Doutrina da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V

§651 – §700

§651

Essa assiduidade da parte do pastor não pode ser considerada supérflua: não faltam aqueles que estão tão cegados pelas trevas do erro que não temem blasfemar o nome de quem os anjos glorificam; e que não são detidos pelo mandamento divino de ultrajar vergonhosamente e audaciosamente a sua divina majestade todos os dias, ou antes, a toda hora e a todo momento do dia. "Quem ignora que toda afirmação vem acompanhada de um juramento? Que toda conversa transborda de maldições e imprecações? A tal ponto chegou esta impiedade, que mal se compra, vende ou realiza qualquer negócio ordinário sem que se interponha o solene empenho de um juramento, e mesmo nas coisas mais banais e triviais, milhares de vezes se invoca temerariamente o santíssimo nome de Deus!" Torna-se, portanto, ainda mais imperioso para o pastor não negligenciar admoestar com cuidado e frequência os fiéis acerca da gravidade e horror deste crime detestável.

§652

Na exposição deste mandamento, o pastor mostrará que ele contém, além de um preceito negativo, também um preceito positivo que ordena o cumprimento de um dever, e a cada um dará uma exposição distinta. Em primeiro lugar, para facilitar a explicação destas matérias, é necessário saber o que o preceito ordena e o que proíbe. Ordena-nos honrar o nome de Deus e, quando nos referimos solenemente a Ele por meio de um juramento, fazê-lo com a devida reverência; proíbe-nos desprezar o nome divino, tomá-lo em vão ou jurar por Ele falsamente, desnecessariamente ou temerariamente. Quando, portanto, somos mandados honrar o nome de Deus, o mandamento — como o pastor mostrará — não se dirige às letras ou sílabas de que esse nome é composto, nem ao mero nome em si mesmo; mas ao significado de uma palavra usada para expressar a Majestade Onipotente e Eterna da Divindade, Trindade na unidade. Daí percebermos imediatamente a superstição daqueles dentre os judeus que, embora não hesitassem em escrever, não ousavam pronunciar o nome de Deus, como se o poder divino consistisse nas letras de que é composto e não no seu significado.

§653

Ao anunciar o preceito divino, a palavra "nome", embora apareça no singular — "Não tomarás o nome de Deus" —, não deve ser entendida como referente a um nome particular: ela se estende a todo nome pelo qual Deus é comumente designado. Ele é chamado por muitos nomes, tais como "o Senhor", "o Todo-Poderoso", "o Senhor dos Exércitos", "o Rei dos Reis", "o Forte", e por outros de sentido semelhante, que encontramos nas Escrituras; todos os quais têm direito à mesma veneração.

§654

O pastor ensinará também de que modo se deve honrar o nome de Deus. Os cristãos, cujas línguas deveriam celebrar todos os dias os louvores divinos, não podem ignorar uma matéria tão importante e tão necessária à salvação. O nome de Deus pode ser honrado de diversas maneiras; mas todas parecem compreender-se sob os seguintes aspectos. Honra-se o seu nome quando aberta e confiadamente o confessamos como nosso Senhor e nosso Deus, e não apenas reconhecemos, mas proclamamos que Cristo é o autor da nossa salvação. Honra-se também quando prestamos religiosa atenção à sua Palavra, que nos anuncia a sua soberana vontade; quando a fazemos objeto de nossa meditação diária; e quando, pela leitura ou pela escuta, nos esforçamos, segundo as nossas respectivas capacidades e condições de vida, por nos inteirar das suas verdades salvíficas. Honramos e veneramos ainda o nome de Deus quando, por sentido de dever religioso, celebramos os seus louvores e, em todas as circunstâncias, quer prósperas quer adversas, lhe rendemos ilimitadas graças, dizendo com as palavras do profeta: "Bendize o Senhor, ó minha alma, e jamais te esqueças de todos os seus benefícios." Entre os Salmos de Davi encontramos muitos em que, animado de singular piedade para com Deus, o Salmista entoa nos mais suaves acentos os louvores divinos. Temos também o admirável exemplo de Jó, que, ao ser visitado pelas mais pesadas e aterradoras calamidades, nunca cessou, com ânimo elevado e invicto, de dar louvor a Deus. Quando, portanto, padecemos aflição de espírito ou de corpo; quando oprimidos pela miséria e pela desventura; dirijamos imediatamente todos os nossos pensamentos e todas as forças de nossa alma ao louvor de Deus, dizendo com Jó: "Bendito seja o nome do Senhor." Não é menos honrado o nome de Deus quando com confiança invocamos o seu auxílio, seja para nos livrar das nossas aflições, seja para nos dar constância e forças com que as suportemos com fortaleza. Isso está em conformidade com a sua própria vontade: "Invoca-me", diz ele, "no dia da tribulação: eu te livrarei, e tu me glorificarás;" e temos ilustres exemplos de tais súplicas nos Salmos décimo sexto, quadragésimo terceiro e centésimo décimo oitavo, bem como em muitos outros lugares da Sagrada Escritura. Finalmente, honramos o nome de Deus quando solenemente o invocamos como testemunha da verdade do que afirmamos; e esta apelação solene difere muito dos meios de honrar o nome divino já enumerados. Esses meios são em si mesmos tão bons e tão desejáveis que as nossas vidas, de dia e de noite, não poderiam ser empregadas de modo mais feliz ou mais santo do que em semelhantes práticas de piedade: "Bendirei o Senhor", diz Davi, "em todo o tempo; o seu louvor estará sempre na minha boca." Quanto aos juramentos, porém, embora em si mesmos lícitos, deve-se raramente deles fazer uso. A razão desta diferença está em que os juramentos foram instituídos como remédio à fraqueza humana e como meio necessário de firmar a verdade do que afirmamos. Assim como é inconveniente recorrer à medicina, a não ser quando se torna necessário, e como o seu uso frequente é muito pernicioso; da mesma forma, quanto aos juramentos, nunca devemos recorrer a eles senão quando existe causa grave e justa; e um recurso frequente a eles, longe de ser vantajoso, é pelo contrário sumamente prejudicial. Daí a excelente observação de São João Crisóstomo: "Os juramentos não foram introduzidos entre os homens no princípio do mundo, mas muito depois; quando o vício havia coberto a terra; quando o mundo moral estava abalado até os alicerces e reinava por toda a parte uma confusão universal; quando, para completar o quadro da depravação humana, o homem aviltava a dignidade de sua natureza prostrando-se em servil e degradante culto dos ídolos: foi então que se invocou Deus como testemunha da verdade, quando, atendendo ao grau a que haviam chegado a perfídia e a iniquidade, era com dificuldade que o homem se deixava persuadir pela palavra do seu semelhante."

§655

Mas, como ao explicar esta parte do mandamento nosso principal objetivo é ensinar aos fiéis as condições necessárias para que o juramento seja reverente e santo, há que se observar, em primeiro lugar, que jurar, qualquer que seja a fórmula do juramento, nada mais é do que chamar Deus por testemunha: dizer "Deus é minha testemunha" e jurar por seu santo nome são exatamente a mesma coisa. Jurar pelas criaturas a fim de obter crédito para o que se diz é um juramento; jurar pelos santos Evangelhos, pela cruz, pelos nomes ou relíquias dos santos e por todas as demais atestações solenes são igualmente juramentos. Em si mesmos, é verdade, tais objetos não conferem peso nem autoridade ao juramento: ele retira sua obrigação de Deus, cuja majestade divina neles resplandece; e, por isso, jurar pelo Evangelho é jurar pelo próprio Deus, de quem ele é a palavra revelada. O mesmo se aplica àqueles que juram pelos santos, que são templos de Deus, que acreditaram na verdade do seu Evangelho, foram fiéis aos seus preceitos e difundiram as suas doutrinas entre os povos mais remotos da terra. O mesmo vale também para os juramentos proferidos por via de execração, como o de São Paulo: "Chamo Deus por testemunha sobre minha alma"; por esta fórmula de juramento nos submetemos a Deus como vingador da mentira. Não negamos, contudo, que algumas dessas fórmulas possam ser usadas sem que constituam propriamente um juramento; mas mesmo nesses casos será útil observar o que foi dito a respeito do juramento, e orientar e regular tais fórmulas pela mesma norma e medida.

§656

Os juramentos são de dois tipos, afirmatórios e promissórios: o juramento é afirmatório quando, sob sua solene sanção, afirmamos algo passado, presente ou futuro; como a afirmação do Apóstolo em sua Epístola aos Gálatas: "Eis que diante de Deus, não minto." O juramento é promissório quando prometemos o cumprimento certo de algo; como o de Davi, que jurou a Betsabeia, sua esposa, pelo Senhor seu Deus, que Salomão seria herdeiro de seu reino e sucessor em seu trono; e nesta classe de juramentos incluem-se também as ameaças.

§657

Porém, embora para constituir um juramento baste invocar Deus como testemunha, para que este seja santo e justo são necessárias muitas outras condições, que compete ao pastor explicar com cuidado. Essas condições, como observa São Jerônimo, acham-se brevemente enunciadas nestas palavras do profeta Jeremias: "Jurarás: vive o Senhor, com verdade, com juízo e com justiça"; palavras que resumem em síntese todas as condições que constituem a perfeição do juramento: verdade, juízo e justiça.

§658

A verdade, pois, ocupa o primeiro lugar num juramento: o que juramos deve ser verdadeiro; isto é, quem jura deve acreditar ser verdadeiro o que jura, fundando a sua convicção não em motivos temerários ou em vã conjetura, mas em razões de inegável credibilidade. A verdade é uma condição não menos necessária, como é evidente, no juramento promissório do que no assertório: quem promete deve estar disposto a cumprir e a executar a sua promessa no tempo determinado. Assim como nenhum homem de consciência prometerá fazer o que considera ser uma transgressão dos mandamentos e contrário à vontade de Deus, da mesma forma, tendo prometido e jurado fazer o que é lícito, manterá com fidelidade o compromisso sagrado e solene; a menos que, porventura, uma mudança de circunstâncias altere de tal modo a feição do caso, que não lhe seja possível cumprir a promessa sem incorrer no desagrado e na inimizade de Deus. Que a verdade é necessária para um juramento lícito o declara também Davi, quando, tendo perguntado quem é digno de habitar no tabernáculo do Altíssimo, responde: "Aquele que jura ao seu próximo e não o engana."

§659

A segunda condição é o juízo: o juramento não deve ser feito de modo temerário e inconsiderado, mas após madura deliberação e serena reflexão. Ao prestes a fazer um juramento, deve-se primeiro considerar se ele é ou não necessário, e se o caso, bem ponderado em todas as suas circunstâncias, é de importância suficiente para exigir um juramento. Muitas outras circunstâncias de tempo, lugar etc. devem igualmente ser consideradas; e ao fazer um juramento nunca se deve ser movido pelo amor ou pelo ódio, ou por qualquer outra paixão, mas pela natureza e necessidade do caso. Sem essa consideração serena e desapaixonada, o juramento será necessariamente temerário e precipitado; e desta natureza são as afirmações irreligiosas daqueles que, nas ocasiões mais banais e insignificantes, juram apenas por força do mau hábito. Este abuso criminoso é demasiadamente comum entre compradores e vendedores, dos quais estes, para vender pelo preço mais alto, e aqueles, para comprar pelo mais baixo, não têm escrúpulo em reforçar com um juramento o louvor ou a crítica das mercadorias em questão. O juízo e a prudência são, portanto, necessários, e por isso o Papa Gelásio, pontífice de insigne piedade, decretou que o juramento não deveria ser administrado a crianças antes dos quatorze anos, porque antes dessa idade a sua tenra idade é incapaz de perceber com tanta acuidade e de ponderar com tanta exatidão as sutis distinções das coisas.

§660

A terceira e última condição do juramento é a justiça; condição que nos juramentos promissórios exige atenção particular. Por isso, se alguém jurar fazer o que é injusto ou ilícito, peca ao fazer o juramento e acrescenta pecado ao pecado ao cumprir sua promessa. O Evangelho nos fornece um exemplo disso. Herodes obrigou-se por juramento a conceder o pedido de Herodias como recompensa pelo prazer que ela lhe proporcionou dançando; ela pediu a cabeça de João Batista, e Herodes aderiu criminosamente ao juramento temerário que havia feito. Tal foi também o juramento dos judeus que, como lemos nos Atos dos Apóstolos, se obrigaram por juramento a não comer enquanto não derramassem o sangue de Paulo. Um juramento acompanhado e como que guardado por essas condições é, sem dúvida, lícito, proposição que se estabelece fácil e satisfatoriamente. A lei de Deus, cuja pureza e santidade ninguém contestará, não só permite mas ordena que tal juramento seja feito: "Temerás o Senhor teu Deus", diz Moisés, "e só a Ele servirás, e por seu nome jurarás"; "Todos os que por Ele juram", diz Davi, "serão louvados." O Livro Sagrado também nos informa que os Apóstolos — cujo luminoso exemplo os cristãos não podem deixar de seguir — às vezes se serviam de juramentos, registrados nas Epístolas de São Paulo. Até os anjos por vezes juraram: "O anjo", diz São João no Apocalipse, "jurou por Aquele que vive pelos séculos." Finalmente, o próprio Deus, o Senhor dos anjos, jurou e, como lemos em muitas passagens do Antigo Testamento, confirmou suas promessas com juramento. Assim fez a Abraão e a Davi; e acerca do juramento feito pelo Onipotente, Davi diz: "O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque."

§661

Para quem considera o assunto com atenção e em todos os seus aspectos, sua origem e seu fim, não será difícil explicar as razões pelas quais o juramento não é apenas lícito, mas até louvável. O juramento tem sua origem na fé, pela qual cremos que Deus é o autor de toda verdade, que não pode enganar nem ser enganado, "a cujos olhos todas as coisas estão nuas e patentes", que, enfim, governa de modo admirável todas as coisas humanas, cuja providência rege o mundo: imbuídos dessa fé, invocamos a Deus como testemunha da verdade, a quem seria ímpio e sacrílego negar plena crença. Quanto ao fim do juramento, seu escopo e intenção são estabelecer a justiça e a inocência do homem e pôr termo a disputas e contendas: é o que ensina São Paulo em sua Epístola aos Hebreus. Nem esta doutrina contradiz de modo algum as palavras do Redentor registradas em São Mateus: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: não perjurarás, mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo que não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja o vosso falar: sim, sim; não, não; o que passa disto vem do maligno." Não se pode afirmar que estas palavras condenam o juramento de modo universal e em todas as circunstâncias: já vimos que os Apóstolos e o próprio Senhor juraram com frequência; o intento do Redentor foi antes reprovar a opinião perversa dos judeus, que os levava a pensar que, para legitimar o juramento, bastava que ele fosse verdadeiro. Por isso, mesmo nas ocasiões mais fúteis, não hesitavam em recorrer frequentemente a juramentos e em exigi-los de outros. Esta prática o Redentor condena e reprova, ensinando que jamais se deve jurar, a não ser que a necessidade exija tão solene empenho. Os juramentos foram instituídos como remédios para a fraqueza humana; e, por denotar a inconstância de quem o presta ou a contumácia de quem o exige e se recusa a dar assentimento sem ele, o juramento tem sua origem na corrupção de nossa natureza e, por isso, somente a necessidade pode justificá-lo.

§662

Mas, para explicar as palavras do Redentor: quando o Senhor diz: "Seja o vosso falar: sim, sim; não, não," proíbe evidentemente o hábito de jurar nas conversações familiares e por motivos fúteis; admoesta-nos, portanto, particularmente contra uma propensão habitual ao juramento; e esta admoestação o pastor inculcará profunda e repetidamente no ânimo dos fiéis. Que incontáveis males nascem do hábito desregrado de jurar é uma triste verdade corroborada pelo testemunho da Sagrada Escritura e pelos Santos Padres. Assim lemos no Eclesiástico: "Não acostumes a tua boca ao juramento; porque há nele muitas quedas;" e ainda: "O homem que jura muito encher-se-á de iniquidade, e o flagelo não se afastará da sua casa." Nas obras de São Basílio, bem como no tratado de Santo Agostinho contra a mentira, o pastor encontrará farta matéria sobre este assunto.

§663

Tendo até aqui explicado a parte positiva, passamos agora a explicar a parte negativa do mandamento. Por ela nos é proibido tomar o nome de Deus em vão; e aquele que, não guiado por prudente deliberação, mas arrastado pela temeridade, ousa proferir um juramento, é culpado de pecado grave. Isso mesmo declaram as próprias palavras do mandamento: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão." Com estas palavras, o Todo-Poderoso parece assinalar a razão pela qual um juramento temerário é crime tão grave: ele derroga da majestade daquele que professamos reconhecer como nosso Senhor e nosso Deus. Este mandamento, portanto, proíbe jurar falsamente, porque quem não hesita em apelar a Deus como testemunha de uma falsidade causa grave injúria à divina Majestade, imputando-lhe ou ignorância, como se a verdade pudesse ser ocultada ao seu olhar onisciente, ou injustiça e perversidade, como se a Verdade Eterna pudesse dar testemunho de mentira.

§664

Entre os falsos juradores devem ser contados não apenas aqueles que afirmam como verdadeiro o que sabem ser falso, mas também aqueles que juram o que é realmente verdadeiro, acreditando ser falso. A essência da mentira consiste em falar contrariamente à própria convicção; e tais pessoas, portanto, ao jurarem o que creem ser falso, são evidentemente culpadas de mentira e, por conseguinte, de perjúrio. Pelo mesmo princípio, aquele que jura o que pensa ser verdadeiro, mas que, embora jure segundo sua convicção, é realmente falso, também incorre na culpa do perjúrio, a menos que tenha empregado diligência moral para chegar à verdade. Aquele que se obriga por juramento ao cumprimento de algo, sem ter a intenção de cumprir a sua promessa, ou tendo tido tal intenção a descuida, é também culpado de perjúrio; e isso se aplica igualmente àqueles que, havendo-se obrigado a Deus por voto, negligenciam o seu cumprimento.

§665

Este mandamento é também violado quando falta a justiça, que é uma das três condições do juramento; e, portanto, quem jura cometer um pecado mortal — perpetrar um assassinato, por exemplo — viola este mandamento, ainda que houvesse realmente a intenção de cometer o crime e que o seu juramento possuísse a condição que antes apontamos como necessária a todo juramento, a saber, a verdade. A estes casos devem acrescentar-se os juramentos feitos por uma espécie de desprezo, como o juramento de não observar os conselhos evangélicos de celibato e pobreza. Ninguém, é verdade, é obrigado a abraçar esses conselhos, mas ao jurar não os observar, deles se faz escárnio e se os viola. Contra este mandamento se peca também, e a segunda condição do juramento — o "juízo" — é violada quando se jura por motivos frívolos e por mera conjectura, ainda que o que se jura seja verdadeiro e acreditado como tal por quem jura; porque, não obstante a sua verdade, encerra ainda uma espécie de falsidade; pois quem jura com tal leviandade expõe-se ao perigo extremo de perjúrio. Jurar por falsos deuses é igualmente jurar falsamente: que há de mais contrário à verdade do que invocar divindades mentirosas e falsas como se fossem o verdadeiro Deus?

§666

Mas como a Escritura, ao proibir o perjúrio, acrescenta: "Não profanarás o nome do teu Deus", proíbe, por isso, toda irreverência não só para com o seu nome, mas também para com aquelas coisas às quais, conforme este mandamento, se deve reverência; tais como a Palavra de Deus, cuja majestade foi reconhecida e reverenciada não só pelos piedosos, mas também às vezes pelos ímpios, como lemos no livro dos Juízes a respeito de Eglon, rei dos moabitas. Mas aquele que, para sustentar a heresia e a impiedade, torce as Sagradas Escrituras do seu sentido genuíno e verdadeiro, é culpado da mais flagrante irreverência para com a Palavra Divina; e disto somos advertidos por estas palavras do príncipe dos Apóstolos: "Há nelas algumas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e inconstantes pervertem, como também as demais Escrituras, para a própria perdição." É também uma vergonhosa irreverência para com as Escrituras torcer as palavras e sentenças que encerram, as quais deveriam ser mencionadas com a devida reverência, para algum fim profano, como a chocarrice, a fábula, a vaidade, a adulação, a detração, a superstição, a sátira e coisas semelhantes. Tal profanação da Palavra Divina o Concílio de Trento manda que seja severamente repreendida. Em seguida, assim como aqueles que, sob grave aflição, imploram o auxílio de Deus, assim os que não invocam o seu socorro lhe negam a honra devida; e estes os repreende Davi quando diz: "Não invocaram o Senhor; tremeram de medo onde não havia motivo de temor." Ainda mais enorme é a culpa daqueles que, com lábios impuros e ímpios, ousam maldizer ou blasfemar o santo nome de Deus, esse nome que deve ser bendito e louvado acima de tudo por todas as suas criaturas, ou até os nomes dos Santos que reinam com ele na glória. Estremecendo, por assim dizer, só de o mencionar, as Sagradas Escrituras exprimem às vezes o crime de que são culpados esses tais pela palavra "bênção".

§667

Como, porém, o temor do castigo tem muitas vezes um poderoso efeito no freio da licenciosidade do crime, o pastor, a fim de excitar mais eficazmente e de induzir mais facilmente à observância deste mandamento, explicará diligentemente as palavras restantes, que constituem como que um apêndice ao mesmo, e que dizem assim: "PORQUE O SENHOR NÃO TERÁ POR INOCENTE AQUELE QUE TOMAR EM VÃO O NOME DO SENHOR SEU DEUS."

§668

Em primeiro lugar, o pastor ensinará que, na associação de ameaças à violação deste mandamento, a razão descobre os fins mais sábios: ela demonstra ao mesmo tempo a gravidade do pecado e a bondade manifestada por um Deus benfazejo para com nós, o qual, longe de desejar a morte do pecador, nos afasta por essas salutares ameaças de incorrer em sua severidade, sem dúvida para que experimentemos sua bondade antes que sua ira. O pastor insistirá nesta consideração — que deve ser abordada com incansável empenho —, a fim de que os fiéis se tornem conscientes da gravidade do crime, o detestem ainda mais e empreguem maior cuidado e cautela para evitar cometê-lo.

§669

Observará também quão propensos estão os cristãos a este pecado, pois Deus não apenas emitiu um preceito para preveni-lo, mas também o reforçou com sanção tão severa. Os frutos que se podem colher desta consideração são, de fato, incalculáveis: assim como nada é mais pernicioso do que uma segurança negligente, o conhecimento de nossa própria fraqueza traz as consequências mais salutares. Observará, em seguida, que a punição que aguarda a violação deste mandamento não é fixada e determinada; a ameaça é geral: declara que quem for culpado da transgressão não escapará impune. Os castigos com que somos visitados a cada dia devem, portanto, gravar em nossas mentes a enormidade deste crime. Eles nos advertem, na linguagem mais inteligível, que a violação deste mandamento não pode ficar impune; que os mais pesados suplícios alcançarão aquele que profana o nome de Deus — consideração que é de esperar desperte no futuro uma vigilância mais diligente.

§670

Detidos, portanto, por um santo e salutar temor, os fiéis devem empregar todos os esforços para evitar a violação deste mandamento: se "de toda palavra ociosa que os homens proferirem, hão de dar conta no dia do juízo," quão severa será a conta que deverão prestar aqueles cujo crime encerra a tremenda culpa de desprezar o nome do Deus eterno!

O TERCEIRO MANDAMENTO.

§672

"LEMBRA-TE DE SANTIFICAR O DIA DO SÁBADO. SEIS DIAS TRABALHARÁS E FARÁS TODAS AS TUAS OBRAS; MAS O SÉTIMO DIA É O SÁBADO DO SENHOR TEU DEUS: NÃO FARÁS NENHUM TRABALHO NELE, NEM TU, NEM TEU FILHO, NEM TUA FILHA, NEM O TEU SERVO, NEM A TUA SERVA, NEM O TEU ANIMAL, NEM O ESTRANGEIRO QUE ESTÁ DENTRO DAS TUAS PORTAS: PORQUE EM SEIS DIAS O SENHOR FEZ O CÉU E A TERRA, O MAR E TUDO O QUE NELES HÁ, E DESCANSOU NO SÉTIMO DIA: POR ISSO O SENHOR ABENÇOOU O SÉTIMO DIA E O SANTIFICOU."

§673

Este mandamento, como exige a ordem natural, prescreve o culto externo devido a Deus e é, por assim dizer, um corolário do mandamento precedente. Se tributamos a Deus, com sinceridade e devoção, o culto interno, guiados pela fé e pela esperança que nele depositamos, não podemos deixar de honrá-lo também com o culto externo e com a ação de graças. Este dever não podemos cumprir facilmente enquanto estamos absortos nos negócios do mundo; daí a necessidade de fixar um tempo determinado para o seu cumprimento. Sendo, pois, este mandamento, quando devidamente observado, fonte de abundantes frutos, é da mais alta importância que o pastor se empenhe com toda a diligência em expô-lo. A palavra "Lembra-te", com que o mandamento começa, deve animá-lo ao cumprimento zeloso deste dever: se aos fiéis é ordenado que "se lembrem" deste mandamento, incumbe ao pastor recordá-lo frequentemente à sua memória.

§674

A importância da sua observância pode ser deduzida da consideração de que o seu fiel cumprimento facilita a observância de todos os outros mandamentos. Entre as demais obras de piedade pelas quais o sábado deve ser santificado, os fiéis são obrigados a reunir-se na Igreja para ouvir a palavra divina: quando assim tiverem aprendido as justificações do Senhor, serão levados à fiel e voluntária observância da sua santa Lei. Daí que a santificação do sábado seja tão frequentemente exigida na Escritura, como se pode ver no Êxodo, no Levítico, no Deuteronômio e nas profecias de Isaías, Jeremias e Ezequiel, todos os quais contêm este preceito que manda observar o sábado. Os príncipes e magistrados devem ser admoestados e exortados a prestar a sanção e o apoio da sua autoridade aos pastores da Igreja, particularmente no que se refere a sustentar e ampliar o culto de Deus, e a ordenar a obediência às determinações espirituais do pastor.

§675

Quanto à exposição deste mandamento, os fiéis devem ser cuidadosamente instruídos naquilo em que ele concorda com os demais e naquilo em que deles difere, a fim de que compreendam por que razão os cristãos observam não o Sábado, mas o Dia do Senhor. O ponto de diferença é evidente: os outros mandamentos do Decálogo são preceitos da lei natural, obrigatórios em todo tempo e imutáveis, e por isso, após a ab-rogação da Lei de Moisés, todos os mandamentos contidos nas duas tábuas são observados pelos cristãos, não porque a sua observância seja ordenada por Moisés, mas porque estão em conformidade com a lei natural e são impostos pelo seu ditame; ao passo que este mandamento, se considerado quanto ao tempo de seu cumprimento, não é fixo e imutável, mas suscetível de mudança, e pertence não à lei moral, mas à lei cerimonial. Tampouco é um princípio da lei natural: a lei natural não nos instrui a adorar a Deus no Sábado de preferência a qualquer outro dia. O Sábado foi santificado desde o tempo da libertação do povo de Israel da servidão do Faraó: a obrigação devia cessar com a ab-rogação do culto judaico, do qual fazia parte; e, portanto, deixou de ser obrigatório após a morte de Cristo. Tendo sido, por assim dizer, imagens que sombreavam a luz e a verdade, essas cerimônias deviam desaparecer com o advento dessa luz e dessa verdade, que é Cristo Jesus. Por isso São Paulo, em sua Epístola aos Gálatas, ao repreender os observadores dos ritos mosaicos, diz: "observais dias e meses e tempos e anos; temo por vós que talvez eu tenha trabalhado em vão entre vós"; sentimentos que se encontram igualmente em sua Epístola aos Colossenses. Sobre a diferença entre este e os demais mandamentos, estas observações serão suficientes.

§676

Quanto à sua concordância, ela não consiste em ritos e cerimônias, mas na medida em que este mandamento, à semelhança dos demais, exprime uma obrigação moral fundada na lei da natureza. O culto a Deus e a prática da religião, que ele encerra, têm por base a lei natural: o impulso espontâneo da natureza nos leva a consagrar algum tempo ao culto de Deus; e esta é uma verdade demonstrada pelo consentimento unânime de todas as nações, as quais, por isso mesmo, consagraram festas às solenidades públicas da religião. Assim como a natureza exige que algum tempo seja dedicado ao repouso necessário, ao sono e ao descanso e restauração do corpo, assim também requer que algum tempo seja consagrado ao espírito, para que ele renove e fortifique suas energias pela contemplação celestial. Daí a necessidade de consagrar algum tempo ao culto da Divindade e à prática da religião, deveres que fazem, sem dúvida, parte da lei moral. Os Apóstolos, portanto, resolveram consagrar o primeiro dia da semana ao culto divino e chamaram-no de "Dia do Senhor": São João no Apocalipse faz menção do "Dia do Senhor"; e o Apóstolo ordena que as coletas sejam feitas "no primeiro dia da semana", isto é, segundo a interpretação de São Crisóstomo, no Dia do Senhor; e assim somos levados a compreender que já então o Dia do Senhor era santificado na Igreja.

§677

A fim de que os fiéis saibam o que devem fazer e o que devem evitar no dia do Senhor, não será estranho ao seu propósito que o pastor, dividindo o mandamento em quatro partes, explique cada uma delas com minuciosa exatidão. Em primeiro lugar, explicará de modo geral o sentido destas palavras: "Lembra-te de guardar santo o dia do sábado." A palavra "lembra-te" é empregada de modo apropriado no início do mandamento para significar que a santificação daquele dia determinado pertencia à lei cerimonial. Disto parecia necessário advertir o povo, pois, embora a lei natural nos mande prestar culto religioso a Deus, ela não fixa dia determinado para o cumprimento desse dever. Deve-se também ensinar que, por meio dessas palavras, podemos aprender como havemos de empregar o tempo durante a semana; que devemos ter sempre em vista o dia do Senhor, no qual haveremos de prestar a Deus, por assim dizer, conta do modo como passamos a semana; e que, por isso, nossas ocupações e conduta devem ser tais que não sejam desagradáveis aos olhos de Deus, ou que não nos sejam, como está escrito, "ocasião de tristeza e escrúpulo de coração." Por fim, somos ensinados — e a instrução merece nossa atenção séria — que são demasiadas as circunstâncias que podem levar ao esquecimento deste mandamento, tais como o mau exemplo daqueles que negligenciam sua observância e o amor desordenado dos divertimentos, que frequentemente afasta da santa e religiosa guarda do dia do Senhor.

§678

Passemos agora ao significado da palavra "Sábado." Sábado é uma palavra hebraica: significa cessação; guardar o Sábado significa, portanto, cessar do trabalho; e neste sentido o sétimo dia foi chamado "Sábado" — assim o denomina Deus no livro do Êxodo — porque, tendo concluído a criação do mundo, Deus descansou de toda a obra que havia realizado. Não somente o sétimo dia, mas, em honra desse dia, a semana inteira foi posteriormente chamada "Sábado;" e neste sentido da palavra, o Fariseu diz em São Lucas: "Jejuo duas vezes por semana." Isso será suficiente no que diz respeito ao significado da palavra "Sábado."

§679

Nas palavras do mandamento, a santificação do sábado consiste numa cessação do trabalho corporal e dos negócios mundanos, como se depreende das palavras seguintes: "Não farás nenhum trabalho nele." Isso, porém, não esgota por si só o significado do mandamento: se assim fosse, teria bastado dizer no Deuteronômio "observa o dia do sábado"; acrescenta-se, porém, "e santifica-o"; e estas palavras adicionais provam que o sábado é um dia sagrado à religião, reservado para as obras de piedade e os exercícios de devoção. O sábado, portanto, santificamo-lo dedicando-o aos deveres de piedade e religião; e este é evidentemente o sábado que Isaías chama de "deleitoso"; assim passado, é a delícia de Deus e de seus fiéis servidores. Se, pois, a esta observância religiosa e santa do sábado acrescentarmos obras de misericórdia, as recompensas propostas à nossa piedade no mesmo capítulo são numerosas e de suma importância. O verdadeiro e próprio sentido deste mandamento tende, portanto, a que tenhamos especial cuidado de reservar um tempo determinado, no qual, desonerados do trabalho corporal e não perturbados pelas preocupações mundanas, possamos consagrar todo o nosso ser, alma e corpo, ao culto religioso de Deus.

§680

A outra parte do preceito declara que o sétimo dia foi consagrado pelo Deus Todo-Poderoso ao seu culto: "Seis dias," diz ele, "trabalharás e farás todas as tuas obras; mas o sétimo dia é o Sábado do Senhor teu Deus;" isto é, o Sábado é consagrado ao Senhor, e nesse dia devemos render-lhe os deveres da religião e reconhecer que o sétimo dia é sinal do seu repouso. O Sábado foi consagrado ao culto de Deus, porque teria sido inconveniente deixar a um povo rude a escolha do tempo do culto, para que não viesse a ser induzido a imitar os ritos idolátricos do Egito. O sétimo dia foi, portanto, escolhido para o culto de Deus, e a sua dedicação a esse fim está repleta de mistério. Daí que no Êxodo e em Ezequiel o Senhor o denomine "sinal": "Dei-lhes," diz ele, "os meus Sábados, para serem sinal entre mim e eles; e para que soubessem que eu sou o Senhor que os santifica." Era um sinal de que o homem devia dedicar e consagrar-se a Deus, ao passo que o próprio dia lhe é dedicado e consagrado: é santo porque consagrado de modo especial à santidade e à religião. Era também um sinal e, por assim dizer, um memorial da estupenda obra da criação. Para os judeus era ainda um sinal tradicional, recordando-lhes que tinham sido libertados pela mão de Deus do penoso jugo do cativeiro egípcio. O próprio Todo-Poderoso o declara nestas palavras: "Recorda-te de que também serviste no Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão forte e braço estendido. Por isso te ordenou que observasses o dia do Sábado."

§681

É também sinal do Sábado espiritual e celestial. O Sábado espiritual consiste num repouso santo e místico, no qual o homem velho, sepultado com Cristo, é renovado para a vida, e se esforça por agir em conformidade com o espírito da piedade cristã: "Éreis antes trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai, pois, como filhos da luz; porque o fruto da luz está em toda bondade, justiça e verdade, sem terdes comunhão com as obras infrutíferas das trevas." O Sábado celestial, como observa São Cirilo sobre aquelas palavras do Apóstolo — "Portanto, resta um descanso para o povo de Deus" —, é aquela vida que havemos de gozar com Cristo, na fruição de todos os bens, quando o pecado não existirá mais, conforme estas palavras de Isaías: "Não haverá ali leão, nem fera maliciosa passará por ali, nem será encontrada; mas haverá ali um caminho e uma estrada, e será chamado o caminho santo"; pois as almas dos santos gozam da plenitude da felicidade na visão de Deus. O pastor, portanto, exortará e animará os fiéis com as palavras do Apóstolo: "Apressemo-nos, pois, a entrar naquele repouso."

§682

Além do sábado, os judeus observavam outras festas instituídas pela lei divina, cujo fim e propósito era despertar no povo a recordação dos principais favores que o Todopoderoso lhes havia concedido. Sobre essas festas, o pároco consultará o Levítico, os Números e o Deuteronômio; e sobre os fins morais contemplados na instituição de tais festas, poderá também consultar Santo Cirilo e Santo Tomás.

§683

A Igreja de Deus, em sua sabedoria, ordenou que a celebração do Sábado fosse transferida para "o dia do Senhor": assim como nesse dia a luz brilhou pela primeira vez sobre o mundo, também pela ressurreição de Nosso Senhor no mesmo dia — por quem nos foi aberta a porta da vida eterna — fomos chamados das trevas para a luz; e daí o Apóstolo quis que fosse chamado "o dia do Senhor". Aprendemos também pelo sagrado Volume que o primeiro dia da semana era tido como sagrado por outras razões: nesse dia teve início a obra da criação, e nesse dia o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos. Desde os primórdios da Igreja, outros dias foram igualmente designados pelos Apóstolos, e pelos seus sucessores em tempos posteriores, para serem santificados, a fim de comemorar as graças singulares concedidas a nós, cristãos. Entre esses dias, os mais eminentes são aqueles instituídos para honrar os mistérios da nossa redenção; e, a seguir, aqueles dedicados à Santíssima Virgem Mãe, aos Apóstolos, aos Mártires e aos demais Santos que reinam com Cristo, e em cuja celebração das suas vitórias se louva o poder e a bondade divinos que neles triunfaram, se presta a devida honra às suas memórias e os fiéis são estimulados à imitação das suas virtudes.

§684

Além disso, como a observância do preceito é fortemente inculcada nestas palavras: "Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras; mas o sétimo dia é o Sábado do Senhor teu Deus", o pároco deve, portanto, explicá-las cuidadosamente ao povo. Elas admoestam implicitamente que os fiéis devem ser exortados a não desperdiçar a vida na indolência e na ociosidade, mas, lembrados das palavras do Apóstolo e conforme o seu mandato, "tratarem dos seus próprios negócios e trabalharem com as próprias mãos". Estas palavras impõem igualmente como dever que "em seis dias façamos todas as nossas obras", e nos admoestam a não diferir para o domingo ou para os dias santos o que deveria ter sido feito nos outros dias da semana, e que, se adiado, nos distrairia da santificação do Sábado.

§685

A terceira parte do mandamento passa agora a ser explicada. Ela indica, de certa forma, o modo pelo qual devemos santificar o dia do Sábado, e esclarece em particular o que nele é proibido fazer: "Não farás nenhum trabalho nesse dia", diz o Senhor, "nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas." Estas palavras nos ensinam, antes de tudo, a evitar tudo o que possa interferir no culto a Deus no dia do Sábado; e daí não é difícil perceber que todas as obras servis são proibidas, não porque sejam em si impróprias ou más, mas porque afastam do culto divino, que é o grande fim do mandamento. Os fiéis devem ser ainda mais cuidadosos para não profanar o Sábado pelo pecado, o qual não apenas afasta a mente da contemplação das coisas divinas, mas nos aliena inteiramente do amor de Deus. Porém, tudo o que diz respeito à celebração do culto divino, como a ornamentação do altar ou da igreja por ocasião de alguma festa, e coisas semelhantes, embora sejam obras servis, não é proibido; e por isso o próprio Senhor diz: "Os sacerdotes no templo violam o Sábado e não têm culpa." Tampouco devemos supor que este mandamento proíbe que, no Sábado, se atendam aquelas coisas que, se negligenciadas nesse dia, se perdem para o seu dono. Preservá-las não constitui violação do mandamento e é expressamente permitido pelos sagrados cânones. Há muitas outras coisas que o Senhor declara lícitas de se fazer aos domingos e dias santos, e que o pastor pode verificar em São Mateus e São João.

§686

Não omitindo nada que possa interferir na santificação do Sábado, o mandamento menciona os animais, porque o seu uso pode impedir a devida observância desse dia. Se os animais forem empregados no Sábado, o trabalho humano também se torna necessário: eles não laboram sozinhos, mas auxiliam os trabalhos do homem. A proibição do uso dos animais é, portanto, uma consequência da proibição do trabalho humano; são correlativos; um supõe o outro. Se, pois, Deus ordena que os animais sejam isentados do trabalho no Sábado, tanto mais imperativa é a obrigação de evitar todo ato de desumanidade para com os servos ou com aqueles cujo trabalho e indústria empregamos a nosso serviço.

§687

O pastor não deve também omitir de instruir os fiéis sobre o modo como hão de santificar os domingos e os dias santos de guarda; e, entre outros meios, não se esquecerá de mencionar a obrigação de visitar o templo de Deus, e aí, com sincera piedade e devoção, assistir à celebração do santo sacrifício da Missa; bem como o dever de se aproximar frequentemente dos sacramentos da Igreja, instituídos para nossa santificação e salvação, a fim de sarar as nossas enfermidades espirituais. Nada pode ser mais oportuno ou salutar do que o recurso frequente ao tribunal da penitência; e para isso o pastor estará apto a exortar os fiéis recorrendo ao que já dissemos, no lugar próprio, acerca do sacramento da penitência. Mas não somente exortará o seu povo a recorrer ao sacramento da penitência: com zelo os exortará também, repetidamente, a aproximar-se com frequência do santíssimo sacramento da Eucaristia. Os sermões devem igualmente ser ouvidos pelos fiéis nesses dias com atenção e reverência; nada é mais intolerável, nada mais indigno de um cristão do que desprezar as palavras de Cristo ou ouvi-las com indiferença. A oração devota e o louvor a Deus devem também exercitar frequentemente a piedade dos fiéis nos domingos e dias santos de guarda; e objeto de sua particular atenção deve ser assistir com diligência à instrução catequética, a fim de aprender as coisas que formam a vida cristã; e praticar com assiduidade esses deveres de piedade cristã, a saber: dar esmolas aos pobres, visitar os enfermos, consolar os afligidos. "A religião pura e imaculada diante de Deus Pai é esta", diz São Tiago, "visitar os órfãos e as viúvas na sua tribulação."

§688

Do que foi dito é fácil perceber de que modo este mandamento pode ser violado; mas o pastor julgará também ser seu dever imprimir nas mentes dos fiéis a convicção de que este mandamento deve ser observado com piedoso zelo e a maior exatidão. Para se alcançar este fim, muito contribuirá fazer-lhes compreender e ver claramente quão justo e razoável é consagrar determinados dias, exclusivamente, ao culto de Deus, para reconhecê-lo, adorá-lo e venerá-lo, d'Ele que nos concedeu tão inumeráveis e inestimáveis bênçãos. Se Deus nos houvesse ordenado oferecer-Lhe, em cada dia de nossa vida, o tributo do culto religioso, não seria nosso dever, em retribuição pelos inestimáveis e infinitos benefícios que a sua bondade sobre nós derramou, esforçarmo-nos por obedecer ao preceito com prontidão e diligência? Ora, sendo os dias especialmente consagrados ao seu serviço tão poucos em número, não é tão irracional quanto criminoso negligenciar um dever tão sagrado, ou cumpri-lo com relutância?

§689

O pastor indicará em seguida a importância de uma fiel observância deste preceito. Os que o observam fielmente são admitidos, por assim dizer, à presença divina, para comunicarem livremente com Deus; pois na oração contemplamos a majestade incriada e mantemos livre comércio com a Divindade; ao ouvirmos a instrução religiosa, ouvimos a voz de Deus, que nos chega por meio de seu piedoso e zeloso ministro; e no Santo Sacrifício da Missa, adoramos Cristo Senhor, presente em nossos altares. Entre as vantagens espirituais, estas se acham entre as que a fiel observância deste mandamento é fonte pura e abundante. Mas os que negligenciam de todo o seu cumprimento resistem a Deus e à sua Igreja: são inimigos de Deus e de suas santas leis; e a facilidade com que o mandamento pode ser cumprido é ao mesmo tempo prova e agravante de sua culpa. Deveríamos, é verdade, estar dispostos a suportar os trabalhos mais penosos por amor de Deus; mas neste mandamento ele não nos impõe trabalho algum; ordena-nos apenas que nos desvencilhemos dos cuidados mundanos nos dias que devem ser santificados. Recusar obediência a este mandamento é, portanto, prova de extrema temeridade; e as punições com que sua infração tem sido visitada devem ser uma admoestação salutar para os cristãos.

§690

A fim, portanto, de evitar essa culpa e essas punições, deveríamos meditar com frequência nesta palavra: "Lembra-te", e pôr diante de nós as importantes vantagens que, como já vimos, decorrem da observância religiosa dos domingos e dias santos, bem como muitas outras considerações da mesma índole, que o bom e zeloso pároco desenvolverá amplamente para o seu povo, conforme as circunstâncias o exigirem.

O QUARTO MANDAMENTO.

§692

"HONRA TEU PAI E TUA MÃE, PARA QUE SEJAS DE LONGA VIDA SOBRE A TERRA QUE O SENHOR TEU DEUS TE HÁ DE DAR."

§693

Os mandamentos precedentes, tendo a Deus como fim imediato, precedem em ordem, bem como em dignidade e importância; porém os que se seguem, embora em última análise ordenados a Deus como ao fim contemplado no amor ao próximo, têm por objeto imediato instruir-nos no dever de amar o próximo, e por isso justamente ocupam o lugar seguinte. Daí o próprio Senhor ter declarado que estes dois mandamentos, que inculcam o amor a Deus e ao próximo, são semelhantes entre si. As vantagens decorrentes da fiel observância deste mandamento mal podem ser expressas em palavras, pois ele traz consigo não apenas o seu próprio fruto, e em abundância riquíssima e de excelência superior, mas também oferece uma prova da sinceridade do nosso amor a Deus: "Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê", diz São João, "como pode amar a Deus, a quem não vê?" Da mesma forma, se não honramos nem reverenciamos nossos pais, que vemos, como poderemos honrar ou reverenciar a Deus, o pai supremo e sumo bem, a quem não vemos? — e daí a analogia e a concordância evidentes de ambos os mandamentos.

§694

A aplicação deste mandamento é de larguíssima extensão: além dos pais naturais, há muitos outros cujo poder, dignidade, utilidade, funções elevadas ou ofício lhes conferem direito à honra devida aos pais. Este preceito também alivia o trabalho dos pais e dos superiores: entre os deveres que lhes incumbem, o principal é moldar a vida daqueles que se acham sob seus cuidados segundo as máximas da lei divina, e o cumprimento desse dever há de ser grandemente facilitado se for universalmente reconhecido que honrar os pais é uma obrigação sancionada e ordenada por uma autoridade não menor que a do próprio Deus. Para imprimir esta verdade no espírito, será útil distinguir os mandamentos da primeira tábua dos da segunda. Essa distinção, portanto, o pastor explicará em primeiro lugar, ensinando que os preceitos divinos do Decálogo foram escritos em duas tábuas, das quais uma, na opinião dos Santos Padres, continha os três mandamentos precedentes, e a outra, os sete restantes do Decálogo. Esta ordem dos mandamentos é muito apropriada, pois por ela se distinguem também a natureza e o objeto dos mesmos: tudo o que na Escritura é ordenado ou proibido pela lei divina deriva de um de dois princípios, o amor de Deus ou o amor do próximo, e no cumprimento de cada dever devemos ser movidos por esse amor. Os três mandamentos precedentes ensinam-nos o amor que devemos a Deus, e os outros sete, os deveres que temos para com a sociedade doméstica e pública. A distinção que refere alguns à primeira e outros à segunda tábua não carece, portanto, de sólido fundamento: nos três primeiros, Deus, sumo bem, é, por assim dizer, a matéria principal; nos outros, o bem do próximo: os primeiros propõem o objeto supremo, os outros o objeto próximo de nosso amor; os primeiros respeitam o fim último, os outros os deveres que a ele se ordenam.

§695

Ademais, o amor de Deus termina no próprio Deus, pois Deus deve ser amado acima de todas as coisas por si mesmo; ao passo que o amor do próximo tem a sua origem no amor de Deus e a ele deve ser referido. Se amamos nossos pais, obedecemos a nossos superiores, respeitamos os que estão acima de nós, o princípio que nos deve reger ao fazê-lo é o de que Deus é o seu Criador e quer dar preeminência àqueles por cuja cooperação governa e protege a todos os demais; e, como ele exige que tributemos a tais pessoas uma reverência respeitosa, devemos fazê-lo porque ele as julga dignas desta honra. Se honramos, pois, nossos pais, a homenagem é prestada antes a Deus do que ao homem; e assim lemos no décimo capítulo de São Mateus, que, entre outras matérias, trata também do dever para com os superiores: "Quem vos recebe, a mim recebe;" e o Apóstolo, em sua Epístola aos Efésios, dando instrução aos servos, diz: "Servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na simplicidade do vosso coração, como a Cristo: não servindo só quando sois vistos, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus."

§696

Ademais, nenhuma honra, nenhuma piedade, nenhuma devoção pode ser tributada a Deus de modo digno d'Ele, para com quem o amor admite aumento infinito; e por isso a nossa caridade deve tornar-se a cada dia mais ardente para com Aquele que nos manda amá-Lo "com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças". Mas o amor ao próximo tem os seus limites, pois somos mandados a amar o próximo como a nós mesmos; e ultrapassar esses limites, amando-o como amamos a Deus, seria um crime de gravíssima enormidade. "Se alguém vier a mim", diz o Senhor, "e não odiar seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo." A quem desejava primeiro assistir ao sepultamento do pai, para depois seguir a Cristo, o Senhor disse, no mesmo sentido: "Deixa que os mortos enterrem seus mortos"; e a mesma lição é transmitida com maior clareza nestas palavras de São Mateus: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim." Os pais, sem dúvida, devem ser amados com afeto e reverenciados com alto apreço; mas a religião exige que a honra e a homenagem supremas sejam prestadas somente a Aquele que é o soberano Criador e Pai universal, e que o amor que professamos aos nossos pais seja referido ao nosso eterno Pai que está nos céus. Se, porém, as ordens dos pais se opuserem alguma vez aos mandamentos de Deus, devem os filhos, evidentemente, preferir a vontade de Deus aos desejos dos pais, tendo sempre diante dos olhos a máxima divina: "É preciso obedecer a Deus antes que aos homens."

§697

Feita esta exposição preliminar, o pastor passará a explicar as palavras do mandamento, começando por "honrar". "Honrar" é ter de alguém um conceito reverente e, em toda relação em que ele possa ser considerado, tê-lo na mais alta estima. Abrange amor, respeito, obediência e reverência, e aqui é empregado com grande propriedade em preferência à palavra "temer" ou "amar"; embora os pais devam também ser muito amados e temidos. O respeito e a reverência nem sempre acompanham o amor, nem tampouco o amor é companheiro inseparável do temor; mas a honra, quando procede do coração, une em si o temor e o amor.

§698

Em seguida, o pároco explicará quem são aqueles que o mandamento designa como pais: pois, embora se refira primeiramente aos nossos pais naturais, a palavra tem um sentido secundário e, como já indicamos de passagem, abrange — como sabemos por inúmeras passagens da Sagrada Escritura — muitos outros que também têm direito à devida honra. Em primeiro lugar, os prelados da Igreja, seus pastores e clérigos são chamados pais, segundo o exemplo do Apóstolo: "Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas vos admoesto como a filhos muito amados; pois, ainda que tenhais dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; porque em Cristo Jesus, pelo Evangelho, eu vos gerei." Lemos também no Eclesiástico: "Louvemos os homens ilustres e nossos pais em sua geração." Os que governam o Estado, a quem são confiados o poder, a magistratura ou o império, também são chamados pais; assim Naamã era chamado pai por seus servos. Àqueles a cuja solicitude, fidelidade, probidade e sabedoria outros são confiados — como pastores, mestres, preceptores e tutores — também se dá o nome de pai; e por isso os filhos dos profetas chamavam Elias e Eliseu por esse nome. Por fim, os anciãos, cujos anos lhes conferem direito ao nosso respeito, também chamamos pais. Nas instruções do pároco, contudo, não se deixará de inculcar particularmente a obrigação que temos de honrar todos os que merecem ser denominados pais, especialmente os nossos pais naturais, dos quais o mandamento divino fala de modo particular. Eles são, por assim dizer, representantes do único, grande, imortal e universal Pai: neles contemplamos a imagem da nossa própria origem; deles recebemos a existência; deles Deus se serviu para nos comunicar a alma com todas as suas faculdades; por eles fomos conduzidos aos sacramentos, formados para a vida em sociedade, beneficiados com a educação e instruídos na pureza e santidade de vida.

§699

O pároco ensinará que o nome de "mãe" também é mencionado neste mandamento, e com justa razão, porquanto desperta em nós a grata memória dos benefícios que dela recebemos; dos títulos que ela possui à nossa afeição filial; do cuidado e solicitude com que nos carregou, das dores e trabalhos com que nos deu à luz, e da fadiga e ansiedade com que velou pelos nossos primeiros anos.

§700

Além disso, a honra que os filhos são mandados a tributar a seus pais deve ser a oferta espontânea de um amor sincero e devotado. Esse respeito reverente reclamam, com os títulos mais fortes, aqueles que, por amor a nós, não recusam nenhum trabalho, não poupam nenhum esforço, não recuam diante de nenhum perigo; cuja mais alta alegria está em alimentar o pensamento de que são amados por seus filhos, os caros objetos de sua solicitude e afeição paternal. José, quando, logo abaixo da majestade real, desfrutava no Egito a mais alta posição e o mais amplo poder, recebeu com honra seu pai quando este desceu ao Egito; Salomão levantou-se para ir ao encontro de sua mãe quando ela se aproximava; e, havendo-lhe prestado o tributo do respeito filial, colocou-a num trono real à sua direita.

Referência atual: §651
Catecismo Romano do Concílio de Trento | São Pio V | Aurea