Obra patrística
Contra as Heresias
Santo Ireneu de Lião · c. 130–202
III, 15, 9–III, 20, 5
Capítulo XIV.—Valentino e seus seguidores derivaram os princípios do seu sistema dos pagãos; apenas os nomes são mudados, 9
As paixões e o erro desta Sophia, e como ela correu o risco de perecer por sua investigação [da natureza] do Pai, conforme narram, e o que aconteceu fora do Pleroma, e de que espécie de defeito ensinam que o Criador do mundo foi produzido, expus no livro anterior, descrevendo nele, com toda diligência, as opiniões destes hereges. [Também detalhei suas opiniões] a respeito de Cristo, a quem descrevem como tendo sido produzido depois de todos estes, e também a respeito de Soter, que, [segundo eles] deriva seu ser daqueles Éons que foram formados dentro do Pleroma. Mas mencionei necessariamente seus nomes no presente, para que destes seja manifestada a absurdidade de sua falsidade, e também a natureza confusa da nomenclatura que inventaram. Pois eles mesmos diminuem [a dignidade de] seus Éons por uma multidão de nomes deste tipo. Dão nomes plausíveis e credíveis aos gentios, [como sendo semelhantes] àqueles que são chamados seus doze deuses, e até estes querem que sejam imagens de seus doze Éons. Mas as imagens [assim chamadas] podem produzir nomes [próprios] muito mais decorosos e mais poderosos por sua etimologia para indicar divindade [do que aqueles de seus supostos protótipos].
Capítulo XV.—Não se pode dar conta destas produções.
1. Mas voltemos à questão supracitada acerca da produção [dos Eões]. E, em primeiro lugar, que nos digam a razão da produção dos Eões ser de tal natureza que não entram em contato com nenhuma daquelas coisas que pertencem à criação. Pois eles sustentam que aquelas coisas [de cima] não foram feitas por causa da criação, mas a criação por causa delas; e que as primeiras não são imagens das últimas, mas as últimas das primeiras. Portanto, visto que eles dão uma razão para as imagens, dizendo que o mês tem trinta dias por causa dos trinta Eões, e o dia doze horas, e o ano doze meses, por causa dos doze Eões que estão dentro do Pléroma, com outras sandices semelhantes do mesmo tipo, que nos digam também agora a razão daquela produção dos Eões, porque era de tal natureza, por que razão a primeira e primogênita Ogdôade foi enviada, e não uma Pêntade, ou uma Tríade, ou uma Septenada, ou qualquer outra daquelas que são definidas por um número diferente? Além disso, como aconteceu que de Logos e Zoe foram enviados dez Eões, nem mais nem menos; enquanto que de Antropos e Eclésia procederam doze, embora estes pudessem ser ou mais ou menos numerosos?
2. E então, novamente, com respeito a todo o Pléroma, que razão há de que ele seja dividido nestes três — uma Ogdôade, uma Década e uma Duodécada — e não em algum outro número diferente destes? Além disso, com respeito à própria divisão, por que foi feita em três partes, e não em quatro, ou cinco, ou seis, ou em algum outro número entre aqueles que não têm conexão com tais números como aqueles que pertencem à criação? Pois eles descrevem aqueles [Eões de cima] como sendo mais antigos do que estas [coisas criadas de baixo], e cumpre-lhes possuir o seu princípio [de ser] em si mesmos, um que existiu antes da criação, e não segundo o modelo da criação, concordando todos exatamente quanto ao ponto.
3. O relato que damos da criação é um relato harmonioso com aquela ordem regular [de coisas que prevalece no mundo], pois este nosso esquema é adaptado às coisas que foram [realmente] feitas; mas é necessário que eles, sendo incapazes de atribuir qualquer razão pertencente às próprias coisas, com respeito àqueles seres que existiram antes [da criação] e foram aperfeiçoados por si mesmos, caiam na maior perplexidade. Pois, quanto aos pontos sobre os quais nos interrogam, como se nada soubéssemos da criação, eles próprios, quando interrogados por sua vez a respeito do Pléroma, ou fazem menção de meros sentimentos humanos, ou recorrem àquele tipo de discurso que diz respeito apenas à harmonia observável na criação, dando-nos respostas indevidamente sobre coisas que são segundas, e não sobre aquelas que, como sustentam, são primeiras. Pois não os interrogamos acerca daquela harmonia que pertence à criação, nem acerca de sentimentos humanos; mas porque devem reconhecer, quanto ao seu Pléroma octiforme, deciforme e duodeciforme (do qual eles declaram ser a criação a imagem), que seu Pai o formou com aquela figura vã e irrefletidamente, e devem atribuir-Lhe deformidade, se fez alguma coisa sem uma razão. Ou, ainda, se declaram que o Pléroma foi assim produzido de acordo com a presciência do Pai, por causa da criação, como se Ele tivesse assim disposto simetricamente a sua própria essência, então segue-se que o Pléroma já não pode ser considerado como tendo sido formado por si mesmo, mas por causa daquela [criação] que haveria de ser sua imagem por possuir a sua semelhança (assim como o modelo de barro não é moldado por si mesmo, mas por causa da estátua de bronze, ou ouro, ou prata que será formada), então a criação terá maior honra do que o Pléroma, se, por causa dela, aquelas coisas [de cima] foram produzidas.
Capítulo XVI.—O Criador do mundo ou produziu de Si mesmo as imagens das coisas a serem feitas, ou o Pleroma foi formado à imagem de algum sistema anterior; e assim ao infinito.
1. Mas se eles não derem assentimento a nenhuma destas conclusões, visto que nesse caso seriam por nós provados como incapazes de dar qualquer razão para uma tal produção do seu Pleroma, necessariamente serão reduzidos a isto—que confessem que, acima do Pleroma, havia algum outro sistema mais espiritual e mais poderoso, à imagem do qual o seu Pleroma foi formado. Pois se o Demiurgo não construiu por si mesmo aquela figura da criação que existe, mas a fez segundo a forma daquelas coisas que estão acima, então de quem recebeu o seu Bythus—que, certamente, fez com que o Pleroma possuísse uma configuração deste tipo—a figura daquelas coisas que existiam antes de Si mesmo? Pois é necessário, ou que a intenção [de criar] habitasse naquele deus que fez o mundo, de modo que por seu próprio poder, e a partir de si mesmo, obtivesse o modelo da sua formação; ou, se algum desvio é feito deste ser, então surgirá a necessidade de perguntar constantemente de onde veio àquele que está acima dele a configuração daquelas coisas que foram feitas; qual também era o número das produções; e qual a substância do próprio modelo? Se, contudo, estava no poder de Bythus comunicar de si mesmo tal configuração ao Pleroma, então por que não poderia estar no poder do Demiurgo formar de si mesmo um mundo tal qual existe? E então, novamente, se a criação é uma imagem daquelas coisas [acima], por que não afirmaríamos que aquelas são, por sua vez, imagens de outras acima delas, e aquelas acima destas, de outras, e assim continuar supondo inumeráveis imagens de imagens?
2. Esta dificuldade apresentou-se a Basílides depois que ele perdeu totalmente a verdade, e concebia que, por uma sucessão infinita daqueles seres que eram formados uns dos outros, poderia escapar de tal perplexidade. Quando proclamou que trezentos e sessenta e cinco céus foram formados através de sucessão e similitude uns pelos outros, e que uma prova manifesta [da existência] destes era encontrada no número dos dias do ano, como afirmei antes; e que acima destes havia um poder que eles também chamam de Inominável, e sua dispensação—nem mesmo assim ele escapou de tal perplexidade. Pois, quando perguntado de onde veio a imagem da sua configuração àquele céu que está acima de todos, e do qual ele deseja que os demais sejam considerados como tendo sido formados por meio de sucessão, ele dirá, daquela dispensação que pertence ao Inominável. Ele deve então dizer, ou que o Inefável a formou de si mesmo, ou achará necessário reconhecer que há algum outro poder acima deste ser, do qual o seu Inominável derivou tão vastos números de configurações como, segundo ele, existem.
3. Quanto mais seguro e acurado curso é, então, confessar de uma vez aquilo que é verdadeiro: que este Deus, o Criador, que formou o mundo, é o único Deus, e que não há outro Deus além d'Ele—recebendo Ele mesmo de Si mesmo o modelo e figura daquelas coisas que foram feitas—do que, depois de nos fatigarmos com uma descrição tão ímpia e circunlóquia, sermos compelidos, em algum ponto ou outro, a fixar a mente em algum Um, e a confessar que d'Ele procedeu a configuração das coisas criadas.
4. Quanto à acusação trazida contra nós pelos seguidores de Valentino, quando declaram que permanecemos naquela Hébdade que está abaixo, como se não pudéssemos elevar nossas mentes ao alto, nem compreender aquelas coisas que estão acima, porque não aceitamos suas monstruosas afirmações: esta mesma acusação trazem os seguidores de Basílides por sua vez contra eles, porquanto (os Valentinianos) continuam circulando em torno daquelas coisas que estão abaixo, [indo] até a primeira e segunda Ogdôade, e porque imaginam inábilmente que, imediatamente após os trinta Éons, descobriram Aquele que está acima de todas as coisas Pai, não seguindo em pensamento suas investigações até aquele Pleroma que está acima dos trezentos e sessenta e cinco céus, que está acima de quarenta e cinco Ogdôades. E qualquer um, novamente, poderia trazer contra eles a mesma acusação, imaginando quatro mil trezentos e oitenta céus, ou Éons, uma vez que os dias do ano contêm esse número de horas. Se, novamente, alguém adiciona também as noites, duplicando assim as horas que foram mencionadas, imaginando que [deste modo] descobriu uma grande multidão de Ogdôades, e uma espécie de inumerável companhia de Éons, e assim, em oposição Àquele que está acima de todas as coisas Pai, concebendo-se mais perfeito que todos [os outros], ele trará a mesma acusação contra todos, porquanto não são capazes de se elevar à concepção de tal multidão de céus ou Éons como ele anunciou, mas ou são tão deficientes que permanecem entre aquelas coisas que estão abaixo, ou continuam no espaço intermédio.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
1. Esse sistema, portanto, que diz respeito ao Pleroma deles, e especialmente àquela parte que se refere à Ogdóade primária, estando assim sobrecarregado de tão grandes contradições e perplexidades, passe agora a examinar o restante de seu esquema. [Fazendo-o] por causa de sua loucura, farei inquirição acerca de coisas que não têm existência real; contudo, é necessário fazê-lo, pois o tratamento deste assunto me foi confiado, e porquanto desejo que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade, bem como porque vós mesmo houvésseis pedido receber de mim meios plenos e completos para derrubar [as opiniões] desses homens.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Pergunto, pois: de que modo foram produzidos os restantes dos Éons? Foi de modo a estarem unidos com Aquele que os produziu, assim como os raios solares estão com o sol; ou foi realmente e separadamente, de sorte que cada um deles possuísse uma existência independente e sua própria forma especial, como um homem de outro homem, e um rebanho de gado de outro? Ou foi à maneira de germinação, como ramos de uma árvore? E eram eles da mesma substância que os que os produziram, ou derivaram sua substância de alguma outra [espécie de] substância? Também, foram produzidos ao mesmo tempo, de modo a serem contemporâneos; ou após certa ordem, de modo que alguns deles fossem mais velhos e outros mais jovens? E, ainda, são eles incompostos e uniformes, e inteiramente iguais e semelhantes entre si, como são produzidos o espírito e a luz; ou são compostos e diferentes, dessemelhantes [uns dos outros] em seus membros?
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Se cada um deles foi produzido, à maneira dos homens, realmente e segundo sua própria geração, então ou aqueles assim gerados pelo Pai serão da mesma substância que Ele, e semelhantes ao seu Autor; ou, se aparecerem dessemelhantes, então necessariamente se deve reconhecer que são [formados] de alguma substância diferente. Ora, se os seres gerados pelo Pai são semelhantes ao seu Autor, então aqueles que foram produzidos devem permanecer para sempre impassíveis, assim como é impassível Aquele que os produziu; mas se, por outro lado, são de uma substância diferente, que é capaz de paixão, então donde veio essa substância dessemelhante para encontrar lugar dentro do incorruptível Pleroma? Além disso, também, segundo este princípio, cada um deles deve ser entendido como completamente separado de qualquer outro, assim como os homens não se misturam nem se unem uns aos outros, mas cada um tem uma forma distinta própria, e uma esfera definida de ação, enquanto cada um deles, também, é formado de um tamanho particular — qualidades características de um corpo, e não de um espírito. Não falem, portanto, mais do Pleroma como sendo espiritual, nem de si mesmos como "espirituais", se de fato os seus Éons se assentam festejando com o Pai, como se fossem homens, e Ele mesmo é de tal configuração como aquela que os que por Ele foram produzidos O revelam.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Se, novamente, os Éons derivaram do Logos, o Logos do Nous, e o Nous do Bythus, assim como luzes são acesas de uma luz — como, por exemplo, tochas são acesas de uma tocha — então eles podem, sem dúvida, diferir em geração e tamanho uns dos outros; mas, uma vez que são da mesma substância que o Autor de sua produção, ou todos devem permanecer para sempre impassíveis, ou o próprio Pai deles deve participar da paixão. Pois a tocha que foi acesa subsequentemente não pode possuir uma espécie diferente de luz daquela que a precedeu. Por isso também as suas luzes, quando misturadas em uma só, retornam à identidade original, pois então se forma aquela única luz que existiu desde o princípio. Mas não podemos falar, com respeito à luz mesma, de uma parte ser mais recente em sua origem, e outra ser mais antiga (pois o todo é uma só luz); nem podemos assim falar mesmo com respeito àquelas tochas que receberam a luz (pois estas são todas contemporâneas quanto à sua substância material, pois a substância das tochas é uma e a mesma), mas simplesmente quanto ao [tempo de] seu acendimento, visto que uma foi acesa há pouco, e outra acaba de ser acesa.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
O defeito, portanto, daquela paixão que diz respeito à ignorância, ou se apegará igualmente a todo o Pleroma deles, uma vez que [todos os seus membros] são da mesma substância; e o Propator compartilhará deste defeito de ignorância — isto é, será ignorante de Si mesmo; ou, por outro lado, todas aquelas luzes que estão dentro do Pleroma permanecerão igualmente para sempre impassíveis. Donde, pois, vem a paixão do mais jovem Éon, se a luz do Pai é aquela da qual todas as outras luzes foram formadas, e que é por natureza impassível? E como pode um Éon ser chamado de mais jovem ou mais velho entre si, se há uma só luz em todo o Pleroma? E se alguém os chama de estrelas, todos eles, no entanto, parecerão participar da mesma natureza. Pois se "uma estrela difere de outra estrela em glória", mas não em qualidades, nem substância, nem no fato de ser passível ou impassível; assim todos estes, visto que são igualmente derivados da luz do Pai, ou devem ser naturalmente impassíveis e imutáveis, ou devem todos, em comum com a luz do Pai, ser passíveis, e são capazes das fases variáveis da corrupção.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
A mesma conclusão se seguirá, ainda que afirmem que a produção dos Éons proveio do Logos, como ramos de uma árvore, visto que o Logos tem sua geração do Pai deles. Pois todos [os Éons] são formados da mesma substância que o Pai, diferindo uns dos outros apenas em tamanho, e não em natureza, e preenchendo a grandeza do Pai, assim como os dedos completam a mão. Se, portanto, Ele existe em paixão e ignorância, assim também devem aqueles Éons que foram por Ele gerados. Mas se é ímpio atribuir ignorância e paixão ao Pai de todos, como podem eles descrever um Éon produzido por Ele como passível; e enquanto atribuem a mesma impiedade à própria sabedoria (Sophia) de Deus, como podem ainda chamar-se homens religiosos?
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Se, novamente, eles declaram que seus Éons foram enviados assim como raios são do sol, então, uma vez que todos são da mesma substância e brotaram da mesma fonte, todos devem ou ser capazes de paixão juntamente com Aquele que os produziu, ou todos permanecerão impassíveis para sempre. Pois eles já não podem sustentar que, de seres assim produzidos, alguns são impassíveis e outros passíveis. Se, portanto, eles declaram todos impassíveis, eles mesmos destroem o seu próprio argumento. Pois como poderia o mais jovem Éon ter sofrido paixão se todos eram impassíveis? Se, por outro lado, eles declaram que todos participaram desta paixão, como alguns deles ousam sustentar, então, visto que ela se originou com o Logos, mas fluiu até Sophia, eles serão assim condenados por remontar a paixão ao Logos, que é o Nous deste Propator, e assim reconhecer que o Nous do Propator e o próprio Pai experimentaram paixão. Pois o Pai de todos não deve ser considerado como uma espécie de Ser composto, que pode ser separado do seu Nous (mente), como já mostrei; mas Nous é o Pai, e o Pai é Nous. Segue-se necessariamente, portanto, tanto que Aquele que Dele procede como Logos, ou antes o próprio Nous, visto que é Logos, deve ser perfeito e impassível, como também que aquelas produções que dele procedem, visto que são da mesma substância que ele mesmo, devem ser perfeitas e impassíveis, e devem permanecer sempre semelhantes àquele que as produziu.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Não pode, portanto, manter-se por mais tempo, como ensinam esses homens, que o Logos, por ocupar o terceiro lugar na geração, era ignorante do Pai. Tal coisa poderia talvez ser considerada provável no caso da geração dos seres humanos, na medida em que estes frequentemente nada sabem de seus pais; mas é de todo impossível no caso do Logos do Pai. Pois se, existindo no Pai, Ele conhece Aquele em quem existe — isto é, não é ignorante de si mesmo — então aquelas produções que dele emanam, sendo suas potências (faculdades) e sempre presentes com ele, não serão ignorantes daquele que as emitiu, não mais do que os raios [podem ser supostos] ser ignorantes do sol. É impossível, portanto, que a Sophia (sabedoria) de Deus, ela que está dentro do Pleroma, visto que foi produzida de tal maneira, tenha caído sob a influência da paixão e concebido tal ignorância. Mas é possível que aquela Sophia (sabedoria) que pertence ao [esquema] de Valentim, visto que é uma produção do diabo, caia em toda sorte de paixão e exiba a mais profunda ignorância. Pois quando eles mesmos dão testemunho acerca de sua mãe, a saber, que ela era a prole de um Éon errante, não precisamos mais buscar a razão pela qual os filhos de tal mãe estejam sempre nadando nas profundezas da ignorância.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Não sei se, além destas produções [que foram mencionadas], eles são capazes de falar de qualquer outra; na verdade, eles não me são conhecidos (embora tenha tido discussões muito frequentes com eles acerca de formas deste tipo) como tendo jamais apresentado qualquer outro tipo peculiar de ser como produzido [da maneira em consideração]. Eles apenas sustentam isto: que cada um destes foi assim produzido de modo a conhecer apenas aquele que o produziu, enquanto ignorava aquele que imediatamente o precedia. Mas eles não avançam [em seu relato] com qualquer espécie de demonstração quanto ao modo como estes foram produzidos, ou como tal coisa poderia acontecer entre seres espirituais. Pois, de qualquer maneira que escolham avançar, eles se sentirão obrigados (enquanto, no tocante à verdade, se afastam inteiramente da reta razão) a proceder até sustentar que o seu Verbo, que procede do Nous do Propator — sustentar, digo, que ele foi produzido em estado de degenerescência. Pois [sustentam] que o Nous perfeito, anteriormente gerado pelo Bythus perfeito, não era capaz de tornar perfeita aquela produção que dele emanava, mas [só podia trazê-la] totalmente cega ao conhecimento e à grandeza do Pai. Sustentam também que o Salvador exibiu um emblema deste mistério no caso daquele homem que era cego de nascença, pois o Éon foi assim produzido pelo Monógenes cego, isto é, em ignorância, atribuindo assim falsamente ignorância e cegueira ao Verbo de Deus, que, segundo a sua própria teoria, ocupa o segundo [lugar de] produção a partir do Propator. Admiráveis sofistas, e exploradores das sublimidades do Pai desconhecido, e recitadores daqueles mistérios supercelestiais "nos quais os anjos desejam penetrar!" — para que aprendam que do Nous daquele Pai que está acima de todos, o Verbo foi produzido cego, isto é, ignorante do Pai que o produziu!
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Mas, ó miseráveis sofistas, como poderia o Nous do Pai, ou antes o próprio Pai, visto que Ele é Nous e perfeito em todas as coisas, ter produzido o seu próprio Logos como um Éon imperfeito e cego, quando Ele também poderia ter produzido juntamente com ele o conhecimento do Pai? Assim como afirmais que Cristo foi gerado depois dos demais, e contudo declarais que ele foi produzido perfeito, muito mais então deveria Logos, que é anterior a ele em idade, ser produzido pelo mesmo Nous, sem dúvida perfeito, e não cego; nem poderia ele, novamente, ter produzido Éons ainda mais cegos do que ele mesmo, até que por fim vossa Sophia, sempre inteiramente cega, desse à luz tão vasto corpo de males. E vosso Pai é a causa de todo este dano; pois declarais a magnitude e o poder de vosso Pai como as causas da ignorância, assimilando-O ao Bythus, e atribuindo este nome Àquele que é o Pai inominável. Mas se a ignorância é um mal, e declarais que todos os males derivaram dela a sua força, enquanto sustentais que a grandeza e o poder do Pai é a causa desta ignorância, então O apresentais como o autor de [todos] os males. Pois estabeleceis como causa do mal este fato: que [ninguém] podia contemplar a Sua grandeza. Mas se era realmente impossível que o Pai Se fizesse conhecer desde o princípio àqueles [seres] que foram por Ele formados, Ele deve nesse caso ser tido como isento de culpa, na medida em que não podia remover a ignorância daqueles que vieram depois Dele. Mas se, em um período subsequente, quando Ele assim o quis, pôde tirar aquela ignorância que havia crescido com as produções sucessivas à medida que elas se seguiam umas às outras, e assim tornar-se profundamente arraigada nos Éons, muito mais, se assim o quisesse, poderia Ele anteriormente ter impedido que aquela ignorância, que ainda não existia, viesse à existência.
Capítulo XVII.—Investigação sobre a geração dos Éons: qualquer que seja a sua suposta natureza, ela é em todos os aspectos inconsistente;…
Visto, portanto, que, assim que Ele o quis, Se fez conhecer não somente aos Éons, mas também a estes homens que viveram nestes últimos tempos; mas, como não quis ser conhecido desde o princípio, permaneceu desconhecido — a causa da ignorância é, segundo vós, a vontade do Pai. Pois se Ele previu que estas coisas aconteceriam no futuro de tal maneira, por que então não resguardou a ignorância destes seres antes que ela obtivesse lugar entre eles, em vez de, depois, como que sob a influência de arrependimento, tratá-la através da produção de Cristo? Pois o conhecimento que através de Cristo Ele comunicou a todos, poderia muito antes ter comunicado através do Logos, que também era o primogênito do Monógenes. Ou se, conhecendo-as de antemão, Ele quis que estas coisas acontecessem [como aconteceram], então as obras da ignorância devem durar para sempre, e jamais passar. Pois as coisas que foram feitas de acordo com a vontade do vosso Propator devem continuar juntamente com a vontade dAquele que as quis; ou, se passarem, a vontade dAquele também que decretou que elas tivessem ser passará juntamente com elas. E por que encontraram os Éons descanso e alcançaram conhecimento perfeito ao aprenderem [por fim] que o Pai é totalmente incompreensível? Poderiam certamente ter possuído este conhecimento antes de se envolverem na paixão; pois a grandeza do Pai não sofreu diminuição desde o princípio, de modo que pudessem saber que Ele era totalmente incompreensível. Pois se, por causa da Sua infinita grandeza, Ele permaneceu desconhecido, também por causa do Seu infinito amor deveria ter preservado impassíveis aqueles que foram por Ele produzidos, visto que nada obstava, e a conveniência antes requeria, que tivessem sabido desde o princípio que o Pai era totalmente incompreensível.
Capítulo XVIII.—Sophia nunca esteve realmente em ignorância ou paixão; sua Enthymesis não poderia ter sido separada de si mesma, nem exibido tendências próprias.
1. Como se pode deixar de considerar absurdo que eles afirmem também que esta Sophia (Sabedoria) esteve envolvida em ignorância, degeneração e paixão? Porque estas coisas são alheias e contrárias à sabedoria, e jamais podem ser qualidades que lhe pertençam. Pois onde há falta de previdência e ignorância do que é útil, aí não existe sabedoria. Portanto, não chamem mais este Éon sofredor de Sophia, mas renunciem ou ao seu nome ou aos seus sofrimentos. E, além disso, não chamem todo o seu Pleroma de espiritual, se este Éon tinha lugar dentro dele quando estava envolvido em tal tumulto de paixão. Porque mesmo uma alma vigorosa, para não dizer uma substância espiritual, não passaria por semelhante experiência.
2. E, ainda, como poderia a sua Enthymesis, saindo [dela] juntamente com a paixão, ter-se tornado uma existência separada? Porque Enthymesis (pensamento) é entendida em conexão com alguma pessoa, e jamais pode ter uma existência isolada por si mesma. Pois uma má Enthymesis é destruída e absorvida por uma boa, assim como um estado de doença o é pela saúde. Qual era, então, a espécie de Enthymesis que precedeu a da paixão? [Era esta]: investigar a [natureza do] Pai e considerar a Sua grandeza. Mas do que foi ela depois persuadida, e assim restaurada à saúde? [Isto é]: que o Pai é incompreensível e que é impossível achá-lO. Não foi, portanto, um sentimento próprio querer ela conhecer o Pai, e por isso se tornou passível; mas quando foi persuadida de que Ele é inescrutável, foi restaurada à saúde. E o próprio Nous, que inquiria a [natureza do] Pai, cessou, segundo eles, de continuar suas pesquisas ao saber que o Pai é incompreensível.
3. Como, então, poderia a Enthymesis conceber separadamente paixões, que eram também suas afeições? Porque a afeição está necessariamente ligada a um indivíduo: não pode vir a ser ou existir apartada por si mesma. Esta opinião [deles], porém, não é apenas insustentável, mas também contrária ao que foi dito por Nosso Senhor: "Buscai, e achareis." Porque o Senhor aperfeiçoa Seus discípulos pelo seu buscar e achar o Pai; mas aquele Cristo deles, que está acima, os aperfeiçoou pelo fato de ter ordenado aos Éons que não buscassem o Pai, persuadindo-os de que, ainda que se esforçassem muito, não O achariam. E eles declaram que eles mesmos são perfeitos, pelo fato de afirmarem que acharam o seu Bythus; enquanto os Éons [foram aperfeiçoados] por meio disto: que é inescrutável Aquele que foi por eles inquirido.
4. Visto, portanto, que a própria Enthymesis não podia existir separadamente, apartada do Éon, [é óbvio que] eles apresentam uma falsidade ainda maior acerca da sua paixão, quando procedem a dividi-la e separá-la dela, enquanto declaram que ela era a substância da matéria. Como se Deus não fosse luz, e como se não existisse Verbo que os pudesse convencer e derrubar a sua malícia. Porque é certamente verdade que tudo o que o Éon pensava, isso também sofria; e o que sofria, isso também pensava. E a sua Enthymesis não era, segundo eles, senão a paixão de alguém que pensava como poderia compreender o incompreensível. E assim a Enthymesis (pensamento) era a paixão; porque ela pensava coisas impossíveis. Como, então, poderiam a afeição e a paixão ser separadas e postas de lado da Enthymesis, de modo a se tornarem a substância de uma tão vasta criação material, se a própria Enthymesis era a paixão, e a paixão a Enthymesis? Nem, portanto, a Enthymesis apartada do Éon, nem as afeições apartadas da Enthymesis, podem possuir substância separadamente; e assim, mais uma vez, o seu sistema se desmorona e é destruído.
5. Mas como veio a acontecer que o Éon foi tanto dissolvido [em suas partes componentes] e se tornou sujeito à paixão? Ele era, sem dúvida, da mesma substância que o Pleroma; mas todo o Pleroma era do Pai. Ora, qualquer substância, quando posta em contato com o que é de natureza semelhante, não será dissolvida em nada, nem estará em perigo de perecer, mas antes continuará e aumentará, como fogo no fogo, espírito no espírito e água na água; mas aquelas que são de natureza contrária entre si sofrem, [quando se encontram], mudam e são destruídas. E, de modo semelhante, se houvesse uma produção de luz, ela não sofreria paixão nem incorreria em perigo na luz semelhante a si, antes brilharia com maior esplendor e aumentaria, como o dia [cresce] do [crescente brilho] do sol; porque eles sustentam que o próprio Bythus era a imagem de seu pai (Sophia). Quaisquer animais que são alheios [em hábitos] e estranhos uns aos outros, ou são mutuamente opostos em natureza, caem em perigo [ao se encontrarem] e são destruídos; enquanto, por outro lado, aqueles que estão acostumados uns aos outros e de disposição harmoniosa não sofrem perigo por estarem juntos no mesmo lugar, antes obtêm tanto segurança como vida por tal fato. Se, portanto, este Éon foi produzido pelo Pleroma da mesma substância que todo ele, nunca poderia ter sofrido mudança, pois estava consorciado com seres semelhantes e familiares a si mesmo, uma essência espiritual entre aqueles que eram espirituais. Pois o medo, o terror, a paixão, a dissolução e coisas semelhantes podem talvez ocorrer pela luta de contrários entre seres como nós, que possuímos corpos; mas entre seres espirituais e aqueles que têm a luz difundida entre eles, tais calamidades não podem de modo algum acontecer. Mas estes homens me parecem ter dotado o seu Éon da [mesma espécie de] paixão que pertence àquele personagem do poeta cômico Menandro, que estava profundamente apaixonado, mas era objeto de ódio [de sua amada]. Porque aqueles que inventaram tais opiniões tiveram antes uma ideia e concepção mental de algum amante infeliz entre os homens, do que de uma substância espiritual e divina.
6. Além disso, meditar como pesquisar a [natureza do] Pai perfeito, e ter o desejo de existir dentro dEle, e ter uma compreensão da Sua [grandeza], não poderia acarretar a mancha da ignorância ou da paixão, e isso para um Éon espiritual; antes daria origem à perfeição, impassibilidade e verdade. Porque eles não dizem que mesmo eles, embora sejam homens, meditando nAquele que foi antes deles — e enquanto agora, por assim dizer, compreendem o perfeito e são colocados dentro do conhecimento dEle — estão assim envolvidos numa paixão de perplexidade, antes alcançam o conhecimento e a apreensão da verdade. Pois afirmam que o Salvador disse: "Buscai, e achareis", a Seus discípulos com este propósito: que buscassem Aquele que, por meio da imaginação, foi por eles concebido como estando acima do Fazedor de todas as coisas — o inefável Bythus; e desejam ser considerados "os perfeitos", porque buscaram e acharam o Perfeito, estando ainda na terra. No entanto, declaram que aquele Éon que estava dentro do Pleroma, um ser inteiramente espiritual, buscando o Propator, esforçando-se por encontrar um lugar dentro da Sua grandeza e desejando ter uma compreensão da verdade do Pai, caiu na [suportação da] paixão, e numa tal paixão que, se não tivesse encontrado aquele Poder que sustenta todas as coisas, teria sido dissolvido na substância geral [dos Éons], e assim teria chegado ao fim da sua existência [pessoal].
7. Absurda é tal presunção, e verdadeiramente uma opinião de homens inteiramente destituídos da verdade. Porque, que este Éon é superior a eles e de maior antiguidade, eles mesmos reconhecem, segundo o seu próprio sistema, quando afirmam que eles são fruto da Enthymesis daquele Éon que sofreu paixão, de modo que este Éon é o pai de sua mãe, isto é, seu próprio avô. E para eles, os netos posteriores, a busca do Pai traz, como sustentam, verdade, perfeição, estabelecimento, libertação da matéria instável e reconciliação com o Pai; mas para o seu avô esta mesma busca acarretou ignorância, paixão, terror e perplexidade, das quais [perturbações] também declaram que foi formada a substância da matéria. Dizer, portanto, que a busca e investigação do Pai perfeito, e o desejo de comunhão e união com Ele, eram coisas bastante benéficas para eles, mas para um Éon, do qual também eles derivam a sua origem, estas coisas foram a causa de dissolução e destruição, como podem tais afirmações ser vistas de outra forma senão como totalmente inconsistentes, tolas e irracionais? Aqueles também que ouvem estes mestres, verdadeiramente cegam a si mesmos, enquanto possuem guias cegos, justamente [são deixados a] cair com eles no abismo de ignorância que está abaixo deles.
Capítulo XIX.—Absurdidades dos hereges quanto à sua própria origem: suas opiniões a respeito do Demiurgo mostram-se igualmente insustentáveis e ridículas.
1. Mas que espécie de discurso é também este a respeito da sua semente — que foi concebida pela mãe segundo a configuração daqueles anjos que assistem ao Salvador, informe, sem figura e imperfeita; e que foi depositada no Demiurgo sem o seu conhecimento, a fim de que, por meio dele, atingisse a perfeição e a forma naquela alma que ele tinha, [por assim dizer,] cheia de semente? Isto é afirmar, em primeiro lugar, que aqueles anjos que assistem ao seu Salvador são imperfeitos, e sem figura ou forma; se é verdade que aquilo que foi concebido segundo a sua aparência foi gerado como um ser de tal espécie [como foi descrito].
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Depois, quanto ao que dizem, que o Criador ignorava aquele depósito de semente que nele se fez, e, novamente, aquela comunicação de semente que por ele foi feita ao homem, as suas palavras são fúteis e vãs, e de modo algum suscetíveis de prova. Pois como poderia ele ter ignorado isso, se aquela semente possuísse alguma substância e propriedades peculiares? Se, por outro lado, era sem substância e sem qualidade, e assim não era realmente nada, então, como é natural, ele a ignorava. Pois aquelas coisas que têm um certo movimento próprio e qualidade, seja de calor, ou rapidez, ou doçura, ou que diferem de outras em brilho, não escapam ao conhecimento nem mesmo dos homens, visto que se misturam na esfera da ação humana: muito menos podem [ser escondidas] de Deus, o Criador deste universo. Com razão, porém, [se diz que] a sua semente não era conhecida por Ele, visto que é sem qualidade de utilidade geral, e sem a substância necessária para qualquer ação, e é, de fato, uma pura não-entidade. Parece-me verdadeiramente que, tendo em vista tais opiniões, o Senhor se expressou assim: “Mas eu vos digo que de toda palavra ociosa que os homens disserem, darão conta no dia do juízo.” Pois todos os mestres de caráter semelhante a estes, que enchem os ouvidos dos homens com conversa ociosa, quando estiverem diante do tribunal do juízo, darão conta daquelas coisas que vãmente imaginaram e falsamente proferiram contra o Senhor, procedendo, como procederam, a tal altura de audácia que declaram de si mesmos que, por causa da substância da sua semente, conhecem o Pleroma espiritual, porque aquele homem que habita interiormente lhes revela o verdadeiro Pai; pois a natureza animal necessitava ser disciplinada por meio dos sentidos. Mas [sustentam] que o Demiurgo, embora recebendo em si mesmo toda esta semente, por ter sido depositada nele pela Mãe, permaneceu completamente ignorante de todas as coisas, e não tinha entendimento de nada relacionado com o Pleroma.
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E que eles são os verdadeiramente “espirituais”, porquanto uma certa partícula do Pai do universo foi depositada nas suas almas, visto que, segundo as suas afirmações, eles têm almas formadas da mesma substância que o próprio Demiurgo, contudo ele, embora tendo recebido da Mãe, de uma vez por todas, toda [a divina] semente, e a possuísse em si mesmo, permaneceu de natureza animal, e não tinha o menor entendimento das coisas que estão acima, coisas estas que eles se vangloriam de entender, enquanto ainda estão na terra; — isto não coroa toda a possível absurdez? Pois imaginar que a mesma semente transmitiu conhecimento e perfeição às almas destes homens, enquanto deu origem apenas à ignorância no Deus que os fez, é uma opinião que só pode ser mantida por aqueles que estão completamente frenéticos e totalmente desprovidos de senso comum.
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Além disso, é também coisa absurdíssima e infundada dizerem que a semente, por ter sido assim depositada, foi reduzida a forma e aumentada, e assim foi preparada para toda a recepção da racionalidade perfeita. Pois haverá nela uma mistura de matéria — aquela substância que eles sustentam ter sido derivada da ignorância e do defeito; [e isto se provará] mais apto e útil do que a luz do seu Pai, se é verdade que, quando nascida segundo a contemplação daquela [luz], era sem forma ou figura, mas derivou desta [matéria] forma, aparência, aumento e perfeição. Pois se aquela luz que procede do Pleroma foi a causa para um ser espiritual de possuir nem forma, nem aparência, nem a sua própria magnitude especial, enquanto a sua descida a este mundo acrescentou-lhe todas estas coisas e a levou à perfeição, então uma estada aqui (a que também chamam trevas) pareceria muito mais eficaz e útil do que a luz do seu Pai. Mas como pode ser considerado senão ridículo afirmar que a sua mãe correu o risco de ser quase extinta na matéria, e esteve quase a ponto de ser destruída por ela, se não tivesse então, com dificuldade, se estirado para fora e saltado, [por assim dizer,] para fora de si mesma, recebendo assistência do Pai; mas que a sua semente aumentou nesta mesma matéria, e recebeu uma forma, e foi feita apta para a recepção da racionalidade perfeita; e isto, ainda, “borbulhando” entre substâncias dessemelhantes e não familiares a si mesma, segundo a sua própria declaração de que o terreno é oposto ao espiritual, e o espiritual ao terreno? Como poderia, então, “uma pequena partícula”, como dizem, aumentar, e receber forma, e alcançar perfeição, no meio de substâncias contrárias e não familiares a si mesma?
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Mas além disso, e em acréscimo ao que foi dito, ocorre a questão: Sua mãe, quando contemplou os anjos, produziu a semente toda de uma vez, ou uma a uma [em sucessão]? Se ela produziu o todo simultaneamente e de uma vez, o que foi assim produzido não pode agora ser de caráter infantil: a sua descida, portanto, naqueles homens que agora existem deve ser supérflua. Mas se uma a uma, então ela não formou a sua conceção segundo a figura daqueles anjos que ela contemplou; pois, contemplando-os todos juntos e de uma vez por todas, de modo a conceber por meio deles, ela deveria ter produzido de uma vez por todas a prole daqueles de cujas formas ela havia concebido de uma vez por todas.