Obra patrística
Contra as Heresias
Santo Ireneu de Lião · c. 130–202
III, 29, 3–III, 34
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 3
Se, portanto, mesmo com respeito à criação, há algumas coisas [cujo conhecimento] pertence somente a Deus, e outras que entram no âmbito do nosso próprio conhecimento, que fundamento há para queixa, se, quanto àquelas coisas que investigamos nas Escrituras (que são inteiramente espirituais), podemos pela graça de Deus explicar algumas delas, enquanto outras devemos deixar nas mãos de Deus, e isso não só no presente mundo, mas também no que há-de vir, de modo que Deus ensine para sempre, e o homem aprenda para sempre as coisas que lhe são ensinadas por Deus? Como disse o Apóstolo sobre este ponto, que, tendo sido abolidas outras coisas, então estas três, «fé, esperança e caridade, permanecerão». Porque a fé, que respeita ao nosso Mestre, permanece imutável, assegurando-nos que há um só Deus verdadeiro, e que devemos amá-Lo verdadeiramente para sempre, visto que só Ele é nosso Pai; enquanto esperamos estar sempre a receber mais e mais de Deus, e a aprender d’Ele, porque Ele é bom, e possui riquezas sem limites, um reino sem fim, e uma instrução que nunca pode esgotar-se. Se, portanto, segundo a regra que expus, deixarmos algumas questões nas mãos de Deus, conservaremos a nossa fé ilesa e continuaremos sem perigo; e toda a Escritura, que nos foi dada por Deus, será por nós achada perfeitamente coerente; e as parábolas harmonizar-se-ão com aquelas passagens que são perfeitamente claras; e aquelas afirmações cujo significado é claro servirão para explicar as parábolas; e através das muitas e diversificadas elocuções [da Escritura] ouvir-se-á em nós uma só melodia harmoniosa, louvando em hinos aquele Deus que criou todas as coisas. Se, por exemplo, alguém pergunta: «Que estava Deus a fazer antes de fazer o mundo?», respondemos que a resposta a tal questão está com o próprio Deus. Pois que este mundo foi formado perfeito por Deus, recebendo um princípio no tempo, ensinam-no as Escrituras; mas nenhuma Escritura nos revela com que estava Deus ocupado antes deste evento. A resposta, portanto, a essa questão permanece com Deus, e não nos convém intentar apresentar suposições loucas, temerárias e blasfemas [em resposta a ela]; de modo que, ao imaginar alguém que descobriu a origem da matéria, na realidade ponha de parte o próprio Deus que fez todas as coisas.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 4
Pois considerai, todos vós que inventais tais opiniões, visto que o próprio Pai é só chamado Deus, o qual tem existência real, mas a quem vós chamais Demirgo; visto, além disso, que as Escrituras só a Ele reconhecem como Deus; e ainda, visto que o Senhor confessa que só Ele é Seu próprio Pai, e não conhece outro, como mostrarei pelas Suas próprias palavras — quando chamais este mesmo Ser fruto do defeito e prole da ignorância, e O descreveis como ignorante das coisas que estão acima d’Ele, com as várias outras alegações que fazeis acerca d’Ele — considerai a terrível blasfémia [de que assim sois culpados] contra Aquele que verdadeiramente é Deus. Pareceis afirmar grave e honestamente que credes em Deus; mas então, como sois totalmente incapazes de revelar qualquer outro Deus, declarais este mesmo Ser em quem professais crer, fruto do defeito e prole da ignorância. Ora, esta cegueira e louco falar vos vêm do facto de não reservardes nada para Deus, mas desejais proclamar a natividade e produção do próprio Deus, da Sua Enéia, do Seu Logos, e Vida, e Cristo; e formais a ideia destes a partir de nenhuma outra coisa senão de uma mera experiência humana; não entendendo, como disse antes, que é possível, no caso do homem, que é um ser composto, falar deste modo da mente do homem e do pensamento do homem; e dizer que o pensamento (ennœa) brota da mente (sensus), a intenção (enthymesis) novamente do pensamento, e a palavra (logos) da intenção (mas que logos? porque há entre os Gregos um logos que é o princípio que pensa, e outro que é o instrumento pelo qual o pensamento é expresso); e [dizer] que um homem ora está em repouso e silêncio, enquanto outras vezes fala e age. Mas, visto que Deus é toda a mente, toda a razão, todo o espírito activo, toda a luz, e existe sempre um só e mesmo, como é benéfico para nós pensar de Deus, e como aprendemos acerca d’Ele pelas Escrituras, tais sentimentos e divisões [de operação] não podem adequadamente ser-Lhe atribuídas. Porque a nossa língua, sendo carnal, não é suficiente para ministrar à rapidez da mente humana, porquanto esta é de natureza espiritual, razão pela qual a nossa palavra é retida dentro de nós, e não é imediatamente expressa como foi concebida pela mente, mas é proferida por esforços sucessivos, conforme a língua a pode servir.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 5
Mas Deus, sendo toda a Mente e todo o Logos, fala exactamente o que pensa, e pensa exactamente o que fala. Porque o Seu pensamento é Logos, e Logos é Mente, e a Mente, que compreende todas as coisas, é o próprio Pai. Aquele, portanto, que fala da mente de Deus e lhe atribui uma origem especial própria, declara-O um Ser composto, como se Deus fosse uma coisa e a Mente original outra. Assim, novamente, com respeito ao Logos, quando alguém Lhe atribui o terceiro lugar de produção a partir do Pai; nessa suposição, ignora a Sua grandeza; e assim o Logos foi grandemente separado de Deus. Quanto ao profeta, ele declara acerca d’Ele: «Quem contará a Sua geração?» Mas vós pretendeis expor a Sua geração a partir do Pai, e transferis a produção da palavra dos homens, que se dá por meio da língua, para o Verbo de Deus, e assim sois justamente expostos por vós mesmos como não conhecendo nem as coisas humanas nem as divinas.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 6
Mas, inchados [com a vossa própria sabedoria] para além da razão, presumis arrogantemente que conheceis os inefáveis mistérios de Deus; enquanto o próprio Senhor, o Filho de Deus, permitiu que só o Pai soubesse o dia e a hora exactos do juízo, quando claramente declara: «Mas daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem o Filho, senão só o Pai.» Se, pois, o Filho não Se envergonhou de atribuir o conhecimento daquele dia somente ao Pai, mas declarou o que era verdade a respeito do assunto, não nos envergonhemos nós também de reservar para Deus aquelas questões maiores que possam ocorrer-nos. Pois ninguém é superior ao seu mestre. Se alguém, portanto, nos diz: «Como foi então o Filho produzido pelo Pai?», respondemos-lhe que nenhum homem entende aquela produção, ou geração, ou chamamento, ou revelação, ou por qualquer nome que se descreva a Sua geração, a qual é de facto totalmente indescritível. Nem Valentino, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem anjos, nem arcanjos, nem principados, nem potestades [possuem este conhecimento], senão só o Pai que gerou, e o Filho que foi gerado. Visto, portanto, que a Sua geração é inefável, aqueles que se esforçam por expor gerações e produções não podem estar em seu juízo perfeito, porquanto empreendem descrever coisas indescritíveis. Pois que uma palavra é proferida por ordem do pensamento e da mente, todos os homens bem o entendem. Aqueles, portanto, que excogitaram [a teoria das] emanações não descobriram nada de grande, nem revelaram qualquer mistério abstruso, quando simplesmente transferiram o que todos entendem para o unigénito Verbo de Deus; e enquanto O chamam inefável e inominável, contudo expõem a produção e formação da Sua primeira geração, como se eles mesmos tivessem assistido ao Seu nascimento, assimilando-O assim à palavra da humanidade formada por emanações.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 7
Mas não erraremos se afirmarmos a mesma coisa também acerca da substância da matéria, que Deus a produziu. Porque aprendemos das Escrituras que Deus tem o domínio sobre todas as coisas. Mas donde ou de que modo a produziu, nem a Escritura em parte alguma declarou; nem nos convém conjeturar, de modo a, segundo as nossas próprias opiniões, fazer conjeturas infinitas acerca de Deus, mas devemos deixar tal conhecimento nas mãos do próprio Deus. De igual modo, também devemos deixar a causa por que, sendo todas as coisas feitas por Deus, algumas das Suas criaturas pecaram e se revoltaram dum estado de sujeição a Deus, e outras, na verdade a grande maioria, perseveraram e ainda perseveram em [voluntária] sujeição Àquele que as formou, e também de que natureza são aquelas que pecaram e de que natureza aquelas que perseveram — [devemos, digo, deixar a causa destas coisas] a Deus e ao Seu Verbo, a quem só Ele disse: «Assenta-Te à Minha direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés.» Mas quanto a nós, ainda habitamos na terra, e ainda não nos sentámos no Seu trono. Porque, embora o Espírito do Salvador que n’Ele está «perscrute todas as coisas, até as profundezas de Deus», contudo, quanto a nós, «há diversidade de dons, diferenças de ministérios e diversidade de operações»; e nós, enquanto na terra, como também Paulo declara, «conhecemos em parte, e profetizamos em parte.» Visto, pois, que conhecemos só em parte, devemos deixar toda a espécie de questões [difíceis] nas mãos d’Aquele que de certo modo [e só isso] nos concede graça. Que o fogo eterno [por exemplo] está preparado para os pecadores, tanto o Senhor declarou claramente, como o resto das Escrituras demonstra. E que Deus previu que isto aconteceria, as Escrituras de igual modo o demonstram, visto que preparou desde o princípio o fogo eterno para aqueles que depois haviam de transgredir [os Seus mandamentos]; mas a causa mesma da natureza de tais transgressores, nem Escritura alguma nos informou, nem Apóstolo nos disse, nem o Senhor nos ensinou. Torna-se-nos, portanto, deixar o conhecimento desta matéria a Deus, como faz o Senhor quanto ao dia e à hora [do juízo], e não precipitar-nos a tal extremo de perigo, que nada deixemos nas mãos de Deus, embora tenhamos recebido apenas uma medida de graça [d’Ele neste mundo]. Mas quando investigamos pontos que estão acima de nós, e a respeito dos quais não podemos alcançar satisfação, [é absurdo] que mostremos tal extremo de presunção que ponhamos a descoberto Deus e coisas ainda não descobertas, como se já tivéssemos achado, mediante a vã tagarelice acerca das emanações, o próprio Deus, Criador de todas as coisas, e afirmemos que Ele derivou a Sua substância da apostasia e da ignorância, de modo a forjar uma ímpia hipótese contra Deus.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 8
Além disso, eles não possuem prova alguma do seu sistema, que foi por eles recentemente inventado, apoiando-se ora em certos números, ora em sílabas, e ora, ainda, em nomes; e há ocasiões também em que, por meio daquelas letras que estão contidas em letras, por parábolas não interpretadas devidamente, ou por certas [infundadas] conjeturas, se esforçam por estabelecer aquela fabulosa narrativa que imaginaram. Porque, se alguém inquirir a razão por que o Pai, que tem comunhão com o Filho em todas as coisas, foi declarado pelo Senhor só conhecer a hora e o dia [do juízo], não encontrará por agora razão mais adequada, ou conveniente, ou segura do que esta (pois, na verdade, o Senhor é o único verdadeiro Mestre): que aprendamos por Ele que o Pai está acima de todas as coisas. Porque «o Pai», diz Ele, «é maior do que Eu.» O Pai, portanto, foi declarado por nosso Senhor como excelendo quanto ao conhecimento; por esta razão, para que nós também, enquanto estamos ligados ao esquema das coisas deste mundo, deixemos o conhecimento perfeito, e tais questões [como têm sido mencionadas], a Deus, e não aconteça que, enquanto buscamos investigar a sublime natureza do Pai, caiamos no perigo de suscitar a questão se há outro Deus acima de Deus.
Capítulo XXVIII.—O conhecimento perfeito não pode ser alcançado na vida presente: muitas questões devem ser deixadas, com submissão, nas mãos de Deus, 9
Mas se algum amante da contradição contradisser o que tenho dito, e também o que o Apóstolo afirma, que «conhecemos em parte e profetizamos em parte», e imaginar que adquiriu não um conhecimento parcial, mas universal, de tudo o que existe — sendo tal como Valentino, ou Ptolomeu, ou Basílides, ou qualquer outro dos que sustentam ter perscrutado as profundezas de Deus — não se glorie (revestindo-se de vanglória) de ter adquirido maior conhecimento que outros a respeito daquelas coisas que são invisíveis ou não podem ser postas sob a nossa observação; mas, fazendo diligente inquirição e obtendo informação do Pai, diga-nos as razões (que nós não conhecemos) daquelas coisas que estão neste mundo — como, por exemplo, o número dos cabelos da sua própria cabeça e os pardais que são apanhados dia após dia, e outros tais pontos com os quais não estamos previamente familiarizados — de modo que também lhe demos crédito a respeito de pontos mais importantes. Mas se aqueles que são perfeitos ainda não entendem as próprias coisas que estão nas suas mãos, e aos seus pés, e diante dos seus olhos, e na terra, e especialmente a regra seguida com respeito aos cabelos da sua cabeça, como podemos crer neles a respeito das coisas espirituais e supercelestiais, e daquelas que, com vã confiança, afirmam estar acima de Deus? Tanto, pois, tenho dito acerca de números, nomes, sílabas e questões respeitantes a tais coisas que estão acima da nossa compreensão, e acerca das suas impróprias exposições das parábolas: [nada mais acrescento sobre estes pontos, pois tu mesmo podes ampliá-los].
Capítulo XXIX.—Refutação das opiniões dos hereges quanto ao destino futuro da alma e do corpo.
1. Retornemos, porém, aos restantes pontos do seu sistema. Porque quando declaram que, na consumação de todas as coisas, a sua mãe reentrará no Pleroma e receberá o Salvador como seu consorte; que eles mesmos, como sendo espirituais, depois de se terem despojado das suas almas animais e se terem tornado espíritos intelectuais, serão os consortes dos anjos espirituais; mas que o Demiurgo, a quem chamam animal, passará para o lugar da Mãe; que as almas dos justos repousarão psiquicamente no lugar intermédio; — quando declaram que o semelhante se agregará ao semelhante, o espiritual ao espiritual, enquanto as coisas materiais permanecem entre as que são materiais, na verdade contradizem-se a si mesmos, porquanto já não sustentam que as almas passam, por causa da sua natureza, ao lugar intermédio para aquelas substâncias que lhes são semelhantes, mas sim por causa das obras feitas no corpo, pois afirmam que as dos justos passam para aquela morada, mas as dos ímpios permanecem no fogo. Porque se é por causa da sua natureza que todas as almas alcançam o lugar de gozo, e todas pertencem ao lugar intermédio simplesmente por serem almas, como sendo da mesma natureza que ele, então segue-se que a fé é totalmente supérflua, como também o foi a descida do Salvador a este mundo. Se, por outro lado, é por causa da sua justiça que alcançam tal lugar de repouso, então já não é porque são almas, mas porque são justas. Mas se as almas tivessem perecido a menos que fossem justas, então a justiça deve ter poder para salvar também os corpos que essas almas habitaram; pois por que não os salvaria, já que também eles participaram da justiça? Porque se a natureza e a substância são os meios de salvação, então todas as almas serão salvas; mas se são a justiça e a fé, por que não salvariam estes corpos que, igualmente com as almas, entrarão na imortalidade? Pois a justiça se mostrará, em tais matérias, ou impotente ou injusta, se de fato salva algumas substâncias por participarem dela, mas não outras.
2. Porque é manifesto que aqueles atos que são considerados justos são realizados nos corpos. Ou, portanto, todas as almas passarão necessariamente ao lugar intermédio, e nunca haverá juízo; ou também os corpos, que participaram da justiça, alcançarão o lugar de gozo, juntamente com as almas que de igual modo participaram, se de fato a justiça é suficientemente poderosa para levar para lá aquelas substâncias que dela participaram. E então a doutrina acerca da ressurreição dos corpos, que nós cremos, se mostrará verdadeira e certa do seu sistema; visto que, como sustentamos, Deus, quando ressuscitar os nossos corpos mortais que preservaram a justiça, os tornará incorruptíveis e imortais. Porque Deus é superior à natureza, e tem em Si mesmo a disposição para mostrar bondade, porque é bom; e a capacidade de o fazer, porque é poderoso; e a faculdade de cumprir plenamente o Seu propósito, porque é rico e perfeito.
3. Mas estes homens são em todos os pontos inconsistentes consigo mesmos, quando decidem que não entram todas as almas no lugar intermédio, mas tão-somente as dos justos. Pois sustentam que, segundo a natureza e a substância, três espécies de seres foram produzidas pela Mãe: a primeira, que procedeu da perplexidade, do cansaço e do medo — essa é a substância material; a segunda, da impetuosidade — essa é a substância animal; mas aquela que ela gerou após a visão daqueles anjos que servem a Cristo, é a substância espiritual. Se, portanto, aquela substância que ela gerou entrará decerto no Pleroma por ser espiritual, enquanto a que é material permanecerá abaixo por ser material, e será totalmente consumida pelo fogo que arde dentro dela, por que não iria toda a substância animal ao lugar intermédio, para onde também enviam o Demiurgo? Mas o que é que entrará dentro do seu Pleroma? Pois sustentam que as almas permanecerão no lugar intermédio, enquanto os corpos, por possuírem substância material, quando tiverem sido dissolvidos em matéria, serão consumidos por aquele fogo que nela existe; mas, destruído assim o seu corpo e permanecendo a sua alma no lugar intermédio, nenhuma parte do homem restará já para entrar dentro do Pleroma. Porque o intelecto do homem — sua mente, pensamento, intenção mental e coisas tais — não é nada mais que sua alma; mas as emoções e operações da própria alma não têm substância separada da alma. Que parte deles, então, ainda restará para entrar no Pleroma? Pois eles mesmos, enquanto são almas, permanecem no lugar intermédio; enquanto são corpo, serão consumidos com o resto da matéria.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal.
1. Tal sendo o estado da questão, estes homens desvairados declaram que se elevam acima do Criador (Demiurgo); e, porquanto se proclamam superiores àquele Deus que fez e adornou os céus, e a terra, e todas as coisas que neles há, e sustentam que eles mesmos são espirituais, quando na verdade são vergonhosamente carnais por causa de tão grande impiedade,—afirmando que Aquele que fez seus anjos espíritos, e se reveste de luz como de um manto, e sustém o círculo da terra, por assim dizer, em sua mão, ante cujos olhos seus habitantes são contados como gafanhotos, e que é o Criador e Senhor de toda a substância espiritual, é de natureza animal,—sem dúvida e verdadeiramente traem sua própria loucura; e, como se estivessem verdadeiramente feridos pelo trovão, ainda mais do que aqueles gigantes de que se fala nas fábulas [pagãs], levantam suas opiniões contra Deus, inflados por uma vã presunção e glória instável,—homens para cuja purgação não bastaria todo o eléboro da terra, de modo que se livrassem de sua intensa estultícia.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 2
O homem superior prova-se pelas suas obras. De que modo, pois, podem mostrar-se superiores ao Criador (para que também eu, pela necessidade do argumento em mãos, desça ao nível de sua impiedade, instituindo uma comparação entre Deus e homens insensatos, e, descendo ao seu argumento, muitas vezes os refute por suas próprias doutrinas; mas, agindo assim, seja Deus misericordioso para comigo, pois ouso estas afirmações, não com o intuito de compará-Lo a eles, mas de convencer e derrubar suas insanas opiniões)—eles, por quem tantos insensatos nutrem tão grande admiração, como se, decerto, pudessem aprender com eles algo mais precioso do que a própria verdade! Aquela expressão da Escritura: “Buscai, e achareis”, interpretam como dita com este propósito: que eles descobrissem ser superiores ao Criador, denominando-se maiores e melhores do que Deus, e chamando a si mesmos espirituais, e ao Criador animal; e [afirmando] que por esta razão se elevam acima de Deus, porque entram dentro do Pleroma, enquanto Ele permanece no lugar intermediário. Provem, pois, pelas suas obras que são superiores ao Criador; porque o superior deve ser provado não pelo que se diz, mas pelo que tem existência real.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 3
Que obra, pois, apontarão como tendo sido realizada por si mesmos pelo Salvador, ou por sua Mãe, maior, ou mais gloriosa, ou mais adornada de sabedoria, do que aquelas que foram produzidas por Aquele que dispôs tudo ao nosso redor? Que céus estabeleceram? que terra fundaram? que estrelas chamaram à existência? ou que luzes do céu fizeram brilhar? dentro de que círculos, além disso, as encerraram? ou que chuvas, ou geadas, ou neves, cada qual apropriada à estação e a cada clima particular, fizeram vir sobre a terra? E, novamente, em oposição a estas, que calor ou secura contrapuseram a elas? ou que rios fizeram correr? que fontes fizeram brotar? com que flores e árvores adornaram este mundo sublunar? ou que multidão de animais formaram, uns racionais, outros irracionais, mas todos adornados de beleza? E quem pode enumerar um a um todos os restantes objetos que foram constituídos pelo poder de Deus e são governados pela sua sabedoria? ou quem pode perscrutar a grandeza daquele Deus que os fez? E que se pode dizer daquelas existências que estão acima do céu e que não passam, como Anjos, Arcanjos, Tronos, Dominações e Potestades inumeráveis? Contra qual destas obras, pois, se opõem? Que coisa semelhante têm para mostrar, como tendo sido feita por si mesmos, ou por eles mesmos, visto que também eles são obra e criaturas deste [Criador]? Pois, quer o Salvador quer sua Mãe (para usar suas próprias expressões, provando-os falsos por meio dos próprios termos que eles empregam) tenham usado este Ser, como sustentam, para fazer uma imagem daquelas coisas que estão dentro do Pleroma, e de todos aqueles seres que ela viu assistindo ao Salvador, ela o usou (o Demiurgo) como sendo [de certo modo] superior a si mesma, e mais apto para realizar seu propósito por meio de seu instrumento; pois ela de modo algum formaria as imagens de seres tão importantes por meio de um agente inferior, mas por um superior.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 4
Pois, [note-se] eles mesmos, segundo suas próprias declarações, existiam então, como uma concepção espiritual, em consequência da contemplação daqueles seres que estavam dispostos como satélites ao redor de Pandora. E eles na verdade continuaram inúteis, nada realizando a Mãe por meio deles,—uma concepção ociosa, devendo seu ser ao Salvador, e inútil para tudo, pois nada aparece ter sido feito por eles. Mas o Deus que, segundo eles, foi produzido, embora, como argumentam, inferior a eles mesmos (pois sustentam que ele é de natureza animal), era no entanto o agente ativo em todas as coisas, eficiente e apto para a obra a ser feita, de modo que por ele as imagens de todas as coisas foram feitas; e não apenas estas coisas que são vistas foram formadas por ele, mas também todas as coisas invisíveis, Anjos, Arcanjos, Dominações, Potestades e Virtudes,—[por ele, digo,] como sendo o superior, e capaz de ministrar ao seu desejo. Mas parece que a Mãe nada fez por meio deles, como eles mesmos reconhecem; de modo que justamente se pode considerá-los como um aborto produzido pelo doloroso parto de sua Mãe. Pois nenhuns obstetras exerceram seu ofício sobre ela, e por isso foram expelidos como um aborto, inúteis para tudo, e formados para nenhuma obra da Mãe. E, contudo, descrevem-se como superiores Àquele por quem obras tão vastas e admiráveis foram realizadas e dispostas, embora pelo seu próprio raciocínio se encontrem tão miseravelmente inferiores!
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 5
É como se houvesse duas ferramentas ou instrumentos de ferro, um dos quais estivesse continuamente nas mãos do artífice e em uso constante, e pelo uso do qual ele fizesse tudo o que lhe aprouvesse, e mostrasse sua arte e habilidade; mas o outro permanecesse ocioso e inútil, nunca sendo posto em operação, nunca parecendo o artífice fazer algo com ele, e não o utilizando em nenhum de seus trabalhos; e então alguém sustentasse que este instrumento inútil, ocioso e sem emprego era superior em natureza e valor àquele que o artífice empregava em sua obra, e por meio do qual adquiria sua reputação. Tal homem, se fosse encontrado, seria justamente considerado imbecil e não em seu juízo perfeito. E assim devem ser julgados aqueles que se dizem espirituais e superiores, e ao Criador como possuidor de uma natureza animal, e sustentam que por esta razão subirão ao alto e penetrarão dentro do Pleroma até seus próprios esposos (pois, segundo suas próprias afirmações, eles mesmos são femininos), mas que Deus [o Criador] é de natureza inferior, e por isso permanece no lugar intermediário; enquanto isso, não apresentam provas alguma destas afirmações; porque o homem melhor se mostra pelas suas obras, e todas as obras foram realizadas pelo Criador; mas eles, não tendo nada digno de razão para apontar como tendo sido produzido por si mesmos, sofrem da maior e mais incurável loucura.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 6
Se, porém, se esforçam por sustentar que, enquanto todas as coisas materiais, como o céu e todo o mundo que existe abaixo dele, foram na verdade formadas pelo Demiurgo, contudo todas as coisas de natureza mais espiritual do que estas — aquelas, isto é, que estão acima dos céus, como Principados, Potestades, Anjos, Arcanjos, Dominações, Virtudes — foram produzidas por um processo espiritual de nascimento (o qual eles declaram que eles mesmos são), então, em primeiro lugar, provamos pelas Escrituras autoritativas que todas as coisas mencionadas, visíveis e invisíveis, foram feitas por um só Deus. Pois estes homens não são mais dignos de confiança do que as Escrituras; nem devemos abandonar as declarações do Senhor, de Moisés e do resto dos profetas, que proclamaram a verdade, e dar crédito a eles, que na verdade nada dizem de sensato, mas deliram sobre opiniões insustentáveis. E, em segundo lugar, se aquelas coisas que estão acima dos céus foram realmente feitas por meio deles, então informem-nos qual é a natureza das coisas invisíveis, recensiem o número dos Anjos e as ordens dos Arcanjos, revelem os mistérios dos Tronos e ensinem-nos as diferenças entre as Dominações, Principados, Potestades e Virtudes. Mas nada podem dizer a respeito delas; portanto, estes seres não foram feitos por eles. Se, por outro lado, estes foram feitos pelo Criador, como realmente foi o caso, e são de caráter espiritual e santo, então segue-se que Aquele que produziu seres espirituais não é Ele mesmo de natureza animal, e assim seu temível sistema de blasfêmia é derrubado.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 7
Pois que há criaturas espirituais nos céus, todas as Escrituras proclamam em alta voz; e Paulo testifica expressamente que há coisas espirituais quando declara que foi arrebatado ao terceiro céu, e ainda que foi transportado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis que não é lícito ao homem falar. Mas de que lhe valeu isso, ou sua entrada no paraíso ou sua assunção ao terceiro céu, visto que todas estas coisas estão ainda sob o poder do Demiurgo, se, como alguns ousam sustentar, ele já havia começado a ser espectador e ouvinte daqueles mistérios que se afirma estarem acima do Demiurgo? Pois, se é verdade que ele estava se tornando conhecedor daquela ordem de coisas que está acima do Demiurgo, de modo algum teria permanecido nas regiões do Demiurgo, e isso de forma que nem mesmo estas explorasse completamente (pois, segundo seu modo de falar, ainda lhe restavam quatro céus, se ele se aproximasse do Demiurgo, e assim contemplasse todos os sete situados abaixo dele); mas poderia ter sido admitido, talvez, no lugar intermediário, isto é, na presença da Mãe, para que dela recebesse instrução acerca das coisas dentro do Pleroma. Pois aquele homem interior que estava nele e falava nele, como dizem, embora invisível, poderia ter alcançado não apenas o terceiro céu, mas até mesmo a presença de sua Mãe. Porque, se sustentam que eles mesmos, isto é, seu [homem] interior, ascendem imediatamente acima do Demiurgo e partem para a Mãe, muito mais isto deve ter ocorrido com o [homem] interior do apóstolo; pois o Demiurgo não o teria impedido, sendo, como afirmam, ele próprio já sujeito ao Salvador. Mas se tivesse tentado impedi-lo, o esforço teria sido em vão. Pois não é possível que ele se mostre mais forte do que a providência do Pai, e isso quando se diz que o homem interior é invisível até mesmo ao Demiurgo. Mas visto que ele (Paulo) descreveu aquela sua assunção ao terceiro céu como algo grande e preeminente, não pode ser que estes homens ascendam acima do sétimo céu, pois certamente não são superiores ao apóstolo. Se sustentam que são mais excelentes do que ele, provem-no por suas obras, pois nunca pretenderam nada semelhante [ao que ele descreve como ocorrendo consigo]. E por esta razão acrescentou: “Se no corpo, ou se fora do corpo, Deus o sabe”, para que nem o corpo fosse considerado participante daquela visão, como se pudesse ter participado daquelas coisas que vira e ouvira; nem, novamente, para que alguém dissesse que ele não foi levado mais alto por causa do peso do corpo; mas é, portanto, permitido até este ponto, mesmo sem o corpo, contemplar os mistérios espirituais que são as operações de Deus, que fez os céus e a terra, e formou o homem, e o colocou no paraíso, de modo que fossem espectadores deles aqueles que, como o apóstolo, alcançaram um alto grau de perfeição no amor de Deus.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 8
Este Ser, portanto, também fez as coisas espirituais, das quais, até o terceiro céu, o apóstolo foi feito espectador, e ouviu palavras inefáveis que não é possível ao homem falar, porquanto são espirituais; e Ele mesmo concede [dons] aos dignos conforme o impulso de sua vontade, pois o paraíso é seu; e Ele é verdadeiramente o Espírito de Deus, e não um Demiurgo animal; de outro modo, nunca teria criado coisas espirituais. Mas se Ele é realmente de natureza animal, então informem-nos por quem foram feitas as coisas espirituais. Não têm prova alguma que possam dar de que isto foi feito por meio do parto de sua Mãe, o qual eles declaram ser eles mesmos. Pois, para não falar de coisas espirituais, estes homens não podem criar sequer uma mosca, ou um mosquito, ou qualquer outro animal pequeno e insignificante, sem observar aquela lei pela qual desde o princípio os animais têm sido e são naturalmente produzidos por Deus — mediante a deposição de semente naqueles que são da mesma espécie. Nem foi formada coisa alguma apenas pela Mãe; [pois] dizem que este Demiurgo foi produzido por ela, e que ele era o Senhor (o autor) de toda a criação. E sustentam que aquele que é o Criador e Senhor de tudo o que foi feito é de natureza animal, enquanto afirmam que eles mesmos são espirituais — eles que não são autores nem senhores de obra alguma, não só daquelas coisas que lhes são alheias, mas nem mesmo de seus próprios corpos! Além disso, estes homens, que se chamam espirituais e superiores ao Criador, sofrem frequentemente muita dor corporal, contra sua vontade, gravemente.
Capítulo XXX.—Absurdo de eles se autodenominarem espirituais, enquanto o Demiurgo é declarado animal, 9
Justamente, portanto, os convencemos de se terem afastado longe e amplamente da verdade. Pois, se o Salvador formou as coisas que foram feitas por meio dele (do Demiurgo), nesse caso ele é provado não inferior, mas superior a eles, visto que se descobre que foi o formador até deles mesmos; pois também eles têm lugar entre as coisas criadas. Como, pois, se pode argumentar que estes homens são espirituais, mas que aquele por quem foram criados é de natureza animal? Ou, novamente, se (o que é na verdade a única suposição verdadeira, como mostrei por numerosos argumentos da mais clara natureza) Ele (o Criador) fez todas as coisas livremente e por seu próprio poder, e as dispôs e terminou, e sua vontade é a substância de todas as coisas, então Ele é descoberto como o único Deus que criou todas as coisas, que só é Onipotente, e que é o único Pai que funda e forma todas as coisas, visíveis e invisíveis, tais como podem ser percebidas por nossos sentidos e tais como não podem, celestiais e terrestres, “pela palavra do seu poder”; e Ele ajustou e dispôs todas as coisas por sua sabedoria, enquanto contém todas as coisas, mas Ele mesmo não pode ser contido por ninguém: Ele é o Formador, Ele o Construtor, Ele o Descobridor, Ele o Criador, Ele o Senhor de todos; e não há outro além d’Ele, ou acima d’Ele, nem tem Ele mãe alguma, como falsamente Lhe atribuem; nem há um segundo Deus, como Marcion imaginou; nem há um Pleroma de trinta Éons, o que se demonstrou ser uma vã suposição; nem há um tal ser como Bytus ou Proarche; nem há uma série de céus; nem há uma luz virginal, nem um Éon inominável, nem, de fato, qualquer uma daquelas coisas que são loucamente sonhadas por estes e por todos os hereges. Mas há um só Deus, o Criador — Aquele que está acima de todo Principado, e Potestade, e Dominação, e Virtude: Ele é Pai, Ele é Deus, Ele o Fundador, Ele o Artífice, Ele o Criador, que fez aquelas coisas por Si mesmo, isto é, por meio de seu Verbo e de sua Sabedoria — o céu e a terra, e os mares, e todas as coisas que neles há: Ele é justo; Ele é bom; Ele é quem formou o homem, quem plantou o paraíso, quem fez o mundo, quem deu origem ao dilúvio, quem salvou Noé; Ele é o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó, o Deus dos vivos: Ele é a quem a lei proclama, a quem os profetas pregam, a quem Cristo revela, a quem os apóstolos nos dão a conhecer, e em quem a Igreja crê. Ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: por meio de seu Verbo, que é seu Filho, por Ele é revelado e manifestado a todos a quem é revelado; pois [só] O conhecem aqueles a quem o Filho O revelou. Mas o Filho, coexistindo eternamente com o Pai, desde a antiguidade, sim, desde o princípio, sempre revela o Pai aos Anjos, Arcanjos, Potestades, Virtudes e a todos a quem Ele quer que Deus seja revelado.
Capítulo XXXI.—Recapitulação e aplicação dos argumentos anteriores.
1. Aqueles, pois, que são da escola de Valentim, sendo derrubados, toda a multidão de hereges é, de fato, também subvertida. Pois todos os argumentos que adiantei contra o seu Pleroma, e a respeito daquelas coisas que estão além dele, mostrando como o Pai de todos é encerrado e circunscrito por aquilo que está além dEle (se, de fato, há algo além dEle), e como há uma absoluta necessidade [na teoria deles] de conceber muitos Pais, e muitos Pleromas, e muitas criações de mundos, começando com um conjunto e terminando com outro, como existentes de todos os lados; e que todos [os seres referidos] permanecem em seus próprios domínios e não se intrometem curiosamente com outros, visto que, de fato, nenhum interesse comum nem qualquer comunhão existe entre eles; e que não há outro Deus de todos, senão que esse nome pertence somente ao Onipotente; — [todos esses argumentos, digo, igualmente se aplicarão contra aqueles que são da escola de Marcião, e Simão, e Meandro, ou quaisquer outros que haja que, como eles, cortam da criação do Pai aquela criação com a qual estamos ligados. Os argumentos, novamente, que empreguei contra aqueles que sustentam que o Pai de todos sem dúvida contém todas as coisas, mas que a criação a que pertencemos não foi formada por Ele, mas por um certo outro poder, ou por anjos sem conhecimento do Propatore, que é rodeado como um centro pela imensa extensão do universo, assim como uma mancha é pelo manto [circundante]; quando mostrei que não é uma suposição provável que qualquer outro ser além do Pai de todos tenha formado aquela criação a que pertencemos, — esses mesmos argumentos se aplicarão contra os seguidores de Saturnino, Basílides, Carpócrates e o resto dos gnósticos, que expressam opiniões semelhantes. Aquelas afirmações, novamente, que foram feitas a respeito das emanações, e dos Éons, e do [suposto estado de] degenerescência, e do caráter inconstante da Mãe deles, igualmente derrubam Basílides e todos os que são falsamente chamados gnósticos, que, de fato, apenas repetem as mesmas opiniões sob nomes diferentes, mas transferem, em maior extensão que os primeiros, aquelas coisas que estão fora da verdade para o sistema de sua própria doutrina. E as observações que fiz a respeito dos números também se aplicarão contra todos aqueles que se apropriam indevidamente de coisas pertencentes à verdade para apoiar um sistema deste tipo. E tudo o que foi dito a respeito do Criador (Demirgo) para mostrar que Ele só é Deus e Pai de todos, e quaisquer observações que ainda sejam feitas nos livros seguintes, aplico contra os hereges em geral. Os mais moderados e razoáveis entre eles tu converterás e convencerás, de modo a levá-los a não mais blasfemar contra o seu Criador, e Fazedor, e Sustentador, e Senhor, nem a atribuir a sua origem ao defeito e à ignorância; mas os ferozes, e terríveis, e irracionais [entre eles] tu afugentarás para longe de ti, para que não mais tenhas de suportar a sua vã loquacidade.
2. Além disso, também serão assim confundidos aqueles que pertencem a Simão e Carpócrates, e se há alguns outros que se diz realizar milagres — que não fazem o que fazem nem pelo poder de Deus, nem em conexão com a verdade, nem para o bem-estar dos homens, mas para destruir e enganar a humanidade, por meio de ilusões mágicas e com engano universal, acarretando assim maior dano que benefício àqueles que neles creem, com respeito ao ponto em que os desencaminham. Pois não podem conceder vista aos cegos, nem ouvido aos surdos, nem expulsar toda sorte de demônios — [nenhum, de fato,] exceto aqueles que são enviados a outros por eles mesmos, se é que podem fazer tanto quanto isso. Nem podem curar os fracos, ou os coxos, ou os paralíticos, ou aqueles que são afligidos em qualquer outra parte do corpo, como muitas vezes foi feito com respeito à enfermidade corporal. Nem podem fornecer remédios eficazes para aqueles acidentes externos que possam ocorrer. E tão longe estão de poder ressuscitar os mortos, como o Senhor os ressuscitou, e os apóstolos fizeram por meio da oração, e como tem sido frequentemente feito na irmandade por causa de alguma necessidade — toda a Igreja naquela localidade particular suplicando [o dom] com muito jejum e oração, o espírito do homem morto retornou, e ele foi concedido em resposta às orações dos santos — que nem mesmo creem que isto possa ser possível, [e sustentam] que a ressurreição dos mortos é simplesmente um conhecimento daquela verdade que proclamam.
3. Visto que, portanto, existem entre eles erro e influências enganadoras, e ilusões mágicas são impiamente operadas à vista dos homens; mas na Igreja, a simpatia, e a compaixão, e a firmeza, e a verdade, para o auxílio e encorajamento da humanidade, não só são manifestadas sem pagamento ou recompensa, mas nós mesmos despendemos para o benefício de outros os nossos próprios meios; e porquanto aqueles que são curados muito frequentemente não possuem as coisas de que necessitam, recebem-nas de nós; — [visto que tal é o caso,] estes homens são, desta maneira, indubitavelmente provados ser totalmente estranhos à natureza divina, à beneficência de Deus e a toda excelência espiritual. Mas eles são inteiramente cheios de engano de toda espécie, inspiração apóstata, operação demoníaca e os fantasmas da idolatria, e são, na realidade, os precursores daquele dragão que, por meio de um engano do mesmo tipo, com a sua cauda fará cair do seu lugar uma terça parte das estrelas e as lançará à terra. Convém-nos fugir deles como fugiríamos dele; e quanto maior for a ostentação com que se diz que realizam [suas maravilhas], tanto mais cuidadosamente devemos vigiá-los, como tendo sido dotados de um maior espírito de maldade. Se alguém considerar a profecia referida e as práticas diárias destes homens, achará que o seu modo de agir é um e o mesmo com o dos demônios.
Capítulo XXXII.—Exposição adicional das ímpias e blasfemas doutrinas dos hereges.
1. Além disso, esta ímpia opinião deles a respeito das ações—a saber, que lhes é necessário ter experiência de toda sorte de atos, mesmo os mais abomináveis—é refutada pelo ensinamento do Senhor, com quem não só o adúltero é rejeitado, mas também o homem que deseja cometer adultério; e não só o homicida efetivo é tido por culpado de haver matado a outro para sua própria condenação, mas também o homem que se ira contra seu irmão sem motivo; o qual mandou [a seus discípulos] não só que não odiassem os homens, mas também que amassem a seus inimigos; e lhes ordenou não só que não jurassem falso, mas que nem sequer jurassem; e não só que não falassem mal de seus próximos, mas que nem chamassem a ninguém de "Raca" e "tolo"; [declarando] que de outro modo estariam em perigo do fogo do inferno; e não só que não ferissem, mas que, mesmo quando feridos, oferecessem a outra face [aos que os maltratassem]; e não só que não recusassem entregar a propriedade alheia, mas que, se a própria lhes fosse tomada, não a reclamassem de volta àqueles que a tomaram; e não só que não injuriassem seus próximos, nem lhes fizessem mal algum, mas que, quando eles mesmos fossem tratados maliciosamente, fossem longânimos e mostrassem benignidade para com aqueles [que os injuriassem], e orassem por eles, para que, por meio do arrependimento, fossem salvos—de modo que em nada imitássemos a arrogância, a concupiscência e o orgulho alheios. Visto, portanto, que Aquele de quem estes homens se vangloriam como seu Mestre, e de quem afirmam que tinha uma alma muito melhor e de tom mais elevado que os outros, efetivamente, com grande seriedade, mandou que certas coisas fossem feitas como boas e excelentes, e que certas coisas fossem evitadas não só em sua perpetração real, mas até nos pensamentos que conduzem à sua prática, como más, perniciosas e abomináveis—como então poderão escapar de serem confundidos, quando afirmam que tal Mestre era de tom mais elevado [em espírito] e melhor que os outros, e contudo manifestamente dão ensinamentos de uma natureza totalmente oposta ao Seu ensino? E, novamente, se realmente não houvesse tal coisa como bem e mal, mas certas coisas fossem consideradas justas e certas outras injustas somente na opinião humana, Ele jamais teria Se expressado assim em Seu ensino: "Os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai"; mas Ele enviará os injustos e os que não fazem as obras da justiça "para o fogo eterno, onde o seu verme não morrerá, e o fogo não se apagará."
2. Quando eles ainda sustentam que lhes é necessário ter experiência de toda espécie de obra e conduta, de modo que, se possível, cumprindo tudo durante uma única manifestação nesta vida, possam [de uma vez] passar ao estado de perfeição, não são, de modo algum, encontrados esforçando-se para fazer aquelas coisas que acompanham a virtude e são laboriosas, gloriosas e hábeis, as quais também são aprovadas universalmente como boas. Pois, se é necessário percorrer toda obra e toda espécie de operação, eles deveriam, em primeiro lugar, aprender todas as artes: todas elas, [digo], quer se refiram à teoria ou à prática, quer sejam adquiridas pela abnegação, ou dominadas por meio de trabalho, exercício e perseverança; como, por exemplo, toda espécie de música, aritmética, geometria, astronomia e todas as que se ocupam com atividades intelectuais; depois, novamente, todo o estudo da medicina e o conhecimento das plantas, para se familiarizarem com aquelas que são preparadas para a saúde do homem; a arte da pintura e da escultura, o trabalho em bronze e mármore e as artes afins; além disso, [têm que estudar] toda espécie de lavoura, a arte veterinária, as ocupações pastoris, os vários tipos de trabalho especializado, que se diz permear todo o círculo do [esforço] humano; aqueles, novamente, ligados à vida marítima, exercícios ginásticos, caça, ocupações militares e reais, e quantas outras possam existir, das quais, com o máximo esforço, não poderiam aprender a décima, ou mesmo a milésima parte, em todo o curso de suas vidas. O fato, na verdade, é que eles não se esforçam para aprender nenhuma destas, embora sustentem que lhes é necessário ter experiência de toda espécie de obra; mas, desviando-se para a voluptuosidade, a concupiscência e ações abomináveis, eles se condenam a si mesmos quando são julgados pela sua própria doutrina. Pois, uma vez que são destituídos de todas aquelas [virtudes] que foram mencionadas, eles [necessariamente] passarão para a destruição do fogo. Estes homens, enquanto se vangloriam de Jesus como seu Mestre, na verdade imitam a filosofia de Epicuro e a indiferença dos Cínicos, [chamando Jesus seu Mestre, o qual não só afastou Seus discípulos das más ações, mas também das [más] palavras e pensamentos, como já mostrei.
3. Novamente, enquanto afirmam que possuem almas da mesma esfera que Jesus e que são semelhantes a Ele, às vezes sustentando até que são superiores; enquanto [afirmam que foram] produzidos, como Ele, para a realização de obras tendentes ao benefício e estabelecimento da humanidade, são encontrados não fazendo nada da mesma ou de semelhante espécie [com as Suas ações], nem o que possa em algum aspecto ser comparado a elas. E se eles de fato realizaram algo [notável] por meio de magia, esforçam-se [desta maneira] enganosamente para desviar pessoas tolas, visto que não conferem nenhum benefício ou bênção real àqueles sobre quem declaram exercer [poder] sobrenatural; mas, apresentando meros meninos [como os sujeitos sobre os quais praticam], e enganando a vista deles, enquanto exibem fantasmas que cessam instantaneamente e não duram nem um momento de tempo, são provados ser semelhantes, não a Jesus nosso Senhor, mas a Simão Mago. É certo também, pelo fato de o Senhor ter ressuscitado dos mortos ao terceiro dia, e ter-Se manifestado a Seus discípulos, e ter sido aos olhos deles recebido no céu, que, visto que estes homens morrem e não ressuscitam, nem se manifestam a ninguém, são provados como possuindo almas em nenhum aspecto semelhantes à de Jesus.
4. Se, contudo, eles sustentam que o Senhor também realizou tais obras simplesmente em aparência, nós os remeteremos aos escritos proféticos e provaremos a partir destes tanto que todas as coisas foram assim preditas a respeito dEle e se cumpriram indubitavelmente, como que Ele é o único Filho de Deus. Por isso, também, aqueles que são verdadeiramente Seus discípulos, recebendo graça dEle, realizam em Seu nome [milagres], de modo a promover o bem-estar de outros homens, conforme o dom que cada um recebeu dEle. Pois alguns expulsam demônios certa e verdadeiramente, de modo que aqueles que foram assim purificados dos espíritos malignos frequentemente tanto creem [em Cristo] como se unem à Igreja. Outros têm presciência das coisas futuras: veem visões e proferem expressões proféticas. Outros ainda curam os enfermos impondo-lhes as mãos, e eles são sarados. Sim, mais ainda, como disse, até mortos foram ressuscitados e permaneceram entre nós por muitos anos. E que mais direi? Não é possível enumerar a quantidade de dons que a Igreja, [espalhada] por todo o mundo, recebeu de Deus, em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e que ela exerce dia após dia para benefício dos gentios, nem praticando engano sobre ninguém, nem recebendo deles qualquer recompensa [por tais intervenções miraculosas]. Pois, assim como recebeu gratuitamente de Deus, gratuitamente também ministra [a outros].
5. Nem ela realiza coisa alguma por meio de invocações angélicas, ou por encantamentos, ou por qualquer outra arte curiosa e perversa; mas, dirigindo suas orações ao Senhor, que fez todas as coisas, em espírito puro, sincero e reto, e invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ela tem o costume de operar milagres para vantagem da humanidade, e não para induzi-la ao erro. Se, portanto, o nome de nosso Senhor Jesus Cristo ainda hoje confere benefícios [aos homens] e cura completa e eficazmente todos os que em qualquer lugar creem nEle, mas não o de Simão, ou Menandro, ou Carpócrates, ou de qualquer outro homem, é manifesto que, quando Ele Se fez homem, teve comunhão com a Sua própria criação e fez todas as coisas verdadeiramente pelo poder de Deus, segundo a vontade do Pai de todos, como os profetas haviam predito. Mas o que estas coisas foram será descrito ao tratarmos das provas encontradas nos escritos proféticos.
Capítulo XXXIII.—Absurdo da doutrina da transmigração das almas.
1. Podemos subverter a sua doutrina acerca da transmigração de corpo em corpo por este facto: que as almas não se lembram de nada do que aconteceu nos seus estados anteriores de existência. Pois, se foram enviadas com este objectivo, de que deveriam ter experiência de todo o tipo de acção, devem necessariamente reter uma lembrança daquelas coisas que foram previamente realizadas, para que pudessem preencher aquelas em que ainda eram deficientes, e não, pairando sempre, sem intermissão, em redor dos mesmos propósitos, gastar o seu labor miseravelmente em vão (pois a mera união de um corpo [com uma alma] não poderia extinguir totalmente a memória e a contemplação daquelas coisas que anteriormente foram experimentadas), e especialmente porque vieram [ao mundo] para este mesmo fim. Porque, assim como, quando o corpo dorme e está em repouso, tudo o que a alma vê por si mesma e faz em visão, recordando muitas destas coisas, também as comunica ao corpo; e assim como acontece que, quando alguém acorda, talvez depois de muito tempo, relata o que viu em sonho, assim também, sem dúvida, se lembraria daquelas coisas que fez antes de entrar neste corpo particular. Pois, se aquilo que é visto apenas por um espaço de tempo muito breve, ou foi concebido simplesmente num fantasma, e só pela alma, por meio de um sonho, é lembrado depois de ela se ter misturado novamente com o corpo e se ter dispersado por todos os membros, muito mais se lembraria ela daquelas coisas com as quais permaneceu durante tão longo tempo, mesmo durante todo o período de uma vida passada.
2. Com referência a estas objecções, Platão, aquele antigo ateniense, que também foi o primeiro a introduzir esta opinião, quando não as pôde afastar, inventou a [noção de] um copo de oblivio, imaginando que assim escaparia a este tipo de dificuldade. Ele não tentou nenhum tipo de prova [da sua suposição], mas simplesmente respondeu dogmaticamente [à objecção em questão], que, quando as almas entram nesta vida, são feitas beber do oblivio por aquele demónio que vigia a sua entrada [no mundo], antes de efectuarem a entrada nos corpos [que lhes são atribuídos]. Escapou-lhe que, [ao falar assim], caía noutra maior perplexidade. Porque, se o copo de oblivio, depois de bebido, pode obliterar a memória de todos os actos que foram praticados, como, ó Platão, obténs tu o conhecimento deste facto (visto que a tua alma está agora no corpo), de que, antes de entrar no corpo, foi feita beber pelo demónio uma droga que causava oblivio? Porque, se tens memória do demónio, e do copo, e da entrada [na vida], deves também conhecer as outras coisas; mas se, por outro lado, és ignorante delas, então não há verdade na história do demónio, nem no copo de oblivio preparado com arte.
3. Em oposição, novamente, àqueles que afirmam que o próprio corpo é a droga do oblivio, pode fazer-se esta observação: Como, então, acontece que tudo o que a alma vê por seu próprio instrumento, tanto em sonhos como por reflexão ou sério esforço mental, enquanto o corpo está passivo, ela se lembra e relata aos seus próximos? Mas, novamente, se o próprio corpo fosse [a causa do] oblivio, então a alma, como existente no corpo, não poderia lembrar-se nem mesmo daquelas coisas que foram percebidas há muito tempo, quer por meio dos olhos quer dos ouvidos; mas, assim que o olho se desviasse das coisas olhadas, a memória delas também seria, sem dúvida, destruída. Pois a alma, como existente na própria [causa do] oblivio, não poderia ter conhecimento de nenhuma outra coisa senão apenas daquilo que via no momento presente. Como, também, poderia ela tornar-se conhecedora das coisas divinas e reter uma lembrança delas enquanto existente no corpo, visto que, como mantêm, o próprio corpo é [a causa do] oblivio? Mas os profetas também, quando estavam na terra, lembravam-se igualmente, ao regressar ao seu estado de espírito ordinário, de todas as coisas que viam ou ouviam espiritualmente em visões de objectos celestiais, e as relatavam a outros. O corpo, portanto, não faz com que a alma se esqueça daquelas coisas que foram espiritualmente testemunhadas; mas a alma ensina o corpo e partilha com ele a visão espiritual de que gozou.
4. Pois o corpo não possui maior poder do que a alma, visto que aquele é inspirado, vivificado, aumentado e mantido unido por esta; mas a alma possui e governa o corpo. É sem dúvida retardada na sua velocidade, na exacta proporção em que o corpo partilha do seu movimento; mas nunca perde o conhecimento que lhe pertence propriamente. Pois o corpo pode ser comparado a um instrumento; mas a alma possui a razão de um artista. Assim como, portanto, o artista encontra a ideia de uma obra a surgir rapidamente na sua mente, mas só pode realizá-la lentamente por meio de um instrumento, devido à falta de perfeita flexibilidade na matéria sobre a qual se actua, e assim a rapidez da sua operação mental, sendo misturada com a lenta acção do instrumento, dá origem a um movimento moderado [em direcção ao fim contemplado]; assim também a alma, por estar misturada com o corpo que lhe pertence, é de certa forma impedida, sendo a sua rapidez misturada com a lentidão do corpo. Contudo, não perde totalmente os seus próprios poderes peculiares; mas, enquanto, por assim dizer, partilha a vida com o corpo, não cessa ela própria de viver. Assim, também, ao comunicar outras coisas ao corpo, não perde o conhecimento delas, nem a memória daquelas coisas que foram testemunhadas.
5. Se, portanto, a alma não se lembra de nada do que aconteceu num estado anterior de existência, mas tem percepção daquelas coisas que são aqui, segue-se que ela nunca existiu noutros corpos, nem fez coisas das quais não tem conhecimento, nem [uma vez] conheceu coisas que não pode [agora mentalmente] contemplar. Mas, assim como cada um de nós recebe o seu corpo pela hábil obra de Deus, assim também possui a sua alma. Pois Deus não é tão pobre ou destituído de recursos, que não possa conferir a sua própria alma própria a cada corpo individual, como também dá a cada um o seu carácter especial. E, portanto, quando o número [fixado] estiver completo, [aquele número] que Ele havia predeterminado no Seu próprio conselho, todos aqueles que foram inscritos para a vida [eterna] ressuscitarão, tendo os seus próprios corpos, e tendo também as suas próprias almas, e os seus próprios espíritos, nos quais agradaram a Deus. Aqueles, por outro lado, que são dignos de castigo, irão para ele, também eles tendo as suas próprias almas e os seus próprios corpos, nos quais se apartaram da graça de Deus. Ambas as classes cessarão então de gerar e ser gerados, de casar e ser dados em casamento; de modo que o número da humanidade, correspondendo à pré-ordenação de Deus, sendo completado, realize plenamente o esquema formado pelo Pai.