mesma maneira é evidente por estas palavras do Salvador: "Tomai e dividi-o entre vós."

§424

O que até agora foi dito destina-se a habilitar o pároco a mostrar que o corpo e o sangue de Cristo estão real e verdadeiramente contidos no Sacramento da Eucaristia. O próximo tema de instrução que deve merecer a sua atenção é que a substância do pão e do vinho não continua a existir no Sacramento após a consagração; verdade que, embora apta a suscitar em nós profunda admiração, é contudo uma consequência necessária do que já foi estabelecido. Se, após a consagração, o corpo de Cristo está real e verdadeiramente presente sob as espécies do pão e do vinho, não tendo estado ali antes, deve ter-se tornado presente por mudança de lugar, por criação ou por transubstanciação. Não pode tornar-se presente por mudança de lugar, porque então cessaria de estar no céu, pois tudo o que é movido necessariamente cessa de ocupar o lugar de que foi removido. Ainda menos podemos supor que se torne presente por criação, ideia que o espírito rejeita imediatamente. Para que o corpo de Nosso Senhor esteja presente no Sacramento, resta, portanto, que se torne presente pela transubstanciação e, consequentemente, que a substância do pão deixe inteiramente de existir. Por isso nossos predecessores na fé, os Padres do Concílio Geral de Latrão e o de Florença, confirmaram por solenesdecretosa verdade deste artigo. No Concílio de Trento, ela foi definida ainda mais plenamente nestas palavras: "Se alguém disser que no santo Sacramento da Eucaristia a substância do pão e do vinho permanece juntamente com o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema." A doutrina assim definida é uma inferência natural das palavras da Sagrada Escritura. Ao instituir este Sacramento, o próprio Nosso Senhor disse: "Este é o meu corpo": a palavra "este" exprime a substância inteira da coisa presente; e, portanto, se a substância do pão permanecesse, Nosso Senhor não poderia ter dito: "Este é o meu corpo." Em São João, diz também: "O pão que eu darei é a minha carne, pela vida do mundo": o pão que promete dar, declara aqui ser "a sua carne". Pouco depois acrescenta: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós"; e ainda: "A minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida." Quando, portanto, em termos tão claros e tão explícitos, chama a sua carne "verdadeiramente comida" e o seu sangue "verdadeiramente bebida", dá-nos a entender suficientemente que a substância do pão e do vinho já não existe no Sacramento. Quem percorrer as páginas dos Santos Padres facilmente perceberá que, sobre a doutrina da Transubstanciação, foram sempre unânimes. Santo Ambrósio diz: "Direis, talvez, que este pão não é outro senão o que se usa como alimento comum: antes da consagração é, de fato, pão; mas, tão logo são pronunciadas as palavras da consagração, do pão se torna a carne de Cristo." Para provar esta proposição com maior clareza, elucida-a com diversas comparações e exemplos. Em outro lugar, ao explicar estas palavras do Salmista: "Tudo o que o Senhor quis, fez no céu e na terra", diz: "Embora as espécies do pão e do vinho sejam visíveis, a fé nos diz que, após a consagração, somente o corpo e o sangue de Cristo ali se encontram." Explicando a mesma doutrina em termos quase idênticos, São Hilário diz que, embora exteriormente apareça pão e vinho, na realidade é o corpo e o sangue do Senhor.

§425

O pastor não deverá deixar de advertir os fiéis de que não devemos absolutamente estranhar que, mesmo depois da consagração, a Eucaristia seja às vezes chamada de pão: assim se denomina porque conserva a aparência e ainda retém a qualidade natural do pão, que é sustentar e nutrir o corpo. Que tal modo de falar está em perfeito acordo com o estilo das Sagradas Escrituras, as quais designam as coisas pelo que parecem ser, evidencia-se pelas palavras do Gênesis, que dizem ter Abraão visto três homens, quando, na realidade, viu três anjos; e os dois anjos que apareceram aos Apóstolos depois da ascensão de Nosso Senhor são chamados não de anjos, mas de homens.

§426

Explicar este mistério de modo adequado é extremamente difícil. Quanto à maneira desta admirável conversão, o pároco se esforçará, contudo, por instruir aqueles que estão mais adiantados no conhecimento e na contemplação das coisas divinas; os que ainda são fracos poderiam, seria de temer, ser oprimidos pela sua grandeza. Esta conversão, pois, se efetua de tal modo que toda a substância do pão e toda a substância do vinho são mudadas pelo poder de Deus em toda a substância do corpo de Cristo, e toda a substância do vinho em toda a substância do seu sangue, e isso sem qualquer mudança no próprio Senhor: Ele não é gerado, nem mudado, nem aumentado, mas permanece inteira e substancialmente o mesmo. Este sublime mistério declara-o assim Santo Ambrósio: "Vedes quão eficazes são as palavras de Cristo; se, pois, a palavra do Senhor Jesus é tão poderosa que convocou a criação à existência, não exigirá menor exercício de poder fazer subsistir o que já existe e mudá-lo em outra coisa?" Muitos outros Padres, cuja autoridade é demasiado grave para ser questionada, escreveram no mesmo sentido: "Confessamos fielmente", diz Santo Agostinho, "que antes da consagração é pão e vinho, produto da natureza; mas depois da consagração é o corpo e o sangue de Cristo, consagrado pela bênção." "O corpo", diz Damasceno, "está verdadeiramente unido à divindade, o corpo assumido da Virgem; não que esse corpo assumido desça do céu, mas que o pão e o vinho são mudados no corpo e no sangue de Cristo." Esta admirável mudança, como ensina o Concílio de Trento, a Igreja Católica exprime do modo mais apropriado pela palavra "transubstanciação". Quando, na ordem natural, a forma de um ser é mudada, tal mudança pode propriamente chamar-se "transformação"; do mesmo modo, quando, no Sacramento da Eucaristia, toda a substância de uma coisa passa para toda a substância de outra, a mudança foi sábia e apropriadamente denominada pelos nossos predecessores na fé "transubstanciação". Porém, conforme a admoestação tão frequentemente repetida pelos Santos Padres, os fiéis devem ser advertidos contra o perigo de satisfazerem uma curiosidade indiscreta, pesquisando o modo pelo qual esta mudança se opera. Ela escapa aos poderes da compreensão, nem se pode encontrar nenhum exemplo dela nas transmutações naturais, nem mesmo no vasto âmbito da criação. A mudança em si mesma é objeto não de nossa compreensão, mas de nossa humilde fé; e o modo dessa mudança proíbe a temeridade de uma indagação demasiado curiosa.

§427

A mesma salutar cautela deve também ser observada pelo pároco no que diz respeito ao modo misterioso pelo qual o corpo de Nosso Senhor está contido inteiro e completo sob a menor partícula do pão. Esses insondáveis mistérios raramente deveriam tornar-se matéria de disquisição. Caso, porém, a caridade cristã exija um afastamento dessa salutar regra, o pároco há de lembrar-se de preparar e fortalecer previamente os ouvintes, recordando-lhes que "nenhuma palavra será impossível a Deus."

§428

O pastor ensinará também que Nosso Senhor não está no Sacramento como num lugar: o lugar diz respeito às coisas somente enquanto estas possuem magnitude; e não dizemos que Cristo está no Sacramento enquanto é grande ou pequeno — termos que pertencem à quantidade —, mas enquanto é substância. A substância do pão é convertida na substância de Cristo, não em magnitude ou quantidade; e a substância, como é sabido, está contida tanto num espaço pequeno quanto num espaço grande. A substância do ar, por exemplo, seja em grande ou em pequena quantidade, e a da água, seja encerrada num recipiente ou a correr num rio, é necessariamente a mesma. Assim, pois, como o corpo de Nosso Senhor sucede à substância do pão, devemos confessar que ele está no Sacramento do mesmo modo como o pão ali estava antes da consagração: sendo inteiramente indiferente que a substância do pão estivesse presente em maior ou menor quantidade.

§429

Passamos agora ao terceiro efeito produzido pelas palavras da consagração: a existência das espécies de pão e vinho no Sacramento sem um sujeito em que insiram — efeito tão estupendo quanto admirável. O que foi dito em explicação dos dois pontos precedentes deve facilitar a exposição desta verdade misteriosa. Já provamos que o corpo e o sangue de Nosso Senhor estão real e verdadeiramente contidos no Sacramento, com total exclusão da substância do pão e do vinho; os acidentes não podem insirir-se no corpo e no sangue de Cristo: devem, portanto, contrariando as leis físicas, subsistir por si mesmos, sem insirir em sujeito algum. Esta tem sido, em todos os tempos, a doutrina da Igreja Católica; e as mesmas autoridades pelas quais já provamos que a substância do pão e do vinho deixa de existir na Eucaristia servem igualmente para estabelecer esta verdade. Convém, porém, à piedade dos fiéis que, deixando de lado sutis disquisições, reverenciem e adorem, na simplicidade da fé, a majestade deste augusto Sacramento; e que, com sentimentos de gratidão e admiração, reconheçam a sabedoria de Deus na instituição dos santos mistérios sob as espécies de pão e vinho. Comer carne humana ou beber sangue humano repugna profundamente à natureza humana; por isso Deus, em sua infinita sabedoria, estabeleceu que o corpo e o sangue de Cristo fossem ministrados sob as formas do pão e do vinho, alimento comum e agradável ao homem. Da ministração sob essas formas derivam ainda duas outras vantagens de grande importância: ela afasta as calunniosas objeções dos incrédulos, às quais estaria exposta a manducação do corpo e do sangue de Nosso Senhor sob forma humana; ao mesmo tempo, ao recebê-lo sob uma forma em que é imperceptível aos sentidos, nossa fé se fortalece, a qual, como observa São Gregório, "não tem mérito nas coisas que caem sob a jurisdição da razão". O que até aqui foi dito sobre este assunto, todavia, exige grande prudência na sua exposição; e nisto o pároco se guiará pela capacidade de seus ouvintes, pelas circunstâncias de tempo e lugar.

§430

No que diz respeito aos efeitos saludares deste Sacramento, o pastor há de expô-los a todos, indistintamente e sem reservas, pois é necessário que todos os conheçam. O que dissemos tão amplamente sobre este assunto deve ser dado a conhecer aos fiéis, principalmente para torná-los sensíveis às vantagens que decorrem da sua participação — vantagens tão numerosas e tão importantes que não se podem exprimir em palavras —, dentre as quais o pastor há de contentar-se em selecionar um ou dois pontos para explicação, a fim de mostrar as graças superabundantes de que os santos mistérios estão repletos. Para este fim, será proveitoso expor primeiro a natureza e a eficácia dos demais Sacramentos, comparando depois a Eucaristia à fonte viva e os outros Sacramentos a outros tantos riachos. Com plena verdade se denomina a Santíssima Eucaristia fonte de toda a graça, pois contém, de modo admirável, a origem de todos os dons e graças, o autor de todos os Sacramentos, Cristo Nosso Senhor, do qual, como de sua fonte, os demais Sacramentos derivam toda a sua bondade e perfeição. Esta comparação serve, portanto, para mostrar quão grandes são os tesouros de graça que se derivam deste Sacramento.

§431

Será também de grande proveito considerar atentamente a natureza do pão e do vinho, símbolos deste sacramento: o que o pão e o vinho são para o corpo, isso é a Eucaristia, em ordem superior, para a saúde e a alegria da alma. Ela não se converte, como o pão e o vinho, em nossa substância; antes, em certo sentido, nos transforma em sua própria natureza, e a ela podemos aplicar estas palavras de Santo Agostinho: "Eu sou o alimento dos adultos; cresce e me comerás; nem me transformarás em ti, como fazes com o alimento corporal, mas serás transformado em mim." Se, pois, "a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo", esses tesouros espirituais devem ser infundidos naquela alma que recebe, com pureza e santidade, aquele que diz de si mesmo: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele." Os que recebem este Sacramento com piedade e devoção recebem, sem dúvida, o Filho de Deus em suas almas e se unem, como membros vivos, ao seu corpo; pois está escrito: "Quem me come viverá também por mim"; e ainda: "O pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo." Explicando estas palavras do Salvador, São Cirilo diz: "O Verbo eterno, unindo-se à sua própria carne, comunicou-lhe uma força vivificante; convinha, portanto, que ele se unisse a nós de modo admirável, por meio de sua sagrada carne e de seu precioso sangue, que recebemos no pão e no vinho consagrados pela sua bênção vivificante."

§432

Mas quando se diz que este Sacramento confere a graça, não se pretende afirmar que, para recebê-lo com proveito, seja desnecessário estar previamente em estado de graça. O alimento natural de nada serve a quem já está morto; da mesma forma, os sagrados mistérios de nada aproveitam a quem não vive no Espírito. Por isso, este Sacramento foi instituído sob as espécies do pão e do vinho, para significar que o fim de sua instituição não é restituir a vida a uma alma morta, mas conservá-la em quem já a possui. Dizemos que este Sacramento confere a graça, porque nem mesmo a primeira graça — que todos devem ter antes de se atrevirem a aproximar-se deste Sacramento, para não "comerem e beberem o próprio juízo" — é concedida a ninguém que não deseje receber a Sagrada Eucaristia, que é o fim de todos os Sacramentos e o símbolo da unidade eclesiástica; a quem não pertence a esta unidade não pode ser concedida a graça divina. Ademais, assim como o corpo não só se sustenta, mas também cresce pelo alimento natural, do qual cada dia extraímos novo prazer, assim também a vida da alma não só é sustentada, mas se fortalece ao nutrir-se do banquete eucarístico, que lhe comunica um ardor crescente pelas coisas celestiais. Com toda a verdade e propriedade, portanto, dizemos que este Sacramento — que bem se pode comparar ao maná, "que tinha em si toda a suavidade e o sabor de todos os manjares" — confere graça à alma.

§433

Que a Santíssima Eucaristia remite as ofensas mais leves, ou, como comumente se chamam, os pecados veniais, não pode ser objeto de dúvida. Quaisquer que sejam os danos que a alma sofre ao cair em algumas faltas ligeiras, por força das paixões, a Eucaristia, que cancela os pecados menores, os repara da mesma forma — sem nos afastarmos da ilustração já apresentada — que o alimento natural, como sabemos por experiência, repara gradualmente o desgaste diário causado pelo calor vital do organismo. Justamente por isso disse São Ambrósio deste Sacramento celestial: "Este pão cotidiano é tomado como remédio para a enfermidade cotidiana." Isso, contudo, deve ser entendido somente das imperfeições veniais.

§434

A Santíssima Eucaristia é também um antídoto contra o contágio do pecado e um escudo contra os violentos assaltos da tentação. É, por assim dizer, uma medicina celestial que preserva a alma do fácil acesso de infecções virulentas e mortais. São Cipriano relata que, nos primeiros séculos da Igreja, quando os cristãos eram arrastados em multidões pelos tiranos aos tormentos e à morte por professarem o nome de Cristo, recebiam da mão do bispo o Sacramento do corpo e do sangue do Senhor, para que, porventura vencidos pelo excesso dos tormentos, não cedessem no combate salutar. Ele reprime também os desejos licenciosos da carne e os mantém na devida sujeição ao espírito: na mesma medida em que inflama a alma com o fogo da caridade, nessa mesma medida extingue necessariamente o fogo da concupiscência. Finalmente, para resumir em poucas palavras todas as vantagens e bênçãos que emanam deste Sacramento, a Santíssima Eucaristia facilita de modo extraordinário a consecução da vida eterna: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue", diz o Redentor, "tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia." A graça que Ela confere traz paz e tranquilidade à alma; e quando chegar a hora em que o fiel deva partir desta vida mortal, como um outro Elias que, fortalecido pelo alimento miraculoso, caminhou até Horeb, o monte de Deus, o cristão, robustecido pela influência vivificante deste alimento celestial, voará para as moradas da glória eterna e da bem-aventurança sem fim. Todos estes importantes pontos o pároco poderá expor plenamente aos fiéis, se se demorar no sexto capítulo de São João, no qual são desenvolvidos os múltiplos efeitos deste Sacramento; ou se, percorrendo a vida e as ações do Senhor, mostrar que, se aqueles que O receberam sob o seu teto durante a sua vida mortal, ou foram restituídos à saúde pelo toque do seu manto ou mesmo da orla de sua veste, eram justamente considerados felizes, quanto mais felizes nós, em cujas almas Ele, resplandecente de glória imarcescível, não se digna entrar, sanar todas as nossas feridas espirituais, enriquecer-nos com os seus mais preciosos dons e unir-nos a Si!

§435

Mas para estimular os fiéis a aspirar aos dons mais excelentes, o pároco indicará também quem são aqueles que retiram esses benefícios inestimáveis da participação nos sagrados mistérios, lembrando que os cristãos podem comungar de modo diverso e com efeitos diferentes. Por isso nossos predecessores na fé, como se lê no Concílio de Trento, distinguiram três classes de comungantes. Alguns recebem apenas o Sacramento: são os pecadores que não temem aproximar-se dos sagrados mistérios com lábios impuros e corações depravados e que, como diz o Apóstolo, "comem e bebem indignamente." Dessa classe de comungantes diz Santo Agostinho: "Aquele que não habita em Cristo, e em quem Cristo não habita, certamente não come espiritualmente a sua carne, ainda que carnalmente e de modo visível pressione com os dentes o Sacramento de sua carne e sangue." Portanto, não só os que recebem a Sagrada Eucaristia com essas disposições não obtêm fruto algum de sua participação, mas, como diz o Apóstolo, "comem e bebem o seu próprio juízo." Outros são ditos receber a Sagrada Eucaristia apenas em espírito: são aqueles que, inflamados por uma viva "fé que opera pela caridade", participam por desejo deste alimento celestial, do qual recebem, se não todo, ao menos considerável fruto. Por último, há os que recebem a Sagrada Eucaristia tanto espiritualmente quanto sacramentalmente: aqueles que, segundo o conselho do Apóstolo, tendo-se primeiro examinado, aproximam-se deste divino banquete adornados com a veste nupcial e dele retiram todas aquelas graças superabundantes que já mencionamos. Portanto, os que, podendo receber com devida preparação o Sacramento do corpo e sangue do Senhor, contentam-se apenas com a comunhão espiritual, privam-se manifestamente de um tesouro celestial de valor inestimável. Passamos agora a indicar o modo pelo qual os fiéis devem preparar-se previamente para a comunhão sacramental. Para demonstrar a necessidade dessa preparação prévia, deve propor-se aos fiéis o exemplo do Salvador. Antes de dar aos seus Apóstolos o Sacramento do seu corpo e sangue, embora eles já estivessem limpos, lavou-lhes os pés, para declarar que devemos empregar a maior diligência em levar à sua participação a mais elevada integridade e inocência de alma. Em seguida, os fiéis devem compreender que, assim como aquele que se aproxima assim preparado e disposto é adornado com os mais amplos dons da graça celestial, da mesma forma aquele que se aproxima sem essa preparação e sem essas disposições não só não retira dela vantagem alguma, mas mergulha a própria alma na mais indizível miséria. É próprio do melhor e mais salutar remédio, quando aplicado em momento oportuno, produzir o maior benefício; mas, se aplicado fora de tempo, tornar-se perniciosíssimo e destrutivo. Não pode, pois, causar-nos admiração que os grandes e sublimes dons de Deus, quando recebidos numa alma devidamente predisposta, sejam de grandíssimo auxílio para a obtenção da salvação; ao passo que para os que os recebem sem essas disposições necessárias, trazem consigo a morte eterna. Disto oferece convincente ilustração a Arca do Senhor: o povo de Israel não possuía coisa mais preciosa; era para eles fonte de incontáveis bênçãos de Deus; mas, quando levada pelos filisteus, trouxe-lhes uma praga devastadora e as mais graves calamidades, agravadas ainda pela desonra eterna. O alimento recebido por um estômago saudável nutre e sustenta o corpo; mas o mesmo alimento, recebido por um estômago repleto de humores corrompidos, gera doença maligna.

§436

A primeira preparação, portanto, que os fiéis devem fazer é distinguir mesa de mesa, esta sagrada mesa das mesas profanas, este pão celestial do pão comum. Fazemo-lo quando cremos firmemente que a Eucaristia contém real e verdadeiramente o corpo e o sangue do Senhor, daquele que os anjos adoram no céu, "a cujo aceno os pilares do céu tremem e se aterram", de cuja glória estão cheios os céus e a terra. Isto é discernir o corpo do Senhor, em conformidade com a admoestação do Apóstolo, venerando antes a grandeza do mistério do que investigando com demasiada curiosidade a sua verdade por meio de ociosas

§437

Segunda disquisição. Outra preparação muito necessária consiste em perguntarmo-nos se estamos em paz, se amamos sincera e de coração o próximo. "Se, pois, ao apresentares a tua oferta ao altar, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; depois vem e apresenta a tua oferta." Devemos, em seguida, examinar cuidadosamente a nossa consciência, para que não esteja porventura manchada por culpa mortal, que só a sincera arrependimento pode apagar. Este rigoroso exame é necessário para purificar a alma de suas manchas, aplicando-lhe o salutar remédio da contrição e da confissão. O Concílio de Trento definiu que ninguém consciente de pecado mortal, tendo possibilidade de recorrer a um confessor, por mais contrito que se julgue, deve aproximar-se da Sagrada Eucaristia sem antes ter sido purificado pela confissão sacramental. Devemos também refletir, no silêncio de nosso coração, quão indignos somos de que Deus nos conceda este dom divino, e, com o Centurião, de quem Nosso Senhor declarou não ter encontrado "tão grande fé em Israel", exclamar: "Senhor, não sou digno de que entreis sob o meu teto." Devemos ainda perguntar a nós mesmos se podemos dizer verdadeiramente com Pedro: "Senhor, vós sabeis que vos amo"; e recordar que aquele que se assentou ao banquete nupcial sem traje de núpcias foi lançado nas trevas exteriores e condenado a tormentos eternos.

§438

A nossa preparação, porém, não deve limitar-se à alma: deve estender-se também ao corpo. Devemos aproximar-nos da Santíssima Eucaristia em jejum, sem ter comido nem bebido, ao menos desde a meia-noite anterior. A dignidade de tão grande Sacramento exige também que as pessoas casadas se abstenham do débito conjugal por alguns dias antes da comunhão — prática recomendada pelo exemplo de Davi, o qual, estando prestes a receber os pães da proposição das mãos do sacerdote, declarou que ele e os seus servos estavam "limpos de mulheres há três dias". Estes pontos contêm um resumo das principais disposições a serem observadas pelos fiéis como preparação para receber os sagrados mistérios; e a estes capítulos podem reduzir-se quaisquer outras preparações que a piedade sugerir ao devoto comunicante.

§439

Mas, para que ninguém seja afastado da Sagrada Eucaristia pela dificuldade da preparação, deve-se lembrar frequentemente aos fiéis que todos estão obrigados a receber este Sacramento; e que a Igreja decretou que quem negligencia aproximar-se da sagrada comunhão ao menos uma vez por ano, na Páscoa, sujeita-se à pena de excomunhão. Contudo, não imaginem os fiéis que basta receber o Corpo do Senhor uma única vez por ano, em obediência ao decreto da Igreja: devem aproximar-se com maior frequência; mas se mensalmente, semanalmente ou diariamente, não pode ser determinado por nenhuma regra fixa e universal. Santo Agostinho, porém, estabelece uma regra certíssima, aplicável a todos: "Vive," diz ele, "de tal maneira que possas receber todos os dias." Será, portanto, dever do pastor admoestor frequentemente os fiéis a que, assim como julgam necessário prover cada dia de alimento o corpo, também se preocupem em alimentar e nutrir a alma cada dia com este manjar celestial. A alma não tem menos necessidade do alimento espiritual do que o corpo do alimento corporal. Aqui será muito útil recapitular as inestimáveis vantagens que, como já demonstramos, fluem da comunhão sacramental; e o maná, figura deste Sacramento, do qual os israelitas tinham ocasião de participar cada dia, pode servir de ilustração adicional. Os Santos Padres, que recomendaram ardentemente a participação frequente neste Sacramento, podem ser citados como autoridade adicional para reforçar a necessidade da comunhão frequente; e as palavras "pecas todos os dias, recebe todos os dias" expressam o pensamento não só de Santo Agostinho, mas de todos os Padres que escreveram sobre o assunto.

§440

Que houve um tempo em que os fiéis se aproximavam da Sagrada Comunhão todos os dias, aprendemo-lo pelos Atos dos Apóstolos. Todos os que então professavam a fé de Cristo ardiam de tão pura e fervorosa caridade que, dedicando-se incessantemente à oração e às demais obras de piedade, se encontravam preparados para comungar diariamente. Esta prática devota, que por algum tempo parece ter sido interrompida, foi em parte restaurada pelo Papa Anacleto, santíssimo mártir, que ordenou que todos os ministros assistentes ao santo sacrifício comungassem — ordenação que o Pontífice declara ser de instituição apostólica. Foi também prática da Igreja, por longo tempo, que, terminado o sacrifício, o sacerdote, voltando-se para a assembleia, convidasse os fiéis à santa mesa com estas palavras: "Vinde, irmãos, e recebei a comunhão"; e os que estavam preparados avançavam para receber os santos mistérios com o coração animado pela mais fervente devoção. Mas, depois, quando a caridade e a devoção declinaram entre os cristãos e os fiéis muito raramente se aproximavam da santa comunhão, o Papa Fabiano decretou que todos comungassem três vezes por ano: no Natal, na Páscoa e em Pentecostes — decreto que foi posteriormente confirmado por muitos Concílios, em particular pelo primeiro de Agde. Tal foi, afinal, a decadência da piedade, que não só esta santa e salutar prática deixou de ser observada, mas a comunhão chegou a ser adiada por anos. O Concílio de Latrão decretou, portanto, que todos os fiéis comungassem ao menos uma vez por ano, na Páscoa, e que a omissão fosse punida com a exclusão da comunhão dos fiéis. Mas, embora esta lei, sancionada pela autoridade de Deus e de sua Igreja, diga respeito a todos os fiéis, o pároco ensinará, contudo, que ela não se estende às pessoas que ainda não chegaram ao uso da razão, porque são incapazes de distinguir a Sagrada Eucaristia do alimento comum e não podem trazer a este Sacramento a piedade e a devoção que ele exige. Estender-lhes o preceito pareceria incompatível com a instituição deste Sacramento por Nosso Senhor: "Tomai", disse Ele, "e comei" — palavras que evidentemente não podem aplicar-se a crianças de tenra idade, incapazes de tomar e comer. É verdade que em alguns lugares vigorou o costume antigo de dar a Sagrada Eucaristia mesmo a crianças pequenas; mas, pelas razões já expostas e por outras razões plenamente conformes à piedade cristã, essa prática foi há muito abandonada pela autoridade da mesma Igreja. Quanto à idade em que as crianças devem ser admitidas à comunhão, isso os pais e o confessor podem melhor determinar: a eles compete verificar se as crianças adquiriram conhecimento suficiente deste admirável Sacramento e se desejam provar este pão dos anjos.

§441

O Sacramento deve também ser recusado às pessoas que padecem de insanidade declarada. Todavia, segundo o decreto do Concílio de Cartago, pode ser-lhes administrado na hora da morte, contanto que, antes de perderem o juízo, tivessem manifestado um desejo sinceramente piedoso de ser admitidas à sua participação, e desde que não haja nenhum perigo proveniente do estado do estômago ou outro inconveniente ou indignidade a temer.

§442

Quanto ao rito a observar na administração deste Sacramento, o pároco ensinará que a lei da Igreja proíbe a sua administração sob as duas espécies a qualquer pessoa que não seja o sacerdote celebrante, a não ser por especial permissão da Igreja. Cristo, é verdade, como foi explicado pelo Concílio de Trento, instituiu e administrou aos seus Apóstolos, na Última Ceia, este grande Sacramento sob as duas espécies; mas não se segue necessariamente que, ao fazê-lo, estabeleceu uma lei que tornasse obrigatória a sua administração aos fiéis sob as duas espécies. Falando deste Sacramento, Ele próprio o menciona frequentemente sob uma só espécie: "Se alguém comer deste pão", diz Ele, "viverá para sempre; e o pão que Eu darei é a minha carne pela vida do mundo", e "Quem comer deste pão viverá para sempre." A Igreja, sem dúvida, foi movida por razões numerosas e ponderosas, não só para aprovar mas também para confirmar por decreto solene a prática geral de comungar sob uma só espécie. Em primeiro lugar, era necessária a maior cautela para evitar acidentes ou irreverências, que se tornariam quase inevitáveis se o cálice fosse administrado em uma assembleia numerosa. Em segundo lugar, a Santíssima Eucaristia deve estar sempre pronta para os enfermos, e se a espécie do vinho permanecesse por longo tempo sem ser consumida, seria de temer que se tornasse insípida. Além disso, há muitos que não suportam o gosto ou o cheiro do vinho; para que, portanto, o que se destina ao nutrimento da alma não se torne nocivo à saúde do corpo, a Igreja, em sua sabedoria, sancionou a sua administração sob a espécie do pão somente. Pode-se também observar que em muitos lugares o vinho é extremamente escasso, nem pode ser trazido de países distantes sem incorrer em despesas muito pesadas e em viagens muito longas e difíceis. Finalmente, uma circunstância que principalmente influenciou a Igreja ao estabelecer esta prática foi a necessidade de encontrar meios para esmagar a heresia que negava que Cristo, todo inteiro, está contido sob cada uma das espécies, e afirmava que o corpo está contido sob a espécie do pão sem o sangue, e o sangue sob a espécie do vinho sem o corpo. Este objetivo foi alcançado pela comunhão sob a espécie do pão somente, a qual coloca, por assim dizer, sensivelmente diante dos nossos olhos, a verdade da fé católica. Os que escreveram expressamente sobre este assunto poderão, se parecer necessário, fornecer ao pároco razões adicionais para a prática da Igreja Católica na administração da Santíssima Eucaristia. Para nada omitir de doutrinal sobre assunto tão importante, passamos agora a tratar do ministro do Sacramento, ponto sobre o qual, contudo, dificilmente alguém é ignorante. O pároco ensinará, portanto, que só aos sacerdotes foi dado o poder de consagrar e administrar a Santíssima Eucaristia. O Concílio de Trento explicou também que a prática constante da Igreja tem sido igualmente que os fiéis recebam o Sacramento da mão do sacerdote e que o sacerdote se comunique a si mesmo; e o mesmo Santo Concílio mostrou que esta prática deve ser sempre escrupulosamente observada, marcada como está com o selo autorizado da tradição apostólica e sancionada pelo ilustre exemplo do próprio Senhor, que com as suas próprias mãos consagrou e deu aos seus discípulos o seu sacratíssimo corpo.

§443

Para zelar ao máximo pela dignidade deste tão augusto Sacramento, não só a sua administração é reservada exclusivamente à ordem sacerdotal, mas a Igreja também proibiu expressamente, por lei, que qualquer pessoa não consagrada à religião — salvo em caso de necessidade — toque os vasos sagrados, os linhos ou outros objetos imediatamente necessários para a consagração. Daqui podem sacerdotes e fiéis aprender com que piedade e santidade devem ser dotados os que consagram, administram ou recebem o Santo dos Santos. Contudo, a Eucaristia, como se observou a respeito dos demais Sacramentos, é igualmente válida, quer seja administrada por mãos santas quer por mãos impuras. É de fé que a eficácia dos Sacramentos não depende do mérito do ministro, mas da virtude e do poder de Nosso Senhor Jesus Cristo.

§444

No que diz respeito à Eucaristia como Sacramento, estes são os principais pontos que exigiram explicação. Passamos agora a explicar a sua natureza enquanto sacrifício, para que os pastores saibam quais são as principais instruções a transmitir aos fiéis acerca deste mistério, nos domingos e dias santos, em conformidade com o decreto do Concílio de Trento. Não só é este Sacramento um tesouro de riquezas celestiais, que, se bem aproveitado, nos alcançará o favor e a amizade do céu; mas possui também o valor peculiar e extraordinário de nos capacitar a oferecer a Deus alguma retribuição adequada pelos benefícios inestimáveis que a sua bondade nos concedeu. Oferecida devida e legitimamente, esta vítima é muito grata e muito aceitável a Deus. Se os sacrifícios da antiga lei, dos quais está escrito: "Sacrifícios e oblações não quiseste", e também: "Se tu houveras desejado sacrifício, certamente eu o teria oferecido; com holocaustos não te deleitarás", eram tão aceitáveis a seus olhos que, como testifica a Escritura, deles "ele aspirou um odor suave", isto é, lhe eram gratos e aceitáveis; que não devemos esperar da eficácia de um sacrifício em que é imolada e oferecida uma vítima que não é menor do que aquele de quem uma voz do céu por duas vezes proclamou: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo"? O pastor explicará, portanto, cuidadosamente este mistério ao povo, para que, reunido na sua celebração, aprenda a fazê-lo objeto de meditação atenta e devota.

§445

Ensinará, em primeiro lugar, que a Eucaristia foi instituída por Nosso Senhor para dois grandes fins: ser o alimento celeste da alma, conservando e sustentando a vida espiritual, e dar à Igreja um sacrifício perpétuo, pelo qual o pecado seja expiado e nosso Pai celestial, a quem nossos crimes tantas vezes ofenderam gravemente, seja movido da ira à misericórdia, da severidade da justa vingança ao exercício de benigna clemência. Disto foi viva figura o cordeiro pascal, que os israelitas ofereciam e comiam como sacramento e sacrifício. Nem poderia Nosso Senhor divino, quando estava prestes a oferecer-se a seu eterno Pai no altar da cruz, ter dado prova mais ilustre de seu amor sem limites por nós, do que legando-nos um sacrifício visível, pelo qual o sacrifício cruento, que logo depois havia de ser oferecido uma só vez na cruz, fosse renovado, e sua memória celebrada diariamente em toda a Igreja universal até a consumação dos séculos, em grande proveito de seus filhos.

§446

A diferença entre a Eucaristia como sacramento e como sacrifício é muito grande e é de dois aspectos: como sacramento, ela se consuma pela consagração; como sacrifício, toda a sua eficácia consiste na oblação. Quando é depositada no sacrário ou levada aos enfermos, é, portanto, sacramento e não sacrifício. Como sacramento, é também para quem a recebe dignamente uma fonte de mérito e traz consigo todas as vantagens que já mencionamos; como sacrifício, é não apenas fonte de mérito, mas também de satisfação. Assim como, em sua paixão, Nosso Senhor mereceu e satisfez por nós, assim também na oblação deste sacrifício, que é o vínculo da unidade cristã, os cristãos merecem o fruto de sua paixão e satisfazem pelo pecado.

§447

No que diz respeito à instituição deste sacrifício, o Concílio de Trento dissipou toda dúvida sobre o assunto, declarando que foi instituído por Nosso Senhor na sua última Ceia, ao mesmo tempo que fulmina de anátema todos os que afirmam não ser nele oferecido a Deus um sacrifício verdadeiro e próprio, ou que oferecer não significa mais do que Cristo se dar a nós como alimento espiritual. Que o sacrifício é devido a Deus somente, o sagrado Concílio o declara também nos termos mais claros. O sacrifício solene da Missa é, na verdade, celebrado às vezes em honra da memória dos Santos; mas nunca é oferecido a eles, e sim àquele somente que os coroou de glória imarcescível. Nunca o ministro celebrante diz: "A ti ofereço o sacrifício, ó Pedro, ou a ti, ó Paulo"; mas, ao oferecer o sacrifício a Deus somente, ele lhe rende graças pelas insignes vitórias alcançadas pelos mártires, e implora o seu patrocínio, "a fim de que aqueles cuja memória celebramos na terra se dignem interceder por nós no céu." A doutrina da Igreja Católica acerca deste sacrifício ela a recebeu de Nosso Senhor, quando, na última Ceia, confiando aos Apóstolos os sagrados mistérios, disse: "Fazei isto em memória de mim." Então, como o santo Sínodo definiu, os ordenou sacerdotes e lhes ordenou a eles e a seus sucessores no ministério que imolassem e oferecessem em sacrifício o seu precioso Corpo e Sangue. Disso também as palavras do Apóstolo aos Coríntios oferecem prova suficiente: "Não podeis," diz ele, "beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios: não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." Assim como, pois, pela "mesa dos demônios" entendemos o altar sobre o qual se lhes oferecia sacrifício, assim pela "mesa do Senhor", para dar às palavras do Apóstolo uma conclusão pertinente, deve-se entender o altar sobre o qual se oferecia sacrifício ao Senhor.

§448

Se buscarmos figuras e profecias deste sacrifício no Antigo Testamento, encontramos, em primeiro lugar, que sua instituição foi claramente predita por Malaquias nestas palavras: "Desde o nascente do sol até ao seu ocaso, grande é o meu nome entre as nações, e em todo lugar se oferece ao meu nome um sacrifício e uma oblação pura; porque grande é o meu nome entre as nações, diz o Senhor dos exércitos." Esta vítima salvadora foi também prefigurada, tanto antes como depois da promulgação da lei mosaica, por uma variedade de sacrifícios; pois só este, como perfeição e consumação de todos, encerra em si todas as vantagens que os demais sacrifícios prefiguravam. Entre os sacrifícios da antiga lei, porém, em nenhum descobrimos uma imagem mais viva do sacrifício eucarístico do que no de Melquisedec. O próprio Senhor, na Última Ceia, ofereceu a seu Eterno Pai seu preciosíssimo corpo e sangue sob as espécies do pão e do vinho, declarando-se ao mesmo tempo "sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec."

§449

Confessamos, portanto, que o sacrifício da Missa é um único e mesmo sacrifício com o do Calvário: a vítima é uma só e a mesma, Cristo Jesus, que a si mesmo se ofereceu, uma única vez, em sacrifício cruento sobre o altar da cruz. A vítima cruenta e a incruenta são ainda uma e a mesma, e a oblação da cruz se renova cotidianamente no sacrifício eucarístico, em obediência ao mandato de Nosso Senhor: "Fazei isto em memória de mim." O sacerdote é também o mesmo, Cristo Nosso Senhor: os ministros que oferecem este sacrifício consagram os santos mistérios não em nome próprio, mas na pessoa de Cristo. Isso o declaram as palavras da consagração: o sacerdote não diz "Este é o corpo de Cristo", mas "Este é o meu corpo"; e assim revestido do caráter de Cristo, converte a substância do pão e do vinho na substância do seu verdadeiro corpo e sangue. Que o santo sacrifício da Missa não é somente um sacrifício de louvor e ação de graças, ou uma comemoração do sacrifício da cruz, mas também um sacrifício de propiciação, pelo qual Deus é aplacado e se torna propício, o pastor ensinará como dogma definido pela autoridade infalível de um Concílio geral da Igreja. Se, portanto, com corações puros, fé viva e sincero pesar pelas transgressões passadas, imolamos e oferecemos em sacrifício esta santíssima vítima, receberemos, sem dúvida, do Senhor "misericórdia e graça em auxílio oportuno." Tão agradável é a Deus o suave aroma deste sacrifício, que, por meio de sua oblação, ele perdoa os nossos pecados, concedendo-nos os dons da graça e da penitência. Esta é a solene oração da Igreja: sempre que se celebra a comemoração desta vítima, promove-se a obra da nossa salvação, e os abundantes frutos daquela vítima cruenta afluem sobre nós em plenitude, por meio deste sacrifício incruento.

§450

O pároco ensinará também que tal é a eficácia deste sacrifício que os seus benefícios se estendem não só ao celebrante e ao comungante, mas também a todos os fiéis, quer viventes, quer contados entre os que morreram no Senhor, mas cujos pecados ainda não foram plenamente expiados. Segundo a tradição apostólica mais autêntica, ele não é menos proveitoso quando oferecido por eles do que quando oferecido em expiação dos pecados, em alívio das penas, das satisfações, das calamidades, ou para o socorro das necessidades dos vivos. É fácil perceber, portanto, que a Missa, onde quer e quando quer que seja oferecida, por ser conducente ao interesse comum e à salvação de todos, deve ser considerada comum a todos os fiéis.

Referência atual: §401