Padres e clássicosSanto Ireneu de Lião, Contra as Heresias, VI, 41

Busca integral no Premium. Criar conta

Obra patrística

Contra as Heresias

Santo Ireneu de Lião · c. 130–202

VI, 41–VII, 13

Capítulo XL.—Um só e mesmo Deus Pai inflige castigo aos reprovados e concede recompensas aos eleitos.

1. É portanto um e o mesmo Deus Pai aquele que preparou bens consigo mesmo para os que desejam a sua comunhão e permanecem sujeitos a Ele; e que tem o fogo eterno para o chefe da apostasia, o diabo, e para os que com ele se revoltaram, no qual [fogo] o Senhor declarou que serão enviados aqueles homens que foram separados por si mesmos à sua esquerda. E isto é o que foi dito pelo profeta: “Eu sou um Deus zeloso, que faço paz e crio os males”; fazendo assim paz e amizade com os que se arrependem e se voltam para Ele, e trazendo-os à unidade, mas preparando para os impenitentes, os que fogem da luz, fogo eterno e trevas exteriores, que são males, na verdade, para aquelas pessoas que neles caem.

2. Se, porém, fosse verdadeiramente um Pai aquele que concede o repouso, e outro Deus aquele que preparou o fogo, os seus filhos seriam igualmente diferentes [um do outro]; um, na verdade, enviando [os homens] ao reino do Pai, mas o outro ao fogo eterno. Mas porquanto um e o mesmo Senhor indicou que todo o gênero humano será dividido no juízo, “como o pastor divide as ovelhas dos cabritos”, e que a alguns dirá: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino que vos está preparado”, mas a outros: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que meu Pai preparou para o diabo e seus anjos”, um e o mesmo Pai é manifestamente declarado [nesta passagem], “fazendo paz e criando os males”, preparando coisas adequadas para ambos; assim como também há um só Juiz enviando ambos ao lugar adequado, como o Senhor expõe na parábola do joio e do trigo, onde diz: “Assim como o joio se colhe e se queima no fogo, assim será na consumação do mundo. O Filho do homem enviará os seus anjos, e colherão do seu reino tudo o que ofende e os que obram iniqüidade, e os lançarão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai.” Portanto, o Pai, que preparou o reino para os justos, no qual o Filho recebeu os que dele são dignos, é Aquele que também preparou a fornalha de fogo, na qual estes anjos, comissionados pelo Filho do homem, enviarão aquelas pessoas que o merecem, segundo o mandamento de Deus.

3. O Senhor, na verdade, semeou boa semente no seu próprio campo; e diz: “O campo é o mundo.” Mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo e “semeou joio no meio do trigo e retirou-se”. Daí aprendemos que este era o anjo apóstata e o inimigo, porque invejava a obra de Deus e empreendeu tornar esta [obra] inimiga de Deus. Por esta causa também Deus baniu da sua presença aquele que espontaneamente semeou o joio às escondidas, isto é, aquele que provocou a transgressão; mas compadeceu-se do homem, que, por falta de cuidado, sem dúvida, mas ainda assim maliciosamente [da parte do outro], se envolveu na desobediência; e converteu a inimizade pela qual [o diabo] intentara fazer do [homem] inimigo de Deus contra o autor dela, removendo a sua própria ira do homem, desviando-a para outra direção e enviando-a, em vez disso, sobre a serpente. Como também nos diz a Escritura que Deus disse à serpente: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente. Ela te quebrará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” E o Senhor recapitulou em si mesmo esta inimizade, quando se fez homem de uma mulher e pisou a cabeça dele [da serpente], como apontei no livro anterior.

Capítulo XLI.—Aquelas pessoas que não creem em Deus, mas que são desobedientes, são anjos e filhos do diabo, não por natureza, mas por imitação.…

1. Visto que o Senhor disse que há certos anjos [a saber, os] do diabo, para quem está preparado o fogo eterno; e como, ainda, declara a respeito do joio: “O joio são os filhos do maligno”, cumpre afirmar que atribuiu todos os que são da apostasia àquele que é o chefe desta transgressão. Mas não fez nem anjos nem homens assim por natureza. Pois não achamos que o diabo tenha criado coisa alguma, visto que ele mesmo é uma criatura de Deus, como os outros anjos. Porque Deus fez todas as coisas, como também Davi diz a respeito de todas as coisas semelhantes: “Pois falou, e foram feitos; mandou, e foram criados.”

2. Portanto, sendo todas as coisas feitas por Deus, e tendo o diabo se tornado causa de apostasia para si e para outros, com justiça a Escritura sempre chama aqueles que permanecem em estado de apostasia de “filhos do diabo” e “anjos do maligno”. Porque [a palavra] “filho”, como observou alguém antes de mim, tem duplo sentido: um [é filho] na ordem da natureza, porque nasceu filho; o outro, por ter sido feito assim, é tido como filho, embora haja diferença entre nascer assim e ser feito assim. Pois o primeiro é, na verdade, nascido da pessoa referida; mas o segundo é feito por ela, seja quanto à sua criação, seja pelo ensino de sua doutrina. Porque quando alguém é ensinado pela boca de outrem, é chamado filho daquele que o instrui, e este [é chamado] seu pai. Segundo a natureza, pois — isto é, segundo a criação, por assim dizer — todos somos filhos de Deus, porque todos fomos criados por Deus. Mas quanto à obediência e à doutrina, não somos todos filhos de Deus; somente o são aqueles que creem nEle e fazem a Sua vontade. E os que não creem e não obedecem à Sua vontade são filhos e anjos do diabo, porque fazem as obras do diabo. E que assim é, declarou Ele em Isaías: “Criei filhos e os engrandecei; mas eles se rebelaram contra Mim.” E ainda, onde diz que estes filhos são estranhos: “Filhos estranhos mentiram a Mim.” Segundo a natureza, pois, são [Seus] filhos, porque foram criados assim; mas quanto às suas obras, não são Seus filhos.

3. Pois como, entre os homens, aqueles filhos que desobedecem a seus pais, sendo deserdados, ainda são seus filhos no curso da natureza, mas pela lei são deserdados, porque não se tornam herdeiros de seus pais naturais; assim também é com Deus: aqueles que Lhe desobedecem, sendo por Ele deserdados, cessam de ser Seus filhos. Por isso não podem receber a Sua herança, como diz Davi: “Alienaram-se os ímpios desde a madre; a sua ira é semelhante à da serpente.” E, portanto, o Senhor chamou aqueles que sabia serem descendência de homens de “geração de víboras”, porque, à maneira destes animais, andam com astúcia e prejudicam os outros. Pois disse: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.” Falando também de Herodes, diz: “Ide e dizei àquela raposa”, visando à sua má astúcia e engano. Pelo que o profeta Davi diz: “O homem, posto em honra, é feito semelhante aos brutos.” E Jeremias outra vez diz: “Fizeram-se como cavalos, furiosos por fêmeas; cada um relinchava pela mulher do seu próximo.” E Isaías, quando pregava na Judeia e disputava com Israel, chamou-os de “príncipes de Sodoma” e “povo de Gomorra”, significando que eram semelhantes aos sodomitas na maldade e que o mesmo tipo de pecados grassava entre eles, chamando-os pelo mesmo nome, por causa da semelhança de sua conduta. E porque não foram por natureza assim criados por Deus, mas tinham poder também para agir retamente, o mesmo profeta lhes disse, dando-lhes bom conselho: “Lavai-vos, purificai-vos; tirai a maldade de vossas ações de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal.” Assim, sem dúvida, visto que haviam transgredido e pecado da mesma maneira, receberam a mesma repreensão que os sodomitas. Mas quando se convertessem, viessem ao arrependimento e cessassem do mal, teriam poder para se tornarem filhos de Deus e receberem a herança da imortalidade que é por Ele dada. Por esta razão, portanto, chamou de “anjos do diabo” e “filhos do maligno” aqueles que dão ouvidos ao diabo e fazem as suas obras. Estes, porém, são ao mesmo tempo todos criados por um só e mesmo Deus. Quando, contudo, creem e se sujeitam a Deus, e progridem e guardam a Sua doutrina, são filhos de Deus; mas quando apostataram e caíram em transgressão, são atribuídos ao seu chefe, o diabo — àquele que primeiro se tornou causa de apostasia para si e depois para os outros.

4. Visto que são numerosas as palavras do Senhor, e todas proclamam um só e mesmo Pai, o Criador deste mundo, convinha também a mim, por amor deles, refutar por muitos [argumentos] aqueles que estão envolvidos em muitos erros, para que, se porventura, sendo confundidos por muitas [provas], se convertam à verdade e sejam salvos. Mas é necessário acrescentar a esta composição, no que segue, também a doutrina de Paulo após as palavras do Senhor, para examinar a opinião deste homem, expor o apóstolo e explicar quaisquer [passagens] que tenham recebido outras interpretações dos hereges, que de todo entenderam mal o que Paulo falou, e apontar a insensatez de suas opiniões loucas; e demonstrar pelo mesmo Paulo, de cujos [escritos] eles nos pressionam com questões, que eles são, na verdade, proferidores de mentira, mas que o apóstolo foi pregador da verdade, e que ensinou todas as coisas concordes com a pregação da verdade; [para mostrar] que foi um só Deus Pai quem falou com Abraão, quem deu a lei, quem antes enviou os profetas, quem nos últimos tempos enviou o Seu Filho e conferiu salvação à Sua própria obra — isto é, à substância da carne. Arranjando, pois, noutro livro, o restante das palavras do Senhor, que Ele ensinou acerca do Pai não por parábolas, mas por expressões tomadas em seu sentido óbvio, e a exposição das Epístolas do bem-aventurado apóstolo, com o auxílio de Deus te fornecerei a obra completa da exposição e refutação da ciência falsamente chamada; exercitando assim a mim e a ti nestes cinco livros para apresentar oposição a todos os hereges.

Prefácio.

Nos quatro livros anteriores, meu caríssimo amigo, que a ti apresentei, todos os hereges foram desmascarados, e as suas doutrinas trazidas à luz, e refutados estes homens que conceberam opiniões ímpias. O que realizei aduzindo algo da doutrina peculiar a cada um destes homens, que deixaram em seus escritos, bem como usando argumentos de natureza mais geral, e a todos aplicáveis. Em seguida, apontei a verdade, e mostrei a pregação da Igreja, que os Profetas proclamaram (como já demonstrei), mas que Cristo aperfeiçoou, e os Apóstolos transmitiram, dos quais a Igreja, recebendo estas verdades, e sozinha em todo o mundo preservando-as na sua integridade (bene), as transmitiu a seus filhos. Em seguida — tendo resolvido todas as questões que os hereges nos propõem, e explicado a doutrina dos Apóstolos, e exposto claramente muitas daquelas coisas que foram ditas e feitas pelo Senhor em parábolas — esforçar-me-ei, neste quinto livro de toda a obra que trata da exposição e refutação da ciência falsamente chamada, por apresentar provas do restante da doutrina do Senhor e das epístolas apostólicas: cumprindo assim a tua demanda, como me pediste (pois fui designado um lugar no ministério da palavra); e, esforçando-me por todos os meios ao meu alcance para te fornecer amplo auxílio contra as contradições dos hereges, como também para recolher os errantes e convertê-los à Igreja de Deus, para confirmar ao mesmo tempo os ânimos dos neófitos, para que conservem firme a fé que receberam, guardada pela Igreja em sua integridade, a fim de que de modo algum sejam pervertidos por aqueles que se esforçam por ensinar-lhes falsas doutrinas e afastá-los da verdade. Incumbirá a ti, contudo, e a todos os que porventura lerem este escrito, examinar com grande atenção o que já disse, para que obtenhas conhecimento das matérias contra as quais argumento. Pois é assim que tu tanto as controverterás de modo legítimo, como estarás preparado para receber as provas aduzidas contra elas, lançando fora as suas doutrinas como imundície por meio da fé celeste; mas seguindo o único verdadeiro e firme Mestre, o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, por Seu amor transcendente, Se fez o que nós somos, para nos fazer ser mesmo o que Ele é.

Capítulo I.—Só Cristo é capaz de ensinar as coisas divinas e de nos redimir: Ele, o mesmo, tomou carne da Virgem Maria, não apenas em aparência, mas realmente, pela operação do…

Porque de nenhum outro modo poderíamos ter aprendido as coisas de Deus, a menos que nosso Mestre, existindo como o Verbo, se tivesse feito homem. Porque nenhum outro ser tinha o poder de nos revelar as coisas do Pai, senão o seu próprio Verbo. Pois que outra pessoa “conheceu o pensamento do Senhor”, ou quem mais “se fez seu conselheiro”? Outrossim, não poderíamos ter aprendido de outro modo senão vendo nosso Mestre, e ouvindo a sua voz com nossos próprios ouvidos, para que, feitos imitadores de suas obras e cumpridores de suas palavras, tenhamos comunhão com Ele, recebendo aumento daquele que é perfeito, e daquele que é anterior a toda a criação. Nós — que fomos criados recentemente pelo único ser bom e ótimo, por aquele também que tem o dom da imortalidade, tendo sido formados à sua semelhança (predestinados, segundo a presciência do Pai, para que nós, que ainda não existíamos, viéssemos a existir), e feitos primícias da criação — recebemos, nos tempos conhecidos de antemão, [os benefícios da salvação] segundo a ministração do Verbo, que é perfeito em todas as coisas, como o Verbo poderoso e verdadeiro homem, que, remindo-nos por seu próprio sangue de modo conforme à razão, se deu a si mesmo como redenção para aqueles que haviam sido levados ao cativeiro. E visto que a apostasia nos tiranizava injustamente, e, embora fôssemos por natureza propriedade do Deus onipotente, nos alienou contra a natureza, tornando-nos seus discípulos, o Verbo de Deus, poderoso em todas as coisas, e não deficiente quanto à sua própria justiça, voltou-se justamente contra aquela apostasia, e redimiu dela a sua própria propriedade, não por meios violentos, como a [apostasia] obtivera domínio sobre nós no princípio, quando insaciavelmente arrebatou o que não era seu, mas por meio de persuasão, como convinha a um Deus de conselho, que não usa meios violentos para obter o que deseja; de modo que nem a justiça fosse violada, nem a antiga obra das mãos de Deus perecesse. Tendo, pois, o Senhor assim nos remido por seu próprio sangue, dando a sua alma por nossas almas, e a sua carne por nossa carne, e tendo também derramado o Espírito do Pai para a união e comunhão de Deus e do homem, comunicando verdadeiramente Deus aos homens por meio do Espírito, e, por outro lado, unindo o homem a Deus por sua própria encarnação, e concedendo-nos na sua vinda a imortalidade duradoura e verdadeira, por meio da comunhão com Deus — caem por terra todas as doutrinas dos hereges.

Na verdade, vãos são aqueles que alegam que Ele apareceu em mera aparência. Pois estas coisas não foram feitas apenas em aparência, mas em realidade verdadeira. Ora, se Ele apareceu como homem, quando não era homem, também o Espírito Santo não teria repousado sobre Ele — acontecimento que realmente ocorreu —, pois o Espírito é invisível; nem, [nesse caso], havia nele algum grau de verdade, pois Ele não era aquilo que parecia ser. Mas já observei que Abraão e os outros profetas o viram de modo profético, predizendo em visão o que havia de acontecer. Se, pois, tal ser apareceu agora em semelhança exterior diferente do que era em realidade, houve uma certa visão profética feita aos homens; e outra vinda sua deve ser esperada, na qual Ele será tal como agora foi visto de modo profético. E já provei que é a mesma coisa dizer que Ele apareceu apenas em aparência exterior, e [afirmar] que Ele nada recebeu de Maria. Pois Ele não teria sido verdadeiramente alguém possuidor de carne e sangue, pelos quais nos remiu, a menos que tivesse recapitulado em si mesmo a antiga formação de Adão. Vãos, portanto, são os discípulos de Valentim que propõem esta opinião, a fim de excluírem a carne da salvação e rejeitarem o que Deus formou.

Vãos também são os ebionitas, que não recebem pela fé em sua alma a união de Deus e do homem, mas permanecem no velho fermento do [natural] nascimento, e não querem entender que o Espírito Santo veio sobre Maria, e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra: por onde também o que foi gerado é santo, e o Filho do Altíssimo Deus Pai de todos, que efetuou a encarnação deste ser, e manifestou uma [nova] geração; para que, assim como pela primeira geração herdamos a morte, assim por esta nova geração herdássemos a vida. Portanto, estes homens rejeitam a mistura do vinho celestial, e querem que seja apenas água do mundo, não recebendo a Deus para ter união com Ele, mas permanecem naquele Adão que foi vencido e expulso do Paraíso: não considerando que, assim como no princípio de nossa formação em Adão, aquele sopro de vida que procedeu de Deus, unido ao que havia sido formado, animou o homem e o manifestou como ser dotado de razão; assim também, nos [tempos do] fim, o Verbo do Pai e o Espírito de Deus, tendo-se unido à antiga substância da formação de Adão, tornaram o homem vivo e perfeito, capaz de receber o Pai perfeito, a fim de que, como no [Adão] natural todos estávamos mortos, assim no espiritual todos sejamos vivificados. Porque nunca em tempo algum Adão escapou das mãos de Deus, a quem o Pai, falando, disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” E por esta razão, nos últimos tempos (fine), não pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, mas pelo beneplácito do Pai, as suas mãos formaram um homem vivo, para que Adão fosse criado [de novo] à imagem e semelhança de Deus.

Capítulo II.—Quando Cristo nos visitou em Sua graça, não veio ao que não Lhe pertencia:…

1. E igualmente vãos são os que dizem que Deus veio àquilo que não Lhe pertencia, como se cobiçasse a propriedade alheia, a fim de entregar o homem, criado por outro, àquele Deus que nada fizera nem formara, e que também desde o princípio fora privado da Sua própria e devida formação de homens. A vinda, portanto, Daquele que estes homens representam como vindo às coisas de outrem, não foi justa; nem verdadeiramente nos remiu com o Seu próprio sangue, se não se fez realmente homem, restituindo à Sua própria obra o que dela se dissera no princípio, que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus; não arrebatando por ardil a propriedade alheia, mas tomando posse da Sua de modo justo e gracioso. Quanto à apostasia, na verdade, justamente nos reme dela pelo Seu sangue; mas quanto a nós, que fomos remidos, [fá-lo] graciosamente. Pois nada Lhe havíamos dado anteriormente, nem Ele alguma coisa deseja de nós, como se dela tivesse necessidade; mas nós é que necessitamos da comunhão com Ele. E por esta razão é que Ele graciosamente Se derramou, para nos recolher ao seio do Pai.

2. Mas vãos são em todo o respeito os que desprezam toda a economia de Deus, e negam a salvação da carne, e tratam com desprezo a sua regeneração, sustentando que ela não é capaz de incorrupção. Ora, se esta, na verdade, não alcança salvação, então nem o Senhor nos remiu com o Seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é a comunhão do Seu sangue, nem o pão que partimos é a comunhão do Seu corpo. Pois o sangue só pode provir de veias e de carne, e de tudo o mais que constitui a substância do homem, tal como o Verbo de Deus verdadeiramente Se fez. Pelo Seu próprio sangue nos remiu, como também o Seu apóstolo declara: «Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão dos pecados.» E, como somos membros Seus, somos também nutridos por meio da criação (e Ele mesmo nos concede a criação, porque faz nascer o Seu sol e envia a chuva quando quer). Ele reconheceu o cálice (que é uma parte da criação) como Seu próprio sangue, com o qual orvalha o nosso sangue; e o pão (também uma parte da criação) estabeleceu como Seu próprio corpo, do qual dá crescimento aos nossos corpos.

3. Quando, portanto, o cálice misturado e o pão fabricado recebem o Verbo de Deus, e se faz a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, pelas quais coisas a substância da nossa carne é aumentada e sustentada, como podem afirmar que a carne é incapaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, ela que é nutrida do corpo e do sangue do Senhor, e é membro Dele? — assim como o bem-aventurado Paulo declara na sua Epístola aos Efésios, que «somos membros do Seu corpo, da Sua carne e dos Seus ossos». Ele não diz estas palavras de algum homem espiritual e invisível, porque um espírito não tem ossos nem carne; mas refere-se àquela economia [pela qual o Senhor Se fez] homem verdadeiro, consistindo de carne, nervos e ossos — aquela [carne] que é nutrida pelo cálice que é o Seu sangue, e recebe aumento do pão que é o Seu corpo. E assim como uma vara da videira plantada na terra frutifica na sua estação, ou um grão de trigo caindo na terra e decompondo-se, ressuscita com multiplicado aumento pelo Espírito de Deus, que contém todas as coisas, e então, pela sabedoria de Deus, serve para o uso dos homens, e, tendo recebido o Verbo de Deus, se torna a Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo; assim também os nossos corpos, sendo nutridos por ela, e depositados na terra, e sofrendo ali decomposição, ressurgirão a seu tempo, concedendo-lhes o Verbo de Deus a ressurreição para a glória de Deus, o Pai, que gratuitamente dá a este mortal a imortalidade, e a este corruptível a incorrupção; porque a força de Deus se aperfeiçoa na fraqueza, para que nunca nos ensoberbeçamos, como se tivéssemos a vida de nós mesmos, e nos exaltemos contra Deus, tornando-se as nossas mentes ingratas; mas, aprendendo pela experiência que possuímos a duração eterna do poder excelente deste Ser, não da nossa própria natureza, nem desprezemos aquela glória que rodeia a Deus como Ele é, nem ignoremos a nossa própria natureza; mas que saibamos o que Deus pode efetuar, e que benefícios o homem recebe, e assim jamais nos desviemos da verdadeira compreensão das coisas como são, isto é, tanto no que diz respeito a Deus como no que diz respeito ao homem. E não poderia ser, talvez, como já observei, que para este fim Deus permitiu a nossa resolução no pó comum da mortalidade, para que, instruídos por todos os modos, sejamos precisos em todas as coisas para o futuro, não ignorando nem a Deus nem a nós mesmos?

Capítulo III.—O poder e a glória de Deus resplandecem na fraqueza da carne humana, pois Ele tornará nosso corpo participante da ressurreição e da imortalidade, embora o tenha…

1. Demais o Apóstolo Paulo mostrou, da maneira mais clara, que o homem foi entregue à sua própria fraqueza, a fim de que, exaltando-se, não caísse da verdade. Assim diz na segunda [Epístola] aos Coríntios: «E para que me não exaltasse pela grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear. E por três vezes roguei ao Senhor que se apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te a minha graça, porque a minha virtude se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, portanto, me gloriarei antes nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo.»

Que se segue, pois? (como alguns poderão exclamar) Quis o Senhor, nesse caso, que os Seus apóstolos fossem assim esbofeteados e que Ele padecesse tal fraqueza? Assim foi; a palavra o diz. Porque a virtude se aperfeiçoa na fraqueza, tornando melhor aquele que, por meio da sua enfermidade, conhece o poder de Deus. Pois como poderia o homem aprender que ele próprio é um ser fraco e mortal por natureza, mas que Deus é imortal e poderoso, se não tivesse aprendido pela experiência o que há num e noutro? Porque não há mal algum em aprender as próprias fraquezas pela paciência; antes, tem até o efeito benéfico de o impedir de formar opinião indevida sobre a sua própria natureza (non aberrare in natura sua). Mas exaltar-se contra Deus e apropriar-se da Sua glória, tornando o homem ingrato, trouxe-lhe muito mal. [E assim, digo eu, o homem deve aprender ambas as coisas pela experiência], para que não careça da verdade e do amor, nem para consigo mesmo nem para com o seu Criador. Mas a experiência de ambas confere-lhe o verdadeiro conhecimento de Deus e do homem, e aumenta o seu amor para com Deus. Ora, onde há aumento de amor, aí se opera maior glória pelo poder de Deus para aqueles que O amam.

2. Aqueles homens, portanto, deixam de lado o poder de Deus e não consideram o que a palavra declara, quando se detêm na fraqueza da carne, mas não levam em conta o poder d'Aquele que a levanta dos mortos. Porque, se Ele não vivifica o que é mortal, e não traz de novo o corruptível à incorrupção, não é Deus de poder. Mas que Ele é poderoso em todos estes aspectos, devemos percebê-lo desde a nossa origem, porquanto Deus, tomando pó da terra, formou o homem. E certamente é muito mais difícil e incrível, a partir de ossos, nervos, veias e todo o restante da organização do homem que não existiam, fazer com que tudo isto viesse a ser, e fazer do homem uma criatura animada e racional, do que reintegrar novamente o que já fora criado e depois se desfez em terra (pelas razões já mencionadas), tendo passado assim àqueles [elementos] dos quais o homem, que antes não existia, foi formado. Porque Aquele que no princípio fez existir quem ainda não era, quando Lhe aprouve, reintegrará muito mais aqueles que já existiram, quando for Sua vontade [que herdem] a vida por Ele concedida. E essa carne será também achada apta para receber o poder de Deus, e capaz dele, a qual no princípio recebeu os toques hábeis de Deus; de modo que uma parte se tornou olho para ver; outra, ouvido para ouvir; outra, mão para apalpar e trabalhar; outra, os nervos estendidos por toda parte e sustentando os membros; outra, artérias e veias, canais para o sangue e o ar; outra, os vários órgãos internos; outra, o sangue, que é o vínculo de união entre a alma e o corpo. Mas por que prosseguir [nesta linha]? Faltariam números para exprimir a multiplicidade de partes no corpo humano, o qual não foi feito de outro modo senão pela grande sabedoria de Deus. Mas as coisas que participam da habilidade e sabedoria de Deus participam também do Seu poder.

3. A carne, portanto, não é desprovida [da participação] na sabedoria construtiva e no poder de Deus. Mas se o poder d'Aquele que é o doador da vida se aperfeiçoa na fraqueza — isto é, na carne — informem-nos eles, quando sustentam a incapacidade da carne para receber a vida concedida por Deus, se dizem estas coisas como homens que neste momento estão vivos e participantes da vida, ou se reconhecem que, não tendo parte alguma na vida, estão neste momento mortos. E se estão realmente mortos, como é que se movem, falam e realizam essas outras funções que não são ações de mortos, mas de vivos? Mas se agora estão vivos, e se todo o seu corpo participa da vida, como ousam afirmar que a carne não é capaz de participar da vida, quando confessam que neste momento têm vida? É como se alguém pegasse numa esponja cheia de água, ou num archote aceso, e declarasse que a esponja não pode de modo algum participar da água, ou o archote, do fogo. Desta mesma maneira, aqueles homens, ao alegarem que estão vivos e que trazem a vida nos seus membros, contradizem-se depois, ao representarem esses membros como não sendo capazes de [receber] a vida. Ora, se a presente vida temporal, que é de natureza tão inferior à vida eterna, pode, no entanto, realizar tanto que vivifica os nossos membros mortais, por que não poderá a vida eterna, sendo muito mais poderosa do que esta, vivificar a carne, que já conviveu com a vida e se acostumou a sustentá-la? Porque o facto de a carne poder realmente participar da vida é demonstrado por estar viva; pois vive enquanto é propósito de Deus que assim viva. É manifesto, também, que Deus tem poder para lhe conferir vida, visto que concede vida a nós, que existimos. Portanto, visto que o Senhor tem poder para infundir vida no que Ele formou, e visto que a carne é capaz de ser vivificada, que resta para impedir que ela participe da incorrupção, que é uma vida bem-aventurada e sem fim concedida por Deus?

Capítulo IV.—Enganam-se aqueles que inventam outro Deus Pai além do Criador do mundo;…

Irineu de Lião, Contra os Heréticos, Livro IV

1. Aqueles que fingem a existência de outro Pai além do Criador, e que o chamam o Deus bom, enganam-se a si mesmos; pois o introduzem como um ser fraco, inútil e negligente, para não dizer malévolo e cheio de inveja, porquanto afirmam que os nossos corpos não são vivificados por ele. Quando, com efeito, dizem que as coisas que manifestamente a todos permanecem imortais, tais como o espírito e a alma, e outras semelhantes, são vivificadas pelo Pai, mas que outra coisa [a saber, o corpo] que não é vivificada de modo diverso senão por Deus lhe concedendo [a vida], é abandonada pela vida,—[devem confessar] que isto prova ser seu Pai fraco e impotente, ou então invejoso e malévolo. Pois se o Criador mesmo aqui vivifica os nossos corpos mortais, e lhes promete a ressurreição pelos profetas, como tenho demonstrado; quem [nesse caso] se mostra mais poderoso, mais forte, ou verdadeiramente bom? Será o Criador que vivifica o homem todo, ou será seu Pai, falsamente assim chamado? Ele finge ser o vivificador daquelas coisas que são imortais por natureza, às quais a vida está sempre presente pela sua própria natureza; mas não vivifica benevolamente aquelas coisas que necessitavam do seu auxílio, para que vivessem, mas as abandona negligentemente ao poder da morte. Será, pois, que seu Pai não concede vida a estas coisas quando tem poder para assim fazer, ou será que não possui o poder? Se, por uma parte, é porque não pode, ele é, nessa suposição, não um ser poderoso, nem mais perfeito que o Criador; pois o Criador concede, como devemos perceber, aquilo que ele é incapaz de oferecer. Mas se, por outra parte, [é que ele não concede isto] quando tem poder para assim fazer, então se prova não ser bom, mas invejoso e malévolo Pai.

2. Se, novamente, referem alguma causa pela qual seu Pai não imparte vida aos corpos, então essa causa necessariamente deve aparecer superior ao Pai, pois o impede do exercício de sua benevolência; e sua benevolência será assim provada fraca, por causa daquela causa que apontam. Ora, todos devem perceber que os corpos são capazes de receber vida. Pois vivem na medida em que Deus quer que vivam; e sendo assim, os [hereges] não podem manter que [estes corpos] sejam absolutamente incapazes de receber vida. Se, portanto, por causa da necessidade e de qualquer outra causa, aqueles [corpos] que são capazes de participar da vida não são vivificados, seu Pai será o escravo da necessidade e dessa causa, e não será, portanto, um agente livre, tendo a sua vontade sob o seu próprio domínio.

Capítulo VI.—Deus concederá a salvação a toda a natureza do homem, constituída de corpo e alma em íntima união, visto que o Verbo a assumiu, e adornada com os dons do Espírito…

1. Agora Deus será glorificado na obra de suas mãos, ajustando-a de modo a ser conforme e modelada segundo seu próprio Filho. Porque pelas mãos do Pai, isto é, pelo Filho e pelo Espírito Santo, o homem — e não [apenas] uma parte do homem — foi feito à semelhança de Deus. Ora, a alma e o espírito são certamente parte do homem, mas certamente não o homem; pois o homem perfeito consiste na mistura e união da alma que recebe o Espírito do Pai, e na mescla daquela natureza carnal que foi plasmada à imagem de Deus. Por esta razão declara o Apóstolo: “Falamos sabedoria entre os perfeitos”, chamando “perfeitos” àqueles que receberam o Espírito de Deus e que, pelo Espírito de Deus, falam em todas as línguas, como ele próprio também costumava falar. Semelhantemente, ouvimos também muitos irmãos na Igreja que possuem dons proféticos e que, pelo Espírito, falam toda sorte de línguas, e trazem à luz para o benefício comum as coisas ocultas dos homens, e declaram os mistérios de Deus, aos quais o Apóstolo também chama “espirituais”, sendo eles espirituais porque participam do Espírito, e não porque a sua carne tenha sido despojada e removida, e porque se tenham tornado puramente espirituais. Pois, se alguém tirar a substância da carne, isto é, da obra [de Deus], e entender aquilo que é puramente espiritual, tal não seria um homem espiritual, mas seria o espírito de um homem, ou o Espírito de Deus. Mas quando o espírito aqui misturado com a alma se une à obra [de Deus], o homem é tornado espiritual e perfeito por causa da efusão do Espírito, e este é aquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus. Se, porém, o Espírito faltar à alma, aquele que assim é é, na verdade, de natureza animal e, permanecendo carnal, será um ser imperfeito, possuindo decerto a imagem [de Deus] na sua formação (no plasmate), mas não recebendo a semelhança mediante o Espírito; e assim este ser é imperfeito. Assim também, se alguém tirar a imagem e puser de lado a obra, não poderá então entender isto como sendo um homem, mas como alguma parte de um homem, como já disse, ou como algo diferente de um homem. Pois aquela carne que foi plasmada não é em si um homem perfeito, mas o corpo de um homem e parte de um homem. Nem a alma, considerada à parte por si mesma, é o homem; mas é a alma de um homem e parte de um homem. Nem o espírito é um homem, pois é chamado espírito, e não homem; mas a mistura e união de todos estes constitui o homem perfeito. E por esta causa o Apóstolo, explicando-se, torna claro que o homem salvo é um homem completo, bem como espiritual; dizendo assim na primeira Epístola aos Tessalonicenses: “O mesmo Deus de paz vos santifique inteiramente; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” Ora, qual era o seu intuito ao suplicar que estes três — isto é, alma, corpo e espírito — sejam preservados para a vinda do Senhor, senão que ele conhecia a [futura] reintegração e união dos três, e [que deveriam ser herdeiros de] uma e mesma salvação? Por esta causa também declara que são “os perfeitos” aqueles que apresentam ao Senhor os três [componentes] sem ofensa. Aqueles, pois, são os perfeitos que tiveram o Espírito de Deus permanecendo neles, e preservaram as suas almas e corpos irrepreensíveis, mantendo firme a fé de Deus, isto é, aquela fé que é [dirigida] para Deus, e conservando relações justas para com os seus próximos.

2. Donde também diz que esta obra é “o templo de Deus”, declarando: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém, pois, profanar o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus é santo, o qual [templo] vós sois.” Aqui declara manifestamente que o corpo é o templo no qual o Espírito habita. Como também o Senhor fala a respeito de si mesmo: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei. Ele, porém, dizia isto”, está escrito, “do templo do seu corpo.” E não apenas reconhece (o Apóstolo) os nossos corpos como templo, mas até como templo de Cristo, dizendo assim aos Coríntios: “Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e fá-los-ei membros de uma meretriz?” Diz estas coisas não a respeito de algum outro homem espiritual; pois um ser de tal natureza nada teria a ver com uma meretriz; mas declara que “o nosso corpo”, isto é, a carne que permanece em santidade e pureza, são “os membros de Cristo”; mas que, quando se torna um com a meretriz, se torna membros de uma meretriz. E por esta razão disse: “Se alguém profanar o templo de Deus, Deus o destruirá.” Como, pois, não é a suprema blasfêmia alegar que o templo de Deus, no qual habita o Espírito do Pai, e os membros de Cristo, não participam da salvação, mas são reduzidos à perdição? Além disso, que os nossos corpos são ressuscitados não da sua própria substância, mas pelo poder de Deus, diz aos Coríntios: “Ora, o corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. E Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu próprio poder.”

Capítulo VII.—Visto que Cristo ressuscitou em nossa carne, segue-se que também nós seremos ressuscitados nela;…

Da mesma maneira, portanto, que Cristo ressuscitou na substância da carne, e mostrou a seus discípulos a marca dos cravos e a abertura no seu lado (ora estes são os sinais daquela carne que ressurgiu dos mortos), assim “também nos ressuscitará”, está dito, “pelo seu próprio poder”. E novamente aos Romanos diz: “Porém, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais.” Que são, então, os corpos mortais? Podem ser almas? Não, pois as almas são incorpóreas quando comparadas com os corpos mortais; porque Deus “soprou na face do homem o fôlego de vida, e o homem tornou-se alma vivente”. Ora, o fôlego de vida é uma coisa incorpórea. E certamente não podem sustentar que o próprio fôlego de vida seja mortal. Por isso Davi diz: “Minha alma também viverá para Ele,” como se sua substância fosse imortal. Nem, por outro lado, podem dizer que o espírito é o corpo mortal. Que resta, portanto, a que possamos aplicar o termo “corpo mortal”, senão à coisa que foi moldada, isto é, a carne, da qual também se diz que Deus a vivificará? Porque é esta que morre e se decompõe, mas não a alma ou o espírito. Pois morrer é perder o poder vital, e tornar-se daí em diante sem fôlego, inanimado e desprovido de movimento, e dissolver-se naqueles [componentes] dos quais também derivou o início de [sua] substância. Mas isto não acontece nem à alma, pois ela é o fôlego de vida; nem ao espírito, pois o espírito é simples e não composto, de modo que não pode ser decomposto, e é ele mesmo a vida daqueles que o recebem. Devemos, portanto, concluir que é com referência à carne que a morte é mencionada; a qual [carne], após a partida da alma, torna-se sem fôlego e inanimada, e se decompõe gradualmente na terra de onde foi tirada. Isto, então, é o que é mortal. E é disto que ele também diz: “Ele também vivificará os vossos corpos mortais.” E, portanto, referindo-se a isso, ele diz na primeira [Epístola] aos Coríntios: “Assim também é a ressurreição dos mortos: semeia-se em corrupção, levanta-se em incorrupção.” Pois declara: “O que tu semeias não pode ser vivificado, senão primeiro morrer.”

Mas o que é aquilo que, como um grão de trigo, é semeado na terra e apodrece, senão os corpos que são depositados na terra, nos quais também são lançadas as sementes? E por esta razão disse: “Semeia-se em desonra, levanta-se em glória.” Pois o que é mais ignóbil do que a carne morta? Ou, por outro lado, o que é mais glorioso do que a mesma quando se levanta e participa da incorrupção? “Semeia-se em fraqueza, é levantado em poder:” em sua própria fraqueza certamente, porque sendo terra, volta à terra; mas [é vivificado] pelo poder de Deus, que o levanta dentre os mortos. “Semeia-se corpo animal, levanta-se corpo espiritual.” Ele ensinou, sem qualquer dúvida, que tal linguagem não foi usada por ele, nem com referência à alma nem ao espírito, mas aos corpos que se tornaram cadáveres. Pois estes são corpos animais, isto é, [corpos] que participam da vida, a qual, quando perdem, sucumbem à morte; então, ressurgindo por meio do Espírito, tornam-se corpos espirituais, de modo que pelo Espírito possuem uma vida perpétua. “Porque agora,” diz ele, “conhecemos em parte, e profetizamos em parte, mas então face a face.” E isto é o que também foi dito por Pedro: “A quem, não tendo visto, amais; em quem agora também, não vendo, credes; e, crendo, vos alegrareis com gozo inefável.” Porque a nossa face verá a face do Senhor e se alegrará com gozo inefável — isto é, quando contemplar a sua própria Delícia.

Capítulo VIII.—Os dons do Espírito Santo que recebemos preparam-nos para a incorrupção, tornam-nos espirituais e separam-nos dos homens carnais.…

1. Porém recebemos agora uma certa porção do Seu Espírito, que tende à perfeição e nos prepara para a incorrupção, habituando-nos pouco a pouco a receber e a suportar a Deus; o que também o Apóstolo chama de "penhor", isto é, uma parte da honra que nos foi prometida por Deus, onde diz na Epístola aos Efésios: "No qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação, crendo no qual fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança." Portanto, este penhor, assim morando em nós, torna-nos espirituais já agora, e o mortal é absorvido pela imortalidade. "Porque vós", declara, "não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós." Isto, porém, não se dá por uma rejeição da carne, mas pela comunicação do Espírito. Pois aqueles a quem ele escrevia não eram sem carne, mas eram os que haviam recebido o Espírito de Deus, "pelo qual clamamos: Aba, Pai." Se, portanto, no tempo presente, tendo o penhor, clamamos "Aba, Pai", que será quando, ressuscitando, O virmos face a face; quando todos os membros irromperem num contínuo hino de triunfo, glorificando Àquele que os ressuscitou dentre os mortos e concedeu o dom da vida eterna? Pois se o penhor, recolhendo o homem em si mesmo, já agora o faz clamar "Aba, Pai", que efeito produzirá a graça plena do Espírito, que será dada aos homens por Deus? Ela nos tornará semelhantes a Ele e cumprirá a vontade do Pai; porque fará o homem à imagem e semelhança de Deus.

2. Portanto, aquelas pessoas que possuem o penhor do Espírito, e que não são escravizadas pelas concupiscências da carne, mas estão sujeitas ao Espírito, e que em todas as coisas andam segundo a luz da razão, o Apóstolo chama propriamente de "espirituais", porque o Espírito de Deus habita nelas. Ora, os homens espirituais não serão espíritos incorpóreos; mas a nossa substância, isto é, a união da carne e do espírito, recebendo o Espírito de Deus, constitui o homem espiritual. Mas aqueles que rejeitam o conselho do Espírito, e são escravos das concupiscências carnais, e vivem de modo contrário à razão, e que, sem freio, se lançam de cabeça nos seus próprios desejos, não tendo anelo pelo Espírito Divino, vivem à maneira de porcos e de cães; a estes homens, [digo], o Apóstolo chama muito propriamente de "carnais", porque não pensam em nada mais senão nas coisas carnais.

3. Pela mesma razão, também os profetas os comparam a animais irracionais, por causa da irracionalidade do seu procedimento, dizendo: "Tornaram-se como cavalos que se enfurecem pelas fêmeas; cada um deles relincha pela mulher do seu próximo." E ainda: "O homem, quando estava em honra, foi comparado aos animais." Isto denota que, por sua própria culpa, é assemelhado aos animais, ao rivalizar a sua vida irracional. E nós também, conforme o costume, designamos homens desta laia como gado e bestas irracionais.

4. Ora, a Lei predisse figuradamente todas estas coisas, delineando o homem pelos [vários] animais: tudo o que deles, diz [a Escritura], tem unha fendida e rumina, ela declara limpo; mas tudo o que deles não possui uma ou outra destas [propriedades], ela põe de lado como imundo. Quem são então os limpos? Aqueles que avançam pela fé firmemente para o Pai e o Filho; porque isto é significado pela firmeza dos que dividem a unha; e meditam dia e noite nas palavras de Deus, para serem adornados de boas obras: porque este é o significado dos ruminantes. Os imundos, porém, são os que nem dividem a unha nem ruminam; isto é, aquelas pessoas que não têm fé em Deus nem meditam nas Suas palavras: e tal é a abominação dos gentios. Mas quanto aos animais que ruminam, mas não têm a unha fendida, e são eles mesmos imundos, temos neles uma descrição figurada dos judeus, que certamente têm as palavras de Deus na sua boca, mas não fixam a sua firmeza enraizada no Pai e no Filho; por isso são uma geração instável. Porque os animais que têm a unha inteira facilmente escorregam; mas os que a têm dividida são mais seguros, pois as suas unhas fendidas se sucedem enquanto avançam, e uma unha sustenta a outra. Do mesmo modo, também são imundos os que têm a unha fendida mas não ruminam: isto é claramente uma indicação de todos os hereges, e daqueles que não meditam nas palavras de Deus, nem são adornados com obras de justiça; aos quais também o Senhor diz: "Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?" Porque homens desta laia dizem de fato que creem no Pai e no Filho, mas nunca meditam como devem nas coisas de Deus, nem são adornados com obras de justiça; mas, como já observei, adotaram a vida de porcos e de cães, entregando-se à imundície, à gula e a toda sorte de desregramento. Justamente, portanto, chamou o Apóstolo a todos estes de "carnais" e "animais" — [todos aqueles, a saber], que por sua própria incredulidade e luxúria não recebem o Espírito Divino, e nas suas várias fases expulsam de si mesmos o Verbo vivificante, e caminham estupidamente após suas próprias concupiscências; os profetas também falaram deles como bestas de carga e animais selvagens; o costume igualmente os considerou como gado e criaturas irracionais; e a Lei os declarou imundos.

Capítulo X.—Por uma comparação tirada da oliveira brava, cuja qualidade, mas não a natureza, é mudada pela enxertia, ele prova coisas mais importantes;…

Esta verdade, portanto, [declara ele], a fim de que não rejeitemos o enxerto do Espírito, enquanto mimamos a carne. “Mas tu, sendo oliveira brava”, diz ele, “foste enxertado na oliveira boa e feito partícipe da gordura da oliveira.” Assim como, portanto, quando a oliveira brava foi enxertada, se permanece na sua condição anterior, a saber, brava, é “cortada e lançada no fogo”; mas se recebe bem o enxerto e se transforma em oliveira boa, torna-se uma oliveira frutífera, plantada, por assim dizer, no jardim (paraíso) do rei: assim também os homens, se verdadeiramente progridem pela fé para coisas melhores, e recebem o Espírito de Deus, e produzem o fruto dele, serão espirituais, como plantados no paraíso de Deus. Mas se lançam fora o Espírito e permanecem na sua condição anterior, desejosos de ser da carne antes que do Espírito, então com toda a justiça se diz a respeito de homens desta têmpera: “Que a carne e o sangue não herdarão o reino de Deus”; assim como se alguém dissesse que a oliveira brava não é recebida no paraíso de Deus. Admiravelmente, portanto, o Apóstolo expõe a nossa natureza e a universal disposição de Deus no seu discurso acerca da carne e do sangue e da oliveira brava. Pois, assim como a oliveira boa, se negligenciada por algum tempo, se deixada crescer bravia e a tornar-se lenhosa, ela mesma se torna oliveira brava; ou, de novo, se a oliveira brava é tratada com cuidado e enxertada, naturalmente retorna à sua condição frutífera anterior: assim também os homens, quando se tornam descuidados e produzem por fruto as concupiscências da carne, como produções lenhosas, são tornados, por sua própria culpa, infrutíferos em justiça. Pois, enquanto os homens dormem, o inimigo semeia a matéria do joio; e por esta causa o Senhor mandou que os seus discípulos vigiassem. E, de novo, aquelas pessoas que não estão produzindo os frutos da justiça, e estão, por assim dizer, cobertas e perdidas entre os espinhos, se usam de diligência e recebem a palavra de Deus como um enxerto, chegam à natureza primitiva do homem — àquela que foi criada à imagem e semelhança de Deus.

2. Mas, assim como a oliveira brava enxertada certamente não perde a substância da sua madeira, mas muda a qualidade do seu fruto e recebe outro nome, sendo agora não oliveira brava, mas oliveira frutífera, e é assim chamada; assim também, quando o homem é enxertado pela fé e recebe o Espírito de Deus, certamente não perde a substância da carne, mas muda a qualidade do fruto [produzido, i.e., das suas obras], e recebe outro nome, mostrando que se tornou mudado para melhor, sendo agora não [mera] carne e sangue, mas homem espiritual, e é assim chamado. Então, de novo, como a oliveira brava, se não é enxertada, permanece inútil ao seu senhor por causa da sua qualidade lenhosa, e é cortada como árvore que não dá fruto, e lançada no fogo; assim também o homem, se não recebe pela fé o enxerto do Espírito, permanece na sua condição velha, e sendo [mera] carne e sangue, não pode herdar o reino de Deus. Retamente, portanto, declara o Apóstolo: “Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus”; e: “Os que estão na carne não podem agradar a Deus”: não repudiando [por estas palavras] a substância da carne, mas mostrando que nela deve ser infundido o Espírito. E por esta razão diz ele: “Este mortal deve revestir-se de imortalidade, e este corruptível deve revestir-se de incorrupção.” E de novo declara: “Mas vós não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.” Ele expõe isto ainda mais claramente onde diz: “O corpo, na verdade, está morto por causa do pecado; mas o Espírito é vida por causa da justiça. Porém, se o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos habitar em vós, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais, por causa do seu Espírito que habita em vós.” E de novo diz ele, na Epístola aos Romanos: “Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis.” [Agora, por estas palavras] ele não os proíbe de viverem as suas vidas na carne, pois ele mesmo estava na carne quando lhes escrevia; mas corta as concupiscências da carne, aquelas que trazem a morte ao homem. E por esta razão diz ele em continuação: “Mas se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.”

Capítulo XII.—Da diferença entre vida e morte; do sopro da vida e do Espírito vivificante: também como é que a substância da carne revive, a qual uma vez esteve morta.

1. Porque, assim como a carne é capaz de corrupção, assim o é também de incorrupção; e como é de morte, assim é também de vida. Estas duas cedem mutuamente uma à outra; e ambas não podem permanecer no mesmo lugar, mas uma é expulsa pela outra, e a presença de uma destrói a da outra. Se, pois, quando a morte se apodera de um homem, expulsa dele a vida e o demonstra morto, muito mais a vida, quando obtém poder sobre o homem, expulsa a morte e o restitui vivo para Deus. Porque, se a morte traz mortalidade, por que a vida, quando vem, não vivificaria o homem? Assim como diz o profeta Isaías: “A morte devorou quando prevaleceu.” E outra vez: “Deus enxugou toda lágrima de todo rosto.” Assim, aquela vida anterior é expulsa, porque não foi dada pelo Espírito, mas pelo sopro.

2. Porque uma coisa é o sopro de vida, que também fez o homem alma vivente, e outra é o Espírito vivificante, que também o fez tornar-se espiritual. E por esta razão disse Isaías: “Assim diz o Senhor, que fez o céu e o estabeleceu, que fundou a terra e as coisas que nela há, e deu sopro ao povo que está sobre ela, e Espírito aos que andam sobre ela”; dizendo-nos assim que o sopro é dado, na verdade, em comum a todo o povo sobre a terra, mas que o Espírito é só deles que pisam os desejos terrenos. E, portanto, o próprio Isaías, distinguindo as coisas já mencionadas, clama outra vez: “Porque o Espírito sairá de Mim, e Eu fiz todo o sopro.” Assim atribui o Espírito como peculiar a Deus, o qual nos últimos tempos derrama sobre o gênero humano pela adoção de filhos; mas [mostra] que o sopro era comum em toda a criação, e o aponta como algo criado. Ora, o que foi feito é coisa diferente d’Aquele que o faz. O sopro, pois, é temporal, mas o Espírito é eterno. O sopro também se fortalece por breve período e dura por certo tempo; depois disso, parte, deixando a sua antiga morada destituída de sopro. Mas, quando o Espírito penetra o homem por dentro e por fora, porquanto ali permanece, nunca o deixa. “Mas não é primeiro o que é espiritual”, diz o apóstolo, falando isto como que a respeito de nós, seres humanos; “mas primeiro é o que é animal, depois o que é espiritual”, conforme a razão. Porque havia necessidade de que, primeiramente, um ser humano fosse formado, e que o formado recebesse a alma; depois, que assim recebesse a comunhão do Espírito. Por isso também “o primeiro Adão foi feito” pelo Senhor “alma vivente, o segundo Adão espírito vivificante”. Assim, pois, como aquele que foi feito alma vivente perdeu a vida quando se desviou para o mal, assim, por outro lado, o mesmo indivíduo, quando se volta para o bem e recebe o Espírito vivificante, achará a vida.

3. Porque não é uma coisa que morre e outra que é vivificada, como também não é uma que se perde e outra que se acha, mas o Senhor veio buscar aquela mesma ovelha que se havia perdido. Que era, pois, o que estava morto? Sem dúvida, a substância da carne; a mesma, também, que havia perdido o sopro de vida e se tornara sem sopro e morta. Esta mesma, portanto, foi a que o Senhor veio vivificar, para que, assim como em Adão todos morremos, como sendo de natureza animal, em Cristo todos vivamos, como sendo espirituais, não depondo a obra das mãos de Deus, mas as concupiscências da carne, e recebendo o Espírito Santo; como diz o apóstolo na Epístola aos Colossenses: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra.” E quais são estes, ele mesmo o explica: “Fornicação, impureza, afeição desordenada, má concupiscência; e a avareza, que é idolatria.” A deposição destas é o que o apóstolo prega; e declara que os que tais coisas fazem, como sendo mera carne e sangue, não podem herdar o reino dos céus. Porque a sua alma, tendendo para o que é pior e descendo às concupiscências terrenas, se tornou participante na mesma designação que pertence a estas [concupiscências, viz. “terrenas”], as quais, quando o apóstolo nos manda depor, diz na mesma Epístola: “Despojai-vos do velho homem com os seus feitos.” Mas, ao dizer isto, não remove a antiga formação [do homem]; porque nesse caso nos seria necessário livrar-nos de sua companhia cometendo suicídio.

4. Mas o próprio apóstolo também, sendo alguém que fora formado num ventre e dali saíra, escreveu-nos e confessou na sua Epístola aos Filipenses que “viver na carne era o fruto do [seu] trabalho”; assim se expressando. Ora, o resultado final do trabalho do Espírito é a salvação da carne. Pois que outro fruto visível há do Espírito invisível, senão tornar a carne madura e capaz de incorrupção? Se, pois [diz ele], “viver na carne, isto é para mim o resultado do trabalho”, certamente não desprezou a substância da carne naquela passagem em que disse: “Despojai-vos do velho homem com as suas obras”; mas aponta que devemos depor a nossa anterior conversação, a que envelhece e se corrompe; e por esta razão prossegue: “E revesti-vos do novo homem, que se renova no conhecimento, segundo a imagem d’Aquele que o criou.” Nisto, pois, que diz: “que se renova no conhecimento”, demonstra que ele, o mesmo homem que esteve em ignorância nos tempos passados, isto é, em ignorância de Deus, é renovado por aquele conhecimento que a Ele respeita. Porque o conhecimento de Deus renova o homem. E quando diz: “segundo a imagem do Criador”, expõe a recapitulação do mesmo homem, que no princípio foi feito segundo a semelhança de Deus.

5. E que ele, o apóstolo, era a mesma pessoa que nascera do ventre, isto é, da antiga substância da carne, ele mesmo o declara na Epístola aos Gálatas: “Mas, quando aprouve a Deus, que me separou desde o ventre de minha mãe e me chamou pela sua graça, para revelar Seu Filho em mim, a fim de que eu O pregasse entre os gentios”, não foi, como já observei, uma pessoa que nascera do ventre, e outra que pregou o Evangelho do Filho de Deus; mas o mesmo indivíduo que antes era ignorante e perseguia a Igreja, quando lhe foi feita a revelação do céu e o Senhor falou com ele, como apontei no terceiro livro, pregou o Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, sendo a sua anterior ignorância expulsa pelo conhecimento subsequente; assim como os cegos que o Senhor curou perderam certamente a cegueira, mas receberam a substância de seus olhos perfeita e obtiveram o poder da visão nos mesmos olhos com que antes não viam; sendo apenas a escuridão expulsa pelo poder da visão, enquanto a substância dos olhos foi retida, para que, por meio daqueles olhos pelos quais não viam, exercendo novamente a faculdade visual, dessem graças Àquele que lhes restaurara a vista. E assim também aquele cuja mão ressequida foi curada, e todos os que foram curados em geral, não mudaram aquelas partes dos seus corpos que, ao nascerem, haviam saído do ventre, mas simplesmente as obtiveram de novo em condição sã.

6. Porque o Artífice de todas as coisas, o Verbo de Deus, que também desde o princípio formou o homem, quando achou a sua obra danificada pela maldade, realizou sobre ela toda sorte de cura. Umas vezes [fê-lo] quanto a cada membro separadamente, como se acha na sua própria obra; e outras vezes restaurou o homem são e inteiro em todos os pontos, preparando-o perfeito para Si mesmo para a ressurreição. Pois qual foi o Seu objetivo ao curar [diferentes] porções da carne e restaurá-las à sua condição original, se aquelas partes que por Ele foram curadas não estivessem em posição de obter salvação? Porque, se foi [meramente] um benefício temporário o que Ele conferiu, nada de importante concedeu àqueles que foram objeto da Sua cura. Ou como podem eles sustentar que a carne é incapaz de receber a vida que d’Ele flui, quando recebeu d’Ele a cura? Porque a vida é produzida mediante a cura, e a incorrupção mediante a vida. Aquele, portanto, que confere a cura, esse também confere a vida; e Aquele [que dá] a vida também reveste a sua própria obra de incorrupção.

Referência atual: Santo Ireneu de Lião, Contra as Heresias, VI, 41