Doutrina da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V

§451 – §500

§451

Este grande sacrifício é celebrado com muitos ritos e cerimônias solenes: que nenhum desses ritos e cerimônias seja tido por inútil ou supérfluo; ao contrário, todos tendem a manifestar a majestade deste augusto sacrifício e a elevar os fiéis, pela celebração desses mistérios salvíficos, à contemplação das realidades divinas que se ocultam no sacrifício eucarístico. Não nos estenderemos sobre esses ritos e cerimônias: exigem uma exposição mais ampla do que é compatível com a natureza da presente obra; e o pároco tem ao seu alcance uma variedade de tratados compostos por homens igualmente insignes pela piedade e pelo saber. O que foi dito será, com o auxílio divino, suficiente para explicar as principais questões relativas à Sagrada Eucaristia, tanto como sacramento quanto como sacrifício.

DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA.

§453

Como a fragilidade e a fraqueza da natureza humana são universalmente conhecidas e sentidas, ninguém pode ignorar a necessidade primordial do Sacramento da Penitência. Se, portanto, na exposição das diferentes matérias de instrução, devemos medir a assiduidade do pároco pelo peso e pela importância do assunto, há que concluir que, ao expor este Sacramento, jamais poderá ele ser suficientemente assíduo. Sua exposição exige uma exatidão superior à do batismo. O batismo é administrado uma só vez e não pode ser repetido; a penitência pode ser administrada e torna-se necessária tantas vezes quantas tenhamos pecado depois do batismo, conforme a definição dos Padres de Trento. "Para os que caem em pecado depois do batismo", dizem eles, "o sacramento da penitência é tão necessário para a salvação quanto o é o batismo para os que ainda não foram batizados." A este respeito, as palavras de São Jerônimo, que chamam a penitência de "segunda tábua", são universalmente conhecidas e altamente louvadas por todos os que escreveram sobre este Sacramento. Assim como aquele que sofre naufrágio não tem esperança de salvação, a não ser que porventura se agarre a alguma tábua do naufrágio, também aquele que sofre o naufrágio da inocência batismal, se não se abraçar à tábua salvadora da penitência, pode abandonar toda a esperança de salvação. Estas instruções, porém, destinam-se não somente ao benefício do pároco, mas também ao de todos os fiéis em geral, cuja atenção podem despertar, para que não sejam encontrados culpavelmente negligentes numa matéria que é, de todas, a mais importante. Penetrados de um justo sentimento da fragilidade da natureza humana, seu primeiro e mais ardente desejo deve ser avançar, com o auxílio divino, nos caminhos de Deus, fugindo de todo e qualquer pecado. Mas se alguma vez forem tão infelizes a ponto de cair, então, olhando para a infinita bondade de Deus, que, como o bom pastor, cura e trata as feridas de suas ovelhas, devem recorrer imediatamente ao sacramento da penitência, para que, por sua eficácia salutar e medicinal, suas feridas sejam sanadas.

§454

Mas, para entrar mais diretamente no assunto e evitar todo erro a que a ambiguidade do termo possa dar lugar, cumpre primeiramente explicar os seus diferentes significados. Por penitência, alguns entendem a satisfação; enquanto outros, que se afastam muito da doutrina da fé católica, supondo que a penitência não tem relação alguma com o passado, a definem como nada mais do que novidade de vida. O pároco, portanto, ensinará que a palavra "poenitentia" possui uma variedade de significados. Em primeiro lugar, emprega-se para exprimir uma mudança de ânimo; como quando, sem levar em conta a natureza do objeto, seja ele bom ou mau, aquilo que antes nos agradava passa a desagradar-nos. Neste sentido, o Apóstolo emprega a palavra ao aplicá-la àqueles "cuja tristeza é segundo o mundo, não segundo Deus; e que, por isso, não produz salvação, mas morte." Em segundo lugar, emprega-se para exprimir aquela dor que o pecador concebe pelo pecado, não, porém, por amor de Deus, mas por amor de si mesmo. Um terceiro significado ocorre quando experimentamos uma dor interior do coração, ou damos uma indicação exterior de tal dor, não somente por causa dos pecados que cometemos, mas também unicamente por amor de Deus, a quem esses pecados ofendem. A todos esses tipos de dor a palavra "poenitentia" se aplica propriamente.

§455

Quando as Sagradas Escrituras dizem que Deus se arrependeu, a expressão é evidentemente figurativa: quando nos arrependemos de algo, desejamos mudá-lo; e assim, quando se diz que Deus muda algo, as Escrituras, acomodando sua linguagem às nossas ideias, dizem que ele se arrepende. Lemos assim que "se arrependeu de ter criado o homem", e também que se arrependeu de ter feito Saul rei.

§456

Importa, porém, estabelecer uma distinção essencial entre estes diferentes significados da palavra: arrepender-se, em seu primeiro sentido, denota imperfeição; em seu segundo sentido, a agitação de um espírito perturbado; no terceiro, a penitência é uma virtude e um sacramento — e é neste sentido que aqui se emprega o termo.

§457

Trataremos primeiramente da penitência como virtude, não somente porque é dever indeclinável do pároco formar os fiéis, cuja instrução lhe está confiada, na prática de toda virtude, mas também porque os atos que procedem da penitência como virtude constituem, por assim dizer, a matéria da penitência como sacramento; e quem a ignorar neste último sentido, não poderá deixar de ignorar igualmente a sua eficácia como sacramento. Devem, pois, os fiéis ser primeiramente admoestados e exortados a esforçar-se com empenho por alcançar esta penitência interior do coração, que chamamos virtude, e sem a qual a penitência exterior de pouco lhes aproveitará. Esta virtude consiste em converter-se a Deus sinceramente e de todo o coração, e em odiar e detestar as transgressões passadas, com firme propósito de emenda de vida, esperando obter o perdão pela misericórdia de Deus. Acompanha-a uma sincera dor, que é uma comoção e afeto da alma, chamada por muitos paixão, e que, acompanhada de detestação, é, por assim dizer, companheira do pecado. Deve, todavia, ser precedida pela fé, pois sem ela ninguém pode converter-se a Deus. A fé, portanto, de modo algum pode ser chamada parte da penitência. Que este afeto interior da alma seja, como já dissemos, uma virtude, provam-no os vários preceitos que impõem a sua necessidade; pois os preceitos dizem respeito apenas àquelas ações cuja prática implica virtude. Além disso, experimentar um sentimento de dor no momento oportuno, do modo e na medida conformes à razão e à religião, é sem dúvida um exercício de virtude; e esta dor é regulada pela virtude da penitência. Alguns concebem uma dor que não guarda proporção com a gravidade de seus crimes: "Há quem se alegre quando pratica o mal", diz Salomão; enquanto outros, pelo contrário, entregam-se a tão mórbida melancolia e a tal dilúvio de tristeza, que abandonam completamente toda esperança de salvação. Tal foi talvez a condição de Caim quando exclamou: "Minha iniquidade é maior do que mereço ser perdoado"; tal foi certamente a condição de Judas, que, "arrependido", enforcou-se no desespero, sacrificando assim a alma e o corpo. A penitência, portanto, considerada como virtude, auxilia-nos a manter dentro dos limites da moderação o nosso sentimento de dor.

§458

Que a penitência é uma virtude pode inferir-se igualmente dos fins que o penitente se propõe. O primeiro é destruir o pecado e apagar da alma toda mancha e mácula; o segundo, satisfazer a Deus pelos pecados que cometeu, o que é um ato de justiça para com Deus. Entre Deus e o homem, é verdade, não pode existir uma relação de justiça estrita, tamanha é a distância entre o Criador e a criatura; contudo, entre ambos existe evidentemente uma espécie de justiça, semelhante à que existe entre pai e filhos, entre senhor e servos. O terceiro fim é restabelecer-se no favor e na amizade de Deus, a quem ofendeu e de quem mereceu a aversão pela torpeza do pecado. Que a penitência é uma virtude, estes três fins que o penitente se propõe o demonstram suficientemente.

§459

Cumpre-nos também indicar os degraus pelos quais podemos ascender a esta divina virtude. A misericórdia de Deus previamente nos previne e converte nossos corações a Ele; era este o objeto da oração do profeta: "Converte-nos, ó Senhor, e seremos convertidos." Iluminada por esta luz celestial, a alma tende a seguir em direção a Deus pela fé: "Quem se aproxima de Deus", diz o Apóstolo, "deve crer que Ele existe e que recompensa aqueles que o buscam." Segue-se um temor salutar dos juízos de Deus, e a alma, contemplando os castigos que aguardam o pecado, é afastada dos caminhos do vício: "Como a mulher grávida", diz Isaías, "quando se aproxima a hora do parto, sente dores e grita em seus tormentos; assim nos tornamos diante de Vós, ó Senhor!" Somos também animados pela esperança de obtermos misericórdia de Deus, e, alentados por essa esperança, resolvemos mudar de vida. Por fim, nossos corações se inflamam pela caridade; e daí concebemos aquele temor filial que um filho piedoso e sincero experimenta para com o pai. Assim, temendo unicamente ofender em qualquer coisa a majestade de Deus, abandonamos inteiramente os caminhos do pecado. Estes são, por assim dizer, os degraus pelos quais ascendemos a esta virtude suprema, virtude inteiramente celestial e divina, à qual as Sagradas Escrituras prometem a herança do céu: "Fazei penitência", diz o Redentor, "porque o Reino dos céus está próximo." "Se o ímpio", diz o profeta Ezequiel, "fizer penitência por todos os seus pecados que cometeu, e guardar todos os meus mandamentos, e praticar o julgamento e a justiça, viverá com vida e não morrerá." "Não quero a morte do ímpio, diz o Senhor, mas que o ímpio se converta do seu caminho e viva"; palavras que evidentemente se entendem da vida eterna.

§460

Quanto à penitência externa, o pastor ensinará que é ela que constitui o sacramento da penitência: consiste em certas coisas sensíveis, significativas daquilo que se passa interiormente na alma; e os fiéis devem ser instruídos, antes de mais nada, sobre por que razão o Redentor se dignou incluí-la entre os Sacramentos. Seu intento era, sem dúvida, dissipar em grande parte toda incerteza quanto ao perdão dos pecados prometido pelo Senhor, quando disse: "Se o ímpio fizer penitência de todos os seus pecados que cometeu, e guardar todos os meus mandamentos, e praticar o juízo e a justiça, viverá e não morrerá." Pronunciando-se sobre as próprias ações, todo homem tem razão para questionar a exatidão do seu próprio julgamento e, por isso, o espírito deve permanecer em penosa incerteza quanto à sinceridade da penitência interior. Para acalmar essa nossa inquietação, o Redentor instituiu o sacramento da penitência, no qual alimentamos a bem fundada esperança de que nossos pecados nos são perdoados pela absolvição do sacerdote; e a fé que justamente depositamos na eficácia dos Sacramentos muito contribui para tranquilizar a consciência perturbada e dar paz à alma. A voz do sacerdote, que é legitimamente constituído ministro para a remissão dos pecados, deve ser ouvida como a do próprio Cristo, que disse ao paralítico: "Filho, tem confiança; os teus pecados te são perdoados."

§461

Além disso, como a salvação só pode ser alcançada por meio de Cristo e dos méritos de sua paixão, a instituição deste sacramento está em si mesma em perfeita consonância com os desígnios da sabedoria divina e é fonte de inúmeras bênçãos para o cristão. A Penitência é o canal pelo qual o sangue de Cristo flui para a alma, lava as manchas contraídas após o Batismo e suscita em nós o reconhecimento grato de que ao Salvador unicamente devemos o benefício da reconciliação com Deus.

§462

Que a penitência é um sacramento, o pároco não encontrará dificuldade em estabelecer: o batismo é um sacramento porque lava todos os pecados, em particular o pecado original; a penitência também lava todos os pecados de pensamento ou de obra cometidos após o batismo; pelo mesmo princípio, portanto, a penitência é um sacramento. Ademais, e o argumento é conclusivo, o sacramento é o sinal de uma coisa sagrada, e o que se realiza externamente, pelo sacerdote e pelo penitente, é sinal do que se passa interiormente na alma: o penitente exprime inequivocamente, por palavras e ações, que se afastou do pecado; o sacerdote, por sua vez, por palavras e ações, faz-nos compreender claramente que a misericórdia de Deus se exerce na remissão dos pecados. Isso também é claramente demonstrado por estas palavras do Salvador: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; tudo quanto desligares na terra será desligado nos céus." A absolvição do sacerdote, expressa em palavras, sela, portanto, a remissão dos pecados que ela realiza na alma; e assim a penitência reveste-se de todas as condições necessárias a um sacramento, sendo, por conseguinte, verdadeiramente um sacramento.

§463

Em seguida, os fiéis devem ser instruídos de que a penitência não só deve ser contada entre os sacramentos, mas também entre os sacramentos que podem ser reiterados. A Pedro, que perguntava se o pecado poderia ser perdoado sete vezes, responde Nosso Senhor: "Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete." Sempre que, portanto, o ministério do sacerdote houver de ser exercido para com aqueles que parecem desconfiar da bondade e misericórdia infinitas de Deus, o zeloso pastor procurará infundir-lhes confiança e reanimar a esperança de obterem a graça de Deus. Isso lhe será fácil de realizar, expondo as palavras precedentes de Nosso Senhor, aduzindo outros textos do mesmo teor, que se encontram em grande número espalhados por toda a Sagrada Escritura, e recorrendo às razões e argumentos fornecidos por São Crisóstomo em seu livro "sobre os caídos" e por Santo Ambrósio em seu tratado sobre a penitência.

§464

Assim como, entre os sacramentos, não há nenhum a respeito do qual os fiéis devam ser melhor instruídos, cumpre ensiná-los que ele difere dos demais nisto: a matéria dos outros sacramentos é alguma produção da natureza ou da arte; mas os atos do penitente — contrição, confissão e satisfação — constituem, conforme foi definido pelo Concílio de Trento, a matéria como que (quasi materia) do sacramento da penitência. São chamados partes da penitência porque, por instituição divina, são exigidos no penitente para a integridade do Sacramento e para a remissão plena e total do pecado. Quando o santo sínodo diz que eles são "a matéria como que", não é porque não sejam a verdadeira matéria, mas porque não são, como a água no batismo e o crisma na confirmação, matéria que possa ser aplicada externamente. Quanto à opinião de alguns que sustentam serem os próprios pecados a matéria deste sacramento, se bem ponderada, ver-se-á que não difere do que já foi exposto: dizemos que a madeira consumida pelo fogo é a matéria do fogo; e os pecados destruídos pela penitência podem igualmente ser chamados, com propriedade, a matéria da penitência.

§465

A forma também — por ser muito apta a despertar nos fiéis a disposição de receber com fervorosa devoção a graça deste sacramento — o pároco não omitirá de explicar. As palavras que compõem a forma são: "EU TE ABSOLVO", como se pode inferir não somente destas palavras do Redentor: "Tudo o que desligardes na terra será desligado também no céu", mas igualmente da mesma doutrina de Jesus Cristo, tal como foi transmitida pelos Apóstolos. Que esta seja a forma perfeita do sacramento da penitência, prova-o a própria natureza da forma de um sacramento. A forma de um sacramento significa o que o sacramento realiza: as palavras "eu te absolvo" significam a realização da absolvição do pecado por meio deste sacramento; constituem, portanto, a sua forma. Os pecados são, por assim dizer, as cadeias com que a alma está agrilhoada, e das quais é "desligada" pelo sacramento da penitência. Esta forma não é menos verdadeira quando pronunciada pelo sacerdote sobre aquele que, por meio da contrição perfeita, já obteve o perdão de seus pecados. A contrição perfeita, é verdade, reconcilia o pecador com Deus, mas a sua justificação não deve ser atribuída à contrição perfeita somente, independentemente do desejo que ela inclui de receber o sacramento da penitência. Muitas orações acompanham a forma, não porque sejam consideradas necessárias, mas a fim de remover todo obstáculo que a indignidade do penitente possa opor à eficácia do sacramento. Derrame, pois, o pecador o seu coração em fervorosas ações de graças a Deus, que investiu os ministros de sua Igreja de tão amplos poderes! Ao contrário da autoridade conferida aos sacerdotes da Antiga Lei, de declarar limpo de lepra o leproso, o poder com que estão investidos os sacerdotes da Nova Lei não consiste simplesmente em declarar que os pecados são perdoados, mas, como ministros de Deus, em absolver realmente do pecado; poder que o próprio Deus, autor e fonte da graça e da justificação, exerce por meio do seu ministério.

§466

Os ritos usados na administração deste sacramento reclamam igualmente a séria atenção dos fiéis. Eles os habilitarão a formar um juízo mais reto dos benefícios que ele confere, recordando-se de que, como servos, são reconciliados com o melhor dos senhores, ou antes, como filhos, com o mais ternurento dos pais. Servirão também para colocar em luz mais clara o dever daqueles que desejam — e todos devem desejar — manifestar o grato reconhecimento de tão inestimável benefício. Humilhado no espírito, o sincero penitente prostra-se aos pés do sacerdote, para testemunhar, por essa atitude humilde, que reconhece a necessidade de extirpar o orgulho, raiz de todas aquelas enormidades que agora deplora. No ministro de Deus, que preside ao tribunal da penitência como seu legítimo juiz, venera o poder e a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo; pois na administração deste, como na dos demais sacramentos, o sacerdote representa a figura e exerce as funções de Jesus Cristo. Reconhecendo-se merecedor dos mais severos castigos e implorando o perdão de sua culpa, o penitente passa então à confissão dos seus pecados. À antiguidade de todos estes ritos, São Dionísio presta o testemunho mais autêntico.

§467

Para os fiéis, porém, nada se revelará mais proveitoso, nada mais adequado a animá-los a frequentar com prontidão o sacramento da penitência, do que a exposição frequente das inestimáveis vantagens que ele confere. Verão então que do sacramento da penitência se pode dizer com verdade: que "a sua raiz é amarga, mas o seu fruto é doce." A grande eficácia da penitência está, pois, em que ela nos restaura ao favor de Deus e nos une a Ele nos laços mais estreitos de amizade. Desta reconciliação com Deus, a alma devota que se aproxima do sacramento com profundos sentimentos de piedade e religião experimenta por vezes a maior tranquilidade e paz de consciência, uma tranquilidade e paz acompanhadas da mais suave alegria espiritual. Não há pecado, por mais grave que seja, nem crime, por mais enorme ou por mais frequentemente repetido, que a penitência não remita: "Se o ímpio", diz o Todo-Poderoso, pela boca do seu profeta, "fizer penitência por todos os seus pecados que cometeu, e guardar todos os meus mandamentos, e praticar o julgamento e a justiça, viverá com vida e não morrerá; não me lembrarei de todas as iniquidades que praticou." "Se", diz São João, "confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados"; e pouco adiante acrescenta: "Se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e Ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro." Se, portanto, lemos nas páginas da revelação acerca de alguns que imploraram ardentemente a misericórdia de Deus, mas a imploraram em vão, é porque não se arrependeram sinceramente e de coração. Quando encontramos também nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Padres passagens que parecem afirmar que alguns pecados são irremissíveis, devemos entender tais passagens no sentido de que é muito difícil obter o seu perdão. Uma doença pode dizer-se incurável quando o doente rejeita o remédio que lhe proporcionaria a cura; e, no mesmo sentido, alguns pecados podem dizer-se irremissíveis quando o pecador rejeita a graça de Deus, o remédio próprio da salvação. A este propósito diz Santo Agostinho: "Quando alguém, após ter chegado ao conhecimento de Deus pela graça de Jesus Cristo, se opõe à comunhão da fé e resiste maliciosamente à graça de Jesus Cristo, tão grande é a enormidade do seu crime, que, embora a sua consciência culpada o obrigue a reconhecer e a declarar a sua culpa, não consegue submeter-se à humilhação de implorar o perdão."

§468

Voltando à penitência, a ela pertence, de modo tão singular, a eficácia de remitir a culpa atual, que sem a sua intervenção não podemos obter nem sequer esperar o perdão. Está escrito: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis." Essas palavras do Senhor devem ser entendidas dos pecados graves e mortais, embora, como observa Santo Agostinho, também os pecados veniais requeiram alguma penitência: "Se", diz ele, "sem penitência o pecado venial pudesse ser remitido, a penitência cotidiana que a Igreja por eles realiza seria vã."

§469

Porém, como nas matérias que de qualquer modo dizem respeito às ações morais não basta transmitir a instrução em termos gerais, o pastor terá o cuidado de expor, uma a uma, todas aquelas particularidades que possam dar aos fiéis o conhecimento daquela penitência que conduz à salvação. É próprio deste sacramento que, além da matéria e da forma, comuns a todos os sacramentos, possua também, como dissemos antes, o que se denominam partes integrantes da penitência; e estas partes integrantes são a contrição, a confissão e a satisfação. "A penitência", diz São Crisóstomo, "leva o pecador a suportar com alegria todo rigor: o coração é compungido pela contrição, os lábios pronunciam a confissão da culpa, e as obras respiram humildade e são aceitas por Deus como satisfação." Estas partes constitutivas da penitência são aquelas que dizemos serem necessárias para constituir um todo. A forma humana, por exemplo, é composta de muitos membros — mãos, pés, olhos etc. —, dos quais, se algum falta, o homem é justamente considerado imperfeito, e se nenhum falta, perfeito. De modo análogo, a penitência consta das três partes que já enumeramos; e embora, quanto à natureza da penitência, a contrição e a confissão sejam suficientes para a justificação, se não forem acompanhadas da satisfação, algo falta ainda à sua integridade. Tão estreitamente, pois, estão unidas estas partes entre si, que a contrição e a disposição para a satisfação precedem a confissão, e a contrição e a confissão precedem a satisfação. Por que estas são partes integrantes da penitência pode ser explicado do seguinte modo: pecamos contra Deus pelo pensamento, pela palavra e pela obra; quando recorremos ao poder das chaves, devemos, portanto, esforçar-nos por aplacar a sua ira e obter o perdão de nossos pecados pelos mesmos meios pelos quais ofendemos a sua suprema majestade. Para maior esclarecimento, pode-se acrescentar ainda que a penitência é, por assim dizer, uma compensação pelas ofensas, que procedem do livre-arbítrio do ofensor, e é ordenada pela vontade de Deus, a quem a ofensa foi dirigida. Da parte do penitente, exige-se, portanto, a disposição de oferecer esta compensação, e nessa disposição consiste principalmente a contrição. O penitente deve também submeter-se ao julgamento do sacerdote, que é o vigário de Deus, a fim de que este lhe possa impor uma pena proporcionada à sua culpa; e daqui se compreende claramente a natureza e a necessidade da confissão e da satisfação.

§470

Mas como os fiéis necessitam de instrução sobre a natureza e a eficácia dessas partes da penitência, começaremos pela contrição, assunto que exige ser explicado com cuidado superior ao ordinário; pois todas as vezes que nos recordamos das transgressões passadas, ou ofendemos de novo a Deus, outras tantas vezes devem nossos corações ser traspassados pela contrição. Os Padres do Concílio de Trento definiram a contrição como "uma dor e detestação do pecado passado, com o propósito de não mais pecar". Falando do movimento da vontade para a contrição, o Concílio acrescenta logo depois: "se unida à confiança na misericórdia de Deus e ao desejo sincero de cumprir tudo o que é necessário para a digna recepção do Sacramento, prepara-nos assim, por fim, para a remissão do pecado." Desta definição, portanto, os fiéis perceberão que a contrição não consiste simplesmente em cessar de pecar, no propósito de entrar ou no fato de já ter entrado numa vida nova: ela pressupõe, antes de tudo, um ódio ao pecado e o desejo de expiar as transgressões passadas. Isso provam suficientemente os clamores dos santos Padres da Antiguidade, que transbordam nas páginas da Sagrada Escritura: "Estou exausto de tanto gemer", diz Davi; "cada noite inundo o meu leito"; e ainda: "O Senhor ouviu a voz do meu pranto." "Recordarei todos os meus anos", diz o profeta Isaías, "na amargura da minha alma." Estas e muitas outras expressões do mesmo teor foram arrancadas por um ódio intenso e uma viva detestação das transgressões passadas.

§471

Embora a contrição seja definida como "dor", os fiéis não devem daí concluir que essa dor consiste num sentimento sensível: a contrição é um ato da vontade e, como observa Santo Agostinho, a dor não é a penitência, mas o seu acompanhamento. Por "dor", os Padres de Trento entenderam um ódio e uma detestação do pecado, pois nesse sentido a Sagrada Escritura frequentemente emprega tal palavra: "Até quando", diz Davi, "tomarei conselhos em minha alma, tendo dor em meu coração dia após dia?" — e também porque da contrição nasce uma dor na parte inferior da alma, que na linguagem das escolas é chamada sede da concupiscência. Com razão, portanto, define-se a contrição como "dor", porque ela produz dor — dor tão intensa que, noutros tempos, os penitentes, para exprimir sua intensidade, mudavam de vestes, prática à qual Nosso Senhor alude quando diz: "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Pois se em Tiro e Sidônia tivessem sido operados os milagres que foram operados em vós, há muito que teriam feito penitência em saco e cinza." Para significar a intensidade dessa dor, a "detestação do pecado" de que falamos é propriamente expressa pela palavra "contrição", palavra que, tomada literalmente, significa a redução a partes mínimas por meio de substância mais dura, e que aqui é usada metaforicamente para significar que nossos corações, endurecidos pelo orgulho, são domados e reduzidos pela penitência. Daí que nenhuma outra dor — nem mesmo a que se sente pela morte dos pais, dos filhos, ou por qualquer outra tribulação, por mais calamitosa que seja — recebe o nome de contrição: a palavra é empregada exclusivamente para exprimir a dor com que somos oprimidos pela perda da graça de Deus e de nossa própria inocência. É, porém, frequentemente designada por outros nomes: às vezes é chamada "contrição de coração", porque a palavra "coração" é usada muitas vezes na Escritura para exprimir a vontade, pois, assim como o coração é o princípio que origina o movimento de todo o ser humano, assim a vontade é a faculdade que governa e dirige as demais potências da alma. Os santos Padres também a chamam "compunção de coração", e por isso as obras que escreveram sobre a contrição preferem intitulá-las tratados sobre a "compunção de coração"; pois, assim como os abscessos são lancetados para dar passagem à matéria virulenta neles acumulada, assim o coração do pecador é, por assim dizer, traspassado pela contrição, a fim de poder expelir o veneno mortal do pecado que nele fermenta. Daí que a contrição seja chamada pelo profeta Joel rasgamento do coração: "Convertei-vos a mim", diz ele, "com todo o vosso coração, no jejum, no pranto, no luto, e rasgai os vossos corações."

§472

Que o pecador, pelas transgressões passadas, deva experimentar a mais profunda dor — uma dor que não possa ser superada — ficará facilmente compreendido pelas considerações seguintes. A contrição perfeita é um ato de caridade, que emana do que se denomina temor filial: a medida da contrição e da caridade deve ser, portanto, evidentemente, a mesma; mas a caridade que nutrimos para com Deus é o amor mais perfeito, e, por isso, a dor que a contrição inspira deve ser também a mais perfeita. A Deus se deve amar acima de todas as coisas; e tudo quanto nos separa de Deus deve, por conseguinte, ser odiado acima de todas as coisas. É também digno de nota que à caridade e à contrição a Sagrada Escritura atribui a mesma amplitude: da caridade se diz: "Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração;" da contrição: "Convertei-vos com todo o vosso coração." Além disso, se é verdade que, entre todos os objetos que solicitam o nosso amor, Deus é o sumo bem, e não menos verdade que, entre todos os objetos que merecem a nossa execração, o pecado é o sumo mal; o mesmo princípio que nos leva a confessar que Deus deve ser amado acima de todas as coisas nos obriga igualmente, e por necessidade, a reconhecer que o pecado deve ser odiado acima de todas as coisas. Que a Deus se deva amar acima de todas as coisas, a ponto de estarmos dispostos a sacrificar a própria vida a não ofendê-lo, declaram estas palavras do Redentor: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim;" "Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á." Assim como a caridade, segundo a observação de São Bernardo, não reconhece medida nem limite, ou, para usar as suas próprias palavras, "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida", assim também a medida de odiar o pecado deve ser odiá-lo sem medida. Ademais, a nossa contrição deve ser suprema não só em grau, mas também em intensidade, e assim perfeita, excluindo toda a apatia e indiferença, conforme estas palavras do Deuteronômio: "Quando buscardes ao Senhor vosso Deus, o encontrareis, contanto que o busqueis com todo o vosso coração e com toda a aflição da vossa alma;" e do profeta Jeremias: "Buscar-me-eis e me encontrareis, quando me buscardes com todo o vosso coração; e deixar-me-ei encontrar por vós, diz o Senhor." Se, porém, a nossa contrição não for perfeita, pode todavia ser verdadeira e eficaz; pois, como as coisas que caem sob os sentidos tocam frequentemente o coração de modo mais sensível do que as coisas puramente espirituais, acontecerá por vezes que alguém sinta dor mais intensa pela morte dos filhos do que pela gravidade dos seus pecados. A nossa contrição pode ser igualmente verdadeira e eficaz, ainda que não acompanhada de lágrimas. É, no entanto, muito de se desejar e louvar que a dor pelos seus pecados banhe o culpado em lágrimas. A esse respeito são admiráveis as palavras de Santo Agostinho: "O espírito da caridade cristã não vive em vós", diz ele, "se lamentais o corpo do qual a alma partiu, mas não lamentais a alma da qual Deus partiu." No mesmo sentido estão as palavras do Redentor acima citadas: "Ai de ti, Corozaim, ai de ti, Betsaida, pois se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em vós, há muito teriam feito penitência em saco e cinza." Disto, porém, temos abundante ilustração nos exemplos bem conhecidos dos ninivitas, de Davi, da mulher apanhada em adultério e do Príncipe dos Apóstolos, todos os quais obtiveram o perdão dos seus pecados, implorando a misericórdia de Deus com abundância de lágrimas.

§473

Os fiéis devem ser com todo o empenho exortados a procurar dirigir a sua contrição especialmente a cada pecado mortal em que possam ter tido o infortúnio de cair: "Recordarei diante de vós todos os meus anos na amargura da minha alma", diz Isaías; como se dissesse: "Contarei todos os meus pecados um a um, para que o meu coração seja tocado de dor por todos eles." Em Ezequiel, também, lemos: "Se o ímpio fizer penitência de todos os seus pecados, viverá." Com este espírito, diz Santo Agostinho: "Considere o pecador a qualidade de seus pecados, conforme o tempo, o lugar, a variedade e a pessoa." Na obra da conversão, todavia, o pecador não deve desesperar da bondade e misericórdia infinitas de Deus: Ele deseja ardentemente a nossa salvação e, por isso, não recusa o perdão, antes acolhe com a ternura de um pai o filho pródigo, no momento em que este volta ao senso do seu dever e se converte ao Senhor, detestando os seus pecados, dos quais se esforçará depois, tanto quanto possível, por recordar-se um a um e que abominará do mais íntimo da alma. O próprio Deus Todo-Poderoso, pela boca do seu profeta, nos ordena que esperemos, quando diz: "A impiedade do ímpio não lhe prejudicará no dia em que se converter de sua impiedade."

§474

O que foi dito será considerado suficientemente amplo para transmitir o conhecimento das qualidades mais importantes da verdadeira contrição. Nestas os fiéis devem ser cuidadosamente instruídos, para que cada um conheça os meios de alcançá-la e disponha de um critério fixo pelo qual possa determinar até que ponto se acha distante da perfeição desta virtude. Cumpre, pois, em primeiro lugar, detestar e deplorar todos os nossos pecados: se a nossa dor e detestação se limitam a alguns deles, o arrependimento não pode ser sincero nem salutar: "Quem guardar toda a lei, mas pecar em um só ponto, tornou-se réu de todos", diz São Tiago. Em segundo lugar, a nossa contrição deve ser acompanhada do desejo de confessar e satisfazer pelos nossos pecados: disposições das quais trataremos no lugar próprio. Em terceiro lugar, o penitente deve formar um propósito firme e resoluto de emenda de vida, segundo as palavras do profeta: "Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus mandamentos, e praticar o juízo e a justiça, viverá e não morrerá: não me lembrarei de todas as suas iniquidades que praticou"; e um pouco adiante: "Convertei-vos e fazei penitência de todas as vossas iniquidades, e a iniquidade não será a vossa ruína. Lançai de vós todas as vossas transgressões, pelas quais transgredistes, e fazei para vós um coração novo." À mulher apanhada em adultério, o próprio Redentor transmite a mesma lição: "Vai, e não peques mais"; e igualmente ao paralítico que curou na piscina de Betesda: "Eis que estás curado; não peques mais." Que a dor pelo pecado e o firme propósito de evitá-lo no futuro são indispensáveis à contrição, é o que dita a própria razão natural. Quem deseja reconciliar-se com um amigo deve lamentar tê-lo ofendido ou magoado; e o teor e a orientação da sua conduta devem ser tais que a acusação de violar os deveres da amizade não possa, doravante, justamente recair sobre o seu caráter. São princípios a cujos ditames o homem é obrigado a obedecer; a lei a que o homem está sujeito, seja ela natural, divina ou humana, ele é obrigado a cumprir. Se, portanto, por força ou fraude, o penitente prejudicou o próximo em seus bens, é obrigado à restituição; se, por palavras ou obras, lhe ofendeu a honra ou a reputação, está sob obrigação de reparar o dano, segundo a conhecida máxima de Santo Agostinho: "o pecado não é perdoado se não for restituído o que foi tirado." Em quarto e último lugar — e a condição não é menos importante —, a verdadeira contrição deve ser acompanhada do perdão das ofensas que possamos ter recebido de outrem. Isto Nosso Senhor declara com ênfase e inculca com energia quando diz: "Se perdoardes aos homens as suas ofensas, o vosso Pai celestial vos perdoará também as vossas; mas se não perdoardes aos homens, tampouco o vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas." Estas são as condições que a verdadeira contrição requer. Há outros elementos que, embora não essenciais, contribuem para tornar a contrição mais perfeita em sua espécie, e que recompensarão, sem fatigar, o zelo do pastor.

§475

Contribuirá de modo eminente para os interesses espirituais dos fiéis que o pastor insista frequentemente em chamar-lhes a atenção para a eficácia e a importância da contrição. Não se deve considerar cumprido o pleno dever do pastor pelo simples fato de dar a conhecer as verdades da salvação: o seu zelo deve empenhar-se em persuadi-los a adotar essas verdades como regra de conduta ao longo da vida, como princípio orientador de todas as suas ações. Outras práticas piedosas, como esmolas, jejuns, orações e semelhantes, em si mesmas santas e louváveis, são por vezes rejeitadas por Deus Todo-Poderoso por causa da fraqueza humana; mas a contrição jamais pode ser por Ele rejeitada, jamais lhe pode ser desagradável: "Um coração contrito e humilhado, ó Deus!", exclama o profeta, "Tu não desprezarás." Mais ainda, o mesmo profeta declara que, tão logo concebemos esta contrição em nossos corações, os nossos pecados são perdoados: "Disse: confessarei ao Senhor a minha injustiça, e Tu perdoaste a maldade do meu pecado." Disto temos uma figura nos dez leprosos que, enviados por Nosso Senhor aos sacerdotes, foram curados da lepra antes de chegarem a eles; para nos dar a entender que tal é a eficácia da verdadeira contrição, de que falamos acima, que por meio dela obtemos de Deus o imediato perdão dos nossos pecados.

§476

Para mover os fiéis à contrição, será de grande proveito que o pastor indique os exercícios espirituais conducentes à contrição. Isso se alcança exortando-os a examinarem frequentemente a própria consciência, a fim de verificar se têm sido fiéis na observância daquilo que Deus e sua Igreja requerem; e se alguém tiver consciência de algum crime, deverá imediatamente acusar-se a si mesmo, humildemente solicitar o perdão a Deus e implorar tempo para se confessar e satisfazer pelos seus pecados. Acima de tudo, suplique o auxílio da graça divina, pela qual seja fortalecido contra a recaída naqueles crimes cujo cometimento agora penitentemente deplora. Os fiéis devem ser igualmente movidos ao ódio do pecado, nascido da consideração de sua baixeza e torpeza, e dos males e calamidades de que ele é a fonte envenenada — afastando-nos, como efetivamente faz, da amizade de Deus, a quem já somos devedores de tantos bens inestimáveis e de quem poderíamos esperar receber dons de valor ainda mais elevado —, e entregando-nos à morte eterna, para sermos as infelizes vítimas dos tormentos mais atrozes.

§477

Tendo dito o suficiente sobre a contrição, passamos agora à confissão, que é outra parte da penitência. O cuidado e a exatidão que a sua exposição exige tornam-se de imediato evidentes, se apenas considerarmos que tudo quanto de piedade, de santidade e de religião se conservou até os nossos dias na Igreja de Deus deve ser atribuído, na opinião geral dos verdadeiramente piedosos, em grande medida, sob a divina Providência, à influência da Confissão. Não pode, portanto, causar admiração que o inimigo do gênero humano, nos seus esforços para arrasar pelos alicerces o edifício da Catolicidade, haja por meio dos instrumentos dos seus perversos desígnios atacado com todas as suas forças esta muralha da virtude cristã. O pastor ensinará, pois, em primeiro lugar, que a instituição da confissão é sumamente útil e até necessária.

§478

É verdade que a contrição apaga o pecado; mas quem ignora que, para tal efeito, ela deve ser tão intensa, tão ardente, tão veemente, que guarde proporção com a magnitude dos crimes que apaga? Este é um grau de contrição que poucos atingem, e por isso, somente pela contrição perfeita, pouquíssimos de fato poderiam esperar obter o perdão de seus pecados. Tornou-se, portanto, necessário que o Onipotente, em sua misericórdia, proporcionasse um meio de reconciliação e de salvação menos incerto e menos difícil; e isto Ele realizou, em sua admirável sabedoria, conferindo à sua Igreja as chaves do reino dos céus. Segundo a doutrina da Igreja Católica — doutrina que todos os seus filhos devem firme e professadamente crer —, se o pecador recorre ao tribunal da penitência com uma sincera dor pelos seus pecados e um firme propósito de os evitar no futuro, ainda que não traga consigo aquela contrição que por si só seria suficiente para obter o perdão do pecado, seus pecados lhe são perdoados pelo ministro da religião, em virtude do poder das chaves. Com razão, pois, proclamam os santos Padres que, pelas chaves da Igreja, a porta do céu se abre de par em par; verdade que o decreto do Concílio de Florença, ao declarar que o efeito da penitência é a absolvição dos pecados, torna imperioso que todos creiam sem hesitação.

§479

Para apreciar as vantagens da confissão, não devemos perder de vista um argumento que tem o testemunho da experiência. Para aqueles que levaram vidas imorais, nada se revela tão útil para a reforma dos costumes quanto revelar, de quando em quando, os próprios pensamentos secretos, as palavras e as ações a um amigo prudente e fiel, capaz de guiá-los com seus conselhos e auxiliá-los com sua cooperação. Pelo mesmo princípio, há de ser sumamente salutar para aqueles cujos espíritos são agitados pela consciência da culpa manifestar ao sacerdote, como vigário de Jesus Cristo, obrigado ao eterno sigilo por toda lei humana e divina, as enfermidades e feridas de suas almas. No tribunal da penitência encontrarão remédios imediatos, cujas propriedades curativas não só removerão a enfermidade presente, mas se mostrarão de eficácia tão duradoura que, no futuro, servirão de antídoto contra a fácil recaída na mesma doença moral.

§480

Outra vantagem que pode derivar da confissão é importante demais para ser omitida: a confissão contribui poderosamente para a preservação da ordem social. Suprimi a confissão sacramental e, nesse mesmo instante, inundareis a sociedade com toda sorte de crimes ocultos — crimes que, além disso, e outros ainda de maior enormidade, os homens, uma vez corrompidos por hábitos viciosos, não temerão cometer em plena luz do dia. A salutar vergonha que acompanha a confissão refreia a licenciosidade, enfreia o desejo e coage as más inclinações da natureza corrompida.

§481

Tendo explicado as vantagens da confissão, o pároco passará a expor a sua natureza e eficácia. A confissão, portanto, define-se como "uma acusação sacramental de si mesmo, feita para obter o perdão em virtude das chaves." Chama-se propriamente "acusação" porque os pecados não devem ser narrados como se o pecador se gloriasse de seus crimes, como fazem os que "se alegram quando praticam o mal"; nem devem ser referidos como histórias vãs ou ocorrências passageiras, para entreter: devem ser confessados como matéria de acusação de si mesmo, com o desejo de, por assim dizer, vingar-se deles em si próprio. Mas confessamos os nossos pecados com o intuito de obter o seu perdão; e, neste ponto, o tribunal da penitência difere dos demais tribunais, que conhecem dos crimes capitais e perante os quais a confissão de culpa é feita às vezes não para assegurar a absolvição, mas para justificar a sentença da lei. A definição de confissão pelos Santos Padres, embora diversa nas palavras, é substancialmente a mesma: "A confissão", diz Santo Agostinho, "é a revelação de uma enfermidade secreta, com a esperança de obter a cura"; e São Gregório: "A confissão é uma detestação dos pecados"; ambas as quais concordam com a definição precedente e nela se contêm.

§482

O pastor ensinará em seguida, com toda a firmeza devida a uma verdade revelada, verdade de suma importância, que este Sacramento deve a sua instituição à singular bondade e misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, que tudo dispôs sabiamente e unicamente com vista à nossa salvação. Após a sua ressurreição, soprou sobre os Apóstolos reunidos, dizendo: "Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e aqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Ao investir o caráter sacerdotal do poder de reter como também de remitir os pecados, é manifesto que os constitui juízes nas causas sobre as quais esse poder discricionário há de ser exercido. Isto parece ter significado quando, tendo ressuscitado Lázaro dos mortos, ordenou aos seus Apóstolos que o desatassem das faixas com que estava envolto. Esta é a interpretação de Santo Agostinho: "eles", diz ele, "os sacerdotes, podem agora fazer mais: podem exercer maior clemência para com aqueles que se confessam e cujos pecados perdoam. O Senhor, pelas mãos dos seus Apóstolos, entregou Lázaro — que já havia ressuscitado — para ser desatado pelas mãos dos seus discípulos; dando-nos assim a entender que aos sacerdotes foi conferido o poder de desatar." A isto se refere igualmente a ordem dada por Nosso Senhor aos leprosos curados no caminho, de se apresentarem aos sacerdotes e se submeterem ao seu julgamento. Investidos, pois, por Nosso Senhor do poder de remitir e reter os pecados, é evidente que os sacerdotes são constituídos juízes da matéria sobre a qual devem pronunciar-se; e como, segundo o sábio ensinamento do Concílio de Trento, não podemos formar um juízo exato sobre qualquer matéria, nem impor ao crime uma pena justa e proporcional, sem antes ter examinado e ficado bem inteirado da causa, daí decorre a necessidade, da parte do penitente, de dar a conhecer ao sacerdote, por meio da confissão, cada um dos seus pecados. Esta doutrina — definida pelo santo Sínodo de Trento, doutrina uniforme da Igreja Católica — o pastor ensinará. Uma leitura atenta dos Santos Padres apresentará inúmeras passagens em suas obras, que provam com a maior clareza que este Sacramento foi instituído por Nosso Senhor, e que a lei da confissão sacramental — que, do grego, denominam "exomologese" e "exagorêuse" — deve ser recebida como evangélica. Que os diversos tipos de sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes para a expiação de diferentes espécies de pecados parecem referir-se, sem sombra de dúvida, à confissão sacramental, ficará também patente no exame das figuras do Antigo Testamento.

§483

Não somente se deve ensinar aos fiéis que a confissão foi instituída por Nosso Senhor; mas deve-se também lembrá-los de que, por autoridade da Igreja, foram acrescentados certos ritos e cerimônias solenes que, embora não sejam essenciais ao Sacramento, servem para colocar mais plenamente a sua dignidade diante dos olhos do penitente, e para dispor a sua alma, já inflamada de devoção, a receber com maior facilidade a graça do Sacramento. Quando, com a cabeça descoberta e os joelhos dobrados, com os olhos fixos na terra e as mãos erguidas em súplica ao céu, e com outras demonstrações de humildade cristã não essenciais ao Sacramento, confessamos os nossos pecados, a nossa mente fica profundamente impressionada com a clara convicção da virtude celestial dos Sacramentos, bem como da necessidade de implorar humildemente e de buscar com fervor a misericórdia de Deus.

§484

Nem se suponha que a confissão, embora instituída pelo Senhor, não seja por Ele declarada necessária para a remissão do pecado: os fiéis devem estar penetrados da convicção de que aquele que está morto no pecado deve ser reconduzido à vida espiritual por meio da confissão sacramental — verdade claramente transmitida pelo próprio Senhor quando, por uma metáfora de singular beleza, denomina o poder de administrar este sacramento "as chaves do reino dos céus." Para se obter entrada em qualquer lugar, é necessária a intervenção daquele a quem as chaves foram confiadas; e, portanto, como a metáfora implica, para se ganhar entrada no céu, suas portas devem ser-nos abertas pelo poder das chaves, confiado por Deus Todo-Poderoso aos cuidados de sua Igreja. De outro modo, esse poder seria vão: se o céu pode ser alcançado sem o poder das chaves, em vão assumiriam a prerrogativa de proibir a entrada indiscriminada em suas portas aqueles a cuja fidelidade foram confiadas. Esta doutrina era familiar ao espírito de Santo Agostinho: "Não diga ninguém a si mesmo: faço penitência em segredo com Deus; Deus, que tem poder de me perdoar, conhece os mais íntimos sentimentos do meu coração: porventura sem razão foi dito: tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu; sem razão foram dadas as chaves à Igreja de Deus?" A mesma doutrina é consignada pela pena de Santo Ambrósio, em seu tratado sobre a penitência, ao refutar a heresia dos novacianos, que afirmavam que o poder de perdoar os pecados pertencia unicamente a Deus: "Quem", diz ele, "presta maior reverência a Deus: aquele que obedece ou aquele que resiste aos seus mandamentos? Deus nos manda obedecer a seus ministros; e obedecendo-lhes, honramos a Deus somente."

§485

Como a lei da confissão foi indubitavelmente estabelecida e confirmada pelo próprio Nosso Senhor, é nosso dever determinar a quem, em que idade e em que época do ano ela se torna obrigatória. Segundo o cânon do Concílio de Latrão, que começa pelas palavras: "Omnis utriusque sexus", nenhuma pessoa está sujeita à lei da confissão enquanto não tiver chegado ao uso da razão, tempo que não pode ser determinado por um número fixo de anos. Pode, todavia, estabelecer-se como princípio geral que as crianças são obrigadas a ir à confissão logo que sejam capazes de discernir o bem do mal e sejam capazes de malícia; pois, chegadas à idade de se ocupar com a obra da salvação, todos são obrigados a recorrer ao tribunal da penitência, sem o qual o pecador não pode esperar a salvação. No mesmo cânon, a Igreja determinou o período dentro do qual somos obrigados a cumprir o dever da confissão: manda que todos os fiéis confessem os seus pecados ao menos uma vez por ano. Se, porém, zelamos pelos nossos interesses eternos, certamente não negligenciaremos recorrer à confissão sempre que, ao menos, nos encontrarmos em perigo de morte ou nos dispormos a praticar algum ato incompatível com o estado de pecado, como administrar ou receber os sacramentos. A mesma norma deve ser seguida rigorosamente quando tememos esquecer algum pecado em que possamos ter tido a infelicidade de cair: para confessar os nossos pecados, é necessário recordá-los; e a sua remissão só podemos obtê-la por meio do sacramento da penitência, do qual a confissão é uma parte.

§486

Mas como, na confissão, muitas coisas devem ser observadas — algumas das quais essenciais ao sacramento, outras não —, os fiéis hão de ser cuidadosamente instruídos sobre todas essas matérias; e o pároco pode recorrer a obras das quais tais instruções facilmente se extraem. Entre essas matérias, não omitirá de modo algum de informar os fiéis de que a integridade é essencial a uma boa confissão. Todos os pecados mortais devem ser revelados ao ministro da religião; os pecados veniais, que não nos separam da graça de Deus e nos quais frequentemente caímos, embora — como comprova a experiência dos piedosos — seja conveniente e proveitoso confessá-los, podem ser omitidos sem pecado e expiados por uma variedade de outros meios. Os pecados mortais, como já dissemos, ainda que ocultos no mais profundo segredo, e igualmente os pecados de simples desejo, como os proibidos pelo nono e décimo mandamentos, devem todos e cada um ser matéria de confissão. Tais pecados secretos muitas vezes infligem feridas mais profundas na alma do que aqueles cometidos aberta e publicamente. É, porém, ponto de doutrina definido pelo Concílio de Trento e, como atestam os santos Padres, doutrina uniforme e universal da Igreja Católica: "Sem a confissão do seu pecado", diz Santo Ambrósio, "nenhum homem pode ser justificado do seu pecado." Em confirmação da mesma doutrina, São Jerônimo, comentando o Eclesiastes, diz: "Se a serpente, o diabo, mordeu alguém em segredo e sem o conhecimento de terceiros, e nele infundiu o veneno do pecado; se, não querendo revelar a sua ferida ao irmão ou ao mestre, cala-se e não faz penitência, o mestre que tem o poder de curá-lo não lhe pode prestar nenhum serviço." A mesma doutrina encontramos em São Cipriano, em seu sermão sobre os apóstatas: "Ainda que inocentes do crime hediondo de sacrificar aos ídolos ou de ter adquirido certificados a esse respeito, como, todavia, conceberam o pensamento de fazê-lo, devem confessá-lo com pesar ao sacerdote de Deus." Em suma, tal é a voz unânime, tal o acordo invariável de todos os Doutores da Igreja. Na confissão devemos empregar todo o cuidado e exatidão que costumamos dispensar aos negócios mundanos de maior importância, e todos os nossos esforços devem ser dirigidos a obter a cura de nossas enfermidades espirituais e a erradicar o pecado da alma. Não nos devemos contentar com a simples enumeração dos nossos pecados mortais; a essa enumeração devemos acrescentar a exposição das circunstâncias que agravam ou atenuam consideravelmente a sua malícia. Algumas circunstâncias são tais que por si mesmas constituem culpa mortal; em nenhum caso ou ocasião, portanto, podem tais circunstâncias ser omitidas. Alguém manchou as mãos com o sangue de um semelhante? Deve declarar se a vítima era leigo ou eclesiástico. Teve comércio criminoso com alguém? Deve declarar se a mulher era casada ou solteira, parente ou pessoa consagrada a Deus por voto. São circunstâncias que alteram a espécie dos pecados: o primeiro chama-se simples fornicação; o segundo, adultério; o terceiro, incesto; e o quarto, sacrilégio. Do mesmo modo, o furto está arrolado no catálogo dos pecados; mas se alguém roubou uma pequena quantia, o seu pecado é menos grave do que se tivesse roubado uma ou duas centenas de moedas, ou uma soma considerável; e se o dinheiro roubado fosse sagrado, o pecado seria ainda mais agravado. A observação aplica-se igualmente ao tempo e ao lugar; mas os casos em que tais circunstâncias alteram a natureza de um ato são tão familiares e enumerados por tantos escritores, que torna desnecessária uma exposição pormenorizada. Circunstâncias como estas devem, portanto, ser mencionadas; mas as que não agravam consideravelmente podem ser licitamente omitidas.

§487

Tão importante é a integridade para a confissão, como já dissemos, que se o penitente voluntariamente deixar de acusar-se de alguns pecados que deveria confessar, suprimindo outros, não só não obtém o perdão de seus pecados, mas se envolve em culpa mais grave. Tal enumeração não pode ser chamada confissão sacramental; pelo contrário, o penitente deve repetir a confissão, não omitindo acusar-se de ter, sob a aparência de confissão, profanado a santidade do sacramento. Mas, se a confissão parecer deficiente, seja porque o penitente se esqueceu de alguns pecados graves, seja porque, embora com a intenção de confessar todos os seus pecados, não examinou os recessos de sua consciência com minúcia extraordinária, não está obrigado a repetir a confissão: bastará que, ao recordar os pecados que havia esquecido, os confesse a um sacerdote em outra ocasião. Não devemos, porém, examinar a nossa consciência com descuidada indiferença, nem mostrar tal negligência em recordar os nossos pecados que pareça que não queremos lembrá-los; e, se isso tiver ocorrido, a confissão deverá ser reiterada.

§488

A nossa confissão deve ser ainda simples, sincera e sem disfarce, não revestida daquela linguagem artificial com que alguns a envolvem, parecendo mais dispostos a traçar um esboço do seu modo de vida em geral do que a confessar os seus pecados. A nossa confissão deve ser tal que reflita uma imagem verdadeira da nossa vida, tal como nós próprios a conhecemos, apresentando como duvidoso o que é duvidoso e como certo o que é certo. Se, pois, omitirmos a enumeração dos nossos pecados ou introduzirmos matéria estranha, é claro que a nossa confissão carece desta qualidade.

§489

A prudência e a modéstia na explicação das matérias da confissão são também muito recomendáveis, e deve-se evitar cuidadosamente a superfluidade de palavras: tudo o que seja necessário para dar a conhecer a natureza de cada pecado há de ser exposto de forma breve e modesta.

§490

O sigilo deve ser rigorosamente observado tanto pelo penitente quanto pelo sacerdote; e, por isso, como em tais circunstâncias o sigilo seria necessariamente inseguro, a ninguém é lícito, por motivo algum, confessar-se por intermédio de mensageiro ou por carta.

§491

Mas, acima de tudo, os fiéis devem ter o máximo cuidado em purificar as suas consciências do pecado por meio da confissão frequente: quando oprimidos pela culpa mortal, nada pode ser mais salutar, tão precária é a vida humana, do que recorrer imediatamente ao tribunal da penitência; mas ainda que pudéssemos prometer-nos longevidade, não deveríamos nós, que somos tão cuidadosos em tudo o que diz respeito à limpeza do vestuário ou da pessoa, corar de mostrar menor preocupação em preservar o esplendor da alma, pura e imaculada das torpes manchas do pecado.

§492

Tendo agora de tratar do ministro deste sacramento — As leis da Igreja declaram suficientemente que o ministro do sacramento da penitência deve ser um sacerdote dotado de jurisdição ordinária ou delegada: quem desempenha esta sagrada função deve estar revestido não somente do poder de ordem, mas também do de jurisdição. Deste ministério temos uma prova insigne nas palavras do Redentor, registadas por São João: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e aqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos;" palavras dirigidas não a todos, mas somente aos Apóstolos, a quem os sacerdotes sucedem nesta função ministerial. Isso se harmoniza admiravelmente com a economia da religião, pois, uma vez que a graça conferida por este sacramento emana de Cristo, a Cabeça, e se difunde pelos seus membros, somente aqueles que têm o poder de consagrar o seu verdadeiro Corpo devem ter igualmente o poder de administrar este sacramento ao seu Corpo místico, os fiéis; sobretudo porque estes, mediante o sacramento da penitência, são dispostos e preparados para receber a Sagrada Eucaristia. O cuidado escrupuloso com que, nos primeiros séculos da Igreja, se resguardava o direito do sacerdote ordinário, é bem inteligível pelos antigos decretos dos Padres, os quais estabeleciam "que nenhum bispo ou sacerdote, exceto em caso de necessidade, presumisse exercer qualquer função na paróquia alheia sem a autoridade do ordinário;" lei que encontra sua sanção no Apóstolo, quando ordenou a Tito que constituísse sacerdotes em cada cidade, para ministrar aos fiéis o alimento celestial da doutrina e dos sacramentos. Mas em caso de perigo iminente de morte, quando não é possível recorrer ao sacerdote próprio, para que nenhum pereça, o Concílio de Trento ensina que, segundo a prática antiga da Igreja de Deus, é então lícito a qualquer sacerdote não somente remitir toda espécie de pecados, quaisquer que sejam as faculdades que de ordinário requeiram, mas também absolver da excomunhão.

§493

Além do poder de ordem e de jurisdição, que são absolutamente necessários, o ministro deste sacramento, exercendo simultaneamente a função de juiz e de médico, deve igualmente ser dotado de ciência e de prudência. Como juiz, é evidente que seu conhecimento há de ser acima do comum, pois por ele deve examinar a natureza dos pecados e, entre as diversas espécies de pecados, julgar quais são graves e quais não o são, tendo em vista a condição e a categoria da pessoa. Como médico, tem igualmente necessidade de consumada prudência, pois a ele compete administrar à alma enferma aquelas medicinas salutares que não somente efetuem a cura do mal presente, mas sirvam também de preservativo contra o futuro contágio. Os fiéis perceberão, portanto, a grande importância que se deve atribuir à escolha de um confessor, e envidarão seus melhores esforços para escolher aquele que seja recomendado pela integridade de vida, pela doutrina e pela prudência, que esteja profundamente imbuído do tremendo peso e da responsabilidade do estado que ocupa, que bem compreenda a pena devida a cada pecado e possa ainda discernir quem deve ser absolvido e quem deve ser retido.

§494

Mas como todos desejam ardentemente que seus pecados sejam sepultados em eterno segredo, deve-se advertir os fiéis de que não há motivo algum para temer que o que foi revelado em confissão seja algum dia divulgado por qualquer sacerdote, ou que por isso o penitente possa, em tempo algum, ser exposto a perigo ou dificuldade de qualquer espécie. Todas as leis, humanas e divinas, protegem a inviolabilidade do sigilo da confissão, e contra a sua sacrilega infração a Igreja pronuncia os seus mais severos castigos. "Cuide o sacerdote", diz o grande Concílio de Latrão, "de não trair, de modo algum, por palavra ou sinal, ou por qualquer outro meio que seja, o sagrado segredo que lhe foi confiado pelo pecador."

§495

Tendo tratado do ministro deste sacramento, a ordem da matéria requer que prossigamos a expor alguns pontos gerais de considerável importância prática no que diz respeito à confissão. Muitos, aos quais, em geral, nenhum tempo parece transcorrer tão lentamente quanto aquele que as leis da Igreja destinam ao dever da confissão, longe de darem a devida atenção às outras coisas que são manifestamente mais eficazes para alcançar o favor e a amizade de Deus, encontram-se tão distantes da perfeição cristã que mal se recordam dos pecados que hão de constituir a matéria de sua confissão. Como, portanto, nada deve ser omitido que possa auxiliar os fiéis na importante obra da salvação, o sacerdote terá o cuidado de verificar se o penitente está verdadeiramente contrição pelos seus pecados e se está deliberada e firmemente resolvido a evitar o pecado no futuro. Se o pecador se mostrar assim disposto, deve ser admoestado e ardentemente exortado a derramar o coração em ações de graças a Deus por este inestimável benefício, e a suplicar incessantemente o auxílio da graça divina, escudado pela qual possa combater com segurança as más inclinações da natureza corrompida. Deve também ser instruído a não deixar passar um dia sem dedicar parte dele à meditação de algum mistério da Paixão, a fim de se estimular à imitação do seu grande modelo e inflamar o coração de ardente amor pelo seu Redentor. O fruto de tal meditação será fortalecê-lo cada vez mais, de dia em dia, contra todos os assaltos do demônio; pois qual outra razão haveria para que nossa coragem se abata e nossas forças falhem no instante em que o inimigo nos acomete com o mais leve ataque, senão o fato de negligenciarmos, pela piedosa meditação, acender em nós o fogo do amor divino, que anima e vivifica a alma? Mas, caso o sacerdote perceba que o penitente dá sinais equívocos de verdadeira contrição, procurará despertar nele um desejo ardente da mesma, inflamado pelo qual possa resolver pedir e implorar este dom celestial à misericórdia de Deus.

§496

A soberba de alguns, que procuram justificar ou atenuar as suas ofensas com vãs desculpas, deve ser cuidadosamente reprimida. Se, por exemplo, um penitente confessa que foi tomado pela ira e imediatamente transfere para outro a culpa dessa exaltação, queixando-se de que aquele foi o agressor, deve ser lembrado de que tais apologias são indício de um espírito soberbo e de um homem que ou menospreza ou desconhece a gravidade do seu pecado, quando na verdade servem para agravá-lo antes do que atenuá-lo. Quem assim se esforça por justificar a própria conduta parece dizer que só exercerá a paciência quando ninguém o ofender ou prejudicar — disposição da qual nada pode ser mais indigno de um cristão. Um cristão deveria lamentar a situação de quem lhe causou a injúria e, no entanto, sem se importar com a gravidade do pecado, encoleriza-se contra o seu irmão: tendo tido a oportunidade de honrar a Deus com a sua paciência exemplar e de corrigir um irmão com a sua mansidão cristã, converte os próprios meios de salvação em instrumentos de dano para a sua própria alma.

§497

Ainda mais perniciosa é a conduta daqueles que, cedendo a uma tola vergonha, não conseguem induzir-se a confessar os seus pecados. Tais pessoas devem ser encorajadas pela exortação e recordadas de que não há razão alguma para que cedam a semelhante falsa delicadeza; que a ninguém pode causar espanto que as pessoas caiam em pecado, enfermidade comum do gênero humano e apêndice natural da fraqueza humana.

§498

Há outros que, seja por raramente se aproximarem do tribunal da penitência, seja por não terem dispensado cuidado nem atenção ao exame de suas consciências, não sabem bem como começar nem como terminar a sua confissão. Tais pessoas merecem ser severamente repreendidas, e devem ser instruídas de que, antes de alguém se aproximar do tribunal da penitência, há de empregar toda a diligência para despertar em si a contrição pelos seus pecados, o que não pode fazer sem se esforçar por conhecê-los e recordá-los individualmente. Caso o confessor se depare com pessoas desta condição, inteiramente despreparadas para a confissão, deverá despedi-las sem aspereza, exortando-as com as palavras mais benevolentes a que tomem algum tempo para refletir sobre seus pecados e, então, retornem; mas, se declararem que já fizeram tudo quanto estava ao seu alcance para se preparar, como há razão para temer que, se dispensadas, possam não voltar, a sua confissão deve ser ouvida, sobretudo se manifestarem alguma disposição para emendar a própria vida e puderem ser levadas a acusar a sua negligência, prometendo repará-la em outra ocasião por meio de um exame de consciência diligente e rigoroso. Nesses casos, porém, o confessor procederá com cautela. Se, após ouvir a confissão, julgar que o penitente não foi destituído de diligência no exame de sua consciência, nem de pesar no detestamento de seus pecados, poderá absolvê-lo; mas se o tiver encontrado deficiente em ambos, deverá, como já dissemos, admoestar o penitente a ter maior cuidado no exame de consciência, e despedi-lo da maneira mais benevolente.

§499

Mas, como acontece às vezes que algumas mulheres, as quais podem ter esquecido algum pecado numa confissão anterior, não conseguem decidir-se a voltar ao confessor, por temerem expor-se à suspeita de terem cometido algo grave, ou de estarem a buscar o elogio de uma piedade extraordinária, o pastor lembrará frequentemente aos fiéis, em público e em particular, que ninguém é dotado de memória tão tenaz que possa recordar todos os seus pensamentos, palavras e ações; e que, portanto, se os fiéis se lembrarem de algo grave que anteriormente haviam esquecido, não devem deixar-se deter de voltar ao sacerdote. Estas e muitas outras questões da mesma natureza exigem a atenção particular do confessor no tribunal da penitência.

§500

Passamos agora à terceira parte da penitência, denominada satisfação. Começaremos por explicar a sua natureza e eficácia, porque os inimigos da Igreja Católica daí têm colhido ampla ocasião para semear discórdia e divisão entre os cristãos, com não pequeno dano para a República Cristã. A satisfação, portanto, é o pagamento integral de uma dívida, pois, quando se satisfaz, nada mais resta a suprir. Daí que, ao falarmos de reconciliação pela graça, satisfazer equivale a fazer aquilo que pode ser suficiente para aplacar o ânimo ofendido em razão de uma injúria causada; e assim, a satisfação não é senão "a compensação de uma injúria causada a outrem." Por isso, os teólogos servem-se da palavra "satisfação" para significar a compensação que o homem oferece a Deus, praticando algo em expiação dos pecados que cometeu.

Referência atual: §451
Catecismo Romano do Concílio de Trento | São Pio V | Aurea