Doutrina da Igreja
Catecismo Romano do Concílio de Trento
São Pio V
§151 – §200
§151
Que este julgamento é atribuído a Cristo Nosso Senhor não somente como Deus, mas também como homem, é expressamente declarado na Sagrada Escritura; pois, embora o poder de julgar seja comum a todas as Pessoas da Santíssima Trindade, é especialmente atribuído ao Filho, porque a ele também, de modo especial, se atribui a sabedoria. Que, como homem, há de julgar o mundo, confirma-o o próprio testemunho de Nosso Senhor, quando diz: "Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter a vida em si mesmo; e deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem." Há uma razão muito própria para que Cristo julgue nessa ocasião: como a sentença há de ser pronunciada sobre a humanidade, que os homens possam ver o seu juiz com os próprios olhos e ouvi-lo com os próprios ouvidos, e assim conheçam o seu destino final por meio dos sentidos. Justíssimo é também que aquele que foi da maneira mais iníqua condenado pelo julgamento dos homens seja visto, por fim, por todos os homens, julgando a todos. Por isso, o príncipe dos Apóstolos, ao expor na casa de Cornélio os principais dogmas do Cristianismo, e ao ensinar que Cristo foi suspenso numa cruz e morto pelos judeus, e ressuscitou ao terceiro dia, acrescentou: "e ele nos ordenou que pregássemos e testificássemos ao povo que este é aquele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos."
§152
As Sagradas Escrituras também nos ensinam que o juízo geral será precedido por três sinais principais: a pregação do Evangelho por todo o mundo, uma apostasia da fé e a vinda do Anticristo. "Este Evangelho do Reino", diz Nosso Senhor, "será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá a consumação." O Apóstolo também nos admoesta para que não nos deixemos seduzir por ninguém, "como se o dia do Senhor estivesse próximo; porque isso não acontecerá sem que venha primeiro a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição", antes do qual o juízo não chegará.
§153
A forma e o processo deste juízo o pastor aprenderá facilmente nos oráculos de Daniel, nos escritos dos Evangelistas e na doutrina do Apóstolo. Merece igualmente atenção singular a sentença que o juiz há de pronunciar. Voltando-se para os justos postados à sua direita, com um semblante transbordante de alegria, o Redentor pronunciará a sentença sobre eles com a maior benignidade, nestas palavras: "Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo." Que nada se pode imaginar mais deleitoso ao ouvido do que estas palavras, compreendê-lo-emos se as compararmos com a sentença de condenação que será lançada contra os ímpios, e se recordarmos que por elas os justos são convidados do trabalho ao repouso, do vale de lágrimas às moradas da alegria, da miséria temporal à felicidade eterna, recompensa das suas obras de caridade.
§154
Voltando-se então para os que estarão à sua esquerda, derramará sobre eles a sua justiça com estas palavras: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos." Estas primeiras palavras, "apartai-vos de mim", exprimem o mais grave castigo com que serão visitados os ímpios: o seu eterno banimento da visão de Deus, sem que nenhuma esperança consoladora de recuperar tão grande bem lhes traga alívio. A isso chamam os teólogos "pena de dano", porque no inferno os ímpios serão privados da luz da visão de Deus. As palavras "malditos", que se acrescentam, devem aumentar em sumo grau a sua miserável e calamitosa condição. Se, banidos da presença divina, pudessem ainda esperar alguma espécie de bênção, isso lhes seria alguma fonte de consolo; mas, privados de toda expectativa que pudesse aliviar a calamidade, a justiça divina, cuja severidade os seus crimes provocaram, os persegue com toda espécie de maldição. As palavras "para o fogo eterno", que se seguem, exprimem outro gênero de castigo, chamado pelos teólogos "pena de sentido", porque, à semelhança dos demais suplícios corporais — entre os quais, sem dúvida, o fogo produz a dor mais intensa —, é percebido pelos órgãos dos sentidos. Quando, ademais, refletimos que esta dor há de ser eterna, ficamos desde logo convencidos de que o castigo dos condenados não admite acréscimo.
§155
São estas as considerações que o pároco deve apresentar com grande frequência à atenção dos fiéis; a verdade anunciada por este Artigo, contemplada com os olhos da fé, é sumamente eficaz para refrear as propensões perversas do coração e afastar as almas do pecado. Daí lermos no Eclesiástico: "Lembra-te do teu fim último, e nunca pecarás." E com efeito, é quase impossível encontrar alguém tão inclinado ao vício que não seja capaz de ser reconduzido à prática da virtude pela reflexão de que chegará o dia em que terá de prestar contas diante de um juiz severiríssimo, não só de todas as suas palavras e ações, mas até dos seus mais secretos pensamentos, e sofrerá a punição segundo os seus merecimientos. Mas o homem justo deve ser cada vez mais estimulado a cultivar a justiça e, ainda que condenado a passar a vida na penúria, no opróbrio e nos tormentos, deve transbordar de imensa alegria quando contempla aquele dia em que, findos os combates desta vida miserável, será proclamado vitorioso ao ouvido de todos os homens e, admitido na sua pátria celestial, será coroado com honras divinas e, além disso, eternas. É, pois, dever do pároco exortar os fiéis a conformarem a sua vida pelo melhor modo possível e a exercitarem-se em toda prática de piedade, a fim de poderem aguardar com maior segurança o grande dia da vinda do Senhor e até desejá-lo ardentemente, como convém a filhos.
ARTIGO VIII.
"CREIO NO ESPÍRITO SANTO."
§158
Até aqui expusemos, na medida em que a natureza do assunto pareceu requerer, o que diz respeito à primeira e à segunda Pessoas da Santíssima Trindade. Resta agora explicar o que o Credo contém acerca da terceira Pessoa, o Espírito Santo. Sobre este assunto, também, o pastor não omitirá nada do que o estudo e o empenho possam conseguir; pois neste e nos artigos precedentes o erro seria igualmente imperdoável. Por isso, o Apóstolo cuida de instruir alguns dentre os Efésios acerca da Pessoa do Espírito Santo. Tendo perguntado se tinham recebido o Espírito Santo, e tendo recebido como resposta que não sabiam sequer da existência do Espírito Santo, acrescenta imediatamente: "Em quem, portanto, fostes batizados?" — para significar que um conhecimento distinto deste artigo é da maior necessidade para os fiéis. Dele haurem este fruto especial: considerando atentamente que tudo quanto possuem, possuem pela bondade e benevolência do Espírito Santo, aprendem a pensar de si mesmos com maior modéstia e humildade, e a depositar toda a sua esperança na proteção de Deus — o que constitui o primeiro passo para a sabedoria consumada e a suprema felicidade.
§159
A exposição deste Artigo deve, portanto, começar pelo significado aqui atribuído às palavras Espírito Santo; pois, como esta denominação é igualmente verdadeira quando aplicada ao Pai e ao Filho — ambos são espírito, ambos são santos —, e abrange também os anjos e as almas dos justos, importa ter cuidado para que os fiéis não sejam induzidos em erro pela ambiguidade das palavras. O pároco ensinará, pois, neste Artigo, que pelas palavras Espírito Santo se entende a terceira Pessoa da Santíssima Trindade; sentido em que são empregadas, às vezes no Antigo, e frequentemente no Novo Testamento. Assim, Davi ora: "Não me retires o teu Espírito Santo"; e no Livro da Sabedoria lemos: "Quem conhecerá os teus pensamentos, se tu não deres a sabedoria e não enviares de cima o teu Espírito Santo?" E noutro lugar: "Ele a criou no Espírito Santo." Somos também mandados, no Novo Testamento, a ser batizados "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo"; lemos que a Santíssima Virgem concebeu do Espírito Santo; e somos enviados por São João a Cristo, "que nos batiza no Espírito Santo"; além de muitas outras passagens em que ocorrem as palavras Espírito Santo.
§160
Não deve causar estranheza que à terceira Pessoa não seja dado um nome próprio, como o foi à primeira e à segunda: a segunda Pessoa é designada por um nome próprio e chamada Filho, porque, conforme foi explicado nos Artigos precedentes, o seu eterno nascimento do Pai se chama propriamente geração. Assim como aquele nascimento é expresso pela palavra geração, a Pessoa que dele procede é chamada propriamente Filho, e a Pessoa de quem ele procede é chamada Pai. Mas como a produção da terceira Pessoa não possui um nome próprio, sendo apenas denominada espiração e processão, também a Pessoa produzida não recebe, por conseguinte, um nome próprio. Contudo, sendo nós obrigados a tomar de criaturas os nomes que damos a Deus, e não conhecendo outro modo criado de comunicar a natureza e a essência senão o da geração, não podemos encontrar um nome próprio para expressar o modo pelo qual Deus se comunica todo inteiro pela força do seu amor. Não podendo, portanto, exprimir por um nome próprio a emanação da terceira Pessoa, recorremos ao nome comum de Espírito Santo; nome, porém, peculiarmente adequado àquele que infunde em nós a vida espiritual e sem cuja santa inspiração nada podemos fazer que seja meritório da vida eterna. Ao povo, uma vez instruído sobre o significado desse nome, deve-se antes de tudo ensinar que Ele é igualmente Deus com o Pai e o Filho, igualmente onipotente, eterno, perfeito, sumo bem, infinitamente sábio e da mesma natureza que o Pai e o Filho. Tudo isso está suficientemente implícito na força da palavra "em" quando dizemos: "Creio no Espírito Santo"; palavra que, para assinalar a particularidade de nossa fé, é anteposta a cada Pessoa da Santíssima Trindade; e está também claramente estabelecido por muitas passagens das Escrituras: quando, nos Atos dos Apóstolos, São Pedro diz: "Ananias! por que concebeste esta coisa em teu coração?", acrescenta imediatamente: "não mentes aos homens, mas a Deus"; chamando Deus àquele a quem, pouco antes, havia dado o nome de Espírito Santo.
§161
O Apóstolo também, escrevendo aos Coríntios, interpreta o que afirma de Deus como dito do Espírito Santo: "Há", diz ele, "diversidade de operações, mas o mesmo Deus, que opera tudo em todos"; "porém", prossegue, "todas estas coisas as opera um mesmo e único Espírito, distribuindo a cada um conforme quer." Nos Atos dos Apóstolos, igualmente, o que os profetas atribuem a um só Deus, São Paulo o atribui ao Espírito Santo; assim Isaías havia dito: "Ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? e quem irá por nós? E eu disse: Eis-me aqui, envia-me. E ele disse: Vai, e dirás a este povo: Endurecei o coração deste povo, tornai pesados os seus ouvidos e cerrai os seus olhos: para que não vejam com os olhos e não ouçam com os ouvidos." Tendo citado estas palavras, o Apóstolo acrescenta: "Bem falou o Espírito Santo a nossos pais, por meio do profeta Isaías."
§162
Além disso, as Sagradas Escrituras, ao associarem a Pessoa do Espírito Santo às do Pai e do Filho — como quando é ordenado que o batismo seja ministrado "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" —, não deixam a menor margem para duvidar da verdade deste mistério: pois se o Pai é Deus e o Filho é Deus, por que não confessar que o Espírito Santo, que a eles está unido no mesmo grau de honra, é também Deus? Acresce que o batismo ministrado em nome de qualquer criatura não pode ter efeito algum: "Fostes batizados em nome de Paulo?", diz o Apóstolo, para mostrar que tal batismo de nada lhes aproveitaria para a salvação. Tendo, portanto, sido batizados em nome do Espírito Santo, devemos reconhecer que o Espírito Santo é Deus.
§163
Esta mesma ordem das três Pessoas, que prova a divindade do Espírito Santo, é observável na epístola de São João: "Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um"; e também naquela nobre doxologia, ou fórmula de louvor à Santíssima Trindade: "Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo", com a qual se encerram os salmos e os divinos louvores.
§164
Finalmente, para não omitir um argumento que contribui, de modo poderosíssimo, para estabelecer esta verdade, a autoridade da Sagrada Escritura prova que tudo o que a fé atribui a Deus pertence igualmente ao Espírito Santo: a ele se atribui, na Escritura, a honra dos templos: "Não sabeis vós", diz o Apóstolo, "que os vossos membros são o templo do Espírito Santo?"; e também a santificação, a vivificação, o escrutar as profundezas de Deus, o falar por meio dos profetas e o estar presente em todos os lugares; tudo o que é atribuído somente a Deus.
§165
O pastor explicará também com precisão aos fiéis que o Espírito Santo é Deus, de modo a ser a terceira Pessoa na natureza divina, distinta do Pai e do Filho, e produzida pela vontade de ambos. Para não falar de outros testemunhos da Escritura, a fórmula do batismo, ensinada pelo Redentor, fornece uma prova irrefragável de que o Espírito Santo é a terceira Pessoa, subsistente por si mesma na natureza divina e distinta das outras Pessoas: doutrina ensinada também pelo Apóstolo, quando diz: "A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a caridade de Deus, e a comunicação do Espírito Santo, estejam com todos vós. Amém." Esta mesma verdade é declarada ainda mais explicitamente nas palavras acrescentadas pelos Padres do primeiro Concílio de Constantinopla, para refutar a ímpia insensatez de Macedônio: "E no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai e do Filho; que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que falou pelos profetas." Assim, confessando o Espírito Santo como "Senhor", declaram o quanto ele supera os anjos, que são a perfeição da inteligência criada; pois "todos eles são", diz o Apóstolo, "espíritos ministradores, enviados para servir àqueles que hão de herdar a salvação."
§166
Denominam também o Espírito Santo "Senhor e Vivificador", porque a alma vive mais pela união com Deus do que o corpo é nutrido e sustentado pela união com a alma. Assim, como as Sagradas Escrituras atribuem ao Espírito Santo essa união da alma com Deus, com plena propriedade Ele é chamado "Vivificador".
§167
Quanto às palavras que se seguem imediatamente: "que procede do Pai e do Filho", os fiéis devem ser instruídos de que o Espírito Santo procede por eterna processão do Pai e do Filho, como de um único princípio: verdade proposta por uma regra eclesiástica de que não é lícito afastar-se no mínimo, confirmada pela autoridade das Sagradas Escrituras e definida pelos Concílios da Igreja. O próprio Cristo, falando do Espírito Santo, diz: "Ele me glorificará, porque receberá do que é meu"; e encontramos também que o Espírito Santo é, por vezes, chamado na Escritura "o Espírito de Cristo", outras vezes "o Espírito do Pai"; ora se diz que é enviado pelo Pai, ora pelo Filho; significando assim, em termos inequívocos, que procede igualmente do Pai e do Filho. "Aquele", diz São Paulo, "que não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence." Na sua Epístola aos Gálatas, chama também ao Espírito Santo o Espírito de Cristo: "Deus", diz ele, "enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações, clamando: Abba, Pai." No Evangelho de São Mateus, é chamado o Espírito do Pai: "Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai que fala em vós"; e o próprio Senhor disse na sua última Ceia: "Quando vier o Paráclito, que eu vos enviarei, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim." Noutro lugar declara que há de ser enviado pelo Pai: "aquele", diz ele, "que o Pai enviará em meu nome." Entendendo por estas palavras a processão do Espírito Santo, chegamos à conclusão inevitável de que ele procede do Pai e do Filho. Esta exposição abrange a doutrina a ser ensinada a respeito da Pessoa do Espírito Santo.
§168
É também dever do pastor ensinar que há certos efeitos admiráveis, certos dons sublimes do Espírito Santo, que se diz originarem e emanarem d'Ele como de uma fonte perene de bondade. Embora as obras externas da Santíssima Trindade sejam comuns às três Pessoas, muitas delas são atribuídas especialmente ao Espírito Santo, dando-nos a entender que procedem do amor ilimitado de Deus para conosco; pois, como o Espírito Santo procede da vontade divina inflamada, por assim dizer, de amor, podemos compreender que esses efeitos referidos particularmente ao Espírito Santo são fruto do amor ilimitado de Deus para conosco.
§169
Por isso, o Espírito Santo é chamado DOM; pois por dom entendemos aquilo que é benevolente e gratuitamente concedido, sem referência a qualquer remuneração esperada. Quaisquer dons e graças, portanto, que nos tenham sido outorgados pelo Deus Todo-Poderoso — "e que temos nós", diz o Apóstolo, "que não tenhamos recebido de Deus?" —, devemos piedosa e gratamente reconhecer como concedidos pela graça e pelo dom do Espírito Santo.
§170
Esses dons são numerosos: sem mencionar a criação do mundo, a propagação e o governo de todos os seres criados, como assinalado no primeiro Artigo; provamos, pouco antes, que o dom da vida é atribuído particularmente ao Espírito Santo, e a propriedade dessa atribuição é confirmada ainda pelo testemunho do profeta Ezequiel: "Darei-vos o espírito e vivereis." O profeta Isaías, porém, enumera os efeitos peculiarmente atribuídos ao Espírito Santo: "O espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e o espírito do temor do Senhor:" efeitos que são chamados os dons do Espírito Santo e, por vezes, o próprio Espírito Santo. Sabiamente, portanto, Santo Agostinho nos admoesta para que, sempre que encontrarmos no Sagrado Escritura a expressão Espírito Santo, distingamos se ela designa a terceira Pessoa da Trindade ou os seus dons e operações: tão distintos são eles quanto o Criador o é da criatura. Tanto maior deve ser a diligência do pároco em expor essas verdades, quanto é desses dons do Espírito Santo que derivamos as normas da vida cristã e somos habilitados a conhecer se o Espírito Santo habita em nós.
§171
A graça da justificação, «que nos sela com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança», supera todos os seus dons mais elevados: une-nos a Deus pelos laços mais íntimos do amor, acende em nós a sagrada chama da piedade, forma-nos para a novidade de vida, faz-nos participantes da natureza divina e nos torna capazes «de ser chamados e de sermos verdadeiramente filhos de Deus».
ARTIGO IX.
CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA.
§174
Não será difícil avaliar o cuidado com que o pastor deve explicar este nono Artigo aos fiéis, se atentarmos às seguintes considerações importantes: que, como observa Santo Agostinho, os profetas falaram da Igreja de modo mais claro e explícito do que de Cristo, prevendo que neste ponto um número muito maior poderia errar e ser enganado do que no mistério da Encarnação. As gerações futuras haveriam de ver homens ímpios que, imitadores como o macaco, que de bom grado se faria passar por um da espécie humana, arrogam para si exclusivamente o nome de Católicos e, com uma impudência tão desvergonhada quanto ímpia, afirmam que somente neles se encontra a Igreja Católica. Em segundo lugar, que aquele em cujo espírito esta verdade está profundamente gravada experimentará pouca dificuldade em evitar o terrível perigo da heresia; pois uma pessoa não deve ser chamada herege tão logo erre em matéria de fé: só então merece tal nome quando, em desafio à autoridade da Igreja, mantém opiniões ímpias com pertinácia inflexível. Portanto, enquanto conservar o que este Artigo propõe para ser crido, nenhum homem pode ser contaminado pelo contágio da heresia; razão por que o pastor deve empregar toda a diligência para que os fiéis, conhecendo este mistério e preparados contra as armadilhas de Satanás, perseverem na verdadeira fé.
§175
Este Artigo, porém, depende do precedente; pois, tendo já estabelecido que o Espírito Santo é a fonte e o doador de toda santidade, aqui professamos nossa fé na Igreja, que Ele enriqueceu com essa santidade.
§176
Como a palavra Ecclesia (Igreja), tomada do grego, passou a ser aplicada, desde a pregação do Evangelho, às coisas sagradas, torna-se necessário explicar o seu significado. A palavra Ecclesia significa convocação; os escritores, porém, serviram-se dela posteriormente para designar um conselho ou assembleia. Nem importa que a palavra seja empregada com referência aos adeptos de uma religião verdadeira ou falsa: nos Atos dos Apóstolos diz-se do povo de Éfeso que, quando o escrivão da cidade apaziguou uma multidão tumultuada, declarou: "e se tendes alguma outra questão a tratar, poderá ser resolvida em legítima assembleia" (Ecclesia). Os efésios, que eram adoradores de Diana, são assim chamados pelo Apóstolo de "legítima assembleia" (Ecclesia). Nem somente os gentios, que não conhecem a Deus, são chamados Igreja ou assembleia (Ecclesia): os concílios dos homens maus e ímpios são também, por vezes, designados pelo mesmo nome: "Odiei a assembleia (Ecclesiam) dos malignos", diz o Salmista, "e com os ímpios não me assentarei." Todavia, no uso corrente da Sagrada Escritura, a palavra passou posteriormente a designar exclusivamente a comunidade cristã e as assembleias dos fiéis; isto é, daqueles que foram chamados pela fé à luz da verdade e ao conhecimento de Deus; que, abandonando as trevas da ignorância e do erro, adoram com piedade e santidade o Deus vivo e verdadeiro, e O servem de todo o coração. Em suma, "a Igreja", diz Santo Agostinho, "é constituída pelos fiéis dispersos por todo o mundo."
§177
Na palavra "Igreja" estão compreendidos mistérios de não pequena importância; pois nessa "convocação", que a palavra Ecclesia (Igreja) significa, reconhecemos de imediato a benignidade e o esplendor da graça divina, e compreendemos que a Igreja é muito diferente de todas as demais comunidades: estas repousam na razão humana e na prudência humana; aquela, na sabedoria e nos desígnios de Deus; pois ele nos chamou pela inspiração interior do Espírito Santo, o qual, por meio do ministério e do trabalho de seus pastores e pregadores, penetra nos corações dos homens.
§178
Ademais, dessa vocação compreenderemos melhor o fim que o cristão deve propor-se a si mesmo, isto é, o conhecimento e a posse das coisas eternas, quando refletirmos por que os fiéis que viviam sob a Lei eram antigamente chamados sinagoga, isto é, congregação: como observa Santo Agostinho, "assim eram chamados porque, à semelhança dos animais que costumam andar em rebanho, olhavam apenas para as coisas terrestres e transitórias;" e daí o povo cristão ser chamado Igreja, e não sinagoga, porque, desprezando as coisas terrestres e transitórias, aspirava unicamente às coisas celestiais e eternas.
§179
Muitos outros nomes, repletos de mistérios, são empregados, por uma transposição natural do seu sentido original, para designar a comunidade cristã: o Apóstolo a chama «Casa e Edifício de Deus», quando, escrevendo a Timóteo, diz: «Se eu tardar, para que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.» Chama-se casa porque é composta, por assim dizer, de uma só família, governada por um único Pai e participante em comum de todos os bens espirituais. É também chamada rebanho de Cristo, do qual Ele é «a porta e o pastor». É chamada esposa de Cristo: «Desposei-vos a um só esposo», diz o Apóstolo aos Coríntios, «para vos apresentar como virgem casta a Cristo»; e, escrevendo aos Efésios, diz: «Maridos, amai vossas mulheres, assim como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela»; e ainda, falando do matrimônio, afirma: «Este é um grande sacramento, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja.» Por fim, a Igreja é chamada corpo de Cristo, como se vê nas epístolas de São Paulo aos Efésios e aos Colossenses — denominações cada uma das quais tem considerável eficácia para mover os fiéis a mostrarem-se dignos da ilimitada clemência e bondade de Deus, que os escolheu para serem seu povo.
§180
Explicadas estas coisas, será necessário enumerar as diversas partes componentes da Igreja e assinalar as suas diferenças, a fim de que os fiéis possam melhor compreender a natureza, as propriedades, os dons e as graças da Igreja, objeto da predileção especial de Deus, e tributar incessantemente à divina majestade o preito de sua grata louvor. A Igreja é constituída principalmente de duas partes: uma chamada Igreja triunfante, e a outra, Igreja militante. A Igreja triunfante é aquela assembleia gloriosíssima e feliz dos espíritos bem-aventurados e das almas que triunfaram do mundo, da carne e do demônio, e, isentas agora das tribulações desta vida, gozam da bem-aventurança eterna. A Igreja militante é a sociedade de todos os fiéis que ainda habitam na terra, e chama-se militante porque trava uma guerra perpétua com aqueles inimigos implacáveis que são o mundo, a carne e o demônio. Não se deve, porém, concluir daí que existem duas Igrejas: são duas partes constitutivas de uma só Igreja; uma já partiu e está de posse de sua pátria celestial; a outra caminha dia a dia, até que, por fim, unida ao seu Chefe invisível, repouse no gozo da felicidade sem fim.
§181
A Igreja militante é composta de duas classes de pessoas, os bons e os maus, ambas professando a mesma fé e participando dos mesmos sacramentos, diferindo, porém, no modo de vida e na moralidade. Os bons são aqueles que se unem entre si não apenas pela profissão da mesma fé e pela participação dos mesmos sacramentos, mas também pelo espírito da graça e pelo vínculo da caridade; dos quais diz São Paulo: "O Senhor conhece os seus." Quem compõe esta classe, podemos também remotamente conjeturar; afirmá-lo com certeza, não podemos. Desta parte de sua Igreja, portanto, não fala Nosso Senhor quando nos remete à Igreja e nos manda ouvi-la e obedecê-la: sendo desconhecida essa porção da Igreja, como determinar com certeza a quem recorrer para um juízo, a cuja autoridade obedecer? A Igreja, portanto, como testificam as Sagradas Escrituras e os escritos dos santos varões que nos precederam, abrange em seu seio os bons e os maus; e esta interpretação é corroborada pelo Apóstolo quando diz: "Há um só corpo e um só espírito." Assim entendida, a Igreja é conhecida e comparada a uma cidade edificada sobre uma montanha, visível de todos os lados. Como todos lhe devem obediência, é necessário que seja conhecida por todos. Que a Igreja é composta de bons e maus, aprendemos por muitas parábolas contidas no Evangelho: assim, o reino dos céus, isto é, a Igreja militante, é comparado a uma rede lançada ao mar, a um campo em que o joio foi semeado com o bom grão, a uma eira em que o trigo se mistura com a palha, e também a dez virgens, cinco das quais eram prudentes e cinco loucas; e, muito antes, encontramos uma figura e notável semelhança da Igreja na arca de Noé, que continha não só animais puros, mas também impuros. Mas, embora a fé católica ensine uniforme e verdadeiramente que os bons e os maus pertencem à Igreja, a mesma fé declara que a condição de uns e de outros é muito diferente: os maus estão contidos na Igreja como a palha se mistura com o grão na eira, ou como membros mortos permanecem, às vezes, ligados a um corpo vivo.
§182
Assim, apenas três classes de pessoas são excluídas do seu seio: os infiéis, os hereges e cismáticos, e os excomungados. Os infiéis, porque jamais pertenceram à Igreja, jamais a conheceram e nunca foram feitos participantes de qualquer dos seus sacramentos. Os hereges e cismáticos, porque dela se separaram e a ela pertencem apenas como os desertores pertencem ao exército de que desertaram. Não se deve, porém, negar que ainda estão sujeitos à jurisdição da Igreja, na medida em que suas opiniões podem ser julgadas, podem ser visitados com penas espirituais e fulminados com o anátema. Por fim, os excomungados, porque excluídos pela sentença da Igreja do número de seus filhos, não pertencem à sua comunhão enquanto não forem restituídos pela penitência. Quanto aos demais, porém, por mais perversos e dissolutos que sejam, é certo que ainda pertencem à Igreja; e disto os fiéis devem ser frequentemente recordados, a fim de se convencerem de que, mesmo que a vida dos seus ministros esteja manchada pelo crime, eles permanecem no seu seio e, portanto, não perdem nenhuma parte do poder de que o ministério os reveste.
§183
Partes da Igreja Universal costumam também ser chamadas de Igreja, como quando o Apóstolo menciona a Igreja de Corinto, da Galácia, de Laodiceia, de Tessalônica. As casas particulares dos fiéis ele igualmente chama de Igrejas: manda que se saúde a Igreja que está na casa de Priscila e Áquila; e em outro lugar diz: "Áquila e Priscila, com a sua Igreja doméstica, vos saúdam cordialmente." Escrevendo a Filêmon, usa a mesma palavra no mesmo sentido. Às vezes, também, a palavra Igreja é empregada para significar os prelados e pastores da Igreja: "Se ele não vos ouvir", diz Nosso Senhor, "dizei-o à Igreja." Aqui, a palavra Igreja designa as autoridades da Igreja. O lugar em que os fiéis se reúnem para ouvir a palavra de Deus ou para outros fins religiosos é igualmente chamado de Igreja; mas, neste Artigo, a palavra é empregada em sentido próprio para significar os bons e os maus, os que governam e os que são governados.
§184
Importa também dar a conhecer aos fiéis as notas distintivas desta Igreja, para que assim possam avaliar a grandeza do benefício que Deus concede àqueles que tiveram a felicidade de nela nascer e ser educados. A primeira nota da verdadeira Igreja é descrita no Símbolo dos Padres e consiste na unidade: "Única é a minha pomba, única é a minha formosa." Uma multidão tão vasta, espalhada por toda a parte, é chamada una pelas razões que São Paulo expõe na Epístola aos Efésios: "Um só Senhor, uma só fé, um só batismo." Esta Igreja tem também um único chefe e um único governante: o invisível, Cristo, a quem o Eterno Pai "constituiu cabeça sobre toda a Igreja, que é o seu corpo"; o visível, aquele que, como legítimo sucessor de Pedro, príncipe dos Apóstolos, ocupa a cátedra apostólica.
§185
Que esta cabeça visível é necessária para estabelecer e preservar a unidade na Igreja é o acordo unânime dos Padres; e sobre isso, o pensamento de São Jerônimo, em sua obra contra Joviniano, é tão claramente concebido quanto felizmente expresso: "Um", diz ele, "é escolhido, para que, com a designação de uma cabeça, seja removida toda ocasião de cisma"; e a Dâmaso: "Cesse a inveja, humilhe-se o orgulho da ambição romana: falo ao sucessor do pescador e ao discípulo da cruz. Não seguindo outro chefe senão Cristo, estou unido em comunhão com Vossa Santidade, isto é, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre aquela pedra foi edificada a Igreja. Quem quiser comer o Cordeiro fora desta casa é profano; quem não estiver na arca de Noé perecerá no dilúvio." A mesma doutrina foi, muito antes, estabelecida por Santos Ireneu e Cipriano; este último, falando da unidade da Igreja, observa: "O Senhor disse a Pedro: Eu te digo, Pedro, tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja — ele edifica sua Igreja sobre um só; e embora, após sua ressurreição, tivesse dado igual poder a todos os seus Apóstolos, dizendo: Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Recebei o Espírito Santo — todavia, para manifestar a unidade, dispôs, por sua própria autoridade, a origem desta unidade, que teve seu início por um só, etc." Por sua vez, Optato de Mileve diz: "Não pode ser atribuído à vossa ignorância, sabendo vós, como sabeis, que a cátedra episcopal, na qual Pedro, como cabeça de todos os Apóstolos, se assentou, foi por ele primeiramente estabelecida na cidade de Roma, para que nele só se preservasse a unidade da Igreja; e para que os demais Apóstolos não reivindicassem cada um para si uma cátedra; de modo que, agora, aquele que erige outra, em oposição a esta única cátedra, é cismático e prevaricador." Em seguida, São Basílio tem estas palavras: "Pedro é constituído fundamento, porque diz: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, e ouve em resposta que é uma pedra; mas, embora pedra, não é tal pedra como Cristo, pois Cristo é, em si mesmo, verdadeiramente pedra inamovível, ao passo que Pedro o é somente em virtude daquela pedra; pois Deus comunica suas dignidades a outros: é sacerdote e faz sacerdotes; é pedra e faz pedras: o que é seu, concede a seus servos." Por fim, Santo Ambrósio diz: "Se alguém objetar que a Igreja se contenta com uma só cabeça e um só esposo, Jesus Cristo, e não necessita de outro, a resposta é óbvia; pois, assim como consideramos Cristo não somente o autor de todos os Sacramentos, mas também seu ministro invisível — é ele quem batiza, é ele quem absolve, ainda que homens sejam por ele designados ministros externos dos sacramentos —, assim também colocou sobre sua Igreja, que governa por seu Espírito invisível, um homem para ser seu vigário e ministro de seu poder: uma Igreja visível requer uma cabeça visível e, por isso, o Salvador constituiu Pedro cabeça e pastor de todos os fiéis, quando, nos termos mais amplos, lhe confia o apascentar de todas as suas ovelhas; desejando que aquele que havia de sucedê-lo fosse investido do mesmo poder de reger e governar toda a Igreja."
§186
O Apóstolo, escrevendo ademais aos Coríntios, diz-lhes que há um só e mesmo Espírito que comunica a graça aos fiéis, assim como a alma comunica a vida aos membros do corpo. Exortando os Efésios a conservar essa unidade, diz: "Esforçai-vos por guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz." Assim como o corpo humano é composto de muitos membros, animados por uma só alma que dá a vista aos olhos, a audição aos ouvidos e aos demais sentidos o poder de exercer as suas respectivas funções, assim também o corpo místico de Cristo, que é a Igreja, é composto de muitos fiéis. A esperança à qual somos chamados é igualmente uma só, como nos diz o Apóstolo no mesmo lugar: todos esperamos a mesma consumação, a vida eterna. Por fim, a fé que todos são obrigados a crer e a professar é uma só: "Não haja cismas entre vós;" e o batismo, que é o selo da nossa solene iniciação na fé cristã, é também um só.
§187
Outro caráter distintivo da Igreja é a santidade, como aprendemos destas palavras do príncipe dos apóstolos: «Vós sois uma geração escolhida, uma nação santa.» A Igreja é chamada santa porque é consagrada e dedicada a Deus; assim como outras coisas, tais como vasos, vestes, altares, quando destinadas e dedicadas ao culto de Deus, ainda que materiais, são chamadas santas; e, no mesmo sentido, os primogênitos, que eram dedicados ao Deus Altíssimo, eram também chamados santos.
§188
Não deve causar admiração que a Igreja, embora contando entre seus filhos muitos pecadores, seja chamada santa; pois assim como aqueles que professam alguma arte, ainda que dela se afastem em suas regras, são chamados artistas, assim também os fiéis, conquanto pecando em muitas coisas e violando os compromissos a cuja observância se tinham solenemente obrigado, são chamados santos, porque são feitos povo de Deus e estão consagrados a Cristo pelo batismo e pela fé. Por isso, São Paulo chama os Coríntios santificados e santos, embora seja certo que havia entre eles alguns a quem repreendia severamente por carnais e a quem imputava também crimes mais graves. Deve ela ser chamada santa também porque, como corpo, está unida à sua cabeça, Cristo Jesus, fonte de toda a santidade, da qual derivam as graças do Espírito Santo e as riquezas da bondade divina. Santo Agostinho, interpretando estas palavras do profeta: "Guarda a minha alma, porque sou santo", exprime-se admiravelmente assim: "Diga com ousadia o corpo de Cristo, diga também aquele homem único, que clama dos confins da terra, diga com ousadia junto com Cristo seu cabeça e sob Cristo seu cabeça: sou santo; pois recebeu a graça da santidade, a graça do batismo e da remissão dos pecados." E um pouco adiante: "Se todos os cristãos e todos os fiéis, tendo sido batizados em Cristo, o revestiram, segundo estas palavras do Apóstolo: todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo; se são feitos membros do seu corpo e todavia dizem que não são santos, fazem injúria à sua cabeça, cujos membros são santos." Além disso, só a Igreja possui o culto legítimo do sacrifício e o uso salutar dos sacramentos, pelos quais, como instrumentos eficazes da graça divina, Deus nos estabelece na verdadeira santidade; de modo que, para possuirmos a verdadeira santidade, devemos pertencer a esta Igreja. É, pois, evidente que a Igreja é santa, e santa porque é o corpo de Cristo, por quem é santificada e em cujo sangue é lavada.
§189
A terceira marca da Igreja é ser ela Católica, isto é, universal; e com razão se chama Católica, porque, como diz Santo Agostinho: "É difundida pelo esplendor de uma só fé do nascente ao poente do sol." Ao contrário das repúblicas de instituição humana ou das conventiculas dos hereges, não está circunscrita nos limites de nenhum reino, nem restrita aos membros de nenhuma sociedade particular de homens, mas abraça, na amplitude de seu amor, toda a humanidade, sejam bárbaros ou citas, escravos ou livres, homens ou mulheres. Por isso está escrito: "Remiste-nos para Deus com o teu sangue, de toda tribo, língua, povo e nação, e fizeste-nos para o nosso Deus um reino." Falando da Igreja, diz Davi: "Pede-me, e eu te darei as nações como herança e os confins da terra como possessão tua"; e também: "Lembrarei de Raab e da Babilônia entre os que me conhecem"; e: "Este e aquele nasceram nela." A esta Igreja, "edificada sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas", pertencem todos os fiéis que existiram desde Adão até hoje, ou que existirão, na profissão da verdadeira fé, até o fim dos tempos; todos os quais estão fundados e erguidos sobre a única pedra angular, Cristo, que fez de ambos um só e anunciou a paz aos que estavam perto e aos que estavam longe. É também chamada universal porque todos os que desejam a salvação eterna devem a ela aderir e abraçá-la, como os que entraram na arca para escapar de perecer no dilúvio. Este, portanto, deve ser ensinado como critério seguro para distinguir a verdadeira Igreja da falsa.
§190
A verdadeira Igreja se reconhece também pela sua origem, que ela deriva, sob a lei da graça, dos Apóstolos; pois as suas doutrinas não são novas nem de origem recente, mas foram transmitidas outrora pelos Apóstolos e difundidas por todo o mundo. Daí não poder ninguém, por um só momento, duvidar de que as opiniões ímpias que a heresia inventa, opostas como são às doutrinas ensinadas pela Igreja desde os tempos dos Apóstolos até o presente, são muito diversas da fé da verdadeira Igreja. Para que todos, portanto, possam conhecer a verdadeira Igreja Católica, os Padres, guiados pelo Espírito de Deus, acrescentaram ao Símbolo a palavra "APOSTÓLICA"; pois o Espírito Santo, que preside à Igreja, a governa por nenhum outro senão por homens apostólicos; e este Espírito, comunicado primeiramente aos Apóstolos, pela bondade infinita de Deus sempre permaneceu na Igreja. Mas, sendo que esta única Igreja, por ser governada pelo Espírito Santo, não pode errar em matéria de fé ou de costumes, segue-se necessariamente que todas as demais sociedades que se arrogam o nome de Igreja, por serem guiadas pelo espírito das trevas, estão mergulhadas nos mais perniciosos erros, tanto doutrinais quanto morais.
§191
Ora, como as figuras do Antigo Testamento exercem considerável influência em despertar os espíritos dos fiéis e em trazer-lhes à memória essas verdades saluberrimas, sendo principalmente por esta razão mencionadas pelo Apóstolo, o pároco não deixará passar tão copiosa fonte de instrução. Entre essas figuras ocupa lugar proeminente a arca de Noé. Foi construída por ordem de Deus para significar, sem dúvida, a Igreja, que Deus assim constituiu, de modo que quem quer que nela entre, pelo Batismo, esteja a salvo de todo perigo de morte eterna, ao passo que os que não estiverem dentro dela, à semelhança dos que não estavam na arca, são submergidos pelos seus próprios crimes.
§192
Outra figura se apresenta na grande cidade de Jerusalém, que na Sagrada Escritura significa frequentemente a Igreja. Somente em Jerusalém era lícito oferecer sacrifício a Deus, e somente na Igreja de Deus se encontram o verdadeiro culto e o verdadeiro sacrifício que podem ser de algum modo agradáveis a Deus. Por fim, quanto à Igreja, o pastor ensinará de que modo se pode crer que a Igreja constitua um artigo de fé. A razão, é verdade, e os sentidos são capazes de constatar a existência da Igreja, isto é, de uma sociedade de homens consagrados e dedicados a Jesus Cristo; nem parece necessária a fé para compreender uma verdade que é reconhecida por judeus e turcos: mas é somente à luz da fé, e não por deduções da razão, que a mente pode alcançar os mistérios que, como já foi indicado e será desenvolvido com mais amplitude quando se tratar do Sacramento da Ordem, estão contidos na Igreja de Deus. Sendo, pois, este Artigo, como os demais, colocado acima do alcance e além das forças do entendimento humano, confessamos com toda a justiça que a razão humana não pode chegar ao conhecimento da origem, dos privilégios e da dignidade da Igreja; estas realidades só as podemos contemplar com os olhos da fé.
§193
Esta Igreja foi fundada não por homem, mas pelo próprio Deus imortal, que a edificou sobre uma rocha solidíssima: "O Altíssimo mesmo", diz o Profeta, "a fundou." Por isso é chamada "herança de Deus", "povo de Deus", e o poder que ela possui não provém do homem, mas de Deus. Como este poder, portanto, não pode ser de origem humana, somente a fé divina nos permite compreender que as chaves do reino dos céus estão depositadas na Igreja; que a ela foi confiado o poder de remitir os pecados, de fulminhar a excomunhão e de consagrar o verdadeiro corpo de Cristo; e que seus filhos não têm aqui morada permanente, mas a aguardam no alto.
§194
Somos, pois, obrigados a crer que há uma santa Igreja Católica; mas, no que diz respeito às três Pessoas da Santíssima Trindade — o Pai, o Filho e o Espírito Santo —, não somente cremos nelas, mas também cremos NELAS; e por isso, ao enunciar cada dogma, empregamos uma forma de expressão diferente, professando crer a santa Igreja Católica, e não NA santa Igreja Católica; por essa diferença de expressão, distinguimos Deus, autor de todas as coisas, das suas obras, e reconhecemo-nos devedores à bondade divina por todos esses excelsos benefícios concedidos à Igreja.
«A COMUNHÃO DOS SANTOS.»
§196
O Evangelista São João, escrevendo aos fiéis acerca dos mistérios divinos, diz-lhes que se propôs instruí-los sobre esse assunto "para que vós tenhais comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo." Essa "comunhão" consiste na Comunhão dos Santos, objeto do presente Artigo. Queira Deus que os pastores, em sua exposição, imitassem o zelo de São Paulo e dos demais Apóstolos! pois não só serve de interpretação do Artigo precedente e é um ponto de doutrina de abundante fruto, como também ensina o uso a fazer dos mistérios contidos no Credo; porque o grande fim para o qual devem ser dirigidas todas as nossas pesquisas e todo o nosso conhecimento é a nossa admissão nesta sociedade augustíssima e bem-aventurada dos santos, e a nossa firme perseverança nela, "dando graças com alegria a Deus Pai, que nos tornou dignos de participar da sorte dos santos na luz."
§197
Os fiéis, portanto, devem ser instruídos, em primeiro lugar, de que este Artigo é, por assim dizer, uma espécie de explicação do precedente, que trata da unidade, santidade e catolicidade da Igreja: pois a unidade do Espírito, pelo qual ela é governada, estabelece entre todos os seus membros uma comunhão de bens espirituais, sendo o fruto de todos os Sacramentos comum a todos os fiéis, e sendo esses Sacramentos, particularmente o batismo — porta, por assim dizer, pela qual somos admitidos na Igreja —, outros tantos laços que os unem e vinculam a Jesus Cristo. Que esta Comunhão dos Santos implica uma comunhão de Sacramentos, declaram os Padres nestas palavras do Credo: "Confesso um só batismo." Após o batismo, a Eucaristia ocupa o primeiro lugar no que diz respeito a esta comunhão; e após a Eucaristia, os demais Sacramentos; pois, embora seja comum a todos os Sacramentos — porque todos nos unem a Deus e nos tornam participantes daquele cuja graça nos comunicam —, esta comunhão pertence de modo peculiar à Eucaristia, pela qual ela se realiza diretamente.
§198
Existe, porém, ainda outra comunhão na Igreja que merece atenção: toda ação piedosa e santa praticada por um pertence a todos e se torna proveitosa a todos, por meio da caridade, "que não busca o que é seu." Somos confirmados nisto pelo testemunho concorde de Santo Ambrósio, o qual, explicando estas palavras do Salmista — "Sou companheiro de todos os que vos temem" —, observa: "Assim como dizemos que um membro é partícipe do corpo inteiro, assim somos partícipes de todos os que temem a Deus." Por isso Cristo nos ensinou a dizer "o nosso" pão, e não "o meu"; e as demais petições desta admirável oração são igualmente gerais, não restritas a nós somente, mas dirigidas também ao interesse comum e à salvação de todos. Esta comunicação de bens é com frequência e muito aptamente ilustrada na Escritura por uma comparação tomada dos membros do corpo humano: no corpo humano há muitos membros, mas, embora muitos, constituem um só corpo, no qual cada um desempenha a sua própria função, não todos a mesma. Nem todos gozam de igual dignidade ou exercem funções igualmente úteis ou honrosas; nem um propõe a si mesmo a sua vantagem exclusiva, mas a do corpo inteiro. Além disso, estão tão bem organizados e unidos entre si que, se um sofre, os demais naturalmente simpatizam com ele; e se, ao contrário, um goza de saúde, o sentimento de alegria é comum a todos. O mesmo se pode observar da Igreja: embora composta de membros diversos, de nações diferentes, de judeus e gentios, de livres e escravos, de ricos e pobres, todos, iniciados pela fé, constituem um só corpo com Cristo, que é o seu Cabeça. A cada membro da Igreja é também atribuído o seu ofício peculiar; e, assim como alguns são designados apóstolos, outros doutores, todos porém para o bem comum, assim a alguns compete governar e ensinar, e a outros estar sujeitos e obedecer.
§199
As vantagens de tão numerosos e tão sublimes benefícios, outorgados por Deus Todo-Poderoso, são fruídas de modo eminente por aqueles que levam uma vida cristã na caridade, que são justos e amados de Deus; ao passo que os membros mortos, isto é, aqueles que se encontram sob o jugo do pecado e estranhos à graça de Deus, embora não privados dessas vantagens a ponto de deixarem de ser membros deste corpo, são contudo, como membros mortos, privados do princípio vivificante que é comunicado ao cristão justo e piedoso. Todavia, como se encontram na Igreja, são auxiliados a recuperar a graça e a vida perdidas por aqueles que são animados pelo Espírito de Deus e gozam daqueles frutos que, sem dúvida, são negados aos que estão inteiramente separados da comunhão da Igreja.
§200
Mas não são somente os dons que nos justificam e nos tornam agradáveis a Deus que são comuns: as "graças gratuitamente concedidas", tais como o dom da ciência, da profecia, das línguas e dos milagres, e outros semelhantes, são igualmente comuns e concedidas até aos ímpios; não, porém, para proveito próprio destes, mas para o bem geral e para a edificação da Igreja de Deus. Assim, o dom da cura não é dado por causa de quem cura, mas por causa de quem é curado. Em suma, todo o verdadeiro cristão nada possui que não deva considerar comum a todos os demais, devendo, portanto, estar pronto a socorrer prontamente um próximo indigente; pois aquele que é agraciado com os bens do mundo e vê seu irmão na necessidade e não o auxilia, está desde logo convicto de não ter em si o amor de Deus. É manifesto, pois, que os que pertencem a esta santa comunhão gozam de uma espécie de felicidade já nesta vida, e podem verdadeiramente dizer com o Salmista: "Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Bem-aventurados os que habitam na tua casa, ó Senhor!"