Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§501 – §550
§501
Esta espécie de satisfação, abrangendo como abrange muitos graus, admite muitas acepções. O primeiro grau de satisfação, e aquele que se eleva eminentemente acima de todos os demais, é aquele pelo qual tudo o que nos é devido a Deus por nossos pecados é pago com abundância, ainda que Ele quisesse tratar conosco segundo o mais rigoroso rigor de sua justiça. Esta satisfação, dizemos, aplacou a Deus e O tornou propício para conosco, e por ela somos devedores a Cristo somente, o qual, havendo pago o preço de nossos pecados na cruz, ofereceu a seu Eterno Pai uma satisfação superabundante. Nenhuma criatura poderia ter pago por nós tão pesada dívida: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados", diz São João, "e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." Esta satisfação é, portanto, plena e superabundante, correspondente a toda espécie de pecados cometidos pelo gênero humano: ela confere às ações humanas mérito diante de Deus; sem ela, nada poderiam valer para a vida eterna. Parece ter sido isto que Davi tinha em vista quando, havendo perguntado a si mesmo: "Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?" e não encontrando nada digno de tais benefícios senão esta satisfação, que exprimiu pela palavra "cálice", responde: "Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor."
§502
Existe outro tipo de satisfação, que se denomina canônica, e que se cumpre dentro de um determinado prazo fixo. Por isso, segundo a antiquíssima prática da Igreja, quando os penitentes são absolvidos de seus pecados, impõe-se-lhes alguma penitência, cujo cumprimento é comumente chamado de "satisfação".
§503
Qualquer espécie de pena suportada pelo pecado, ainda que não imposta pelo sacerdote, mas assumida espontaneamente pelo pecador, recebe também o mesmo nome; não pertence, contudo, à penitência enquanto sacramento: a satisfação que constitui parte do sacramento é, como já dissemos, aquela imposta pelo sacerdote, e que deve ser acompanhada de uma deliberada e firme resolução de evitar cuidadosamente o pecado no futuro. Satisfazer, como alguns o definem, é render a Deus a honra que Lhe é devida, e é evidente que ninguém pode fazê-lo sem estar resolvido a evitar o pecado. Satisfazer é também eliminar todas as ocasiões de pecado e fechar ao coração todas as entradas pelas quais ele possa insinuar-se. De acordo com esta concepção de satisfação, alguns a têm considerado uma purificação que apaga todo vestígio de mancha que possa restar na alma pelos estigmas do pecado, e que nos isenta das penas temporais devidas ao pecado.
§504
Sendo tal a natureza da satisfação, não será difícil convencer os fiéis da necessidade imposta ao penitente de satisfazer pelos seus pecados: deve-se ensiná-los que o pecado traz consigo dois males — a mancha que imprime e a pena que acarreta. A pena da morte eterna é, com efeito, perdoada juntamente com o pecado a que era devida; contudo, como declara o Concílio de Trento, nem sempre a mancha é inteiramente apagada, nem sempre a pena temporal é remitida. Disso as Escrituras oferecem muitos exemplos evidentes, como se encontra no terceiro capítulo do Gênesis, no décimo segundo e no vigésimo segundo dos Números, e em muitos outros lugares. O de Davi, porém, é o mais conspícuo e ilustre. Já Natã lhe havia anunciado: "O Senhor também removeu o teu pecado; não morrerás"; e, no entanto, o real penitente voluntariamente se submeteu à penitência mais severa, implorando noite e dia a misericórdia de Deus com estas palavras: "Lava-me ainda mais da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado, porque eu conheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim." Assim rogava a Deus que perdoasse não apenas o crime, mas também a pena a ele devida, e que o restituísse, purificado das manchas do pecado, ao seu primitivo estado de pureza e integridade. É esse o objeto das suas mais fervorosas súplicas ao trono de Deus, e, no entanto, o Altíssimo pune a sua transgressão com a morte do filho adulterino, com a rebelião e a morte do seu amado filho Absalão e com os outros graves castigos com que a sua ira já o havia ameaçado. Também no Êxodo, o Altíssimo, embora cedendo à importunação de Moisés houvesse poupado os israelitas idólatras, ameaça a enormidade do crime deles com severo castigo; e o próprio Moisés declara que o Senhor tomará vingança dele até à terceira e à quarta geração. Que tal foi em todo tempo a doutrina dos Padres, uma referência aos seus escritos tornará impossível qualquer dúvida.
§505
Por que no sacramento da penitência, como no do batismo, a pena devida ao pecado não é inteiramente remitida, explica-se de modo admirável nestas palavras do Concílio de Trento: "A justiça divina parece exigir que aqueles que por ignorância pecaram antes do batismo recuperem a amizade de Deus de maneira diferente daqueles que, libertados da servidão do pecado e da escravidão do demônio, e tendo recebido os dons do Espírito Santo, não temem violar conscientemente o templo de Deus e contristar o Espírito Santo. Convém também à misericórdia divina não remitir os nossos pecados sem satisfação, para que, tomando daí ocasião e imaginando que os nossos pecados são menos graves do que são, injuriosos e, por assim dizer, contumeliosos para com o Espírito Santo, não caiamos em maiores torpezas, acumulando sobre nós mesmos a ira para o dia da ira. Estas penitências satisfatórias exercem, sem dúvida, grande influência para refrear do pecado, para, por assim dizer, refrear as paixões, e para tornar o pecador mais vigilante e cauteloso no futuro." Outra vantagem que delas resulta é que servem de testemunhos públicos da nossa dor pelo pecado, e satisfazem à Igreja, que é gravemente ultrajada pelos crimes de seus filhos: "Deus", diz Santo Agostinho, "não despreza um coração contrito e humilde; mas, como a dor íntima geralmente se oculta dos outros e não se comunica por palavras ou outros sinais, sabiamente, portanto, são estabelecidos tempos de penitência por aqueles que presidem à Igreja, a fim de satisfazer à Igreja, na qual os pecados são perdoados." Além disso, o exemplo oferecido por nossas práticas penitenciais serve de lição aos outros sobre como regular as suas vidas e praticar a piedade: vendo as punições infligidas ao pecado, devem sentir a necessidade de usar da maior circunspeção ao longo da vida e de corrigir seus antigos maus costumes. A Igreja, portanto, com grande sabedoria ordenou que aqueles que, por suas desordens escandalosas, possam ter dado escândalo público, dessem satisfação por meio da penitência pública na Igreja, para que outros sejam assim dissuadidos de praticá-las. Isso foi observado às vezes também com relação a pecados secretos, quando revestidos de peculiar malícia. Quanto, porém, aos pecadores públicos, estes, como já dissemos, nunca eram absolvidos antes de terem cumprido a penitência pública. Entretanto, o pastor derramava suas orações a Deus pela salvação deles, e não cessava de exortá-los a fazer o mesmo. Esta salutar prática deu ativo exercício ao zelo e à solicitude de Santo Ambrósio; muitos, que vinham ao tribunal da penitência endurecidos no pecado, eram por suas lágrimas amolecidos até à verdadeira contrição. Mas com o passar do tempo a severidade da disciplina antiga foi de tal modo relaxada, e a caridade esfriou a tal ponto, que em nossos dias muitos parecem julgar desnecessária a dor interior da alma e a tristeza do coração, e consideram suficiente a aparência de dor.
§506
Ademais, submetendo-nos a essas penitências, tornamo-nos conformes à imagem de Jesus Cristo, nosso cabeça, uma vez que ele mesmo padeceu e foi tentado; e, como observa São Bernardo, "nada pode parecer tão indecoroso quanto um membro delicado sob uma cabeça coroada de espinhos." Para usar as palavras do Apóstolo: "somos co-herdeiros com Cristo, contanto que com ele padeçamos"; e ainda: "Se morrermos com ele, também viveremos com ele; se padecermos, também reinaremos com ele."
§507
São Bernardo observa também que o pecado produz dois efeitos na alma: um é a mancha que lhe imprime, o outro é a ferida que lhe inflige; que a torpeza do pecado é removida pela misericórdia de Deus, ao passo que, para curar a ferida infligida, é indispensável o cuidado medicinal aplicado pela penitência; pois, assim como após a cura de uma ferida permanecem algumas cicatrizes que requerem atenção, do mesmo modo, no que se refere à alma, depois de perdoada a culpa do pecado, permanecem alguns de seus efeitos, dos quais a alma precisa ser purificada. São João Crisóstomo confirma plenamente a mesma doutrina quando diz: "Não basta que a seta tenha sido extraída do corpo; é preciso também curar a ferida que ela infligiu: assim também no que se refere à alma, não basta que o pecado tenha sido perdoado; a ferida que ele deixou deve igualmente ser curada pela penitência." Santo Agostinho também ensina frequentemente que a penitência manifesta ao mesmo tempo a misericórdia e a justiça de Deus: a sua misericórdia, pela qual perdoa o pecado e a pena eterna devida ao pecado; a sua justiça, pela qual exige do pecador uma pena temporal.
§508
Por fim, a pena que o pecador suporta desarma a vingança de Deus e previne os castigos decretados contra nós, conforme estas palavras do Apóstolo: "Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas, sendo julgados, somos corrigidos pelo Senhor, para que não sejamos condenados com este mundo." Estas considerações, se forem explicadas aos fiéis, hão de exercer considerável influência para os mover à penitência.
§509
Da grande eficácia da penitência podemos fazer alguma ideia se refletirmos que ela provém inteiramente dos méritos da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: é a sua paixão que imparte às nossas boas obras a dupla qualidade de merecer as recompensas da vida eterna — de sorte que um cálice de água fria dado em seu nome não ficará sem recompensa — e também de satisfazer por nossos pecados. Nem isto deroga da satisfação perfeitíssima e superabundante de Cristo; antes, a torna ainda mais conspícua e ilustre: a graça de Jesus Cristo aparece a abundar ainda mais, na medida em que nos comunica não somente o que Ele sozinho mereceu, mas também o que, como cabeça, mereceu e pagou em seus membros, isto é, nos homens santos e justos. É isto que imparte tanto peso e dignidade às boas obras do piedoso cristão; pois Nosso Senhor Jesus Cristo continuamente infunde sua graça na alma devota unida a Ele pela caridade, como a cabeça aos membros, ou como a videira pelos ramos, e esta graça sempre precede, acompanha e segue nossas boas obras: sem ela não podemos ter mérito algum, nem podemos de modo algum satisfazer a Deus. Daí que nada pareça faltar aos justos: pelas obras realizadas com o poder de Deus, cumprem a lei divina tanto quanto é compatível com nossa condição presente, e podem merecer a vida eterna, à fruição da qual serão admitidos se partirem desta vida adornados com a graça divina: "Aquele que beber da água que Eu lhe darei", diz o Redentor, "não terá sede jamais; mas a água que Eu lhe darei se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna."
§510
Na satisfação requerem-se especialmente duas coisas: a primeira, que aquele que satisfaz esteja em estado de graça, sendo amigo de Deus, pois as obras praticadas sem fé e sem caridade não podem ser agradáveis a Deus; a segunda, que as obras realizadas sejam por sua própria natureza penosas ou laboriosas. Elas são uma compensação pelos pecados passados e, para usar as palavras de São Cipriano, "os redentores, por assim dizer, dos pecados", devendo, portanto, ser tais como as descrevemos. Nem sempre se segue, porém, que sejam penosas ou laboriosas para aqueles que as executam: o poder do hábito ou a intensidade do amor divino frequentemente torna a alma insensível às coisas mais difíceis de suportar. Tais obras, contudo, não deixam por isso de ser satisfatórias: é o privilégio dos filhos de Deus estarem de tal modo inflamados pelo seu amor, que, ao sofrerem os mais cruéis tormentos por sua causa, ou são totalmente insensíveis a eles, ou ao menos os suportam não apenas com fortaleza, mas com a maior alegria.
§511
O pastor ensinará que toda espécie de satisfação se compreende sob estas três categorias: oração, jejum e esmola, que correspondem a três tipos de bens — os da alma, os do corpo e os chamados bens externos —, todos eles dons de Deus. Nada pode ser mais eficaz do que estas três formas de satisfação para erradicar o pecado da alma. Tudo o que há no mundo é a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos ou a soberba da vida, e o jejum, a esmola e a oração são, manifestamente, remédios empregados com suma sabedoria para neutralizar a ação dessas três causas de enfermidade espiritual: à primeira se opõe o jejum; à segunda, a esmola; à terceira, a oração. Se, ademais, considerarmos aqueles a quem nossos pecados prejudicam, facilmente perceberemos por que toda satisfação se refere principalmente a Deus, ao próximo e a nós mesmos: a Deus aplacamos pela oração, ao próximo satisfazemos pela esmola, e a nós mesmos castigamos pelo jejum.
§512
Mas, como esta vida é entretecida de muitas e variadas aflições, deve-se recordar particularmente aos fiéis que as aflições vindas da mão de Deus, se suportadas com paciência, são fonte abundante de satisfação e de mérito; ao passo que, se suportadas com impaciência relutante, longe de servirem como meio de expiação dos pecados passados, são antes instrumentos da ira divina, que toma justa vingança do pecador.
§513
Mas nisto brilham de modo conspícuo a misericórdia e a bondade de Deus, e reclamam a nossa grata correspondência, pelo fato de ter Ele concedido à nossa fraqueza o privilégio de que um possa satisfazer por outro. Este, porém, é um privilégio que se restringe unicamente à parte satisfatória da penitência, e não se estende à contrição e à confissão: nenhum homem pode contritar-se ou confessar-se por outro; ao passo que aqueles que são dotados da graça divina podem pagar por meio de outros o que é devido à justiça divina, e assim se pode dizer que, em certa medida, carregamos uns os fardos dos outros. Esta é uma doutrina sobre a qual os fiéis não podem por um momento entreter dúvida, pois professamos no Símbolo dos Apóstolos a nossa crença na "Comunhão dos Santos." Regenerados, como todos somos, para Cristo nas mesmas águas purificadoras do batismo, participantes dos mesmos sacramentos e, sobretudo, do mesmo alimento celestial, o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, somos todos, manifestamente, membros do mesmo corpo místico. Assim como o pé não desempenha as suas funções somente para si mesmo, mas também em benefício dos outros membros, e como os demais membros desempenham as suas respectivas funções não só para seu próprio bem, mas também para o bem comum; assim as obras de satisfação são comuns a todos os membros da Igreja. Isso, porém, não é universalmente verdadeiro em relação a todas as vantagens que se podem derivar das obras de satisfação: destas obras, algumas são também medicinais, e constituem outros tantos remédios específicos prescritos ao penitente para sanar as afeições depravadas do coração; fruto que, evidentemente, só podem delas colher aqueles que satisfazem por si mesmos. Destes pormenores concernentes às três partes da penitência — contrição, confissão e satisfação — é dever do pastor dar uma ampla e clara exposição.
§514
O confessor, porém, terá o máximo cuidado, antes de absolver o penitente cuja confissão ouviu, de insistir em que, havendo ele realmente causado dano ao próximo nos bens ou na reputação, repare o prejuízo causado: a ninguém deve ser concedida a absolvição sem que antes tenha prometido fielmente reparar integralmente o dano cometido; e, como há muitos que, embora prontos a fazer grandes promessas de cumprir com este dever, estão todavia deliberadamente resolvidos a não as cumprir, devem ser obrigados a fazer a restituição, e as palavras do Apóstolo devem ser-lhes inculcadas com firmeza e frequência: "Quem furtava, não furte mais; antes trabalhe, operando com as suas próprias mãos o que é bom, para que tenha com que socorrer o necessitado."
§515
Mas, ao impor a penitência, o confessor não agirá arbitrariamente; guiar-se-á unicamente pela justiça, pela prudência e pela piedade; e, a fim de seguir esta norma e também de imprimir mais profundamente no espírito do penitente a gravidade do pecado, achará conveniente recordar-lhe as severas punições impostas pelos antigos cânones penitenciais, assim chamados, para determinados pecados. A natureza do pecado regulará, portanto, a extensão da satisfação; mas nenhuma satisfação pode ser mais salutar do que exigir do penitente que consagre, por um determinado número de dias, uma certa parte do tempo à oração, não se omitindo de suplicar a divina misericórdia em favor de toda a humanidade, e particularmente daqueles que partiram desta vida no Senhor. Os penitentes devem também ser exortados a assumir por iniciativa própria a realização frequente das penitências habitualmente impostas pelo confessor, e a ordenar o decurso de sua vida futura de tal modo que, tendo cumprido fielmente tudo o que o sacramento da Penitência exige, nunca cessem de praticar com diligência a virtude da penitência. Mas, se for julgado oportuno punir às vezes crimes públicos com penitência pública, e o penitente manifestar grande relutância em submetê-la ao seu cumprimento, não se deve ceder facilmente à sua importunação: deve ser persuadido a abraçar com alegria aquilo que é tão salutar para si mesmo e para os outros. Estas coisas, que dizem respeito ao sacramento da Penitência e às suas diversas partes, o pastor as ensinará de tal maneira que os fiéis não só as compreendam perfeitamente, mas também, com o auxílio divino, as ponham em prática com piedade e religiosidade.
DO SACRAMENTO DA EXTREMA-UNÇÃO.
§517
"Em todas as tuas obras", diz o Eclesiástico, "lembra-te do teu fim último, e jamais pecarás": palavras que transmitem ao pastor uma silenciosa admoestação para que não perca nenhuma oportunidade de exortar os fiéis à constante meditação sobre o fim último. O sacramento da Extrema-Unção, por estar inseparavelmente associado a esta solene recordação, deve, como é evidente, constituir matéria de frequente instrução, não somente porque é eminentemente útil desenvolver os mistérios da salvação, mas também porque a morte, destino inevitável de todos os homens, quando frequentemente trazida à memória dos fiéis, refreia a licenciosidade das paixões depravadas. Assim serão menos apavorados pelos terrores da dissolução que se aproxima, e derramarão sua gratidão em louvor incessante a Deus, cuja bondade não somente nos abriu o caminho para a verdadeira vida no sacramento do Batismo, mas também instituiu o da Extrema-Unção, a fim de nos proporcionar, quando partimos desta vida mortal, um acesso mais fácil ao céu.
§518
A fim, pois, de seguirmos, em grande parte, a mesma ordem observada na exposição dos demais sacramentos, mostraremos primeiro que este sacramento se denomina "Extrema-Unção" porque, dentre as demais unções prescritas por Nosso Senhor à sua Igreja, esta é a última a ser administrada. Por isso foi chamada por nossos predecessores na fé de "sacramento da unção dos enfermos" e também de "sacramento dos moribundos", nomes que naturalmente conduzem o espírito dos fiéis à lembrança daquela última e temível hora.
§519
Cumpre explicar, em primeiro lugar, que a Extrema Unção é, em sentido estrito, um sacramento; e isto as palavras de São Tiago, ao promulgar a lei deste sacramento, claramente estabelecem: "Está alguém enfermo entre vós? Chame os presbíteros da Igreja, e eles orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o enfermo; e o Senhor o levantará; e se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados." Ao dizer o Apóstolo: "se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados", atribui à Extrema Unção, ao mesmo tempo, a natureza e a eficácia de um sacramento. Que tal foi em todos os tempos a doutrina da Igreja Católica, muitos Concílios o atestam, e o Concílio de Trento fulmina com anátema a todos que ousarem ensinar ou pensar de outro modo. Também Inocêncio III recomenda este sacramento com grande fervor à atenção dos fiéis. O pastor, portanto, ensinará que a Extrema Unção é um verdadeiro sacramento e que, embora se administre com muitas unções, cada uma acompanhada de uma oração própria e de uma fórmula própria, constitui um só sacramento — uno não pela continuidade inseparável de suas partes, mas, como todo composto de partes, pela perfeição do conjunto. Assim como um edifício, que se compõe de grande variedade de partes, recebe sua perfeição de uma única forma, assim também este sacramento, ainda que composto de muitas e diversas coisas, é um único sinal, e sua eficácia é a de uma única realidade da qual é sinal.
§520
O pastor ensinará também quais são as partes componentes deste Sacramento, a sua matéria e a sua forma: São Tiago não as omite, e cada uma delas está repleta dos seus próprios e peculiares mistérios. O seu elemento, ou matéria, conforme definido por muitos Concílios e particularmente pelo Concílio de Trento, consiste em óleo de oliva bento por mãos episcopais. Nenhuma outra espécie de óleo pode ser a matéria deste Sacramento; e esta sua matéria é sumamente significativa da sua eficácia. O óleo é muito eficaz para aliviar a dor corporal, e este Sacramento acalma e alivia a dor e a angústia da alma. O óleo contribui também para restaurar a saúde e as forças, serve para dar luz e refresca a fadiga; e esses efeitos correspondem e são expressivos daqueles que, pelo poder divino, são produzidos nos enfermos pela administração deste Sacramento. Estas breves palavras serão suficientes para a explicação da matéria.
§521
Quanto à forma, ela consiste nas seguintes palavras, que encerram uma oração solene e são empregadas em cada unção, conforme o sentido ao qual a unção se aplica: "POR ESTA SANTA UNÇÃO, E POR SUA IMENSA MISERICÓRDIA, PERDOE-TE DEUS TODOS OS PECADOS QUE COMETESTES PELA VISTA, PELO OLFATO, PELO TATO, ETC." Que esta é a verdadeira forma deste Sacramento, aprendemo-lo das seguintes palavras de São Tiago: "Orem sobre ele, e a oração da fé salvará o enfermo;" palavras que indicam que a forma deve ser aplicada à maneira de oração, embora o Apóstolo não especifique de que palavras particulares essa oração deve ser composta. Esta forma, porém, foi-nos transmitida pela tradição apostólica e é universalmente observada, conforme a prática da Igreja de Roma, mãe e mestra de todas as igrejas. Alguns, é verdade, alteram algumas palavras, como quando, em vez de "Perdoe-te Deus", dizem "Remita Deus", ou "poupe", e por vezes "cure tudo quanto cometestes"; o sentido é, porém, evidentemente o mesmo e, por conseguinte, a forma observada por todos é estritamente a mesma. Nem deve causar estranheza que, enquanto a forma de cada um dos outros Sacramentos ou exprime absolutamente o que significa — como "Eu te batizo" ou "Eu te signo com o sinal da cruz" —, ou é pronunciada como à maneira de um mandato, como na administração das Ordens Sacras, "Recebe o poder", a forma da Extrema-Unção seja a única expressa à maneira de oração. A propriedade desta diferença torna-se logo manifesta se refletirmos que este Sacramento é administrado não somente para a saúde da alma, mas também para a do corpo; e como não agrada à Divina Providência restituir a saúde aos enfermos em todos os casos, a forma consiste numa oração pela qual imploramos da bondade divina aquilo que não é efeito constante e uniforme do Sacramento.
§522
Na administração deste Sacramento, usam-se também ritos particulares; consistem, porém, principalmente em orações que o sacerdote oferece pela recuperação do enfermo. Não há Sacramento cuja administração seja acompanhada de orações mais numerosas; e com razão, pois então, de modo especial, os fiéis necessitam do auxílio de piedosas súplicas. Não somente o pastor, em primeiro lugar, mas também todos os que estejam presentes, devem elevar seus fervorosos anseios ao trono da graça, em favor do enfermo, recomendando-o ardentemente, em alma e corpo, à divina misericórdia.
§523
Tendo assim demonstrado que a Extrema Unção deve ser contada entre os Sacramentos, concluímos — e a conclusão é justa — que ela deve sua instituição a Nosso Senhor Jesus Cristo, e foi posteriormente tornada conhecida e promulgada aos fiéis pelo Apóstolo São Tiago. O próprio Nosso Senhor, contudo, parece ter dado alguma indicação dela quando enviou seus discípulos dois a dois à sua frente; pois o Evangelista nos informa que "saindo, pregavam que todos fizessem penitência; e expulsavam muitos demônios, e ungiam com óleo muitos enfermos e os curavam." Não se pode supor que esta unção tenha sido inventada pelos Apóstolos: foi ordenada por Nosso Senhor. Tampouco sua eficácia provinha de qualquer virtude natural peculiar ao óleo; sua eficácia é mística, tendo sido instituída para curar as enfermidades da alma, mais do que para sanar as doenças do corpo. Esta é a doutrina ensinada pelos Padres da Igreja — pelos Dionísios, os Ambrósios, os Crisóstomos, por Gregório Magno —; e a Extrema Unção deve ser reconhecida e venerada como um dos Sacramentos da Igreja Católica.
§524
Embora instituída para uso de todos, a Extrema Unção não deve ser administrada indiscriminadamente a todos. Em primeiro lugar, não deve ser administrada a pessoas que gozem de saúde, conforme estas palavras de São Tiago: "Está alguém doente entre vós?"; e, como a razão também demonstra, ela foi instituída como remédio não só para as enfermidades da alma, mas também para as do corpo: o que só pode aplicar-se aos enfermos; portanto, este Sacramento deve ser administrado somente àqueles cuja doença seja tal que suscite receio de dissolução iminente. É, porém, pecado gravíssimo diferir a Santa Unção até que, perdida toda esperança de cura, a vida começa a declinar e o enfermo rapidamente mergulha num estado de inconsciência. É evidente que, se administrado enquanto as faculdades mentais ainda estão íntegras, enquanto a razão ainda exerce o seu domínio e a mente é capaz de eliciar atos de fé e de orientar a vontade para sentimentos de piedade, o Sacramento deve contribuir para uma participação mais abundante das graças que confere. Este remédio celestial, portanto, em si mesmo sempre salutar, o pároco cuidará de aplicá-lo quando sua eficácia puder ser favorecida pela piedade e devoção do enfermo. A Extrema Unção, pois, só pode ser administrada aos doentes, e não a pessoas sãs, ainda que empenhadas em algo de tão perigoso quanto uma viagem arriscada ou os perigos mortais da batalha. Não pode ser administrada sequer a pessoas condenadas à morte e já encaminhadas para a execução. Dela são também excluídos os insanos e as crianças incapazes de cometer pecado, que, por isso, não necessitam ser purificadas de suas manchas, bem como aqueles que padecem sob a terrível visitação da loucura, a não ser que demonstrem, em seus intervalos lúcidos, disposição para a piedade e expressem o desejo de ser ungidos. A pessoas insanas desde o nascimento este Sacramento não deve ser administrado; mas se um enfermo, estando na posse de suas faculdades, manifestou o desejo de receber a Extrema Unção e posteriormente cai em delírio, deve ser ungido.
§525
A Sagrada Unção não deve ser aplicada a todo o corpo, mas somente aos órgãos dos sentidos: aos olhos, órgãos da visão; aos ouvidos, da audição; às narinas, do olfato; à boca, do gosto e da palavra; às mãos, do tato. O sentido do tato, é verdade, difunde-se por todo o corpo, mas as mãos são a sua sede própria. Este modo de administrar a Extrema-Unção é observado em toda a Igreja universal e corresponde à natureza medicinal deste Sacramento. Assim como nas doenças corporais, embora afetem o corpo inteiro, o remédio é aplicado apenas à parte que é sede do mal, também na enfermidade espiritual este Sacramento é aplicado não a todo o corpo, mas àqueles membros que são propriamente os órgãos dos sentidos, bem como aos lombos, que são, por assim dizer, a sede da concupiscência, e aos pés, pelos quais nos movemos de um lugar a outro.
§526
Aqui cumpre observar que, durante a mesma enfermidade e enquanto o perigo de morte permanecer o mesmo, o enfermo deve ser ungido uma única vez; se, porém, após ter sido ungido ele se recuperar, poderá receber o auxílio deste Sacramento tantas vezes quantas houver recaído no mesmo perigo. É, portanto, evidente que este Sacramento deve ser contado entre aqueles que podem ser reiterados.
§527
Mas, como todo obstáculo que possa impedir a eficácia deste Sacramento deve ser removido com o maior cuidado, e como nada lhe é mais contrário do que o estado de culpa mortal, o pastor seguirá a prática uniforme da Igreja Católica, e não administrará a Extrema Unção antes que o penitente se tenha confessado e recebido os sacramentos. Exortará então com fervor o enfermo a receber este Sacramento com os mesmos sentimentos de fé que animavam os primitivos cristãos, os quais se apresentavam aos Apóstolos para por eles serem curados. A saúde da alma deve ser o primeiro objeto das orações do enfermo; a segunda, a do corpo, caso isso concorra para os seus interesses eternos. Os fiéis devem estar persuadidos de que as orações solenes e santas que o sacerdote oferece, não em seu próprio nome, mas em nome da Igreja e de seu divino Fundador, são ouvidas por Deus Todopoderoso; e não podem ser exortados com demasiado empenho a cuidar de acompanhar a administração do Sacramento com toda a santidade e fervor religioso que convêm àquela hora tão solene, quando o cristão agonizante está prestes a travar o último combate e as forças tanto do espírito como do corpo parecem enfraquecer-se.
§528
Quanto ao ministro da Extrema-Unção, também acerca disto nos instrui São Tiago, quando diz: "Chame ele os presbíteros." Pela palavra "presbíteros", como definiu o Concílio de Trento, não se entende anciãos, pessoas de idade avançada ou de elevada condição, mas sacerdotes devidamente ordenados pelos bispos com a imposição das mãos. A administração deste Sacramento é, portanto, confiada aos sacerdotes — não, porém, a qualquer sacerdote, segundo o decreto da Igreja —, mas ao sacerdote próprio, que tem jurisdição, ou a outro por ele autorizado. Nisto, como nos demais Sacramentos, deve-se também recordar com clareza que o sacerdote é o representante de Jesus Cristo e de sua Igreja.
§529
Importa também explicar com maior pormenor as vantagens que fluem deste Sacramento, para que, se os enfermos não se deixam mover por nenhuma outra consideração, cedam ao menos a esta; pois temos tendência a medir todas as coisas pela sua utilidade. O pastor ensinará, portanto, que a graça deste Sacramento remite os pecados, sobretudo os mais leves ou, como comumente se chamam, os pecados veniais. Seu objeto primário não é remitir os pecados mortais, para o que foi instituído o Sacramento da penitência, assim como o batismo o foi para a remissão do pecado original. Outra vantagem da Extrema-Unção é que ela remove o languor e a enfermidade decorrentes do pecado, com todos os seus demais inconvenientes. O momento mais oportuno para a aplicação deste remédio é quando somos visitados por alguma enfermidade grave que ameaça ser fatal; pois a natureza não teme nenhuma visitação terrena tanto quanto a morte, e este temor é consideravelmente aumentado pela lembrança dos nossos pecados passados, sobretudo quando a alma é atormentada pelos agudos reproches da consciência; como está escrito: "Virão com temor ao pensamento de seus pecados, e suas iniquidades se levantarão contra eles para condená-los." Fonte de alarme ainda mais angustiante é a terrível reflexão de que, em poucos instantes, compareceremos perante o tribunal de Deus, cuja justiça há de pronunciar a sentença que nossas vidas possam ter merecido. O terror suscitado por estas considerações frequentemente agita a alma com os mais pavorosos temores; e para apaziguar este terror nada pode ser tão eficaz quanto o Sacramento da Extrema-Unção. Ele acalma nosso temor, ilumina as trevas em que a alma está envolta, a enche de alegria piedosa e santa e nos habilita a aguardar com serenidade a vinda do Senhor, prontos a devolver tudo quanto recebemos de sua bondade, quando lhe aprouver chamar-nos deste mundo de dores. Outra vantagem, e a mais importante, que se deriva da Extrema-Unção é que ela nos fortalece contra os violentos assaltos de Satanás. O inimigo do gênero humano nunca cessa de buscar nossa ruína; mas para consumar nossa perdição e, se possível, privar-nos de toda esperança de misericórdia, redobra mais do que nunca seus esforços quando nos vê aproximar de nosso fim último. Este Sacramento, portanto, arma e fortalece os fiéis contra a violência de seus assaltos e os habilita a combatê-lo com resolução e êxito. Tranquilizada e animada pela esperança da misericórdia divina, a alma suporta com fortaleza toda a dificuldade, experimenta um alívio do peso da enfermidade e elide com maior facilidade a astúcia e a perfídia do inimigo que a espreita. Finalmente, a recuperação da saúde, quando vantajosa ao enfermo, é outro efeito deste Sacramento. Se, porém, este efeito não se verificar, não provém de nenhum defeito do Sacramento, mas da fraqueza de fé da parte de quem o recebe ou de quem o administra; pois o Evangelista nos informa que o Senhor não operou muitos milagres entre os seus patrícios por causa da incredulidade deles. Convém, todavia, observar que o Cristianismo, agora que lançou raízes profundas na mente dos homens, tem menor necessidade do auxílio de tais milagres em nossos dias do que nos primeiros séculos da Igreja. Deve, contudo, excitar-se vivamente a nossa fé; e seja o que for que a Deus, em sua sabedoria, aprouver fazer quanto à saúde do corpo, os fiéis devem animar-se com a esperança certa de receber deste Sacramento a saúde e o vigor espirituais e de experimentar, na hora de sua partida, a verdade destas palavras consoladoras: "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor."
§530
Explicamos assim, em breves traços, o Sacramento da Extrema-Unção. Se os pontos principais da matéria forem desenvolvidos pelo pastor com maior amplitude, com a diligência que sua importância exige, os fiéis, sem dúvida, colherão de sua exposição abundante fruto de piedade.
DO SACRAMENTO DA ORDEM.
§532
De uma consideração atenta da natureza dos demais Sacramentos, pouco dificuldade teremos em perceber que todos eles dependem de tal modo do de Ordem que, sem a sua intervenção, alguns não poderiam existir nem ser administrados, enquanto outros ficariam despojados dos ritos religiosos, das cerimônias solenes e daquela reverência exterior que deve acompanhar sua administração. O pároco, portanto, prosseguindo na exposição dos Sacramentos, considerará seu dever dedicar também ao Sacramento da Ordem uma atenção proporcional à sua importância. Esta exposição não poderá deixar de ser salutar, em primeiro lugar, ao próprio pároco; em seguida, àqueles que porventura tenham abraçado o estado eclesiástico; e, finalmente, ao conjunto dos fiéis — ao próprio pároco, porque, ao explicar este Sacramento a outrem, ele mesmo é estimulado a reavivar em si a graça que recebeu na sua ordenação; àqueles outros que o Senhor chamou ao seu santuário, inspirando-lhes o mesmo amor à piedade e transmitindo-lhes o conhecimento das coisas que os habilitarão mais facilmente a avançar para ordens superiores; ao conjunto dos fiéis, dando-lhes a conhecer o respeito devido aos ministros da religião. Também não raramente acontece que, entre os fiéis, muitos destinam seus filhos ao ministério desde tenra idade, e alguns são eles próprios candidatos a esse estado sagrado; e convém que tais pessoas não ignorem inteiramente a sua natureza e as suas obrigações.
§533
Cumpre, portanto, que os fiéis sejam instruídos acerca da elevada dignidade e excelência deste Sacramento no seu grau mais alto, que é o sacerdócio. Os sacerdotes e bispos são, por assim dizer, os intérpretes e arautos de Deus, encarregados em seu nome de ensinar aos homens a lei de Deus e os preceitos da vida cristã; são os representantes de Deus sobre a terra. É impossível, pois, conceber dignidade mais elevada ou funções mais sagradas. Com razão são chamados não apenas anjos, mas deuses, pois detêm o lugar, o poder e a autoridade de Deus na terra. Mas o sacerdócio, ofício sempre elevado, supera na Nova Lei todos os demais em dignidade. O poder de consagrar e oferecer o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor e de remitir os pecados, com que o sacerdócio da Nova Lei está investido, é tal que a mente humana não pode compreendê-lo, e muito menos pode ser igualado ou comparado a coisa alguma sobre a terra. Ademais, assim como Cristo foi enviado pelo Pai, e os Apóstolos e Discípulos por Cristo, assim também os sacerdotes são investidos do mesmo poder e enviados "para o aperfeiçoamento dos santos, para o exercício do ministério e para a edificação do Corpo de Cristo."
§534
Este ofício, portanto, não deve ser temerariamente imposto a quem quer que seja: só àqueles deve ser confiado que, pela santidade de vida, pela ciência, pela fé e pela prudência, sejam capazes de suportar o seu peso. «Ninguém», diz o Apóstolo, «toma esta honra para si mesmo, mas aquele que é chamado por Deus, como o foi Aarão.» Este chamado de Deus reconhecemo-lo no chamado dos ministros legítimos de sua Igreja. Daqueles que arrogantemente se intrujem no santuário, disse o Senhor: «Eu não enviei os profetas, e eles correram.» Tais intrusos sacrílegos trazem sobre si mesmos a maior das misérias e sobre a Igreja de Deus as mais pesadas calamidades. Mas, como em todo empreendimento o fim proposto é da mais alta importância — quando o fim é bom, tudo procede bem —, o candidato ao ministério deve antes de tudo ser admoestado a não propor a si mesmo motivo algum indigno de tão elevada vocação; admoestação que exige atenção especial nos nossos dias, quando os fiéis têm muito esquecido o seu espírito. Há os que aspiram ao sacerdócio com o intuito de assegurar para si um meio de vida que, como os homens mundanos nos negócios e no comércio, não visam senão ao sórdido interesse próprio. É verdade que a lei natural e a lei divina prescrevem, para usar as palavras do Apóstolo, que «quem serve ao altar, do altar viva»; mas aproximar-se do altar por ganância seria um sacrilégio dos mais negros. Há outros que o amor das honras e o espírito de ambição conduzem ao altar; outros que o ouro do santuário atrai; e disso não precisamos de outra prova senão a de que não concebem abraçar o estado eclesiástico a não ser que lhes seja conferido algum benefício eclesiástico rico. São esses a quem o Senhor denuncia como «mercenários» que, para usar as palavras de Ezequiel, «apascentam a si mesmos e não ao rebanho». A sua torpeza e depravação não só mancharam o esplendor e rebaixaram a dignidade do caráter sacerdotal aos olhos dos fiéis, mas o sacerdócio traz para eles as mesmas recompensas que o apostolado trouxe a Judas: a perdição eterna.
§535
Mas aqueles que, em obediência ao legítimo chamado de Deus, abraçam o ministério sacerdotal unicamente com o propósito de promover a sua glória, diz-se verdadeiramente que "entram pela porta". A obrigação de promover a sua glória não lhes é exclusiva; pois para isso foram criados todos os homens — e os fiéis em particular, consagrados como foram a Deus pelo Batismo, devem promovê-la com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças. Não basta, portanto, que o candidato às ordens sacras se proponha a buscar em tudo a glória de Deus, dever comum igualmente a todos os homens e particularmente obrigatório para os fiéis: deve também estar resolvido a servir a Deus em santidade e justiça, na esfera particular em que seu ministério há de ser exercido. Assim como num exército todos obedecem ao comando do general, havendo entre eles alguns que ocupam o posto de coronel, outros o de capitão e outros ainda postos de grau inferior, assim também na Igreja, embora todos sem distinção devam ser zelosos na busca da piedade e da inocência, como principal meio de prestar culto a Deus, àqueles porém que foram iniciados no Sacramento da Ordem competem funções especiais e incumbem encargos próprios: oferecer o sacrifício por si mesmos e por todo o povo, instruir os demais na lei de Deus, exortá-los e formá-los a uma fiel e pronta observância dos seus preceitos, e administrar os Sacramentos, fontes da graça. Em suma, separados do restante do povo, exercem um ministério o mais sagrado e o mais sublime.
§536
Havendo explicado estas matérias aos fiéis, o pároco passará em seguida a expor aquelas coisas que são próprias deste Sacramento, para que assim o candidato às ordens possa formar um juízo reto sobre a natureza do ofício a que aspira e conhecer a extensão do poder conferido por Deus Onipotente à sua Igreja e aos seus ministros. Este poder é duplo: de jurisdição e de ordem. O poder de ordem tem referência ao corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia; o de jurisdição, ao seu corpo místico, a Igreja; pois a este último pertencem o governo do seu reino espiritual na terra e a direção dos fiéis no caminho da salvação. No poder de Ordem está incluído não somente o de consagrar a Santíssima Eucaristia, mas também o de preparar a alma para a sua digna recepção, e tudo o mais que se refere aos sagrados mistérios. As Escrituras oferecem numerosos testemunhos acerca disto, entre os quais os mais notáveis e de maior peso são os contidos nas palavras que São João e São Mateus registraram sobre este assunto: "Como o Pai me enviou", diz o Redentor, "também Eu vos envio. Recebei o Espírito Santo: aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos"; e ainda: "Em verdade vos digo: tudo o que ligardes na terra será ligado também no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado também no céu." Estas passagens, se explicadas pelo pároco com base na doutrina e na autoridade dos Santos Padres, lançarão considerável luz sobre este importante assunto.
§537
Este poder transcende em muito aquele que foi concedido aos que, sob a lei da natureza, exerciam uma superintendência especial sobre as coisas sagradas. A era anterior à lei escrita deve ter tido o seu sacerdócio, um sacerdócio investido de poder espiritual: que ela possuía uma lei, não pode ser posto em dúvida; e tão intimamente entrelaçadas estão estas duas realidades entre si, que, suprimir uma é necessariamente suprimir a outra. Como, então, levado pelo ditame dos sentimentos instintivos da sua natureza, o homem reconhece o culto de Deus como um dever, segue-se como consequência necessária que, sob toda forma de governo, algumas pessoas devem ter sido constituídas guardiãs oficiais das coisas sagradas, ministras legítimas do culto divino; e o poder de tais pessoas poderia, em certo sentido, ser chamado espiritual.
§538
Com este poder estava também revestido o sacerdócio da Antiga Lei; mas, embora superior em dignidade àquele exercido sob a lei da natureza, era muito inferior ao poder espiritual de que se goza sob a dispensação evangélica. O poder de que se reveste o sacerdócio cristão é um poder celestial, elevado acima do dos anjos: tem sua origem não no sacerdócio levítico, mas em Cristo Senhor, que foi sacerdote não segundo Aarão, mas segundo a ordem de Melquisedeque. É Ele quem, dotado de suprema autoridade para conceder o perdão e a graça, legou este poder à sua Igreja — poder limitado, todavia, em sua extensão, e vinculado aos sacramentos.
§539
Para exercer este poder, são designados ministros e solenemente consagrados, e esta consagração solene é denominada "Ordenação", ou "Sacramento da Ordem". Para designar este Sacramento, a palavra "Ordem" foi empregada pelos Santos Padres, porque o seu significado é muito abrangente e, por isso, bem adaptado para transmitir uma ideia da dignidade e excelência dos ministros de Deus. Entendida em sua acepção estrita e própria, ordem é a disposição de partes superiores e subordinadas que, quando unidas, apresentam uma combinação tão harmoniosa que se situam em relações de mútua correspondência e acordo. Compreendendo, pois, o ministério tantos graus e variadas funções, e estando todos esses graus e funções dispostos com a maior regularidade, este Sacramento é mui apropriadamente chamado "Sacramento da Ordem".
§540
Que as Ordens Sagradas devem ser contadas entre os Sacramentos da Igreja, o Concílio de Trento o estabelece com base no mesmo princípio ao qual tão frequentemente recorremos para provar os demais Sacramentos. Um Sacramento é sinal sensível de uma graça invisível, e com estes caracteres as Ordens Sagradas se revestem: suas formas externas são sinal sensível da graça e do poder que conferem ao que os recebe; as Ordens Sagradas, portanto, são real e verdadeiramente um Sacramento. Por isso, o bispo, entregando ao candidato às ordens sacerdotais um cálice contendo vinho e água e uma patena com pão, diz: "Recebe o poder de oferecer o Sacrifício", etc., palavras que, segundo a interpretação uniforme da Igreja, conferem o poder — quando é fornecida a matéria devida — de consagrar a Santíssima Eucaristia, e imprimem um caráter na alma. A este poder está anexada a graça de desempenhar devida e legitimamente o ofício sacerdotal, conforme estas palavras do Apóstolo: "Admoesto-te que reacendas a graça de Deus que está em ti pela imposição das minhas mãos; porque Deus não nos deu espírito de temor, mas de poder, de amor e de sobriedade."
§541
Quanto ao número das Ordens, para usar as palavras do Concílio de Trento: "Como o ministério de um sacerdócio tão sublime é coisa divina, convinha, para cercá-lo de maior dignidade e veneração, que na admirável economia da Igreja houvesse várias ordens distintas de ministros, destinadas por seu ofício a servir ao sacerdócio e assim dispostas que, começando pela tonsura clerical, se pudesse ascender gradualmente pelas ordens menores até as maiores." O seu número, segundo a doutrina uniforme e universal da Igreja Católica, é sete: Porteiro, Leitor, Exorcista, Acólito, Subdiácono, Diácono e Sacerdote. Que estes constituem o número de ministros na Igreja pode ser demonstrado pelas funções necessárias à celebração solene da Missa e à consagração e administração da Santíssima Eucaristia, para as quais foram principalmente instituídos. Destes, alguns são maiores, chamados também "Sagrados"; outros são menores, chamados "Ordens Menores." As Ordens maiores ou Sagradas são o Subdiaconato, o Diaconato e o Sacerdócio; as Ordens menores são Porteiro, Leitor, Exorcista e Acólito. Para facilitar o dever do pastor, especialmente ao instruir os que estão prestes a ser iniciados em alguma dessas ordens, é necessário dizer algumas palavras sobre cada uma delas.
§542
Começaremos pela tonsura, que é como que uma preparação para receber as ordens. Assim como os que se preparam para o Batismo são precedidos pelos exorcismos, e os que se preparam para o Matrimônio pelos esponsais, assim os que são consagrados a Deus pela tonsura são preparados para a admissão ao Sacramento da Ordem. A tonsura declara qual deve ser a disposição daquele que deseja receber as ordens: o nome de «Clérigo» (clericus), que ele recebe então pela primeira vez, implica que daí em diante tomou o Senhor por sua herança, à semelhança daqueles que, na Lei Antiga, eram consagrados ao serviço de Deus e aos quais o Senhor proibiu que se distribuísse qualquer porção de terra na terra prometida, dizendo: «Eu sou a tua porção e a tua herança.» Isso, embora seja verdade de todos os cristãos, aplica-se de modo especial àqueles que foram consagrados ao ministério. Na tonsura, o cabelo da cabeça é cortado em forma de coroa, e deve ser usado dessa forma, alargando-se a coroa à medida que o eclesiástico avança nas Ordens. A Igreja ensina que esta forma da Tonsura é de origem apostólica: é mencionada pelos Padres mais antigos e veneráveis, por São Dinis Areopagita, por Santo Agostinho e por São Jerônimo. Segundo esses veneráveis personagens, a Tonsura foi introduzida pelo príncipe dos Apóstolos, em honra da coroa de espinhos que foi cravada na cabeça do Redentor; a fim de que o instrumento maquinado pela impiedade dos judeus para ignomínia e suplício de Cristo seja usado por seus Apóstolos como ornamento e glória. Visava também a significar que os ministros da religião devem, em tudo, comportar-se de modo a trazerem consigo a imagem e a semelhança de Cristo. Há, porém, quem afirme que a tonsura é emblema da dignidade régia, que pertence de modo peculiar àqueles que são especialmente chamados à herança de Deus; pois aos ministros da Igreja pertence, de maneira singular, o que o Apóstolo Pedro diz de todos os cristãos: «Vós sois uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa.» Outros são de parecer que a tonsura, cortada em forma de círculo — a mais perfeita de todas as figuras —, é emblema da perfeição superior do estado eclesiástico; ou que, consistindo no corte do cabelo, que é como que uma superfluidade, ela implica um desprezo das coisas do mundo e uma desapego de todos os cuidados e afazeres terrenos.
§543
À Tonsura se segue a ordem de Porteiro: seu ofício consiste em guardar as chaves e a porta da Igreja, e em impedir a entrada a quem ela é proibida. O Porteiro assistia também ao Santo Sacrifício e zelava para que ninguém se aproximasse demasiado do altar nem perturbasse o celebrante. À ordem de Porteiro pertenciam ainda outras funções, como se evidencia nas fórmulas usadas em sua consagração: tomando as chaves do altar e entregando-as ao ordenando, o bispo diz: "CONDUZE-TE COMO HAVENDO DE PRESTAR CONTAS A DEUS PELAS COISAS QUE SÃO GUARDADAS SOB ESSAS CHAVES." Que na Igreja antiga este ofício era de considerável dignidade pode depreender-se de observâncias eclesiásticas ainda existentes; pois ao Porteiro cabia o ofício de tesoureiro da Igreja, ao qual se acrescentava também o de guardião da sacristia — cargos cujas funções figuram ainda entre os mais honrosos ministérios do eclesiástico.
§544
A segunda entre as Ordens Menores é a de Leitor. A ele compete ler ao povo, com voz clara e distinta, as sagradas Escrituras, especialmente a Salmodia Noturna; e a ele incumbe também a tarefa de instruir os fiéis nos rudimentos da fé. Por isso o bispo, na presença do povo, entregando-lhe um livro que contém o que pertence ao exercício desta função, diz: "RECEBEI ESTE LIVRO E SEDE PROCLAMADOR DA PALAVRA DE DEUS, DESTINADO, SE VOS MOSTRARDES FIEL E ÚTIL NO CUMPRIMENTO DE VOSSO OFÍCIO, A TERDES PARTE COM AQUELES QUE, DESDE O PRINCÍPIO, SE HOUVERAM BEM NO MINISTÉRIO DA DIVINA PALAVRA."
§545
A terceira ordem é a de Exorcista: a ele é dado o poder de invocar o nome do Senhor sobre as pessoas possuídas por espíritos imundos. Por isso, o bispo, ao iniciar o Exorcista, entrega-lhe um livro contendo os exorcismos e diz: "RECEBE ESTE LIVRO, COMETE-O À MEMÓRIA, E TEM O PODER DE IMPOR AS MÃOS SOBRE OS POSSUÍDOS, SEJAM ELES BATIZADOS OU CATECÚMENOS."
§546
A quarta e última entre as Ordens Menores é a de Acólito: a função do Acólito é assistir e servir os que estão nas ordens sagradas — Diáconos e Subdiáconos — no ministério do altar. O Acólito cuida também das luzes empregadas na celebração do Santo Sacrifício, especialmente durante a leitura do Evangelho. Na sua ordenação, portanto, o bispo, após exortá-lo cuidadosamente acerca da natureza do ofício que está prestes a assumir, coloca em sua mão uma luz, com estas palavras: "RECEBE ESTE CÍRIO E SABE QUE DE AGORA EM DIANTE ÉS DEDICADO A ILUMINAR A IGREJA, EM NOME DO SENHOR." Em seguida, entrega-lhe ampolas vazias, destinadas a prover o vinho e a água para o sacrifício, dizendo: "RECEBE ESTAS AMPOLAS, QUE HÃO DE PROVER O VINHO E A ÁGUA PARA A EUCARISTIA DO SANGUE DE CRISTO, EM NOME DO SENHOR."
§547
As Ordens Menores, que não recebem a denominação de Sagradas e que até aqui constituíram a matéria de nossa exposição, são como que o vestíbulo pelo qual se ascende às ordens sagradas. Entre estas últimas, a primeira é a do Subdiácono: seu ofício, como o próprio nome indica, é servir ao Diácono no ministério do altar; a ele compete preparar os panos do altar, os vasos sagrados, o pão e o vinho necessários para o Santo Sacrifício, ministrar a água ao Sacerdote ou ao Bispo na lavagem das mãos durante a Missa, ler a Epístola — função que anteriormente cabia ao Diácono —, assistir à Missa na qualidade de testemunha e zelar para que o Sacerdote não seja perturbado por ninguém durante a sua celebração. Essas funções, que pertencem ao ministério do Subdiácono, podem ser conhecidas pelas cerimônias solenes usadas em sua consagração. Em primeiro lugar, o Bispo o admoesta de que, por sua ordenação, assume a obrigação solene do celibato perpétuo, e proclama em voz alta que somente aquele que esteja preparado para abraçar livremente esta lei é habilitado a este ofício. Em seguida, recitada a oração solene das Ladainhas, o Bispo enumera e explica os deveres e funções do Subdiácono. Feito isso, cada um dos candidatos à ordenação recebe do Bispo um cálice e uma patena consagrada, e do Arcediácono, ampolas repletas de vinho e água, bem como uma bacia e uma toalha para lavar e enxugar as mãos, para lembrá-lo de que deve servir ao Diácono. Estas cerimônias são acompanhadas pelo Bispo com esta solene admoestação:
§548
"VÊ QUE MINISTÉRIO TE É CONFIADO: ADMOESTO-TE, POIS, A QUE TE COMPORTES DE MODO A SER AGRADÁVEL DIANTE DE DEUS." Recitam-se então outras orações e, quando finalmente o bispo revestiu o Subdiácono com as sagradas vestes, ao impor cada uma das quais se serve de palavras e cerimônias apropriadas, entrega-lhe o livro das Epístolas, dizendo: "RECEBE O LIVRO DAS EPÍSTOLAS E TEM O PODER DE LÊ-LAS NA IGREJA DE DEUS, TANTO PELOS VIVOS COMO PELOS MORTOS."
§549
A segunda entre as Ordens Sagradas é a do Diácono: o seu ministério é mais amplo e foi sempre considerado mais sagrado. A ele compete acompanhar constantemente o bispo, assistir-lhe quando prega, servir a ele e também ao sacerdote durante a celebração dos Santos Mistérios e na administração dos Sacramentos, e ler o Evangelho no Sacrifício da Missa. Nos primeiros séculos da Igreja, não raramente exortava os fiéis a assistir ao culto divino e administrava o cálice nas Igrejas em que os fiéis recebiam a Santíssima Eucaristia sob as duas espécies. Para prover às necessidades dos indigentes, foi-lhe também confiada a distribuição dos bens da Igreja. Ao Diácono compete igualmente, como olho do bispo, indagar e verificar quais os que, em sua diocese, levam vida de piedade e edificação, e quais os que não a levam; quais assistem ao Santo Sacrifício da Missa e às instruções de seus pastores, e quais não o fazem; a fim de que o bispo, por ele informado dessas matérias, possa admoestar privadamente cada infrator ou, se o julgar mais conducente à sua correção, repreendê-los e corrigi-los publicamente. Ele também chama os nomes dos catecúmenos e apresenta ao bispo os que devem ser promovidos às ordens. Na ausência do bispo e do sacerdote, está também autorizado a expor o Evangelho ao povo, não porém de lugar elevado, para que se compreenda que esta não é uma de suas funções ordinárias. Que se deva ter o maior cuidado para que nenhuma pessoa indigna seja promovida ao ofício de Diácono é evidenciado pela ênfase com que o Apóstolo, escrevendo a Timóteo, se detém sobre os costumes, a virtude e a integridade que devem caracterizar a vida dos investidos deste sagrado caráter. Os ritos e cerimônias usados na sua ordenação transmitem suficientemente a mesma lição. As orações empregadas na ordenação do Diácono são mais numerosas e solenes do que na do Subdiácono; a sua pessoa é também revestida com a sagrada estola; da sua ordenação, assim como da dos primeiros Diáconos ordenados pelos Apóstolos, faz igualmente parte a imposição das mãos; e, por fim, o livro dos Evangelhos lhe é entregue pelo bispo com estas palavras: "RECEBE O PODER DE LER O EVANGELHO NA IGREJA DE DEUS, TANTO PELOS VIVOS COMO PELOS MORTOS, EM NOME DO SENHOR."
§550
O terceiro e mais elevado grau de todas as Ordens Sagradas é o Sacerdócio. As pessoas elevadas ao Sacerdócio são distinguidas pelos Santos Padres por dois nomes: chamam-se «Presbíteros», que em grego significa anciãos, denominação que lhes foi dada não apenas para exprimir a maturidade de anos requerida pelo Sacerdócio, mas sobretudo a gravidade de costumes, a ciência e a prudência: «A velhice venerável não é a de longa duração, nem se conta pelo número de anos; mas a prudência do homem são as suas cãs.» Chamam-se também «Sacerdotes» (Sacerdotes), porque são consagrados a Deus e a eles pertence administrar os sacramentos e tratar das coisas sagradas.